Publicado: 13/07/2000
de Mike Sofka, Amy Bix e Beth Wolszon
Recentemente o moderador Taner Edis postou uma pergunta na lista de e-mail cética (skeptic-request@listproc.hcf.jhu.edu). Ele notou que dentre dos primeiros nomes identificáveis, por volta de 13% dos leitores são mulheres. A maior parte dos usuários da Internet são homens e Taner lembrou que isso poderia explicar a diferença, mas sua experiência com os grupos céticos locais o levou a perguntar se haveria outras razões. O assunto "por que há tão poucas mulheres no ceticismo" já foi discutido na skeptic, e também na alt.sci.skeptic. Algumas das primeiras respostas (tanto de homens como de mulheres) à pergunta de Taner sugeriam que, por natureza ou criação, as mulheres podem ter uma personalidade menos voltada a confrontações do que homens, ou talvez elas sejam menos inclinadas a aceitar a ciência, e mais, a ir a feiras de mediunidade e da Nova Era. Os dois artigos a seguir, de Amy Bix e Beth Wolszon, são da segunda rodada de respostas, e injetam um pouco de ceticismo nessas especulações iniciais. Mike Sofka, Editor Por Que Há Tão Poucas Mulheres em Grupos Céticos? É interessante ver essa questão aparecer novamente. Fico contente, já que ela é importante, e porque eu nunca fiquei satisfeita com as diversas respostas e explicações propostas. Em relação à lista de computadores, creio que o seu enfoque sobre a Internet como território masculino é uma peça chave. No entanto, isso não explica a escassez de mulheres nos grupos céticos locais. Vou aderir à relativa escassez de mulheres em campos científicos em geral como outra peça chave. No entanto, nunca fiquei satisfeita com isso como explicação completa - parece superficial demais. Comecei a divagar a respeito de outros três fatores (e divagar é a palavra certa; eles estão escritos meio que vagamente):
Não estou muito contente com a maneira com que escrevi o que está aí e certamente não acho que isso seja uma explicação completa, mas pode haver idéias nas quais valha a pena pensar. Amy Bix é Profesora Assistente de História da Tecnologia e da Ciência na Iowa State University As Mulheres São Menos Céticas Que Os Homens? As mulheres são realmente menos céticas/mais crédulas que os homens? O que exatamente se definiu como "crença no paranormal"? Eu imagino que os estudos2 consideraram as seguintes crenças tipicamente definidas como "paranormais" — PES, fantasmas, astrologia, fenômenos mediúnicos, etc. Mas existem diversas crenças irracionais que muitas pessoas mantêm e que não se encaixam na definição de "paranormais" mas que deveriam estar sujeitas ao mesmo nível de crítica. Se os estudos tivessem sido feitos com uma definição mais ampla de crenças 'irracionais', creio que os resultados mostrariam uma distribuição interessante. Vou defender a posição de que o nível de crença irracional/credulidade não tem correlação forte com o gênero, mas que o tipo talvez tenha. Em outras palavras, talvez os homens não sejam menos crédulos que as mulheres, mas simplesmente tenham menor probabilidade de aceitar outras formas de irracionalidade que os estudos não consideraram. Para ilustrar meu argumento, alguns exemplos: Aficionados por OVNIs: Acho bem razoável afirmar que neste campo da irracionalidade, há mais homens que mulheres. Rabdomancia: Caramba, perfuração de poços e companhias de prestação de serviço (em que geralmente predominam os homens nos trabalhos de campo) têm usado rabdomancia para localizar água e tubos subterrâneos, e sabe-se lá mais o quê. No Newsgroups da Usenet "homeowner" freqüentemente aparecem homens exaltando suas proezas rabdomantes, mas eu raramente vejo mulheres exaltando suas habilidades em localizar itens domésticos perdidos usando um cabide entortado. Mas peraí — se as mulheres são mais religiosas, talvez elas costumem rezar para Santo Antônio (ou será São Judas?) para ajudá-las. Conspirações: Me parece que muito mais homens que mulheres têm crenças paranóicas/irracionais de escala nacional ou mundial. Pelo menos, quando eu assisto programas de TV, são quase sempre homens que relatam algo sobre a comissão trilateral, etc. Esquemas de Enriquecimento Rápido: Já foi a um desses seminários de marketing multinível ou trabalho em casa? A maioria são homens e puxa, como eles querem acreditar que podem ficar ricos trabalhando dez horas por semana em casa! Eles pagam continuamente pelos livros, fitas e o que quer que o líder diga ser necessário para atingir o céu financeiro. Existe uma aura bem religiosa nesses encontros, mas o que se adora é o dinheiro e a 'liberdade pessoal'. Pode não ser espiritual, e portanto, nem classificado como nova era, mas ainda sim é irracional - prometendo resultados incríveis ou nada realistas a partir de pouco esforço. Baboseiras do Treinamento Empresarial: O gerenciamento de negócios, que ainda é predominantemente masculino, cai em peso nesse lixo. Eles acham que caminhar sobre brasas os ajudará a trabalhar melhor, assim como seminários sobre EST, ou que o feng-shui cria uma atmosfera favorável no escritório, ou