Jack Raso
 
 
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Atualizado: 22/11/2001
   
                     
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EDITORIAL: SEPARANDO JUNK SCIENCE
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de Jack Raso, et al.


Em um artigo de 1998 da Stanford Technology Law Review, Gary Edmond e David Mercer afirmaram que o uso da expressão "junk science" "tornou-se onipresente nas discussões envolvendo direito e ciência." Em 1999, o economista e Ph. D. Edward S. Herman, professor emérito da Universidade da Pensilvânia, pesquisou 258 artigos que incluíam a expressão "junk science" e que tinham sido publicados em jornais importantes nos três anos anteriores. Ele descobriu que em 62% desses artigos ela se referia a argumentos relacionados à ciência usados por ambientalistas e outros críticos de grandes empresas, ou por advogados de danos pessoais que estavam processando essas empresas.

Mas a expressão "junk science" não tem uma definição bem estabelecida.

Aparentemente, o uso público da expressão começou em 1989, em uma palestra do advogado John Gleeson, de Michigan. Mas de acordo com Donald G. Cochran, Ph.D., conselheiro científicoAmerican Council on Science an Health (ACSH) e professor emérito da Universidade do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, a expressão está em uso em sua área -- entomologia, o estudo científico dos insetos -- pelo menos desde o começo dos anos 70.

Peter William Huber popularizou a expressão com "Galileo's Revenge: Junk Science in the Courtroom", (A vingança de Galileu: Junk Science nos tribunais), publicado originalmente em 1991. No índice da edição de capa mole, a expressão "junk science" é seguida por "Ver Science, junk." Isso sugere que junk science é um tipo de ciência.

Junk Science é Pseudociência?

O adjetivo "junk" significa desleixado, sem valor ou de apelo ou utilidade somente superficiais." Definições de dicionários para a palavra "ciência" (que vem de uma palavra latina que significa "saber") são bastante diversas. Mas em biomedicina, saúde pública, biologia e ciências físicas (por exemplo, física e química), "ciência" denota principalmente o processo contínuo cujos objetivos básicos são tornar os fenômenos reconhecíveis e predizer resultados, e cujas atividades fundamentais compreendem:

  • Observar e descrever fenômenos e tirar conclusões gerais a respeito deles.
  • Integrar novos dados com observações organizadas que foram confirmadas.
  • Formular hipóteses testáveis baseadas nos resultados dessa integração.
  • Testar essas hipóteses sob condições controladas e reprodutíveis.
  • Observar os resultados desses testes, registrando-os de maneira não ambígua e interpretá-los claramente.
  • Buscar ativamente a crítica dos participantes da ciência.

A ciência pode ser má -- em outras palavras, imoral (como quando envolve homicídios injustificados), ofensiva, danosa, severa e/ou intensa. E alguns exemplos de ciência podem ser "junk" -- desleixados, sem valor ou de apelo ou utilidade somente superficiais. Mas as atividades que a expressão "junk science" tipicamente denota não são exemplos de ciência.

Quando se usa a palavra "ciência" no sentido de "qualquer atividade que claramente requeira estudo e método", os sistemas de medicina antroposófica, medicina astrológica, medicina ayurvédica clássica e acupuntura tradicional chinesa são descritíveis como "junk sciences" -- atividades que parecem acadêmicas e têm apelo e/ou utilidade superficiais, mas que carecem de eficiência, confiabilidade e/ou solidez.

No entanto, a definição de "junk science" acima é limitada demais em relação ao seu uso. Muitas expressões que consistem de mais de uma palavra têm significados muito diferentes de, ou mais limitados do que seus significados somados. (Essas expressões variam de termos leigos -- por exemplo, "hot potato," "hot rod," "hot spot," "hot stuff," "hot ticket," "hot tub" and "hot water" -- a jargões como"age of onset," "double bond," "drug delivery," "managed care," "prospective study" e "risco relativo.")

