S.T.R. Publicado: 11/09/2001
Atualizado: 26/01/2002
OS VIVOS PODEM CONVERSAR COM OS MORTOS? MÉDIUNS DIZEM SE CONECTAR AO MUNDO DOS ESPÍRITOS, MAS CÉTICOS REAGEM: "PROVE"

de Greg Barrett
Gannett News Service


Se Cyndi Wallace é uma médium como ela afirma, porque ela inclui isso em sua mensagem de voice-mail: "Deixe-me seu nome, código de área e número do telefone..."

Ela não deveria saber?

Wallace, uma médium que cobra $95 a hora, diz que pode ler o futuro e se comunicar com os mortos, sabe que é um alvo fácil para a imprensa barata.É tentador, talvez até reconfortante descartar os psíquicos como um show à parte, os primos ciganos do jogo do monte. Fazer isso mantém nosso senso de limite e algum senso de controle.

Mas independente de os espíritos estarem tentando se comunicar conosco, nós estamos tentando nos comunicar com eles: pais com filhos falecidos; filhos com pais falecidos; conjuges com conjuges falecidos. Tanto céticos como crentes dizem que é este amor - e amor perdido - que guia nosso eterno desejo de falar com os mortos.

Um total de 28% dos americanos (10% a mais que em 1990) acredita que as pessoas podem ter notícias ou se comunicar mentalmente com os mortos, informa uma nova pesquisa do Gallup. Outros 26% não têm certeza, mas não excluem a possibilidade. Metade de todos os americanos acreditam em percepção extra-sensorial. E sabe-se que todos, de Hillary Clinton e Nancy Reagan a Adolf Hitler, já consultaram médiuns, famosos e obscuros.

"Esses não são as Shirley MacLaines do mundo comunicando-se com guerreiros assírios de 3000 anos de idade", diz Tom Smith, diretor do Levantamento Social Geral (General Social Survey), do Centro Nacional de Pesquisa de Opinião, na Universidade de Chicago, que informa que aproximadamente um em cada três americanos acredita ter pessoalmente se comunicado com os mortos.

"Claramente, este é um fenômeno que é muito comum, e particularmente comum àqueles que perderam alguém muito importante para eles".

James Randi"As pessoas não apenas querem que isso seja verdade, elas precisam que seja verdade. É a síndrome do sentir-bem", diz o cético James Randi, 72, cuja permanente oferta de um milhão de dólares para médiuns que possam comprovar sua "mágica" não foi reivindicada por quatro anos.

"Todos querem ser tranqüilizados sobre pessoas amadas que tenham morrido. Apenas uma vez eu gostaria de encontrar um espiritualista que diga, 'Oh, bem, desculpe. Ela foi para o inferno e não posso alcançá-la' ".

O médium John Edward diz aos telespectadores de seu popular programa na TV a cabo, Crossing Over With John Edward, que os "laços de amor" criados na Terra "continuam conosco depois de atravessarmos".

Desde sua estréia verão passado no Canal Sci Fi, Edward, que alega conversar com pessoas mortas, viu seu programa crescer de uma audiência de 275.000 famílias americanas para 614.000, e mudar de tarde da noite para o horário nobre, de domingo a quinta às 8 (horário do leste). Os ingressos para suas apresentações pessoais por todo o país tipicamente se esgotam semanas antes, e a lista de espera para uma consulta de 300 dólares em seu escritório em Huntington, NY, é de dois anos. Não admira que ele use um pseudônimo.

"A quantidade de pedidos que chegam aqui é absolutamente incrível", diz Edward, 31, nascido John MaGee Jr., filho de ombros largos e fala rápida de um policial de Nova York. Isso está ajudando a "satisfazer uma curiosidade, um desejo, uma necessidade de mais conhecimento da espiritualidade".

O Governo Duvida

Talvez sem o conhecimento da maioria das pessoas, você também investiu nos médiuns. Contribuintes americanos, entre 1972 e 1995, silenciosamente financiaram a profissão paranormal - seja ela genuína ou não.

Antes de romper seus laços com os médiuns em 1996, a CIA e várias agências de inteligência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos gastaram 20 milhões de dólares num esforço para transformar médiuns em satélites espiões. Detalhes sobre o programa estão sendo analisados para serem tornados não confidenciais, e podem ser publicados neste ano, diz a porta-voz da CIA Anya Guilsher.

A conclusão do governo: "Não foi promissor", diz Guilsher.

Não importa que em 1981 a médium Noreem Renier estivesse palestrando sobre percepção extra-sensorial na Academia do FBI em Quantico, Virginia, quando advertiu que o presidente Ronald Reagan teria um ferimento na parte superior do peito. Dois meses depois, o nome John Hinckley era notório.

Depois que os investigadores interrogaram Ranier e descartaram qualquer envolvimento seu com a tentativa de assassinato, ela diz que eles fizeram uma última pergunta:

"Você vê algum outro perigo para o presidente?" Ela não via.

Alguns São Crédulos

Se Deborah DePolo é uma médium como ela alega, porque ela não pode pagar seu próprio estúdio em vez de pegar emprestado o escritório do lobista ambiental Ronald Sykes em Washington, D.C.?

Ela não deveria simplesmente receber do além alguns números premiados da loteria?

DePolo brevemente não deverá precisar da loteria. Em três meses com seu trabalho de meio período como "conselheira espiritual" ela diz atender uma média de 10 clientes por semana, que pagam 60 dólares a hora. Em seu cartão de visitas lê-se o nome Danielle Armstrong, um pseudônimo, uma enganação comum em sua profissão.

