S.T.R. Publicado: 12/03/2000
Atualizado: 10/08/2000
A VERDADE VOS LIBERTARÁ

de Farrel Till


Freqüentemente nos perguntam "por que fazemos isso". Por "isso", quer-se dizer o ceticismo evangélico, portanto o que estão perguntando é por que nós gastamos tanto tempo promovendo a filosofia do livre-pensamento e especialmente enfoques racionais à interpretação bíblica. A pergunta subentende que estamos fazendo algo errado ou ao menos algo que não deveríamos fazer. Os cristãos podem publicar trabalhos, pregar sua opinião religiosa aos quatro ventos, ir de porta em porta tentar converter os sem-igreja, e estar sempre à mostra na comunidade com diversas atividades evangélicas, e ninguém se pergunta por que estão fazendo isso ou questiona seu direito de fazê-lo. Entretanto, se um ateu ou agnóstico tenta promover sua visão filosófica, seus motivos são questionados, e ele é visto com suspeita e rotulado de agitador.

Por que nós somos evangélicos sobre nosso ceticismo? Não há uma resposta simples a essa pergunta. Um cético pode ser evangélico em sua atitude por diversas razões, e o valor que ele dá à verdade não é a menor delas. Se existe um valor intrínseco na verdade - e nós acreditamos que existe -, qualquer verdade de que o cético venha a saber deve ser compartilhada com outros. Se ele mantiver isso para si, nega aos demais os benefícios dessa verdade. Se uma pessoa conhece uma verdade médica mas escolhe mantê-la para si, sua moral é suspeita. Chegamos no ponto em que estamos, cientificamente e tecnologicamente, porque aqueles que descobriram a verdade a compartilharam com as sociedades em que viveram. Onde estaríamos se isso não tivesse sido feito?

Não devemos tratar de maneira diferente as verdades religiosas e filosóficas. Se a verdade for que o conceito do deus não é nada mais do que um desejo, a humanidade só pode se beneficiar ao confrontar esta realidade e tratá-la de acordo com isso. Embora tentemos convencer pessoas de que a bíblia não é em nenhum sentido a "palavra inspirada do deus", nós reconhecemos que existe excelente informação filosófica na bíblia. Um exemplo é a frase atribuída a Jesus: "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:32). O fato de que esta é uma citação bíblica não significa que seja indigna da consideração do cético. Um verdadeiro cético recomendaria, aos leitores da bíblia, aceitar o valor de qualquer coisa nela que fizesse sentido filosoficamente, e esta frase certamente faz. O princípio afirmado nela é a fundação da psicoterapia moderna. Ela reconhece que o indivíduo psicologicamente perturbado começa sua jornada de recuperação quando confronta a verdade sobre os problemas que o incomodam.

Certamente ninguém pode negar que a religião é a fonte de muita tensão psicológica e social em nossa sociedade. Qualquer um inclinado a contestar isso deveria pensar por um momento sobre o que aconteceu no começo deste ano (1993) em Waco, Texas, e em episódios similares de que muitos de nós se lembram. Se a verdade for que a bíblia em nenhum sentido é a palavra inspirada de Deus mas somente um outro livro entre muitos livros que afirmam ter origem divina, então pense por apenas um instante sobre o que aconteceu em Waco. Todas aquelas pessoas morreram por uma crença que não era verdadeira. Quão melhor estariam elas hoje se tivessem sido expostas durante sua formação às idéias como as que publicamos na The Skeptical Review e na Sociedade da Terra Redonda ao invés das visões bíblicas radicais que as conduziram à destruição? Se estivermos certos no que dizemos sobre o bíblia, todas aquelas pessoas terão morrido por nada - absolutamente nada! A possibilidade de que isso tenha acontecido não é exatamente a justificativa adequada para o que fazemos aqui na The Skeptical Review e na Sociedade da Terra Redonda? Se nossa posição for a verdade, nós devemos declará-la abertamente para dar a outros a oportunidade de se verem livres de uma crença errônea.