Em "Galileos's Revenge," Huber (apesar da referência cruzada citada acima que pode levar a mal-entendidos) descreve junk science não como uma variedade, variação ou perversão da ciência, mas como o oposto da ciência:

Junk science é a imegem em espelho da ciência real, com muito da sua forma mas nada da mesma substância. Existe o astrônomo, de um lado, e o astrólogo, de outro. Ao químico corresponde o alquimista, ao farmacologista, o homeopata. Tome as ciências sérias da alergologia e imunologia, tire o detalhe e o rigor, e você tem a junk science da ecologia clínica. O terapeuta físico [é coberto pela sombra do] quiropata, o matemático pelo numeólogo e pelo cabalista.

De acordo com junkscience.com, "'Junk Science' são dados e análises científicos errados usados para promover determinadas idéias." Caso se aceite essa definição, contudo, é preciso reconhecer que junk science não é de maneira nenhuma a "ciência", como convencionalmente definida. Em parte baseado nessa afirmação, eu propus uma tentativa de definição de "junk science" como essencialmente a "má interpretação de dados científicos, ou dados científicos mal organizados, especialmente se essa interpretação ou organização é usada para promover uma ideologia e/ou para ganhar dinheiro."

Em "Voodoo Science: The Road From Foolishness to Fraud" (Oxford University Press, 2000 [linkar]), Robert L. Park, Ph.D. -- professor de física na universidade de Maryland e diretor do American Physical Society's Public Information Office [http://www.aps.org/WN/], em Washington -- descreve junk science como a elaboração de "argumentos com intenção deliberada de confundir juristas e legisladores com pouco ou nenhum embasamento científico," e pseudociência como práticas espirituais, supersticiosas e outras crenças infundadas "vestidas com a linguagem e os símbolos da ciência."

Eu defino "pseudociência" como "qualquer atividade, prática, sistema, metodologia ou teoria que simule a ciência, ou que seja descrita como ciência, mas que careça de fundamento científico." A pseudociência compreende:

  • Aceitação de teorias refutadas cien'tificamente e seu uso na medicina ou na ciência.
  • Rejeição de procedimentos científicos padrão.
  • Citar mitos como evidência científica
  • Selecionar e organizar dados para que os resultados se ajustem a um viés particular.
  • Tratar a literatura científica como se ela compreendesse todas as afirmações de todas as pessoas que algum dia foram cientistas.

Em nossa opinião, usar a expressão "junk science" -- que no fim aparentemente denota qualquer modo, exemplo ou produto da pseudociência -- tende a diminuir a ciência. Isso porque sugere, incorretamente, que junk science é uma forma daquilo que a maior parte dos cientistas chama de ciência. "Junk science" e "pseudociência" são sinônimos. Creio que a palavra "pseudociência", por denotar mais claramente um tipo de não-ciência, descreve melhor o principal significado de "junk science". Os dois tipos mais característicos de junk science podem ser denominados "pseudociência ideológica" e "pseudociência de interesses disfarçados."

Sinais de Junk Science

De acordo com o médico Steven P. Novella, professor assistente de neurologia na Escola de Medicina da Universidade de Yale, "junk science" e "pseudociência" se referem a atividades que não correspondem, sequer marginalmente, aos padrões científicos. Alguns sinais de junk science são listados abaixo. Essas afirmações provêm em grande parte do que foi enviado para o PFH por Novella e outros conselheiros do ACSH.

