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de Carl Sagan
Mas você não precisa passar quatro anos em um curso superior para entender isso. Todo mundo sabe disso. O problema é que carros usados são uma coisa, e comerciais de televisão ou pronunciamentos de presidentes e líderes de partidos são outra bem diferente. Nós somos céticos em algumas áreas mas infelizmente não em outras. Por exemplo, existem alguns comerciais da aspirina que revelam que o produto da concorrência tem somente um certo tanto do componente analgésico que os médicos mais recomendam - eles não dizem que componente misterioso seria esse - enquanto que o produto deles tem uma quantidade bem maior (1,2 a 2 vezes mais por comprimido). Portanto você deve comprar o produto deles. Mas por que não tomar dois comprimidos do produto concorrente? Não se deve perguntar. Não aplique ceticismo a esta questão. Não pense. Compre. Essas afirmações em comerciais constituem pequenos enganos. Eles nos tomam um pouco de dinheiro, ou nos induzem a comprar um produto ligeiramente inferior. Não é tão terrível. Mas considere isto: Tenho aqui o programa da Feira Vida Integral (Whole Life Expo) deste ano em São Francisco. Vinte mil pessoas compareceram no ano passado. Eis algumas palestras: "Tratamentos Alternativos para Pacientes de AIDS: reconstruindo as próprias defesas naturais e impedindo colapsos do sistema imunológico - conheça as últimas descobertas que a mídia ignorou até agora". Parece-me que essa palestra poderia fazer um mal bastante real. "Como Proteínas do Sangue Presas Causam Dor e Sofrimento". Em "Cristais, Seriam Eles Talismãs ou Pedras?" (eu tenho minha própria opinião), está escrito "assim como um cristal enfoca ondas de som e luz para rádio e televisão", mas aparelhos de cristal ainda estão muito distantes - "eles podem amplificar vibrações espirituais para o ser humano sintonizado". Eu aposto que muito poucos de nós estão sintonizados. Outra: "Retorno da Deusa, um Ritual de Apresentação." E outra: "Sincronicidade, a experiência do reconhecimento." Essa é apresentada pelo "irmão Charles". Ou, na página seguinte, "Você, Saint-Germain, e a cura pela chama violeta". E continua, com um monte de propagandas sobre "oportunidades" - indo do dúbio ao espúrio - que estão disponíveis na feira Vida Integral. Se você aparecesse na Terra em qualquer época durante a presença dos seres humanos, encontraria um conjunto de sistema de crenças populares mais ou mais menos similar. Elas mudam, freqüentemente com muita rapidez, freqüentemente ao longo de alguns anos: mas às vezes crenças desse tipo duram muitos milhares dos anos. Pelo menos algumas estão sempre disponíveis. E eu penso que é razoável perguntar por quê. Nós somos Homo sapiens. Essa é a característica que nos distingue, esse parte do sapiens. Nós deveríamos ser inteligentes. Então por que é que essas coisas sempre nos acompanham? Bem, para começar, muitos desses sistemas de crenças abordam necessidades humanas reais que não estão sendo providas por nossa sociedade. Existem necessidades médicas, espirituais e de comunhão com o resto da comunidade humana que não são satisfeitas. Pode haver mais falhas assim em nossa sociedade do que em muitas outras na história humana. E portanto é razoável que as pessoas fucem e experimentem, para ver se o tamanho serve, diversos sistemas de crenças, e vejam se eles ajudam. Por exemplo, pegue uma moda como a canalização de espíritos. Sua premissa fundamental, como o espiritualismo, é que quando morremos nós não exatamente desaparecemos, que alguma parte de nós continua. Essa parte, dizem, pode reentrar nos corpos de humanos e outros seres no futuro, e assim a morte perde muito da sua força para nós pessoalmente. E mais, nós temos uma oportunidade, se as afirmações da canalização forem verdadeiras, de fazer contato com entes queridos que morreram. Falando pessoalmente, eu adoraria que a reencarnação existisse. Eu perdi meus pais, os dois, nos últimos anos, e eu adoraria ter uma pequena conversa com eles, para contar o que as crianças estão fazendo, saber que tudo vai bem onde quer que eles estejam. Isso toca algo muito profundo. Mas ao mesmo tempo, eu sei que há pessoas que precisamente por essa razão tentarão tirar vantagem da vulnerabilidade de quem está de