Se a realidade for que a vida na Terra é o resultado de processos evolucionários e não de criação especial, os seres humanos não estariam melhor aceitando essa verdade que aderindo à opinião de que nós fomos feitos à imagem de Deus? Se a evolução for verdade, o que é que se ganha investindo nossa energia e recursos em igrejas e em templos consagrados a divindades que não existem? Se nenhum salvador foi mandado ao mundo para nos redimir de nossos pecados, então qual é o valor em empregar tanto tempo e esforço em propagar uma opinião que não seja verdadeira? A verdade é que se The Skeptical Review e a Sociedade da Terra Redonda estiverem certas em suas posições, um dano imensurável foi feito à humanidade exatamente por aquilo a que nós nos opomos. Muitas escolas em nossa nação têm problemas causados pelas difundidas crenças nas visões ultrapassadas da bíblia com as quais poucos estudiosos de bom nome concordariam. Cursos de ciência foram enfraquecidos por comitês de educação e professores que temem que ensinar evolução possa ofender aqueles em suas comunidades que acreditam no criacionismo. Quase todos os esforços para levar educação sexual nos currículos escolares encontram oposição dos fundamentalistas cristãos com idéias simplistas sobre o ensino de moral antiga e bíblica em sociedades que são tão diferentes das culturas que produziram a bíblia como o dia da noite. Aqui vemos novamente a questão da evolução contra o criacionismo. Se a evolução for realidade, então a verdade é que a motivação sexual na juventude da nossa nação é um mecanismo que evoluiu por longas eras de seleção natural para assegurar a sobrevivência de nossa espécie. À vista dessa verdade, pode-se pregar a abstinência até o juízo final, e isso não mudará o fato de que o sexo é uma poderosa necessidade natural mais disposta a seguir impulsos naturais do que sermões idealistas. Se a controvérsia continuar a se espalhar, certamente muitas vidas arruinadas seguirão no seu rastro, porque se negou aos adolescentes o conhecimento que poderia tê-los equipado para tomar decisões informadas sobre o papel que o sexo tem na vida humana.

Bibliólatras se deleitam em nos atirar alguma variação da aposta de Pascal. "Se nós estivermos certos e você errado, e aí?" Bem, o que vale para uns, vale para outros, então nós também temos o direito de perguntar, "mas e se nós estivermos certos e vocês errados?" Se for esse o caso, os males que a religião fez à humanidade tornam-se impossíveis de avaliar. Todo o trabalho de caridade feito sempre em nome da religião não seria suficiente para compensar esses males. Assim, se for possível que o conceito do deus em que as religiões e os livros sagrados se baseiam esteja errado, o cético não deve sentir nenhuma necessidade de desculpar-se por incitar um exame racional desse conceito. Em nossa sociedade, a bíblia, mais do que qualquer outro fator isolado, é a ramificação do conceito do deus que obviamente exerce a maior influência em nosso estilo de vida. Enquanto isso permanecer assim, nós temos todo o direito de exigir que aqueles que parecem determinados a fazer da bíblia um padrão de autoridade em nossa sociedade provem sua alegação de que o bíblia é a palavra inerrante e inspirada do deus, porque essa afirmação é a única explicação possível para sua agenda política baseada na bíblia. Sem ela, não há nenhuma razão pela qual uma sociedade deva se preocupar mais com os preceitos bíblicos do que com os corânicos ou vedantas.

Se, como apontamos, a verdade nos libertar, então ser parte do processo que conduz à descoberta da verdade pode ser pessoalmente gratificante. Nós recebemos muitas cartas de pessoas que pedem ajuda em sua luta para se libertarem do fundamentalismo da bíblia (se você acha que para se livrar dele basta se declarar livre, então você obviamente nunca foi um fundamentalista bíblico, pelo menos não do tipo renascido.). Essas cartas nos dão grande prazer, e nós não poupamos nenhum esforço para que os remetentes consigam a ajuda que procuram.

Neste último verão, recebemos uma carta de uma jovem na Carolina do Norte, que aos 24 anos tinha acabado de descobrir que as crenças fundamentalistas nas quais ela tinha sido criada são errôneas. Sua carta descreveu um conhecido processo de gradualismo em sua descoberta da verdade que, esperamos, acabará por libertá-la. Primeiramente, ela ficou incomodada com o status de segunda classe que a bíblia confere às mulheres, e isto tinha produzido sérias dúvidas sobre a instrução religiosa que tinha recebido em sua criação. Então, ironicamente, um programa de tevê que pretendia promover o fundamentalismo bíblico saiu pela culatra, pelo menos no que diz respeito a essa jovem. Ela descreveu a experiência assim.

