Daniel Sottomaior Publicado: 24/01/2002
Atualizado: 31/03/2002

NOTA DO EDITOR

   O seguinte texto foi escrito comentando um ensaio publicado na seção Cultura do Jornal da USP. O ensaio, intitulado "Revelações científicas do livro de Jó", foi escrito por Roberto C. G. Castro. Nele, Castro tenta fazer comparações da bíblia com a ciência, alegando que o livro bíblico tem suporte lógico e experimental.

   O texto de Daniel Sottomaior, seguido da tréplica "Uma outra forma de ver o mundo", foi publicado em http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2001/jusp580/caderno/opiniao.html. Por motivos de direitos autorais não reproduziremos aqui os textos de Roberto Castro. Leia também o texto "A Fé, a Crença e o Irracional", de Sérgio Santoro (cirurgião e mestre em medicina pela USP), publicado no site do Estadão, comentando este ensaio de Daniel Sottomaior. O texto do médico é muito próximo da carta que ele enviou ao Jornal da USP, publicada na edição subseqüente à tréplica. Esse texto é bastante similar à carta de Santoro que o Jornal publicou no número seguinte à tréplica.

PREVENDO O PASSADO

de Daniel Sottomaior


Há muitos milênios que o homem se assombra com fenômenos naturais. Reza a lenda que a chuva e o trovão, hoje tão prosaicos, eram fonte inesgotável de ahs e ohs. Hoje em dia, ter medo de eventos meteorológicos é completamente démodé. E ninguém mais pensa em adorar sistemas de baixa pressão. Afinal, até as crianças de quinta série já sabem de onde eles vêm. Sempre que o conhecimento científico substitui a ignorância, o misticismo se desfaz e os deuses encolhem.

A geografia básica matou o deus da chuva. Contudo, muitos mitos ainda permanecem, e o grande culpado continua sendo o desconhecimento. Diversos temas importantes para entender o mundo que nos cerca e o cérebro que nos move ainda estão ausentes do domínio público, e o resultado é... divino. Historicamente, os deuses e outras sobrenaturalidades sempre foram propostos para preencher os buracos do conhecimento disponível em cada época, e infelizmente isso ainda não mudou.

"Eu não sei como isso aconteceu, então foi [escreva aqui o nome da divindade de sua preferência]". Essa é a essência de muitas propostas místicas, na qual se baseia quase toda alegação de milagre ou profecia. E, no entanto, ela nada mais é do que um exercício de lógica falha. Em outras palavras, essa é uma falácia, a falácia divina. Só porque não conhecemos a causa de um evento, isso não significa que possamos explicá-lo como bem entendermos – com deuses ou sem eles.

Muitos apologistas religiosos afirmam que os livros sagrados de seu credo contêm profecias ou mesmo "revelações científicas". A idéia é mostrar que os autores desses livros tinham informações que não poderiam ter conseguido por meios naturais. Ao contrário do fogo que cai do céu, esse é um dos assombros ainda em moda hoje em dia. As supostas revelações são fenômenos perfeitamente naturais e ordinários, mas que continuam levando à adoração de deuses todos aqueles que não conhecem as explicações naturais para o fato.

Prever qualquer evento futuro com milhares de anos de antecedência parece mesmo notável. Bem, a verdade é que o método científico nos permite fazer exatamente isso, e com enorme precisão. Mas essa conquista já não assombra quase ninguém. A ciência é vítima do próprio sucesso.

Curioso seria caso se conseguisse o mesmo resultado sem usar a ciência, sem absolutamente nenhum esforço intelectual ou investigativo. E é esse feito que os religiosos reclamam para si. Roberto C. G. Castro, por exemplo, discorreu em recente ensaio publicado no Jornal da USP (edição 578, de 3 a 9 de dezembro de 2001, página 13) sobre o livro de , um dos livros sagrados cristãos. Para mostrar que há no livro algo de sobrenatural bastaria enumerar algumas previsões extraordinárias, certo?

