Publicado: 29/09/2000
de Edward K. Lankford
O curandeirismo ou as curas de natureza religiosa são uma prática comum na maioria das culturas e permanecem mesmo à luz (ou apesar) do conhecimento e dos procedimentos médicos atuais. Embora haja muitos tipos diferentes de curandeirismo, o mais comum é através de orações simples. Se por um lado, a maioria usa orações em conjunto com tratamento médico, existe um pequeno segmento da população que as utiliza como único meio de cura. Não é de supreender que esses grupos sejam de natureza religiosa. Mas nem todos os grupos religiosos rejeitam todos os tratamentos médicos. As testemunhas de Jeová2, por exemplo, recusam transfusões de sangue de acordo com sua leitura de algumas passagens bíblicas.3 Além disso, os "Cientistas Cristãos" (seguidores da Igreja de Cristo, Cientista) permitem o rearranjo de um osso fraturado mas todos os demais tratamentos médicos são desencorajados, e ao invés disso utiliza-se a "oração científica".4 5 No entanto, há muitos grupos além dos Cientistas Cristãos que apóiam ou exigem a recusa de tratamento médico, incluindo os seguidores dos Filhos do Primogênito, Ministérios do Fim dos Tempos, Assembléia da Fé, Igreja de Cristo (Oregon, EUA), Tabernáculo da Fé, Irmandade dos Leitores da Bíblia (Flórida, EUA) e muitos outros.6 Vivendo em um país cuja medicina é uma das melhores do mundo7, pode-se dizer que aqueles que recusam cuidados médicos que podem salvar uma vida são ignorantes ou estúpidos. Contudo, também vivemos em um país fundado na liberdade religiosa e permitimos que se recuse cuidados médicos caso isso seja requisito religioso ou não. Mas a outra face dessas liberdades é uma sombria realidade. A recusa de cuidados médicos pode ser uma opção para um adulto, mas e para uma criança? Uma criança pode tomar essa decisão? A resposta é não, e por um bom motivo. À parte motivos legais, a maior parte das crianças e jovens com menos de dezoito anos não tem capacidade para tomar essa decisão por si, e seus pais ou tutores facilitam a tomada de decisão ou a efetuam pelo menor. No entanto, recusar cuidados médicos que poderiam beneficiar em muito o bem-estar da criança (especialmente quando se poderia salvar sua vida) é negligência criminosa. Portanto, se a lei não permite que a criança ou seus pais/tutores recusem esses cuidados, como é possível que alguma criança não os receba quando for possível recebê-los? Infelizmente, a maioria dos estados exime esses pais/tutores se a decisão é baseada em suas crenças religiosas. Em 1998, a revista médica Pediatrics publicou um estudo de 172 casos de crianças que morreram quando apenas o curandeirismo ou as curas de natureza religiosa foram usados para tratar uma doença.8 Se lhes fosse fornecido tratamento adequado, 81,2% dessas crianças teriam uma chance de sobrevivência superior a 90%, e 10,5% teriam uma taxa de sobrevivência maior que 50%. Somente três crianças (1,7%) não teriam se beneficiado de alguma maneira. Leia o parágrafo acima novamente. O estudo descreve muitos dos casos em que as mortes das crianças poderiam ter sido evitadas:
Essas tragédias horríveis acontecem todos os dias. Há apenas um mês, surgiram complicações durante um parto em Delta, no Colorado: Quando os ajudantes do xerife do condado de Montrose chegaram ao local, encontraram Ruth Berger-Belebbas com a criança ainda presa no canal de nascimento dois dias depois da morte do bebê durante o parto. O bebê estava virado ao contrário no útero - problema comum que pode ser corrigido girando o bebê ou efetuando uma cesariana. O parto foi assistido por parteiras que também pertencem à Igreja do Primogênito. [...] Um membro da igreja da Grande Junção com algum treinamento na área médica conseguiu remover o bebê no terceiro dia após sua morte.9Sacrifícios humanos foram banidos da lei no nosso país... ou não? Essas crianças são forçadas ao martírio por seus próprios pais/tutores. Eles são culpados de negligência - não, de negligência proativa - e assassinato religioso. Se não podemos justificar o assassinato de adultos por motivos religiosos, então como ignorar a justificativa para o assassinato de crianças inocentes? Se por um lado recusar tratamento médico esta perfeitamente dentro dos direitos de um adulto, por outro não temos a responsabilidade de proteger as vidas dessa forma macabra de abuso infantil? Eu acho que temos. Esta não é uma questão de religião versus ciência, mas de vida versus morte. Rezar não é uma coisa ruim por si só e às pessoas que rezam, eu incentivo que rezem por suas crianças doentes, assim como também as mandem para um médico. Muitos vêem a historia de como Abraão quase sacrificou seu filho como uma bela história de fé, mas eu a vejo como uma terrível historia de tentativa de assassinato. Não sacrifiquem seus filhos a quaisquer deuses por quaisquer motivos. Por que se arriscar a estar errado? E por que um ente amoroso iria querer que vocês destruíssem seu maior bem só para provar sua fé? Sacrifiquem seus filhos e estarão sacrificando a si mesmos.
Edward, 24 anos, é estudante quartanista em Licenciatura em Matemática na Universidade da Georgia, no campus de Athens. Ele escreve uma coluna semanal para o Themestream chamada Doubting Thomas, e está trabalhando no conto "The Man Who Heard Music." Seus "Pensamentos sobre a Desconversão da Religião" estão atualmente sendo escritos, mas possui planos de publicar uma versão completa e revisada assim que terminar. Seus ensaios podem ser encontrados em http://www.themestream.com/authors/76154.html. Para informações de como ajudar a acabar com a mortalidade infantil, visite a página CHILD, Inc. Notas 1 - (NT): A manobra Heimlich é um procedimento de primeiros socorros muito conhecido nos EUA. Consiste basicamente em abraçar por trás um indivíduo que esta se engasgando e pressionar abruptamente e com forca seu abdômen para que a pressão interna possa expelir o corpo estranho da traquéia. Voltar 2 - Watchtower: Web Site Oficial das Testemunhas de Jeová (2000). "No Que Eles Crêem?" http://www.watchtower.org/library/br78/what_they_believe.htm. Voltar 3 - Genesis 9:3-4; Leviticus 17:14; Acts 15:28-29 Voltar 4 - Robinson, B.A. (2000). "Religious groups that reject medical treatment in favor of prayer." Ontario Consultants on Religious Tolerance. http://www.religioustolerance.org/medical.htm. Voltar 5 - The official home page of The Church of Christ, Scientist (2000). "How do you go about healing the sick?" http://www.tfccs.com/GV/QANDA/CSHQ3.html.Voltar 7 - (NT): O autor é norte-americano. Voltar 8 - Asser, S. M. & Swan, R. (1998) "Child Fatalities From Religion-motivated Medical Neglect." Pediatrics. 101:4. Pages 625-629. Voltar 9 - Lofholm, N. "3rd baby dies after refusal of care." Denver Post 11 Aug. 2000. http://www.denverpost.com/news/news0811c.htm. Voltar Comentários
Cristiano Lopes-Andrade - e37300@alunos.ufv.br - Um governo tem, entre vários objetivos, manter a ordem pública e o bem estar dos cidadãos. Seria sarcamos classificar de "bem estar" a situação de uma criança morrendo entalada com um pedaço de banana enquanto sua mãe reza em vez de prestar socorro. Não acho que o Estado deva punir uma mãe por ela ter rezado em vez de pedir socorro. Essa mãe deveria ser punida por negligência, ou mesmo por assassinato. A crença não deve ser julgada, mas sim o ato. |