luto. É bom que os espiritualistas e os canalizadores tenham uma argumentação muito convincente. Ou tome a idéia de que se concentrando bem em formações geológicas pode-se descobrir onde estão os depósitos de minerais ou petróleo. Uri Geller afirma isso. Agora se você for um executivo de uma companhia de exploração mineral ou de petróleo, seu arroz e feijão dependem de encontrar os minerais ou o óleo: por isso, gastar uma quantidade desprezível de dinheiro para encontrar depósitos psiquicamente, comparada com o que você geralmente gasta na exploração geológica, não soa tão mal. Você pode ficar tentado. Ou pense nos OVNIs, na afirmação de que seres em naves espaciais de outros mundos estão nos visitando toda hora. Eu acho essa uma idéia fascinante. É no mínimo uma ruptura do ordinário. Eu gastei uma boa quantidade de tempo em minha vida científica trabalhando na busca de inteligência extraterrestre. Pense em quanto esforço eu poderia economizar se esses camaradas estiverem vindo pra cá. Mas quando reconhecemos alguma vulnerabilidade emocional a respeito de uma alegação, é bem aí que temos que nos esforçar ao máximo no escrutínio cético. É aí que nós podemos ser enganados. Agora, reconsideremos a canalização. Existe uma mulher no estado de Washington que afirma fazer a contato com alguém de 35.000 anos atrás, "Ramtha" - que por sinal, fala inglês muito bem, com o que me parece ser um sotaque indiano. Suponha que Ramtha estivesse aqui e suponha que Ramtha cooperasse conosco. Poderíamos fazer algumas perguntas: como sabemos que Ramtha viveu há 35.000 anos? Quem está contando esses milênios? São exatamente 35.000 anos? Esse é um número bastante redondo. Trinta e cinco mil mais ou menos quanto? Como eram as coisas há 35.000 anos? Como era o clima? Em que parte da Terra Ramtha viveu? (eu sei que ele fala inglês com um sotaque indiano, mas onde foi isso?) O que Ramtha come? (os arqueólogos sabem algo sobre o que as pessoas comiam naquela época.) Nós teríamos uma oportunidade real de descobrir se suas afirmações são verdadeiras. Se fosse realmente alguém de 35.000 anos atrás, poderíamos aprender sobre essa época. Assim, de um jeito ou de outro, ou Ramtha tem mesmo 35.000 anos, e nesse caso nós descobrimos alguma coisa sobre esse período - que é antes da idade de gelo de Wisconsin, uma época interessante - ou ele é falso e uma hora vai escorregar. Quais são as línguas indígenas, qual é a estrutura social, com quem Ramtha vive - filhos, netos - como é o ciclo de vida, a mortalidade infantil, que roupa ele usa, qual sua expectativa de vida, suas armas, plantas e animais? Conte para nós. Mas não, o que ouvimos são as homilias mais banais, indistinguíveis das que os alegados ocupantes de OVNIs contam aos pobres seres humanos que afirmam ter sido seqüestrados por eles. Ocasionalmente, por sinal, eu recebo uma carta de alguém que está "em contato" com um extraterrestre que me convida a "perguntar qualquer coisa". E eu tenho uma lista de perguntas. Os extraterrestres são muito avançados, lembrem-se. Portanto eu peço coisas como "por favor forneça uma prova curta do último teorema de Fermat (Nota 1)". Ou da conjetura de Goldbach. E eu tenho que explicar o que são essa coisas, porque os extraterrestres não as chamarão de último teorema de Fermat, então eu escrevo uma pequena equação com expoentes. E nunca me respondem. Por outro lado, se eu perguntar algo como "humanos devem ser bons?" eles sempre me respondem. Acho que alguma coisa pode ser deduzida desta habilidade diferencial de responder a perguntas. Qualquer pergunta vaga é respondida com muito prazer, mas qualquer coisa específica, em que haja a possibilidade de se descobrir se eles realmente sabem alguma coisa, só encontro o silêncio. O cientista francês Henri Poincaré afirmou o seguinte sobre por que a credulidade é avassaladora: "também sabemos quão cruel a verdade freqüentemente é, e nos perguntamos se a ilusão não é mais consoladora". Foi isso que tentei dizer com meus exemplos. Mas eu não penso que essa seja a única razão de a credulidade ser avassaladora. O ceticismo desafia instituições estabelecidas. Se ensinarmos a todos, digamos os estudantes do ensino médio, o hábito de ser céticos, talvez essas pessoas não restrinjam seu ceticismo a comerciais da aspirina e