![]() |
| ||||||||
| Clique no banner do anunciante acima e ajude a Sociedade da Terra Redonda a crescer! | |||||||||
| Estatuto | Novidades | Autores | Agradecimentos | Lista | Finanças | Publique! | Anuncie! | Sorteio! | ||||||||||||||
|
de Carl Sagan
Às vezes sonho que estou falando com meus pais, e de repente - ainda imerso na elaboração do sonho - sou tomado pela consciência esmagadora de que eles não morreram de verdade, de que tudo não passou de um erro horrível. Ora, ali estão eles, vivos e bem de saúde, meu pai fazendo piadas inteligentes, minha mãe me aconselhando seriamente a usar uma manta porque está frio. Quando acordo, passo de novo por um processo abreviado de luto. Evidentemente, existe algo dentro de mim que está pronto a acreditar na vida após a morte. E que não está nem um pouco interessado em saber se há alguma evidência séria que confirme tal coisa. Por isso, não rio da mulher que visita o túmulo do marido e conversa com ele de vez em quando, talvez no aniversário de sua morte. Não é difícil de compreender. E se tenho dificuldades com o status ontológico daquele com quem ela está falando, não faz mal. O que importa é que os seres humanos são humanos. Mais de um terço dos adultos norte-americanos acreditam que em algum nível estabeleceram contato com os mortos. Esse número parece ter pulado de 15% entre 1977 e 1988. Um quarto dos norte-americanos acredita em reencarnação. Mas isso não significa que estou disposto a aceitar as pretensões de um "médium", que afirma canalizar os espíritos dos entes queridos que partiram, quando tenho consciência de que a prática está cheia de fraudes. Sei o quanto desejo acreditar que meus pais só abandonaram os cascos de seus corpos. Compreendo que estes sentimentos poderiam me tornar uma presa fácil até de um trapaceiro pouco inteligente, de pessoas normais que desconhecem suas mentes inconscientes, ou dos que sofrem de uma desordem psiquiátrica dissociativa. Relutantemente, ponho em ação algumas reservas de ceticismo. Como é, pergunto a mim mesmo, que os canalizadores nunca nos dão informações verificáveis que nos são inacessíveis por outros meios? Por que Alexandre, o Grande, nunca nos informa sobre a localização de sua tumba, Fermat sobre o seu último teorema, James Wilkes Booth sobre a conspiração do assassinato de Lincoln, Hermann Goering sobre o incêndio do Reichstag? Por que Sófocles, Demócrito e Aristarco não ditam as suas obras perdidas? Não querem que as gerações futuras conheçam as suas obras-primas? Se fosse anunciada alguma evidência real de vida após a morte, desejaria muito examiná-la; mas teria de ser uma evidência real científica, e não simples anedota. Em casos como A Face em Marte e os raptos por alienígenas, eu diria que é melhor a verdade dura do que a fantasia consoladora. E, no final das contas, os fatos revelam-se freqüentemente mais consoladores que a fantasia. A premissa fundamental da "canalização", do espiritismo e de outras formas de necromancia é que não morremos quando experimentamos a morte. Não exatamente. Alguma parte de nós que pensa, sente e tem memória continua a existir. Seja o que for, - alma ou espírito, nem matéria nem energia, mas alguma outra coisa - essa parte pode entrar novamente em corpos humanos ou de outros seres, e assim a morte perde grande parte da sua força. E ainda mais: se as afirmações do espirita ou canalizador forem verdadeira, temos uma oportunidade de entrar em contato com os entes queridos que morreram. J.Z.Knight, do estado de Washington, afirma estar em contato com um ser de 35 mil anos chamado "Ramtha." Ele fala inglês muito bem, usando a língua, os lábios e as cordas vocais de Knight, com um sotaque que me parece ser Indiano (hindu). Como a maioria das pessoas sabe como falar, e muitas - de crianças a atores profissionais - têm um repertório de vozes a seu dispor, a hipótese mais simples sugere que é a própria Sra. Knight que faz Ramtha falar, e que ela não tem contato com entidades descarnadas da época plistocena glacial. Se há provas do contrário, gostaria muito de conhecer. Seria consideravelmente mais impressionante se Ramtha pudesse falar por si mesmo, sem a ajuda da boca da Sra. Knight. Isso não sendo possível, como podemos testar a afirmação? (A atriz Shirley MacLaine afirma que Ramtha foi seu irmão em Atlântida, mas isso já é outra história.) Vamos supor que Ramtha pudesse ser interrogado. Poderíamos verificar se ele é quem afirma ser? Como é que ele sabe que viveu há 35 mil anos, mesmo aproximadamente? Que calendário usa? Quem está tomando nota dos milênios intermediários? 