Daniel Sottomaior
 
 
Estatísticas Oficiais da STR Publicado: 22/02/2001
Atualizado: 17/06/2001
   
                     
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Transcrito


No dia 13/02/2001, o Programa Frente & Verso da CNT teve como tema "Misticismo". Representando a S.T.R. e o pensamento cético e racional, esteve Daniel Sottomaior, Editor da Área S.T.R., juntamente com o jornalista Ricardo Bonalume Neto (http://www.geocities.com/saudeinfo/flores.htm). Estiveram também ... O texto seguinte corresponde à transcrição mais fiel que conseguimos fazer do que foi dito neste programa. Transcrevemos apenas o segundo bloco, que contou com a participação dos céticos. Os outros blocos devem ser transcritos em breve.

Segundo Bloco

Clodovil: [Aplausos] Acabamos de conversar com a Dione Forte que é uma as... tróloga? Não, uma as... É confuso, né? Vocês percebem como a gente vai... Ela cuida de astrologia que não tem nada a ver com astronomia. A gente precisa prestar atenção nas coisas que acontecem na televisão brasileira, em todos os lugares, pra que a gente possa inclusive poder dialogar sobre vários assuntos, sobre várias coisas. Claro que nós não temos pretensão nenhuma de darmos aula a ninguém, ao contrário, eu estou junto com vocês aprendendo inclusive. Agora, ela acredita naquilo que é o centro de trabalho da vida dela, digamos, a coluna mestre é aquilo no qual ela acredita. Agora, quem não acredita também faz deste não crer a coluna da, de... Que sustenta o seu trabalho. Então as duas coisas eu acho que estão no mesmo lugar. Por exemplo, nós vamos conversar agora sobre pessoas que são céticas. O que é o ceticismo? Não acreditar em nada? Não, não é bem assim, seria então o ceticismo total. Tem pessoas que são céticas para algumas coisas mas não são para todas as coisas. Por exemplo, você tem uma religião, você é cético para outra religião porque você não acredita nela. Então isso é uma forma de ceticismo também, mas isso não é in totum.

ClodovilNós vamos conversar com duas pessoas ao mesmo tempo, embora os dois sejam céticos, os dois têm visões diferentes diante desse ceticismo, ou seja, não acreditar em algumas coisas ou não acreditar em nada. O primeiro é o jornalista especializado em ciência, tecnologia, meio ambiente e história militar. Eu estou falando de Ricardo Bonalume Neto. [Aplausos, Ricardo entra]

Como vai? Tá bom? Sente-se. Opa... Que signo você é?

Ricardo: Olha...

Clodovil: Que dia você nasceu? Pronto, pra não comprometer você...

Ricardo: Eu nasci... Claro... Inclusive se algum astrólogo quiser fazer meu mapa astral...

Clodovil: Astrólogo não dá, não é? Uma astróloga nós temos aqui.

Ricardo: Se ela quiser fazer o meu mapa astral, eu nasci no dia 5 de Setembro de 1960. Sei até a hora, porque a minha mãe estava indo pra faculdade, o carro passou num buraco - olha que naquela época já tinha buraco em São Paulo nas ruas. Deu aquele negócio e ela não foi pra faculdade, foi pra maternidade. Era 8:25 da manhã, 5 de Setembro de 1960.

Clodovil: E você nasceu ali no buraco mesmo, no táxi?

Ricardo: Não, deu tempo de chegar na maternidade...

Clodovil: Ah, ainda bem, graças a Deus! Eu tô entrando dentro do seu clima de humor também, né, já que você tá... Porque existe uma... A pessoa quando ela é cética, ela acredita muito mais no humor do que a pessoa que não é. Por que seria isso, hein?

Ricardo: O problema é que a pessoa que acredita muito em alguma coisa, ela corre o risco de ficar dogmática, de acreditar só naquilo, o cético...

Clodovil: Você não é na sua descrença? Você não é dogmático na sua descrença?

Ricardo: Aí é que está. Eu tento não ser dogmático. Eu tento levar as pessoas à sério pra ver se elas me apresentam uma prova séria daquilo que elas dizem.

Clodovil: Mas pra que é que você quer uma prova séria daquilo que elas estão dizendo?

Ricardo: Pra ver se aquilo tem fundamento. Por exemplo: astrologia, certo? É uma maneira que se usa pra classificar a personalidade das pessoas. Agora, existe uma grande variedade de pessoas, então você classifica-las em doze tipos apenas, eu acho uma coisa muito esquisita.

Clodovil: Não, isso é feito de acordo com o tempo, er... Os dias, que foram... Enfim, o ano foi feito, er... Quer dizer, isso é uma coisa que está estabelecida aí, isso as pessoas entram dentro de um esquema que já vem de longa data, não é? Não são os astrônomos que fazem isso.