canalizadores de 35.000 anos (ou canalizados). Talvez eles comecem a fazer perguntas difíceis sobre instituições econômicas, sociais, políticas ou religiosas. E onde iremos parar? O ceticismo é perigoso. Essa é exatamente sua função, no meu ponto de vista. É função do ceticismo ser perigoso. E é por isso que há uma grande relutância para ensiná-lo nas escolas. É por isso que você não encontra uma fluência geral em ceticismo na mídia. Por outro lado, como dominaremos um futuro muito perigoso se não tivermos as ferramentas intelectuais mais elementares para fazer perguntas investigativas àqueles nominalmente no comando, especialmente em uma democracia? Eu penso que este é um momento útil para refletir sobre o tipo de problema nacional que poderia ter sido evitado se o ceticismo fosse mais disponível na sociedade norte-americana. O fiasco Irã/Nicarágua é um exemplo tão óbvio que não vou tirar vantagem do nosso pobre e cercado presidente [Reagan] ao comentar o assunto. A resistência do governo a um tratado detalhado de proibição completa de testes e a sua paixão contínua por detonar armas nucleares - um dos principais motores da corrida armamentista nuclear - sob o pretexto de nos deixar fazer "seguros" é uma dessas questões. O programa Guerra nas Estrelas também. Os hábitos de pensamento cético que o CSICOP incentiva têm relevância para matérias da maior importância à nação. Há absurdos o suficiente promulgados por ambos os partidos políticos para que o hábito do ceticismo imparcial deva ser declarado um objetivo nacional, essencial para nossa sobrevivência. Quero falar um pouco mais sobre o ônus do ceticismo. Você pode começar um hábito de pensamento que lhe dê prazer em zombar de todas as pessoas que não vêem as coisas com tanto cuidado como você . Este é um verdadeiro perigo social potencial em uma organização como CSICOP. Temos que nos proteger com cuidado contra ele. Parece-me que é necessário um equilíbrio muito cuidadoso entre duas necessidades conflitantes: o escrutínio mais cético de todas as hipóteses que nos são oferecidas e ao mesmo tempo uma grande abertura a novas idéias. Obviamente que essas duas modalidades do pensamento estão em alguma tensão. Mas se você puder exercitar somente uma delas, qualquer que seja, você tem um problema sério. Se você for somente cético, então nenhuma idéia nova chega até você. Você nunca aprende nada de novo. Você se transforma em uma velho excêntrico convencido de que besteiras governam o mundo (evidentemente que há muitos dados para lhe dar apoio.). Mas de quando em quando, talvez uma vez em cem casos, uma nova idéia acaba acertando, válida e maravilhosa. Se você estiver no hábito demasiado forte de ser cético com tudo, você não a perceberá ou se sentirá agredido, e de qualquer maneira estará barrando o caminho da compreensão e do progresso. Por outro lado, se você estiver aberto ao ponto de ser crédulo e não tiver um grama de ceticismo, então você não conseguirá distinguir as idéias úteis das sem valor. Se todas as idéias tiverem validade igual então você está perdido, porque então, me parece, nenhuma idéia tem validade alguma. Algumas idéias são melhores do que outras. O aparato para distingui-las é uma ferramenta essencial para lidar com o mundo e especialmente com o futuro. E é precisamente a mistura dessas duas modalidades de pensamento que é central ao sucesso da ciência. Os cientistas realmente bons fazem ambas as coisas. Quando não há ninguém por perto, falando sozinhos, eles criam um monte de idéias novas e as criticam sem piedade. A maior parte das idéias nunca chega ao mundo exterior. Somente as idéias que passam por rigorosos filtros pessoais conseguem sair e são criticadas pelo restante da comunidade científica. Acontece às vezes que as idéias que são aceitas por todos acabam por se mostrar erradas, ou ao menos parcialmente erradas, ou ao menos substituídas por idéias mais gerais. E, se por um lado naturalmente existem algumas perdas pessoais - vínculos emocionais a idéias que você mesmo ajudou a criar - não obstante a ética coletiva é de que toda vez que uma idéia assim cai e é substituída por algo melhor, a ciência beneficiou-se. Em ciência freqüentemente acontece que os cientistas digam "sabe, esse é um argumento bom mesmo; minha posição está errada", e