35 mil mais ou menos o quê? Como eram as coisas há 35 mil anos atras? Ou Ramtha tem realmente essa idade, e nesse caso vamos descobrir alguma coisa sobre esse período, ou é uma fraude e ele (ou melhor, ela) vai se trair. Onde é que Ramtha vivia? (Sei que fala inglês com sotaque hindu, mas onde é que falavam assim há 35 mil anos?) Como era o clima? O que Ramtha comia? (os arqueólogos têm alguma noção do que as pessoas comiam nessa época.) Quais eram as línguas falada, e qual era a estrutura social? Com quem mais Ramtha vivia - com a mulher, mulheres, filhos, netos? Qual era o ciclo da vida, a taxa de mortalidade infantil, a expectativa de vida? Eles tinham controle de natalidade? Que roupas vestiam? Como elas eram fabricadas? Quais eram os predadores mais perigosos? Os instrumentos e as estratégias da caça e da pesca? Armas? Sexismo endêmico? Xenofobia e etnocentrismo? E, se Ramtha descendia da "elevada civilização" de Atlântida, onde estão os detalhes lingüísticos, tecnológicos, históricos e de outra natureza? Como era a sua escrita? Respondam. Em lugar disso, a única coisa que recebemos são homilias banais. Para dar outro exemplo, eis um conjunto de informações que não foram canalizadas de um morto antigo, mas de entidades não humanas desconhecidas que fazem círculos nas plantações, assim como foi registrado pelo jornalista Jim Schnabel: Estamos muito ansiosos por essa nação pecadora estar espalhando mentiras sobre nós. Não viemos em máquinas, não aterrizamos na Terra em máquinas ... Viemos como o vento. Somos a Força Vital. A Força Vital do solo ... Viemos até aqui... Estamos apenas a um sopro de distância ... a um sopro de distância ... não estamos a milhões de milhas de distância ... uma Força Vital que é mais potente que as energias no corpo humano. Mas nós nos reunimos num nível mais elevado de vida... Não precisamos de nome. Vivemos num mundo paralelo ao seu, ao lado do seu ... O s murros se quebram. Dois homens surgirão do passado ... o grande urso ... o mundo encontrará a paz.As pessoas dão atenção a essas maravilhas pueris, principalmente porque elas prometem algo parecido com uma religião antiga, mas sobretudos vida depois da morte, até mesmo a vida eterna. O versátil cientista britânico J.B.S. Haldane, que foi, entre muitas outras coisas, um dos fundadores da genética populacional, propôs certa vez uma perspectiva muito diferente para algo semelhante à vida eterna. Haldane imaginava um futuro distante em que as estrelas se obscureceram e o espaço foi preenchido em sua maior parte por um gás frio e fino. Ainda assim, se esperarmos bastante tempo, ocorrerão flutuações estatísticas na densidade desse gás. Ao longo de imensos períodos, as flutuações serão o suficiente para reconstituir um Universo parecido com o nosso. Se o Universo é infinitamente antigo, haverá um número infinito dessas reconstituições, apontava Haldane. Assim, num Universo infinitamente antigo com um número infinito de nascimentos de galáxias, estrelas, planetas e vida, deve reaparecer uma Terra idêntica em que você e todos os seus entes queridos voltarão a se reunir. Serei capaz de rever meus pais e apresentar-lhes os netos que eles não conheceram. E tudo isso não acontecerá apenas uma vez, mas um número infinito de vezes. Entretanto, de certo modo isso não oferece os consolos da religião. Se nenhum de nós vai lembrar o que aconteceu desta vez, a época que o leitor e eu estamos partilhando, as satisfações da ressurreição do corpo, pelo menos aos meus ouvidos, soam vazias. Mas nessa reflexão subestimei o que significa infinidade. Na imagem de Haldane, haverá universos, na verdade um número infinito de universos, em que nossas mentes recordarão