Publicado: 28/09/2000
de Renato Z. Flores, Ida V.D. Schartz, Cláudia M. Szobot e Thor G. Olsten
Desde o período neolítico já existiam indícios de que os seres humanos se aperceberam das linhas desenhadas em suas mãos e, há pelo menos cinco mil anos, elas são usadas com fins preditivos e adivinhatórios. (Cummins & Midlo, 1961). Os diferentes tipos de linhas que aparecem nas palmas das mãos e solas dos pés humanos também ocorrem em outros primatas, até mesmo na parte distal de suas caudas. A função destas estruturas, aparentemente, é aumentar a fricção e o poder de aderência de pés, mãos e caudas. (Holt, 1968). Atualmente eles são utilizados em Medicina como complementação diagnóstica de problemas de feto que tenham ocorrido no período de formação dos dermatoglifos e das pregas de flexão. Dermatoglifo é o nome técnico dos desenhos formados pelo alinhamento dos poros das glândulas sudoríparas e correspondem as linhas finas e delicadas que ocorrem nas pontas dos dedos, palmas e solas e que são usadas para identificação policial. Pregas de flexão são linhas mais profundamente marcadas e correspondem ao dobramento da pele em relação a uma articulação subjacente. Vários agentes patológicos suficientemente fortes para prejudicar o feto, como genes anormais e teratógenos, interferem também na formação das linhas dérmicas. Os dermatoglifos se formam no primeiro trimestre da gestação e as pregas de flexão, no último. O estudo destas linhas é particularmente importante em malformações congênitas (Alter, 1966), cromossopatias (Reed, 1981), estresse gestacional (Pearsons, 1990) e doenças de etiologia multifatorial (Markow & Gottesman, 1989; Berr e cols., 1992). Entretanto, a grande utilidade cotidiana destas linhas é a previsão do futuro. Ciganos, curandeiros, pais de santos e toda a sorte de pessoas em contato com o mundo sobrenatural afirmam a capacidade preditiva das linhas dérmicas. Não há, porém, até o presente momento, qualquer indício de que as linhas das mãos possam predizer fenômenos como número de filhos, anos de vida, duração de um relacionamento afetivo ou o funcionamento de órgãos como estômago, fígado ou coração. (Park, 1982). Na maioria das grandes cidades, basta abrir o jornal para encontrar-se anúncios de quiromantes oferecendo serviços de leitura de mãos com fins adivinhatórios. Assim, resolvemos verificar, mediante um teste simples, a capacidade de quiromantes preverem ou identificarem, nas impressões palmares e digitais, um evento marcante: a morte prematura na infância ou adolescência.
Material e Métodos
A. Dermatoglifos O teste consistia de 26 cópias reprográficas, de boa qualidade, de dermatoglifos de um "pool" coletado com tinta de impressão e papel para um estudo de caso-controle em leucemias linfocíticas agudas (LLA), para as quais existem indícios de que os pacientes apresentam dermatoglifos e pregas de flexão alterados. (Johnson e Opitz, 1973; Oorthuys e cols., 1979). Destes, treze pertenciam a pacientes que haviam falecido na infância ou adolescência de LLA. Os restantes pertenciam a crianças normais de mesma idade, sexo e nível sócio-econômico. Pelo fato dos dermatoglifos apresentarem grande variação racial, todos os pacientes eram de mesma raça, caucasóide. B. Amostra A procura de quiromantes foi feita através de pesquisa nos anúncios classificados dos dois maiores jornais do estado e em dois jornais de imprensa alternativa, contato com três rádios que apresentavam programas com adivinhos e visita a dezesseis lojas de produtos e serviços místicos ou alternativos. Os autores foram ainda entrevistados em dois programas de rádio, um programa de televisão e por um jornal de grande circulação, onde foram feitos reiterados convites para que quiromantes não localizados pelos métodos anteriores fizessem parte da investigação. As pranchas utilizadas foram confeccionadas por dois dos autrores (IVDS e TGO). Os demais, que aplicaram os testes, não tomaram conhecimento dos códigos que identificavam as pranchas até o final dos testes. Os indivíduos testados deveriam identificar quais os dermatoglifos que pertenciam a indivíduos sadios e quais pertenciam a crianças "com doenças tãos graves que os levariam a morte". Não foram informados detalhes sobre a clínica das doenças nem sobre o falecimento dos pacientes. Resultados Foram identificados onze prováveis quiromantes na cidade, dos quais nove foram localizados e contatados. Todos eles desenvolviam também outros tipos de artes adivinhatórias, como tarot ou jogo de búzios. Dois deles exerciam suas atividades "encorporados por entidades espirituais". Uma das "entidades espirituais" não quis participar da pesquisa. Um quiromante lia apenas solas dos pés, outro alegou falta de treino e dois afirmaram precisar das pessoas presentes para "a captação de energias". Assim, só quatro indivíduos se dispuseram a fazer o teste e apenas três o fizeram por completo. A tabela 1 apresenta o número de pranchas respondidas, o total de acertos e o esperado ao acaso de acertos.