então mudam mesmo de idéia e você nunca mais ouve aquela visão antiga. Isso acontece mesmo. Não tão freqüentemente como deveria, porque os cientistas são humanos e a mudança às vezes é dolorosa. Mas acontece todos os dias. Mas ninguém consegue lembrar qual foi a última vez em que algo assim aconteceu na política ou na religião. É muito raro que um senador, por exemplo, diga "esse é um bom argumento. Vou mudar minha afiliação política." Eu gostaria de dizer algumas coisas sobre as entusiasmadas reuniões na busca por inteligência extraterrestre (SETI) e sobre linguagem de animais em nosso encontro do CSICOP. Na história da ciência há uma instrutiva seqüência de grandes batalhas intelectuais que no fim, todas elas, acabam sendo sobre quão centrais são os seres humanos. Podemos chamá-las de batalhas sobre a arrogância anti-Copernicano. Eis algumas das questões: Nós somos o centro do universo. Todos os planetas, estrelas e o sol e a lua giram em torno de nós (puxa, isso que é querer ser realmente especial.) Essa era a opinião que prevalecia - Aristarco à parte - até a época de Copérnico. Muitas pessoas gostavam dela porque ela lhes dava uma injustificada posição central pessoal no universo. O mero fato de estar na Terra os fazia privilegiados. E a sensação era ótima. Depois surgiu a evidência que a Terra era somente um planeta e que aqueles outros pontos brilhantes de luz que se mexiam também eram planetas. Decepcionante. Deprimente até. Era melhor quando éramos centrais e únicos.
Há outros exemplos importantes - sistemas de referência privilegiados na física e a mente inconsciente na psicologia - que nem abordarei. Eu afirmo que na tradição deste longo conjunto de debates - e cada um deles foi ganho pelos Copernicanos, aqueles que dizem que não há nada muito especial sobre que nós - havia uma profunda corrente emocional subliminar nos debates em ambas as sessões de CSICOP que mencionei. A busca por inteligência extraterrestre e a análise de possíveis "línguas" animais ataca um dos últimos sistemas restantes de crenças de pré-Copernicanas:
Agora, vamos examinar melhor a busca em sinais rádio por inteligência extraterrestre. Em que isso é diferente de pseudociência? Vejamos alguns casos reais. No começo dos anos sessenta, os soviéticos deram uma entrevista coletiva em Moscou anunciando que uma distante fonte de rádio, chamada CTA-102, estava variando senoidalmente (como uma onda de seno), com um período de aproximadamente 100 dias. Por que convocaram uma coletiva para anunciar que uma fonte de rádio distante estava variando? Porque pensaram que fosse uma civilização extraterrestre de enorme poder. Vale a pena chamar uma coletiva por isso. Isso foi antes mesmo que a palavra "quasar" fosse criada. Hoje nós sabemos que a CTA-102 é um quasar. Ainda não sabemos muito bem o que os são quasares, e há mais de uma explicação mutuamente exclusiva, para eles na literatura científica. Não obstante, poucos consideram seriamente que um quasar, como CTA-102, seja alguma civilização extraterrestre circundando a galáxia, porque existem diversas explicações alternativas de suas propriedades que são mais ou mais menos consistentes com as leis físicas que conhecemos sem invocar vida extraterrestre. A hipótese extraterrestre é uma hipótese de último recurso. Somente se tudo mais falha você a tenta. Segundo exemplo: cientistas britânicos encontraram em 1967 uma intensa fonte de rádio próxima que flutuava em um tempo mais curto, com um período constante em dez algarismos significativos. O que era? Sua primeira idéia foi a de algo como uma mensagem sendo emitida para nós, ou uma baliza de navegação interestelar para naves espaciais que andam entre estrelas. Chegaram a lhe dar, entre eles na universidade de Cambridge, o irônica nome de LGM-1, Little Green Men (Homenzinhos Verdes). Porém (eles eram mais sábios do que os soviéticos), eles não convocaram uma coletiva, e logo ficou claro que o que tínhamos era o que se chama agora um "pulsar". Na verdade era o primeiro pulsar, o pulsar da nebulosa de Caranguejo. Bem, e o que é um pulsar? Um pulsar é uma estrela encolhida ao tamanho de uma cidade, que se mantém coesa de maneira diferente de qualquer outra estrela, não pela pressão de gás, não pela degeneração de elétrons, mas por forças