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ROUBARAM A AMAZÔNIA? MITOS DA WEB BRASILEIRA
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de Carlos Orsi


Demorou, mas aconteceu: a Internet brasileira “desovou”, no final de maio, sua primeira lenda urbana - e com direito, até, a um ensaio de indignação coletiva com base em fato inexistente. Para quem perdeu a farra, andou circulando pela rede um e-mail, em português, afirmando que escolas de segundo grau dos EUA estariam usando um mapa-múndi onde o Brasil aparece menor, e onde a Amazônia e o Pantanal são denominados “área de controle internacional”.

Demonstrando que o ímpeto de atirar primeiro e perguntar depois está bem mais generalizado em nossa sociedade do que se costuma admitir, o caso produziu uma onda de indignação tal que chegou aos meios de comunicação tradicionais e acabou exigindo a intervenção do embaixador dos EUA no Brasil (e uma investigação feita pelo embaixador do Brasil nos EUA) para acalmar os ânimos. Processo bem explicado em uma reportagem do Estado.

“Lenda urbana” foi o termo criado nos EUA para designar histórias sem fonte precisa - do tipo “eu soube que uma prima de um amigo do meu cunhado passou por isso...” -, geralmente relatando supostos “fatos” que, embora inverossímeis, não chegam ser, ao menos em primeira análise, impossíveis. Como efeito, o ouvinte fica com a proverbial pulga atrás da orelha. E passa o conto adiante.

As melhores lendas urbanas têm o charme especial de refletir o estado de espírito da sociedade em que emergem - durante a Guerra Fria, por exemplo, nos Estados Unidos surgiu o mito de “Igor”, o espião perfeito - um russo criado desde criança nos EUA, como cidadão americano, mas doutrinado por algum tipo de lavagem cerebral comunista. Havia até quem temesse que “Igor” acabasse eleito presidente...

Essa lenda, para quem se lembra, deu origem ao filme “Sem Saída”, com Kevin Costner. Com base nisso, talvez dê para dizer que a reação exagerada ao e-mail espúrio sobre a “área de controle internacional” na Amazônia reflete a “crescente desconfiança de parte da sociedade brasileira com a globalização”, como andam dizendo por aí. De qualquer forma, o e-mail a respeito da divisão do Brasil já pedia ceticismo logo na primeira linha: “Foi levantado recentemente, por brasileiros que observaram o sistema de ensino médio e primário dos EUA...”

Foi levantado? Por quem? Que brasileiros? Em qual Estado? “Importantes escolas”, afirma a mensagem logo a seguir. Certo, mas quais? E que se reflita, por um instante, a respeito da operacionalização desse suposto assalto didático-geográfico à Pátria: quantas empresas fabricam globos e mapas nos EUA? Elas estariam todas envolvidas na conspiração? Ou apenas algumas? E os globos e mapas antigos, foram queimados ou escondidos? Para completar: mas será que o ensino de segundo grau dos EUA inclui geografia do Brasil?

Mitos desse tipo são difíceis de se debelar de vez porque é praticamente impossível “desprovar” uma afirmação genérica. Um exemplo clássico é o do bolo de chocolate em Saturno: se eu disser que existe um bolo de chocolate entre os anéis de Saturno, o único jeito de “desprovar” categoricamente esta afirmação é checar cada fragmento e partícula de poeira que compõe os anéis.

A solução, conhecida há séculos, é a seguinte: exigir provas de quem faz a afirmação. Quando falta esse tipo de cuidado, surge a chamada “ilusão coletiva” - definida por sociólogos como “a propagação rápida e espontânea de uma crença falsa ou exagerada em meio a uma população”. Fenômeno que começou a crescer bastante com o surgimento da imprensa, ganhou impulso com o rádio e a TV e achou um nicho privilegiado na Internet.

Referências

Roubo da Amazônia: vamos ao terceiro round

Roubo da Amazônia, o boato que não morre

Internet cria rumor sobre internacionalização da Amazônia

Websights.com Presents: Create Your Own Hoax

Urban Legends Reference Pages

The AFU FAQ Page

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