Castro cita o capítulo 38: "Quem pode numerar com sabedoria as nuvens?Ou os odres dos céus, quem os pode despejar para que o pó se transforme em massa sólida e os torrões se apeguem uns aos outros?". Segundo ele, os versos "antecipam a forma como foram criados os planetas do sistema solar". Afinal, somente hoje dispomos de amplas evidências de que tanto planetas como estrelas se formam a partir de matéria dispersa, que se agrupa devido a forças gravitacionais. Não seria essa uma previsão fantástica, e que sugere um deus onisciente, onipotente, onipresente e ainda por cima onibenevolente?

Na verdade, não. Mas esse modo de pensar revela muito sobre a natureza humana, pois é produto de uma série de armadilhas lógicas e cognitivas. Para entender isso, é preciso começar examinando de que exatamente se constituem as chamadas "revelações". Quanta informação elas de fato revelam?

Desculpem-me por dizer o óbvio, mas quando se pretende descrever algum fenômeno da natureza, é preciso informar de qual fenômeno se trata, e em que condições acontece. A descrição "cresce para cima" é ótima para um pinheiro, mas péssima para um tijolo. "Tem bigode" é perfeito para meu tio hoje, mas não para o ano passado. Uma descrição tão incompleta não descreve nada porque ela se aplica a quase tudo. Em resumo, para uma previsão ter valor, ela precisa ser específica.

Seja, por exemplo, 4.357.934.672. O número é quase impossível de se acertar ao acaso, mas se você esperar alguns milênios, como no caso do livro de , ele certamente aparecerá na loteria de algum país, em alguma descoberta científica importante, ou mesmo no telefone do papa.

Como eu não disse exatamente do que se trata, a primeira semelhança que ocorrer em qualquer lugar do universo poderá ser tomada como um "acerto". Aliás, nem afirmei que se trata de uma previsão. Portanto, se eu der muito azar e o número nunca mais surgir em lugar algum, ninguém poderá me culpar. É esse tipo de "revelação" que muitos religiosos cantam em verso e prosa.

Previsões inespecíficas têm altíssima probabilidade de serem "verdadeiras" porque se elas não acertam o alvo pretendido, conseguem acertar outro devido à sua extensão ilimitada. Ou seja, todo astrólogo ou vidente ganha dinheiro enganando seus clientes com expedientes rigorosamente idênticos aos dos apologistas bíblicos. As previsões de Nostradamus foram todas escritas em forma de poesia. As do livro de também. Como a linguagem imprecisa e subjetiva convida à interpretação, mesmo quando o acerto não existe é possível encontrar uma distor..., digo, interpretação adequada que transforme patos em gansos.

O texto original não dá nenhuma indicação de que se refira à formação de planetas. Muito pelo contrário. O capítulo inteiro aborda fenômenos bem terrestres, até se chegar às nuvens. Através delas é que "odres" despejam (água) sobre a terra para que o pó se aglutine. Só associações livres e boa imaginação justificam igualar a formação de lama na Terra a complexos fenômenos gravitacionais que ocorrem no espaço independentemente de água. Interpretações desse tipo antecipam não a cosmologia, mas o desejo de crer, mesmo quando as evidências são solenemente inexistentes, ou até contrárias.

O mais impressionante nessas "revelações" é que elas são tão vagas que nunca nos informam sobre o futuro. Ou seja, elas não prevêem coisa alguma, não mostram nenhum conhecimento do autor e nada "antecipam", pois só se aplicam a eventos depois que eles aconteceram. Não são predições, são "pósdições". E prever o passado é realmente uma ciência exata.

Além disso, a distinção entre previsões e poesia é arbitrária. Por que a poeira se refere aos planetas, mas os odres dos céus são somente poesia? Os apologistas preferem enxergar previsões só onde eles já sabem que existem verdades, e os absurdos são atribuídos à linguagem poética, por definição. É por isso que a cada dia que passa, mais e mais trechos são entendidos como figurados. Mas é preciso lembrar que a bíblia inteira começou, e ainda permanece para muitos, como verdade literal do começo ao fim. É o deus dos buracos recuando.