Estatisticamente, os valores da última coluna, que correspondem ao esperado jogando-se para cima uma moeda e apostando em cara ou coroa, não são diferentes dos acertos feitos pelos avaliados. Apesar do quiromante B ter feito 21 (entre 25) diagnósticos de patologia e o quiromante C apenas 04 (entre 24), o número de falsos positivos e falsos negativos não diferiu de 50% dos diagnósticos de normal ou patológico feitos pelos quatro quiromantes. Isto significa que não há, sequer, capacidade de detecção específica ou só de normais ou só de doentes. Discussão e Conclusão Nos Estados Unidos, uma pesquisa do Instituto Gallup (Gallup Jr. & Newport, 1991) revelou que apenas 51% dos americanos não acreditava em previsão de futuro. Parece razoável esperar que, no Brasil, este número seja ainda menor. Mesmo assim, não foi possível detectar qualquer capacidade preditiva em quiromantes de Porto Alegre. Parece razoável supor que, se o destino não está determinado em algo tão nítido como linhas dérmicas, com menor probabilidade estará em formas de previsão nas quais não há contato direto com o consulente, como astrologia, tarot e outros jogos de cartas, jogos de búzios, etc. Em suma, não há indícios de que a quiromancia possa fazer previsões sobre o futuro dos indivíduos.
Renato Zamora Flores e Cláudia Maciel Szobot fazem parte do Departamento de Genética no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Ida V.D. Schartz e Thor Gunnar Olsten fazem parte do Hospital de Clínicas de Porto Alegre na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Artigo publicado originalmente em espanhol: Flores, R.Z.; Schwartz, I.V.D.; Szobot, C.M. y Olsten, T.G. Cual es el poder de predicción de la quiromancia? El Ojo Escéptico (Buenos Aires), 3 (9/10): 36-39,1994 Bibliografia
Comentários Vera Maria Cunha Rocha - veramrocha@clix.pt - Portugal, enviou em 06/12/2001 Sou Tradutora e estou neste momento a traduzir um livro sobre artes divinatórias. O meu intuito ao visitar este site era encontrar bases terminológicas para a execução do meu trabalho. Resolvi deixar esta mensagem porque me pareceu estar a ler um trabalho de uma pessoa credível e fundamentada. Caso tenham informações de sites ou outro tipo de bases terminológicas informem-me para o meu e-mail. Obrigada por haver alguém que não se entretem a enviar lixo para este mundo tão fascinante que é a internet.
Flavio - fgsgs@ime.usp.br - Magnífico.
Guilherme Sepulcri Salaroli - salaroli@mailbr.com.br - Gostei muito deste artigo, e cheguei a lelo pelo fato de vc ter participado do Programa Livre, ontem. Descobri este site e fiquei contente em saber que ainda existe em nosso país pessoas que buscam a verdade e não ilusões como forma de saber. Deixo meus parabens, e fico torcendo para que cada vez mais a mídia enfoque o verdadeiro, e não o absurdo. |