que os perfis de personalidade Briggs-Meyers ajudarão todo mundo a se entender melhor. O que leva a outro tipo de besteira empresarial: checar funcionários — testes de honestidade, médiuns empresariais, grafólogos, tudo, até checar relatórios de crédito. Como um relatório de crédito vai dizer se um candidato é o mais adequado? A Co$3 entrou no ramo de treinamento empresarial, o que fala por si mesmo. Outra coisa, sabe-se bem que as pessoas são muito sensatas em alguns assuntos, e completamente irracionais em outros. (Estou pensando no Robert Sheaffer4). Será que o estudos deveriam adotar uma 'escala de prejuízo' baseados na probabilidade de certa crença gerar efeitos negativos em sua vida? Talvez isso fosse mais útil que discutir se homens ou mulheres são mais crédulos. "É claro, a Internet é um território predominantemente masculino, então parte da discrepância acima pode ser resumida nisso" [da pergunta original de Taner Edis]Vou jogar um pouco de gasolina nesse fogo com a seguinte citação: "O que descobri — reforçado pelos comentários de quem respondeu aos questionários — foi que mensagens longas e freqüentemente tendenciosas postadas por uma minoria de assinantes homens dispôs os termos do discurso do grupo como um todo, e intimidou outros — especialmente mulheres — levando-os a silenciar". (Susan Herring, Computer-Mediated Communication: Some Ethical and Scholarly Considerations)Sabichões não são figuras populares, mas homens têm probabilidade muito menor de receber um retorno negativo ao falar em tom autoritário. Mulheres freqüentemente notam um forte ar de reprovação, às vezes até de hostilidade, quando o fazem. Não são só os homens que reagem assim, e acho que as pessoas geralmente nem notam que agem dessa maneira. Mas a experiência me mostrou que se eu quero que minha mensagem seja transmitida, preciso suavizar minha apresentação, falar e agir de maneira mais amigável e suave, 'tipicamente feminina'. Se rompo o estereótipo, isso irá incomodar algumas pessoas, que não estarão pensando no que estou falando, porque se distrairão com a maneira como estou falando. Uma vez que na Internet a linguagem corporal não pode ser vista, o 'tom' do que escrevemos tem grande influência em como os outros nos percebem. Eu não acho que a maior parte dos homens que era vista como postando mensagens longas e tendenciosas era realmente mandão ou chato — aposto que simplesmente eles nunca consideraram o impacto de somente suas palavras. Ao passo que eu edito rigorosamente meu texto, sabendo que minha mensagem pode se perder na reação à maneira pela qual a apresento. Os céticos têm o mesmo problema — como persuadir suavemente as pessoas de crenças que lhes são caras ou interessantes, sem parecerem ser o asqueroso tipo sabichão. Talvez promover na forma de direitos do consumidor funcionasse... "Mas minha experiência com grupos céticos locais organizados é a mesma. Homens predominam" [continuando a pergunta de Taner]Propaganda ruim! Se mais mulheres conhecessem esses grupos, que não recebem muita atenção na grande mídia, haveria mais mulheres. Pensamento cínico - se um encontro cético fosse promovido como uma excelente maneira de se encontrar com homens profissionais, amigáveis e inteligentes, os encontros estariam lotados de mulheres. Marquem os encontros ou preguem os folhetos nas faculdades locais ou bibliotecas públicas, mas também em supermercados e cabeleireiros. Arranjem uma mulher como contato para quem quiser mais informações poder ligar. Se você quer atrair mulheres, vá onde elas se reúnem. Trabalhando em uma universidade pública, eu vejo uma variedade tão grande de pessoas com tantas crenças irracionais que não consigo acreditar seriamente que seja um defeito de um predominante de um gênero só. Beth Wolszon Beth Wolszon é Bibliotecária na University of Minnesota, Campus St. Paul. Notas 1 - Do inglês female-friendly, jogo de palavras da autora com o termo de computação "user-friendly". Voltar 2 - Beth Wolszon respondia a uma mensagem que dizia "E é claro, mulheres tendem a ser mais religiosas, têm crenças paranormais mais fortes nas pesquisas que a SI [Skeptical Inquirer] traz (nuts-and-bolts UFO's costumavam ser uma exceção, mas não sei como vão as coisas nas crenças em abduções. Nicholas Humphrey afirma que as mulheres 'como toda pesquisa contemporânea mostra, tendem a ter mais convicção de que a concepção científica do mundo está incompleta'".Voltar 3 - Church of Scientology — Igreja da Cientologia. Voltar 4 - RS é um crítico da ufologia que ocasionalmente discute feminismo no alt.sci.skeptic. Voltar Comentários
Vanina Heuser - vaninaheuser@hotmail.com - Acho ótimo que este assunto seja abordado. Já havia falado sobre isso antes com pessoas que também se faziam a mesma pergunta: Por que existem tão poucas mulheres nos grupos cético? Na minha opinião, isso ocorre principalmente pelo fato de que as mulheres são evidentemente mais vulneráveis a críticas (especialidade masculina), e esse medo aumenta com o fato de estarem em minoria nesses grupos. |