perfeitamente todas as vidas anteriores. A satisfação está à mão - moderada, no entanto, pela idéia de todos esses outros universos que também passarão a existir (novamente, não uma vez, mas um número infinito de vezes) com tragédias e horrores que superam em muito qualquer coisa que já experimentei desta vez. Entretanto, o Consolo de Haldane depende do tipo de universo em que vivemos, e talvez de mistérios, como, por exemplo, saber se há bastante matéria para finalmente reverter a expansão do universo, e o caráter das flutuações no vácuo. Ao que parece, aqueles que sentem um profundo desejo de vida após a morte poderiam se dedicar à cosmologia, à gravidade quântica, à física das partículas elementares e à aritmética quântica, à física das partículas elementares e à aritmética transfinita. Clemente de Alexandria, um dos padres da Igreja primitiva, em suas Exortações aos gregos (escritas em torno do ano 190), rejeitava as crenças pagãs em termos que pareciam hoje em dia um pouco irônicos: Estamos realmente longe de permitir que os homens adultos dêem ouvidos a essas histórias. Mesmo aos nossos filhos, quando eles choram de cortar o coração, como se diz, não temos o hábito de contar histórias fabulosas para acalmá-los.Em nossa época, temos padrões menos severos. Contamos às crianças histórias sobre Papai Noel, o coelhinho da Páscoa e a fada do dente por razões que achamos emocionalmente sadias, mas depois, antes de crescerem, nós os desiludimos sobre esses mitos. Por que nos desdizemos? Porque o seu bem-estar como adultos depende de eles conhecerem o mundo tal como é. Nós nos preocupamos, e com razão, com os adultos que ainda acreditam em Papai Noel. Sobre as religiões doutrinárias, escreveu o filósofo David Hume que os homens não ousam confessar, nem mesmos a seus corações, as dúvidas que têm a respeito desses assuntos. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos a sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo.Essa descrença tem conseqüências morais profundas, como escreveu o revolucionário americano Tom Paine em The age of reason: A descrença não consiste em acreditar, nem em desacreditar; consiste em professar que se crê naquilo que não se crê. É impossível calcular o dano moral, se é que posso chamá-lo assim, que a mentira mental tem causado na sociedade. Quando o homem corrompeu e prostituiu de tal modo a castidade de sua mente, a ponto de empenhar a sua crença profissional em coisas que não acredita, ele está preparado para a execução de qualquer outro crime.A formulação de T.H.Huxley foi: O fundamento da moralidade é renunciar a fingir se acredita naquilo que não comporta evidências, e a repetir proposições ininteligíveis sobre coisas que estão além das possibilidades do conhecimento.Clement, Hume, Paine e Huxley estavam todos falando de religião. Mas grande parte do que escreveram tem aplicações mais gerais - por exemplo, para as importunidades disseminadas no pano de fundo de nossa civilização comercial: há um tipo de comercial de aspirina em que atores fingindo ser médicos revelam que o produto do concorrente tem apenas determinada fração do ingrediente analgésico que os médicos mais recomendam - eles não dizem qual é o misterioso ingrediente. Enquanto o seu produto tem uma quantidade drasticamente maior (1,2 a duas vezes mais por comprimido). Por isso, comprem esse produto. Mas por que não tomar dois comprimidos do concorrente? Ou considere-se o caso do analgésico que funciona melhor do que o produto de "potência regular" do concorrente. Por que não tomar o produto de "potência extra" do outro fabricante? E eles certamente não falam nada sobre as mais de mil mortes por ano causadas pelo uso da aspirina nos Estados Unidos ou os aparentes 5 mil casos anuais de disfunção renal provocados pelo uso de acetaminofeno, de que a marca mais vendida é o Tylenol. Ou quem se importa em saber quais os cereais que têm mais vitamina, quando podemos tomar uma pílula de vitamina no café da manhã? Da mesma forma, que importa saber que um antiácido contém cálcio, se o cálcio serve para a nutrição e é irrelevante para a gastrite? A cultura comercial está cheia