  • Diminuir ou condenar o duplo-cego
  • Tomar pseudo-dados por dados.
  • Citar positivamente estudos com erros fatais, e/ou interpreta~r inadequadamente os resultados de estudos científicos para popularizar um ponto de vista e assim abrir caminho para a consolidação de propostas econômicas, legislativas, políticas e/ou sociais
  • Distorção de dados -- por exemplo, citação preferencial e positiva de resultados experimentais sem consideração pela precisão de resultados ou seu grau de consistência ou inconsistência em relação a resultados bem estabelecidos.
  • Ausência ou deficiência de peer review.
  • Apresentação de correlações (associações) como causais sem provas.
  • Apresentação de relatos e testemunhos como evidências importantes
  • Aprovação de premissas ou métodos que foram cientificamente refutados (ou ao menos que há muito caíram no descrédito)
  • Alegações audaciosas -- por exemplo, alegações não verificadas que apóiam meios supostamente simples de resolver problemas complicados, e alegações de aplicabiliadde ilimitada, ou quase ilimitada, para um método ou descoberta.
  • Defender uma alegação através da afirmação de que ela não foi provada falsa.
  • Expressar através de um meio de comunicação de massas uma visão em assunto controverso e/ou de considerável interesse para o público em termos leigos e de maneira que provavelmente gere esperanças infundadas ou medo entre os não cientistas.
  • Hostilidade para com críticas científicas que contrariem crenças, métodos ou objetivos particulares, e tendência a descrever tais críticas como defesa do status quo, resultado de hostilidade para com inovações ou mesmo produto de extensas conspirações.
  • Rejeição do conteúdo de críticas científicas que contrariem crenças, métodos ou objetivos particulares pela condenação do naturalismo (a base filosófica da ciência) ou pela negação de que a ciência seja um meio para penetrar as crenças, métodos ou objetivos criticados.
  • Celebração da exclusão da comunidade científica (por exemplo, como uma maneira de evitar confinamento intelectual).
  • Criação de diretrizes primárias baseadas somente em uma única observação não verificada.

Como a Junk Science Vence

Cochran afirma:

Junk science funciona melhor nas áreas complexas com assuntos que estão além do conhecimento e da experiência de pessoas comuns. Frequentemente, os praticantes da junk science baseiam suas alegações em fatos e números que cuja correta interpretação requer treinamento e experiência especializados. Nesses casos é fácil para aqueles indivíduos afirmar que sua posição é correta e que aqueles que se opõem a eles estão errados ou têm uma visão diferente sobre os dados. Para o cidadão comum isso é similar a dois cientistas discordando sobre os fatos, quando na verdade é uma tentativa clara da parte dos praticantes da junk science de enganar o público.

Uma característica da apresentação da junk science é que ela é usualmente feita em uma coletiva de imprensa. Isso é bastante incomum porque para que os dados científicos sejam aceitos pela comunidade científica eles precisam antes ser revisados pelos demais cientistas. Isso é necessário para estabelecer que o estudo não é falho devido a algum erro de procedimento e que a interpretação dos resultados é consistente com o que os dados de fato mostram. Ao organizar uma coletiva para apresentar informações todo esse procedimento é evitado. Essa é uma enorme vantagem porque é muito improvável que haja pessoas na audiência com conhecimento para refutar as alegações sendo feitas. Ainda que eles estejam presentes, uma coletiva não é ocasião adequada para conduzir um debate sério. O resultado é que a junk science recebe ampla cobertura na imprensa. A comunidade científica fica com a tarefa de tentar mostrar como e por que as informações da coletiva estão erradas, mas com poucas esperanças de conseguir a cobertura ampla de uma coletiva.

Uma das áreas em que a junks science funciona melhor é em questões ligadas a segurança. Não importa se é a segurança de pesticidas ou de automóveis. É fácil fazer afirmações extravagantes de que algum produto ou prática não é seguro. O uso de pesticidas é um bom exemplo. Antes que um pesticida chegue ao mercado ele deve ser cuidadosamente testado para que se determine, entre outras coisas, os efeitos que ele tem em vários organismos, se ele causa câncer ou problemas de desenvolvimento em fetos, e como ele deve ser utilizado para minimizar quaisquer efeitos negativos no meio-ambiente. Nos Estados Unidos, ele precisa do registro da Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental) antes de ser distriubído ou vendido. Se um pesticida não atinge os padrões da EPA nesses testes, ele não recebe o registro. Ainda assim, há indivíduos e grupos organizados que afirmam que o uso de muitos pesticidas aprovados causa um certo número de mortes adicionais por milhão de pessoas quando usado de acordo com as instruções do fabricante. Essas alegações são difíceis de refutar porque nenhum cientista responsável pode dizer que determinada substância nunca causará nenhum dano, embora a probabilidade de fazê-lo seja remota. O público pode ficar com a impressão de que a alegação é correta porque não pode ser categoricamente negada.