Existem muitos mecanismos que explicam o poder que têm algumas idéias, mesmo quando são tão frágeis, de conquistar adeptos. Um desses mecanismos é o pensamento seletivo. Esse é o processo que leva alguém a selecionar evidências favoráveis para serem lembradas e focalizadas, ao mesmo tempo que se ignoram as evidências desfavoráveis. Castro cita, por exemplo, que a existência de lei físicas é outro mérito do livro de "numa época em que o comportamento dos elementos era explicado pela mitologia e pela religião". Mas não mostra diversos outros versos que depõem em contrário.

Eis alguns exemplos, entre outros: "onde estavas tu, quando eu [Deus] lançava os fundamentos da terra?" (38:4); "Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina?" (38:6); "Acaso entraste nos tesouros da neve, e viste os tesouros da saraiva, que eu tenho reservado para o tempo da angústia?" (38:22). Castro aponta que "o autor de sabia que a Terra ‘Paira sobre o nada’", mas 38:4-6 e 9:6 ("Ele é o que sacode a terra do seu lugar, de modo que as suas colunas [da Terra] estremecem") negam isso. Contudo, os apologistas não falam em previsões malogradas aqui, e a causa é o pensamento seletivo.

Segundo a história, o diabo teria afirmado que a fé de Jó só se devia a sua bem-aventurança. Para mostrar que o diabo estava errado, Deus lhe permite tomar tudo de Jó. Poucas coisas parecem mais cruéis do que, ano após ano, permitir os mais atrozes sofrimentos a quem o ama, por qualquer motivo que seja – quanto mais por uma aposta com o diabo. No entanto, a história de Jó é vista como uma celebração do "cuidado de Deus para com os seus filhos". Outros livros sagrados, como o Corão, têm "revelações científicas" que deveriam levar os cristãos a "suspeitar" que eles também contenham "verdades também no campo da ética e da teologia". Mas o pensamento seletivo não permite.

O reforço social é outro elemento que pode transformar qualquer idéia em forte crença através do apoio reiterado dos membros de uma comunidade. Freqüentemente, a mídia dá apoio tácito a alegações não fundamentadas ao não oferecer comentários minimamente críticos ou céticos mesmo às idéias mais absurdas.

Todos estamos sujeitos a esses enganos, em maior ou menor grau, mas nem todos sabem que eles existem. E eles são muito importantes porque servem para justificar qualquer coisa, inclusive a própria irracionalidade, com todos os seus nomes e variações. Se a sua namorada paga um astrólogo para saber se vocês combinam, se o seu chefe usa um grafologista para avaliá-lo, se o seu sócio contrata um numerólogo para a empresa, se a sua mãe consulta um homeopata para tratá-la, todos nós perdemos com isso. Fantasiar é muito bom, mas confundir fantasia com realidade e dar asas ao irracional não só é um enorme desperdício de recursos, como pode prejudicar muita gente. A história não poderia ser mais clara.

Comentários

Silvia - osnifpinto@uol.com.br - Amazonas Amazonas, enviou em 05/02/2002

Concordo plenamente sobre pensamento seletivo, e foi para fugir disso que abandonei minha religião, que dizia ser o único caminho para a salvação (Testemunhas de Jeová, lideradas pela Torre de Vigia de Brooklin, EUA). Sinto ter defendido por tanto tempo uma causa perdida, onde oque prevalece são opiniões humanas e que, como tal, estão sujeitas a erros absurdos, mas como vocês bem disseram poucos são os que sabem que estes erros e enganos existem. Sinto-me privilegiada por poder ser uma a menos nas fileiras dos enganados. Continuem com artigos esclarecedores como estes, contribuindo para a diminuição da ignorância, pois o pior inimigo do pensamento seletivo é a informação.

Flavio Guardiano de Souza - fgsgs@ime.usp.br - São Paulo São Paulo, enviou em 30/01/2002

Veja que coisa: um ensaio no jornal de cultura da USP apresentando idéias obscurantistas. Da pra ter uma idéia do poder que têm os religiosos na manipulação da massa inculta. Parabéns ao Daniel por este belo ensaio, que lança um pouco de luz - como diria Carl Sagan - neste mundo assombrado por demônios.
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.