de informações errôneas e subterfúgios semelhantes à custa do consumidor. Não se devem fazer perguntas. Não pensem. Comprem. As explicações pagas de produtos, especialmente se feitas por verdadeiros ou pretensos especialistas, constituem uma saraivada constante de logros. Revelam menosprezo pela inteligência dos clientes. Criam uma corrupção insidiosa das atitudes populares a respeito da objetividade científica. Hoje, existem até comerciais em que cientistas reais, alguns de considerável distinção, atuam como garotos- propaganda para as empresas. Eles nos ensinam que também os cientistas mentem por dinheiro. Como alertou Tom Paine, o fato de nos acostumarmos com mentiras cria o fundamento para muitos outros males. Enquanto escrevo, tenho diante de mim o programa da Whole Life Expo, a exposição anual da Nova Era realizada em San Francisco. É comumente visitada por dezenas de milhares de pessoas. Ali especialistas muito questionáveis fazem propaganda de produtos muito questionáveis. Eis algumas das apresentações: "Como proteínas presas no sangue produzem dor e sofrimento." "Cristais, talismãs ou pedras?" (Tenho a minha opinião.) Prossegue: "Assim como um cristal focaliza as ondas sonoras e luminosas para o rádio e a televisão." - o que é um erro insípido de quem não compreende como o rádio e a televisão funcionam - , "ele pode amplificar as vibrações espirituais para o ser humano afinado." Ou mais esta: "O retorno da deusa, um ritual de apresentação." Outra: "Sincronismo, a experiência do reconhecimento." Essa é fornecida pelo "irmão Charles." Ou, na página seguinte: "Você, Saint-Germain e a cura pela chama violeta." E assim continua, com milhares de anúncios sobre as "oportunidades"- percorrendo a gama estreita que vai do dúbio ao espúrio - que se acham à disposição na Whole Life Expo. Algumas vítimas de câncer, perturbadas, fazem peregrinações às Filipinas, onde "cirurgiões mediúnicos", depois esconder na palma da mão pedaços de fígado de galinha ou coração de bode, fingem tocar nas entranhas do paciente e retirar o tecido doente, que é então triunfantemente exibido. Certos líderes de democracias ocidentais consultam regularmente astrólogo e místicos antes de tomar decisões de Estado. Sob a pressão pública por resultados, a polícia, às voltas com um assassinato não solucionado ou um corpo desaparecido, consulta "especialistas" de PES (percepção extrasensorial) (que nunca adivinham nada além do esperado pelo senso comum, mas a polícia, dizem os praticantes da PES, continua a chamá-los) . Anuncia-se a previsão de uma divergência com nações adversárias, e a CIA, estimulada pelo Congresso, gasta dinheiro dos impostos para descobrir se podemos localizar submarinos nas profundezas do oceano concentrando o pensamento neles. Um "médium"- usando pêndulos sobre mapas e varinhas rabdomânicas em aviões - finge descobrir novos depósitos minerais; uma companhia mineira em caso de fracasso, garantindo-lhe uma participação na exploração do minério em caso de sucesso. Nada é descoberto. Algumas estátuas de Jesus ou murais de Maria ficam manchados de umidade, e milhares de pessoas bondosas se convencem de que testemunham um milagre. Todos esses são casos de mentiras provadas ou presumíveis. Acontece um logro, ora de forma inocente, mas com a colaboração dos envolvidos, ora com premeditação cínica. Em geral, a vítima se vê presa de forte emoção - admiração, medo, ganância, dor. A aceitação crédula da mentira talvez nos custe dinheiro; é o que P. T. Barmum apontou, ao afirmar: "Nasce um otário a cada minuto." Mas pode ser muito mais perigoso que isso, e quando os governos e as sociedades perdem a capacidade de pensar criticamente os resultados podem ser catastróficos - por mais que deplorem aqueles que engoliram a mentira. Na ciência, podemos começar com resultados experimentais, dados, observações, medições, "fatos." Inventamos, se possível, um rico conjunto de explicações plausíveis e sistematicamente, confrontamos cada explicação com os fatos. Ao longo de seu treinamento, os cientistas são equipados com um Kit de detecção de mentiras. Este é ativado sempre que novas idéias são