A melhor maneira de combater junk science é através das declarações abertas de cientistas responsáveis quando quer eles sintam necessário, em qualquer campo que dominem. Desta maneira, ao menos o público saberá que existe uma controvérsia sobre a validade do que está sendo discutido. Também é necessário um esforço contínuo para melhorar o entendimento do público sobre como a ciência funciona. Se isso acontecer, a força da junk science será bastante diminuída.

Estratagemas da Junk Science na Saúde Pública

Estão descritas abaixo os pontos centrais de quatro estratagemas comuns da junk science na saúde pública.

  • Notar que não se provou que uma substância não é carcinogêncica -- É impossível estabelecer que uma determinada substância nunca causa câncer. Descrever uma substância como carcinogênica por ela não ter sido provada não-carcinogênica tende a obscurecer as questões de saúde. Em pesquisas de opinião nos Estados Unidos, câncer tipicamente é a maior preocupação na área de saúde. Assim, declarar uma substância como carcinogênica é uma tática muito efetiva de amedrontamento. Mas rotular assim as substâncias que sequer remotamente se provaram carcinogências ao homem desvia injustificadamente a atenção do público de fatores de risco para o câncer estabelecidos e pessoalmente controláveis.
  • Citar todos os possíveis efeitos adversos da exposição a uma substância -- Enquanto os toxicologistas tipicamente identificam os efeitos mais significativos da exposição, os devotos da junk science tendem a atriubir numerosos efeitos, mesmo os extremamente improváveis, a não ser talvez em graus de exposição absolutamente extraordinários ou em outras circunstâncias muito incomuns.
  • Subentender que uma associação, ou correlação, é causal -- Em epidemiologia, as palavras "associação" e "correlação" se referem à relação entre duas condições ou estados tais que eles provavelmente coexistem. Essa associação não é necessariamente causal ou estatisticamente significativa. Grupos ambientalistas frequentemente lançam histórias que geram pânico ao apontar uma associação que não se demonstrou ser causal entre uma determinada substância e um problema de saúde específico -- e omitem que a associação pode não ser causal ou digna de nota.
  • Subentender que "fatores ambientais" e "poluição ambiental" são sinônimos -- Em epidemiologia, um fator ambiental é qualquer fator não genético. Fatores ambientais incluem fumo, exposição excessiva ao sol, consumo excessivo de álcool, fatores nutricionais e vírus. De acordo com as autoridades de saúde, esses fatores ambientais em conjunto respondem por 80% dos casos de câncer, e outro fator ambiental -- poluição ambiental -- é responsável por 2% dos casos de câncer.

O Destino da Junk Science?

A consultora do ACSH, médica toxicologista Kathryn E. Kelly, Dr.P.H., afirma:

Na minha área, junk science é vista com frequência quando uma agência reguladora, em especial aquelas que supervisionam áreas científicas, coloca objetivos políticos à frente da integridade científica. Ela se manifesta quando a agência estabelece uma posição política e então busca de maneira seletiva dados os dados que apóiem e aprofundem essa posição, ao ponto de se excluir quaisquer resultados inconsistentes com ela e ignorar rotineiramente os conselhos do seu Conselho Científico. Essa rejeição tiva de princípios básicos do "peso das evidências" não sobrevive em direito, e não pode sobreviver para sempre na ciência. Em última instância, ignorar a realidade científica não é sustentável, e quando as consequências de se ignorar a ciência se fazem mais evidentes, a política muda.
Glossário

Duplo cego -- 1. Um procedimento cujo fim é prevenir erros estatísticos em experimentos clínicos evitando que os experimentadores, participantes clínicos e sujeitos conheçam a identidade do tratamento antes que o estudo esteja concluído. 2. Estudo duplo-cego. 3. QUalquer circunstância em que se tente reter o acesso de dois grupos de pessoas a informações para que essas informações não afetem o processo (por exemplo, uma medida)

Revisão por pares -- Avaliação do trabalho de pelo menos um profisisonal ou técnico por membros de um conselho ou por um comitê com autoridade similar em calibre profissional ou técnico e/ou na ocupação dos autores do trabalho.

Informativo:

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://drkoop.com/news/focus/2000/dec/16_junkscience.html
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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