nucleares. É de certa maneira um núcleo atômico do tamanho de Pasadena (Nota 3). E acho que essa é uma idéia pelo menos tão bizarra quanto uma baliza de navegação interestelar. A resposta a o que é um pulsar deve ser algo bem estranho. Não é uma civilização extraterrestre, é outra coisa: mas uma outra coisa que abre nossos olhos e nossas mentes e indica possibilidades na natureza que ainda não tínhamos adivinhado. E existe a questão dos falsos positivos. Frank Drake em sua original experiência de Ozma; Paul Horowitz no programa do META, Análise do Megacanal Extraterrestre (MEgachannel ExTraterrestrial Assay), patrocinado pela sociedade planetária; o grupo da universidade de Ohio e muitos outros grupos detectaram sinais anômalos que faziam o coração palpitar. Eles pensaram por um momento que tinham detectado um sinal genuíno. Em alguns casos não temos a menor idéia do que era, os sinais não se repetiram. Na noite seguinte você gira o mesmo telescópio para o mesmo ponto no céu com a mesma modulação e a mesma freqüência e todo o resto igual, e não ouve nada. Você não publica os dados. Pode ser um mau funcionamento no sistema da detecção. Pode ser um avião militar AWACS voando por ali e transmitindo em canais de freqüência que deveriam ser reservados para a radioastronomia. Pode ser uma máquina diatérmica (Nota 4) na sua rua. Há muitas possibilidades. Você não declara imediatamente que encontrou inteligência extraterrestre quando encontra um sinal anômalo. E caso se repetisse, então você anunciaria? Não. Talvez seja uma armação. Talvez seja algo que esteja acontecendo com o seu sistema que você não foi suficientemente inteligente para descobrir. Ao invés disso, você chamaria cientistas em um monte de outros radiotelescópios e diria que neste ponto específico do céu, nesta freqüência e filtro e em modulação e em todo o resto, parece que você detecta uma coisa estranha. Poderiam dar uma olhada e ver se acham algum coisa parecida? E somente se diversos observadores independentes conseguem o mesmo tipo da informação do mesmo ponto no céu você pensa que tem alguma coisa. Ainda assim você não sabe se aquela coisa é uma inteligência extraterrestre, mas pelo menos você determinou que não é algo na Terra. (e que também não está na órbita da Terra; está mais longe que isso.) Essa é a primeira seqüência de eventos que seriam necessários para estar certo de que você realmente teve um sinal de uma civilização extraterrestre. Note que há alguma disciplina envolvida. O ceticismo impõe um ônus. Você não pode sair gritando "homenzinhos verdes" porque vai parecer bem tolo, como aconteceu com os soviéticos e o CTA-102, quando no fim das contas for uma coisa bem diferente. É necessário um cuidado especial quando há tanta coisa em jogo como nesse caso. Nós não temos a obrigação de nos decidirmos antes de achar as evidências. Não tem problema não ter certeza. Freqüentemente me perguntam se eu acho que exista inteligência extraterrestre. Eu dou os argumentos padrões - há muitos lugares lá fora, e uso a palavra bilhões, e assim por diante. E aí eu digo que seria incrível para mim se não houver uma inteligência extraterrestre, mas naturalmente não há até agora nenhuma evidência forte a favor dela. E aí me perguntam então, "é, mas o que acha de verdade?" E eu digo "acabei de dizer o que realmente penso". "Ok, mas o que a sua intuição diz?" Mas eu tento não pensar com minha intuição. Não há problema em adiar o julgamento até que a evidências cheguem. Depois que meu artigo "A Bela-Arte da Detecção de Asneiras" saiu na revista Parade (1 de fevereiro de 1987), ele recebeu, como você pode imaginar, muitas cartas. Sessenta e cinco milhões de pessoas lêem Parade. No artigo eu dei uma longa lista das coisas que eu afirmei serem "asneiras demonstrado ou presumido" - trinta ou quarenta itens. Pessoas que apoiavam todas aquelas idéias estavam igualmente ofendidas, portanto eu recebi montanhas de cartas. Eu também dei um conjunto de instruções bem simples sobre como pensar sobre asneiras- argumentos de autoridade não são válidos, cada etapa na cadeia de evidências tem que ser válida, e assim por diante. Muitas pessoas escreveram dizendo "você está absolutamente certo nas generalidades; infelizmente isso não se aplica à minha doutrina particular". Por