apresentadas para consideração. Se a nova idéia sobrevive ao exame das ferramentas do Kit, nós lhe concedemos aceitação calorosa, ainda que experimental. Se possuímos essa tendência, se não desejamos engolir mentiras mesmo quando são confortadoras, há precauções que podem ser tomadas; existe um método testado pelo consumidor, experimentado e verdadeiro. O que existe no Kit? Ferramentas para o pensamento cético. O pensamento cético se resume no meio de construir e compreender um argumento racional e - o que é especialmente importante - de reconhecer um argumento falacioso ou fraudulento. A questão não é se gostamos da conclusão que emerge de uma cadeia de raciocínio, mas se a conclusão deriva da premissa ou do ponto de partida, e se essa premissa é verdadeira. Eis algumas das ferramentas:
A confiança em experimentos cuidadosamente planejados e controlados é de suma importância, como tentei enfatizar antes. Não aprendemos com a simples contemplação. É tentador ficar satisfeitos com a primeira explicação possível que passa pelas nossas cabeças. Uma é muito melhor que nenhuma. Mas o que acontece se podemos inventar várias? Como decidir entre elas? Não decidimos. Deixamos que a experimentação faça a escolha para nós. Francis Bacon indicou a razão clássica: A argumentação não é suficiente para a descoberta de novos trabalhos, pois a sutileza da natureza é muitas vezes maior que a sutileza dos argumentos.Os experimentos de controle são essenciais. Por exemplo, se alegam que um novo remédio cura uma doença em 20% dos casos, temos que nos assegurar se uma população de controle, ao tomar um placebo pensando que ingere a nova droga, também não experimenta cura expontânea da doença em 20% das vezes. As variáveis devem ser separadas. Vamos supor que nos sentimos mareados, e nos dão uma pulseira que pressiona os pontos indicados pela acupuntura e cinqüenta miligramas de meclizina. Descobrimos que o mal-estar desaparece. O que causou o alívio - a pulseira ou a pílula? Só ficamos sabendo se tomarmos uma sem usar a outra, na próxima vez em que ficarmos mareados. Agora vamos imaginar que não somos tão dedicados à ciência a ponto de querer ficar mareados. Nesse caso, não separamos as variáveis. Tomamos os dois remédios de novo. Conseguimos o resultado prático desejado; aprofundar o conhecimento, poderíamos dizer, não vale o desconforto de atingi-lo. Freqüentemente o experimento deve ser realizado pelo método "duplo cego", para que aqueles que aguardam uma certa descoberta não fiquem na posição potencialmente comprometedora de avaliar os resultados. Ao testar um novo remédio, por exemplo, queremos que os médicos que determinam os sintomas a serem mitigados não fiquem sabendo a que pacientes foi ministrada a nova droga. O conhecimento poderia influenciar a sua decisão, ainda que inconscientemente. Em vez disso, a lista dos que sentiriam alívio dos sintomas pode ser comparada com a dos que tomaram a nova droga, cada uma determinada independentemente. Só não podemos estabelecer a correlação existente. Ou, ao comandar uma identificação policial pelo reconhecimento de fotos ou dos suspeitos enfileirados, o oficial encarregado não deveria saber quem é o principal suspeito, para não influenciar a testemunha consciente ou inconscientemente. Além de nos ensinar o que fazer na hora de avaliar uma afirmação, qualquer bom kit de detecção de mentiras deve também nos ensinar o que não fazer. Ele nos ajuda a reconhecer as falácias mais comuns e mais perigosas da lógica e da retórica. Muitos bons exemplos podem ser encontrados na religião e na política, porque seus profissionais são freqüentemente obrigados a justificar duas proposições contraditórias. Entre essas falácias estão:
Conhecer a existência dessas falácias lógicas e retóricas completa o nosso conjunto de ferramentas. Como todos os instrumentos, o kit de detecção de mentiras pode ser mal empregado, aplicado fora do contexto, ou até usado como uma alternativa mecânica para o pensamento. Mas, aplicado judiciosamente, pode fazer toda a diferença do mundo - ao menos para avaliar os nossos próprios argumentos antes de os apresentarmos aos outros.
|