"Eu não quis usar meu nome real porque a coisa toda ainda é uma espécie de tabu", diz DePolo, 42, a enteada de um mineiro de carvão em West Virginia e uma auto-proclamada médium com intensos olhos cinza que alega ter previsto as mortes de dois de seus noivos e do piloto de NASCAR Dale Earnhardt.

Em resumo, diz Paul Kurtz, presidente do Comitê para a Investigação Científica de Alegações do Paranormal, toda essa coisa de mediunidade é tolice.

"Mas por alguma razão, há todo esse furor... Certos membros do público são simplesmente crédulos", diz Kurtz, cuja revista Skeptical Inquirer tenta frustrar o misticismo. "O que John Edward e outros estão alegando fazer é um milagre. Tal alegação extraordinária requer provas extraordinárias".

Saquinhos de Chá e Lágrimas

Maxine Weaver, de Nebraska, acredita que sua prova, se não extraordinária, é extra-sensorial. Dez anos após sua filha Lindy se suicidar com um tiro na cabeça, Wallace, um médium de Maryland, descreveu-a perfeitamente para Weaver e disse que Lindy estava tentando falar com ela.

"Você se lembra dos saquinhos de chá?", Wallace perguntou para Weaver, que então começou a chorar. Seis meses após o suicídio de Lindy, em 1974, Weaver encontrara uma mensagem escrita por ela onde se lia "Eu te amo, mamãe". Estava escondida numa lata onde ficavam os seus saquinhos de chá.

"Ninguém mais sabia daquilo além de meu marido. Como pode ser uma farsa?", pergunta Weaver, 77, uma fiel metodista que freqüenta a igreja de sua infância em Humboldt, Nebraska. "Agora quando vou à igreja e ouço o pastor falar sobre algumas coisas, eu percebo que concordamos em grande parte, mas meus pensamentos neste momento vão um passo além".

Gary Schwartz, formado em Harvard, também acha ter provas. Seu Laboratório de Sistemas de Energia Humana, na Universidade do Arizona, é um local de testes sobre mediunidade. Dois anos atrás cinco médiuns, a que Schwartz se refere como o "Time dos Sonhos" (Edward entre eles), foram levados para Tucson e submetidos a uma bateria de testes rigidamente monitorados. Na média, os médiuns conseguiram 83% de acertos em revelar detalhes sobre outros (quando respondendo questões de sim ou não), uma pontuação que foi quase o dobro da porcentagem de arremessos de Micheal Jordan em sua vida, diz Schwartz, que aprova a metáfora do basquete.

"Se os médiuns estão dispostos a se levantar e serem contados, os cientistas deveriam estar dispostos a levantar-se e contá-los", diz Schwartz. "Se é real, será revelado, e se é uma farsa, nós encontraremos o erro".

Muitas Perguntas

Se a médium do Time dos Sonhos Laurie Campbell é tudo o que diz, por quê os fantasmas revelam, na maioria das vezes, informações mundanas para ela e falam em sentenças fragmentadas? E por quê Campbell faz tantas perguntas quantas responde?

Ela não deveria saber?

"Alguém na família tem um nome como Francis ou Frank ou Fred?", ela pergunta. "Há algum Adam, um nome com A, um Albert ou um Andrew"?

Céticos chamam esse tipo de questionamento de "leitura fria", uma metodologia que encoraja as pessoas a criarem seu próprio diálogo com os mortos. A teoria é que pessoas que querem acreditar, ou "precisam acreditar", como diz Randi, irão se focar nos acertos e esquecer os erros.

Em gravações de Crossing Over With John Edward minuciosamente examinadas por Randi, ele diz que Edward tem uma precisão de 13%. Num interrogatório de 45 segundos de um convidado do programa, Randi contou 23 perguntas de Edward, com três respostas corretas.

"James Randi iria contar os arremessos errados de Michael Jordan, mas não suas numerosas cestas espetaculares", diz Schwartz. "Em raras ocasiões John Edward pode ficar abaixo de 20%, mas na média sua porcentagem é extremamente alta, algumas vezes superando os 90%".

Ninguém do Time dos Sonhos de Schwartz irá desafiar Randi para o prêmio de 1 milhão de dólares, uma soma dada por doador anônimo dos Estados Unidos que gera de 50.000 a 60.000 dólares em juros anualmente para a fundação educacional paranormal de Randi. Randi é um cético eterno que nunca irá se converter, diz Schwartz.

"Não vamos ficar fazendo esforços mirabolantes para ele", diz Campbell, que está no pessoal de Schwartz na Universidade do Arizona. Randi "nunca irá deixar ninguém ganhar o prêmio. Se ele o fizesse, seu castelo de cartas cairia".

Sim, cairia, concorda Randi. "Façamos isso então", ele diz rindo. "Derrube meu castelo, Laurie".

Comentários

Mário Annuza - marioannuza@hotmail.com - Rio de Janeiro Rio de Janeiro, enviou em 24/01/2002

Achei esse texto fantástico. Seria ótimo se o grande James Randi viesse ao Brasil para desmascarar o charlatão Chico Xavier. Será que Chico Xavier tem medo do desafio de Randi? Por que ele não aceita o desafio e leva o prêmio de um milhão de dólares para fazer a sua suposta caridade?
  • O ensaio base original está disponível em http://www.usatoday.com/usatonline/20010620/3415680s.htm
  • Traduzido por: André Santos
  • Revisado por: Åsa Heuser
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.