exemplo, uma pessoa escreveu que a idéia de que a vida inteligente existe fora da terra é um exemplo excelente de asneira. Ele concluiu: "estou tão certo disso como de qualquer outra coisa em minha experiência. Não há nenhuma vida consciente em qualquer outra parte do universo. A humanidade retorna assim a sua justa posição como o centro do universo". Outra pessoa também concordou com todas as minhas generalidades, mas disse que como um cético inveterado eu fechei minha mente à verdade. Mais notável é que eu tenha ignorado a evidência para uma Terra cuja idade seja de seis mil anos. Bem, eu não a ignorei; eu considerei a evidência apresentada e então a rejeitei. Há uma diferença, e esta é uma diferença, pode-se dizer, entre preconceito e o "pósconceito". O preconceito faz um julgamento antes de olhar os fatos. Pósconceito faz o julgamento depois. O preconceito é terrível, no sentido de que você comete injustiças e erros sérios. Pósconceito não é terrível. É claro que você não pode ser perfeito; você também comete erros. Mas é permissível fazer um julgamento depois de ter examinado as evidências. Em alguns círculos é até incentivado. Eu acredito que parte do que propele a ciência é a sede de maravilhamento. É uma emoção muito poderosa. Todas as crianças a sentem. Em uma sala de aula de primeira série todos a sente; em uma sala de aula do último ano do ensino médio quase ninguém a sente, ou sequer a reconhece. Algo acontece entre essa primeira e última séries, e não é só a puberdade. Não somente as escolas e a mídia não ensinam muito ceticismo, mas também há pouco incentivo dessa agitante sensação de maravilhamento. Ciência e pseudociência, ambos despertam esse sentimento. Popularizações pobres da ciência estabelecem um nicho ecológico para a pseudociência. Caso se explicasse a ciência ao indivíduo médio de uma maneira que fosse acessível e emocionante, não haveria espaço para a pseudociência. Mas há um tipo da Lei de Gresham (Nota 5) que estabelece que na cultura popular a ciência ruim tira o espaço da boa. E penso que a culpa disso é, em primeiro lugar, de nós na comunidade científica por não fazer um trabalho melhor na popularização da ciência, e em segundo, a mídia, que é nesse sentido quase uniformemente terrível. Todo jornal na América tem uma coluna diária de astrologia. Quantos têm uma coluna ao menos semanal de astronomia? E eu acredito que também é culpa do sistema educacional. Nós não ensinamos como pensar. Esta é uma falha muito séria que pode até, em um mundo equipado com 60.000 armas nucleares, comprometer o futuro da humanidade. Eu afirmo que existe muito mais maravilha na ciência do que na pseudociência. E além disso, em qualquer medida que este termo tenha algum sentido, a ciência tem a virtude adicional, que não é pequena, de ser verdadeira. Notas:
1 - O último teorema de Fermat já foi resolvido. E foi por humanos.
Comentários
Laylah - akalele@bol.com.br -
Essa perspectiva de Sagan é muito rica e gostaria de saber se ele a abordou em algum outro artigo ou livro. Nesse, ele se refere ligeiramente ao inconsciente – “As predisposições emocionais nestas questões estão presentes, freqüentemente de maneira inconsciente, em debates científicos. É importante perceber que os debates científicos, assim como os pseudocientíficos, podem ser encharcados de emoção, por estas razões e muitas outras.
Essas colocações que ele faz, enfocam o cerne do problema do sapiens - O DESEJO/necessidade e a sua permanente frustração em tê-los todos satisfeitos É importante frisar que Desejo e Necessidade não são exatamente iguais e que nenhuma sociedade chegou ainda a suprir o ser humano nas suas necessidades mais básicas. Sempre houve uma defasagem escandalosa entre o atendimento dessas necessidades entre a base e o topo da pirâmide social e, mesmo aqueles que se situam no topo não se sentem satisfeitos – sempre falta algo. E, esse algo, que ao fim ao cabo é o Desejo fica mascarado pelas necessidades não satisfeitas da humanidade em geral.
Afortunados ou não, somos acossados pelo Desejo. E quando se fala de inconsciente estamos falando de algo profundamente misterioso e controvertido. Como a humanidade tem lidado com as frustrações de que Sagan fala e como tem lidado com o Desejo, essa inquietude vaga, exigente e poderosa?