Então, no começo deste ano, a CBS fez um especial sobre a arca de Noé. Quando eu vi a propaganda, corri para gravá-lo. Afinal de contas, iriam mostrar imagens da arca!!! Por duas horas, eu esperei e esperei e esperei, morta de tédio por ouvir histórias de segunda mão das pessoas que tinham visto a suposta arca. Afinal de contas, se tivessem fotos dela, então as histórias não eram necessárias. Mas, após duas horas, o melhor que eles tinham para apresentar era uma foto half-rate de satélite, que pra mim não era prova. Quer dizer, se podemos tirar fotos de planetas a muitos milhões de milhas daqui, então com mais razão ainda poderiam tirar uma foto de alguma coisa bem aqui na Terra. A CBS estava tentando assegurar os fiéis, mas, ironicamente, seus esforços serviram somente para me levar ainda mais longe da crença.
O estágio seguinte em sua transição era previsível: ela começou a investigar o outro lado. Em sua investigação, ela leu livros sobre filosofia, história antiga, as religiões misteriosas, e até evolução. Qualquer um que tenha atravessado a transição de fundamentalista da bíblia a cético poderia, sem sequer ler o resto da carta, adivinhar o que aconteceu, porque sua história é familiar. Uma vez que a mente de um fundamentalista religioso esteja objetivamente aberta a outras idéias, mudanças dramáticas de pensamento começarão a ocorrer. Isso aconteceu no caso dela. quando estudos conduziram a um livro familiar à maioria de céticos, O Manual da Bíblia (The Bíble Handbook). A carta descreve sua reação:

Mas quando eu li a primeira página dO Manual do Bíblia, eu senti uma tonelada de tijolos na minha cabeça. Eu li por horas, até o sol nascer, e mil idéias atravessavam minha mente. Todos aqueles pregadores que gritam suas ameaças de como eu devo ser salva para não queimar no inferno, mas eu vi que não era assim, que, na verdade, são eles que carecem de verdade...

Essas primeiras 24 horas foram doloridas. Tantos pensamentos conflitantes e raiva por terem mentido para mim por todos esses anos. Aprender que se eu viver minha vida de uma determinada maneira, eu ganharei uma vida eterna no paraíso, e depois ver as centenas de contradições bíblicas. Acabou com aquela ilusão de grandiosidade.

No exemplo dessa jovem, ela tinha um irmão que já havia rejeitado a religião fundamentalista na qual eles foram criados, então ela teve a vantagem de ter alguém próximo com quem pudesse falar. Ela disse que nas conversas com seu irmão, não conseguia deixar de rir de espanto sobre "como todos estes anos, todas as muitas religiões lutam entre si, sobre quem tem a religião verdadeira, e no fim das contas aquilo a que todas se opõem é de fato a verdade das verdades. O ateísmo, é claro."

Então por que fazemos isso? Por que somos tão evangélicos sobre nosso ceticismo? A resposta é simples. Há muitas pessoas presas nas dores do fundamentalismo bíblico que, com ajuda, podem encontrar uma saída, como fez aquela jovem. Enquanto for assim, nós continuaremos a por nossas visões filosóficas no livre mercado das idéias e deixaremos os compradores decidirem se querem comprá-las. Nossa afirmação é a de que temos um produto melhor do que os itens baratos empurrados pelos fundamentalistas da bíblia. Por experiência pessoal e pelo depoimento de outros, sabemos que a mensagem na carta dessa jovem é verdadeira: se você abandonar a superstição e enfrentar a realidade, será uma pessoa mais feliz. Então o que há de errado em ajudar as pessoas a serem felizes?

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Em 1993 cerca de 80 pessoas morreram em Waco em um conflito entre a seita de orientação cristã liderada por David Koresh e o governo federal. David dizia ser o novo messias. Mais informações sobre o caso podem ser obtidas em http://www.rickross.com/reference/waco12.html, http://www.waco93.com/press.htm e http://www.rickross.com/groups/waco.html. - Daniel Sottomaior, Editor da Área S.T.R.

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.infidels.org/library/magazines/tsr/1993/4/4front93.html
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Traduções para espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.