Publicado: 21/01/2001
de Renato Zamora Flores
Os seres humanos são especialmente hábeis em fazer planos, como se pode ver pelo grande desenvolvimento da parte anterior do cérebro, o córtex frontal, que ocupa 1/3 do volume total do cérebro, e que é responsável pelos planos futuros e pela sua coordenação. A tendência da mente humana para fazer planos e, conseqüentemente, tentar prever o futuro é tão forte que, muitas vezes, leva pessoas a ultrapassarem as regras mais básicas do bom senso e gastarem muito dinheiro com métodos para os quais não há nenhuma garantia de eficácia conhecida: astrologia, biorritmos, búzios, análise da escrita, leitura de mãos, numerologia, tarot e, mais recentemente, até algoritmos esotéricos. Os seres humanos querem muito acreditar que mantém o controle sobre o que está por vir. Mas, será que estes métodos fantásticos resultam em previsões acuradas? E, se não funcionam, como é que tantos acreditam neles? Se alguém está verdadeiramente convencido de que um destes fenômenos paracientíficos ocorrem, tem uma chance de ficar rico. A Fundação Educacional James Randi, em Fort Lauderdale, USA, oferece um prêmio de um milhão de dólares para quem demonstrar qualquer habilidade paranormal ou sobrenatural cuja performance, obviamente, será avaliada por especialistas .As instruções para os candidatos podem ser encontradas em: http://www.randi.org/research/challenge/challtxt.html. O prêmio já está à disposição há mais de 18 meses e, para surpresa de muitos, não há nem uma fila pequena de candidatos esperando a sua vez para demonstrar seus genuínos poderes. Assim, talvez o exame das razões que levam as pessoas a acreditarem em previsões e videntes seja mais interessante do que procurarmos pela eficiência de métodos paranormais. Estranhos Fenômenos Mentais Um dos fenômenos mais pitorescos estudados pela psicologia é o do auto-engano, a capacidade da mente de enganar a si mesmo. À primeira vista parece impossível que tal fenômeno ocorra conosco. Temos uma suposição generalizada de que a consciência ocupe um papel central em nossas vidas. Porém, pesquisas em áreas tão variadas como neurologia e psicanálise mostram que se auto-iludir é um comportamento muito disseminado e útil para a sobrevivência. E, pelo menos em algumas situações é possível perceber sua vantagem. É mais fácil enganar os outros quando se acredita na mentira. Um assassino cujo cérebro, pelo efeito de traumas psicológicos, esquece o fato, tem mais facilidade de iludir a polícia do que outro que tenha o crime vividamente na memória. O vidente, cuja memória seletiva faz com que se lembre dos seus acertos e esqueça os erros, relatará com genuína convicção as suas capacidades paranormais. O vidente, todavia, tentará fazer mais do que isso. Para obter a sua confiança, ele se aproveitará de um truque psicológico descrito cientificamente no século XIX, a validação subjetiva, que leva as pessoas a aceitarem descrições a seu respeito, tão vagas e imprecisas que poderiam ser aplicadas a qualquer outro indivíduo, como se fossem análises detalhadas de sua personalidade. Um teste pode servir de exemplo. Quando mostramos o texto abaixo para 20 adolescentes do sexo feminino, alunas de escolas públicas, informando a elas que se tratava de uma descrição de sua personalidade e, pedindo às jovens que dessem uma nota para quanto o texto era uma descrição parecida e acurada delas mesmas, a nota média foi 8,3, em uma escala de 10: "Você se agrada de que as pessoas gostem de você, ainda que, em muitas oportunidades, você seja muito crítico consigo mesmo. Apesar de que, para os outros, você pareça seguro e auto-confiante, muitas vezes, por dentro, você se sente frágil e desprotegido. De tempos em tempos, você é assaltado por dúvidas quanto às decisões que tomou, porém, na maior parte, você se percebe como uma pessoa de pensamento independente, que não aceita idéias alheias sem as evidências necessárias. O estilo "maria-vai-com-as-outras" não combina com sua personalidade."O texto é um conjunto de obviedades e de sentenças ambivalentes que se aplicam a qualquer pessoa e não identificam ninguém em particular. Sua identificação tão sólida com adolescentes de 14 anos sugere o quanto estão vulneráveis à manipulação por quem conheça o método. Um vidente hábil dispõe de vários textos similares adequados a cada cliente: homens, mulheres, jovens e velhos. O uso da validação subjetiva costuma ser acoplado a uma técnica denominada leitura fria, que consiste em fazer com que o cliente acredite que o vidente tem alguma capacidade sobrenatural de saber coisas sobre sua vida. A regra de ouro da leitura fria é: diga sempre para o ouvinte o que ele quer ouvir. Um exemplo da técnica, aplicada por um vidente, devidamente paramentado e em um ambiente místico, para uma mulher de classe média por volta dos 40 anos: A leitura fria funciona devido a um processo natural da mente que constrói e produz nexo a partir de informações fragmentadas. A mente tem uma profunda avidez por coerência. As ilusões de ótica são exemplos conhecidos desta tendência pelo nexo. Tendência esta que, por sua vez, é feita escolhendo algumas informações do ambiente e priorizando-as. Quando uma pessoa dirige um veículo à noite, muitas luzes se acendem e apagam. Mesmo sem que ele pense no assunto, o motorista seletivamente valoriza algumas delas (luzes de freio ou semáforos) e ignora outras (anúncios luminosos, por exemplo). Não estamos, em todos os momentos, abertos a qualquer tipo de informação com a mesma facilidade. Assim, tornamo-nos também vítimas de uma "tendenciosidade confirmatória" que é a predisposição para prestar mais atenção a fenômenos que confirmam nossas crenças do que naqueles que não as confirmam. Se alguém acredita que ocorrem mais acidentes automobilísticos em noites de lua cheia, terá sua atenção atraída para acidentes e notícias de acidentes nesta fase do mês. Quando questionado, afirmará, convicto, sua certeza de que a cada quatro semanas é melhor sair a pé de noite. Parece claro, então, que a causa da proliferação de profissionais das artes adivinhatórias é, em boa parte, conseqüência de uma certa ingenuidade mental congênita. Como o cérebro não é a prova de erros, pode ser iludido, as vezes, de maneira saudável como num show de mágica, noutras, de um modo mais sinistro, quando alguém é manipulado e enganado por meio de truques e artimanhas. Estar bem informado é o único antídoto para se proteger de ilusionistas predatórios. Para obter mais informações cientificamente corretas sobre previsões do futuro e métodos paranormais você pode consultar os sites da Sociedade da Terra Redonda, do Fórum Cético Brasileiro e do grupo Opção Racional.
Renato Zamora Flores é Professor do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1984, obteve o título de mestre em genética no curso de pós-graduação em genética e, em 1997, o título de doutor em ciências no programa de pós-graduação em genética e biologia molecular pela mesma universidade. É coordenador de projetos de extensão que presta atendimento clínico e psicológico em escolas e na Febem. Coordena também o ambulatório de genética do comportamento no departamento de genética da UFRGS, que atende crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos. Texto originalmente publicado no jornal Zero Hora, Caderno Cultura, 30 de Dezembro de 2000, pág. 3 Comentários
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