E então, é mais do que válido que nos aprofundarmos nessa zona de sombras, onde a ciência não ousa se aventurar – ou pelo menos, não ousava. A ciência é muito jovem em relação a presença do ser humano no planeta e desde que se divorciou da protociência tem olhado para fora, para o hard. Quem olha para dentro? Que significados estão contidos no inconsciente coletivo dessa fantástica saga de interações? Essas crenças arraigadas não seriam parte de um universo intrapsíquico? Sim, o ceticismo é necessário e admiro Sagan pela sua postura, embora a considere uma trincheira excessivamente fortificada. Mesmo assim, “ Contato” constitui para os mortais comuns, um leve e significante arranhão na mesma.
É claro que uma verdade subjetiva, uma estratégia pessoal de sobrevivência não tem como tornar-se uma verdade universal. Mas, e quando as estatísticas apontam a grandeza de experiências subjetivas semelhantes, isso não importa?Isso não merece ser investigado?
Daniel Sottomaior - Sottomaior@str.com.br -
1- Em primeiro lugar, cabe considerar que perguntas do tipo "por que" freqüentemente não têm sentido na natureza, pois elas estão atreladas a propósitos (característica de seres consicentes), e assim elas têm implícita a hipótese teísta. São perguntas carregadas e enganadoras.
Caso alguém esteja realmente interessado em ter olhares críticos para tudo que o cerca, e em especial as afirmações sobrenaturais e extraordinárias, a resposta a essa pergunta é absolutamente indiferente. Conhecê-la ou não também não vem ao caso na jornada em direção à busca do que é sustentado por evidências. Contudo, eis uma possível resposta: não sabemos -- ao menos por enquanto.
De um jeito ou de outro, a ignorância não nos autoriza a acreditar em alucinações e chutes de religiosos que os dão como certezas eternas. Os religiosos somente contabilizam os supostos acertos dos seus livros sagrados e as alucinações de alguns de seus membros, e cada novo erro é empurrado para a universal desculpa "mas essa história não deve ser levada ao pé da letra" ou outra hipótese ad hoc qualquer. Uma das diferenças entre o ceticismo e a credulidade é que o primeiro esbanja honestidade e humildade no que diz respeito ao conhecimento. Quando algo é incerto ou simplesmente desconhecido, a ciência o admite prontamente e ao mesmo tempo ataca o problema e procura hipóteses para conhecer cada vez mais, enquanto o crédulo se satisfaz com qualquer explicação que lhe convenha ou que apele à sua estética, aos seus desejos e suas paixões e predileções. Já os céticos costumam preferir a verdade.
2 - Bem, dizer que há vestígios mas não provas da vida após a morte é um enorme eufemismo. É o mesmo que dizer que há vestígios mas não provas da presença de extraterrestres inteligentes no planeta fazendo círculos em plantações, construindo pirâmides, raptando pessoas, etc. Em outras palavras, há quem acredite nisso apesar das abundância de fraudes e da inexistência de evidências reprodutíveis e confiáveis.
De qualquer maneira, quem pede provas do contrário comete duas falácias: inverte o ônus da prova, que é de quem afirma a existência ou faz afirmações extraordinárias (ou os dois, no caso), e também pede a prova da inexistência, que é sempre impossível, inclusive para o Papai Noel e outras ficções menos populares do que a sobrevivência da consciência.
Além disso, existe uma abundância enorme de evidências de que o cérebro é origem e sede da consciência, e não nada exterior a ele, o que por si só já é um excelente indicador.
3 - Existem duas hipóteses embutidas na pergunta: a de que existe não só inteligência como muita inteligência na "construção" de seres vivos (ou na dos humanos, não vem ao caso), e a de que esses seres são "perfeitos". Sensações de ridículo realmente não são grande evidência, mas demonstram claramente como a posição crédula se deixa levar pelos sentimentos próprios ao invés de se basear em evidências. Portanto, cabe antes a quem a propõe provar essas hipóteses.
De qualquer maneira, uma possível resposta à pergunta é: não há nenhuma evidência de que algum processo não-natural ou consciente guie a evolução das espécies. Se alguém quer provas contrárias não só está invertendo novamente o ônus da prova como precisa definir antes que evidências seriam essas, o que deixa espaço para pedir provas impossíveis como a da inexistência, recurso comum aos teístas e criacionistas. Se alguém deseja discutir a sério o sobrenatural e o extraordinário, precisa adiantar seus argumentos nesse sentido para que possam ser refutados, pois a ciência prescinde dessas hipóteses para explicar a natureza, e vem tendo enorme sucesso nisso.
Vitor - f.s4@clix.pt - Portugal, enviou em 10/05/2001
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