Ricardo: Astrólogos.

Clodovil: Astrólogos, perdão.

Ricardo: Mas veja, você falou de longa data. Uma coisa que as pessoas dizem muito é que "existem coisas que são tradições e que boas porque são milenares." Quer dizer, só porque sete mil anos atrás se fazia algo, quer dizer que é bom, porque se faz até hoje. Ora, sete mil anos atrás havia escravidão na humanidade, se você for...

Clodovil: Hoje não existe?

Ricardo: Existe em alguns lugares. Mas não se considera uma tradição boa, naquela época era considerado bom ter escravidão.

Clodovil: Você acha que ser cético é não ser escravizado pela crença, digamos?

Ricardo: Exatamente. É tentar checar o motivo da sua crença e acreditar em coisas, até o momento em que alguém me dá um bom motivo pra não acreditar nelas.

Clodovil: Então, mas a medida em que você procura coisas nas quais você não acredita para acreditar nessas coisas, você já não está na crença?

Ricardo BonalumeRicardo: Veja, eu não sou um cético militante, certo. Ao contrário de profissionais da astrologia, e outras coisas. Eu tenho uma coluna no jornal onde eu procuro, obviamente, comentar esses assuntos. Então eu tenho que ir atrás das crenças, certo? Checá-las e dizer pros leitores: "Olha, isso é bobagem." Por exemplo, uma bobagem - tem muita gente que acredita. Se você pegar uma dessas garrafas de Coca-Cola, encher de água, e colocar em cima do medidor de luz, vai diminuir a sua conta de luz. Eu já vi isso muito pela rua, se você andar pelos bairros você vai ver em cima do relógio de luz a garrafa d'água, certo, em cima pra diminuir. Olha, não existe a menor prova de que isso diminua a conta de luz, não faz sentido, certo? É uma crença que a pessoa tem, e que obviamente não é tão negativa quanto outras, mas que de repente ela pode querer gastar mais eletricidade achando que aquilo lá vai resolver o problema. E não vai...

Clodovil: Quer dizer que o seu ceticismo é meio policial, assim, digamos que você investiga o que prejudica o semelhante. É por esse caminho o seu ceticismo, digamos?

Ricardo: Não deixa de ser uma atitude cristã, até né? Os cristãos não procuram ir a favor das pessoas?

Clodovil: Eu acho que... É uma atitude religiosa, seja lá como for, de respeito para com o semelhante. Ele não deve ser ludibriado.

Ricardo: Pois é.

Clodovil: Agora, o que todas as religiões fazem mais é ludibriar as pessoas. Elas vendem lotes no céu, cada um vende... Cada religião tem um sistema para levar vantagem na história toda de ter fundado um dogma qualquer, não é isso? Ou criado um dogma...

Ricardo: Pois é, eu acho que a pessoa tem todo direito de ter a sua religião, acreditar no que ela bem queira, eu só acho que...

Clodovil: Você não é religioso?

Ricardo: Não, eu não sou.

Clodovil: Nunca entrou numa igreja nem por curiosidade?

Ricardo: Olha, eu fiz até primeira comunhão, afinal eu sou de origem católica...

Clodovil: Mas você não mastigou a hóstia?

Ricardo: Hmmm... Sabe que eu não me lembro se eu mastiguei a hóstia... Diziam que não podia, né?

Clodovil: Não, dizem que corre sangue pela boca. Claro que isso é uma grande mentira, porque não é por aí. Aquilo é só um símbolo, né?

Ricardo: Pois é. E você vê que muitos milagres falsos que são feitos por aí usam muito essa idéia do sangue, por exemplo. A imagem da Nossa Senhora que sai sangue pelo olho, certo? Se me mostram isso eu vou olhar aquilo e vou dizer: "Bom, eu não acredito que isso seja possível, uma estátua de gesso não vai sangrar." Então vou tentar descobrir, certo, por que que aquilo acontece. Então eu já soube de um caso famoso, por exemplo, na Grécia se eu não me engano - mas isso é fácil de descobrir - que havia uma estátua dessas, que se pegou o sangue, se analisou, era o mesmo sangue do sacristão. Quer dizer, o sacristão usava aquilo pra conseguir que os fiéis chegassem lá e deixassem oferendas, etc. Então você vê, uma atitude cética é você procurar... Tentar descobrir a quem interessa a crença, certo? Se você tem uma religião você deve parar e pensar: "Puxa, eu acredito nisso, é bonito..." E as religiões têm coisas bonitas, como não fazer mal ao semelhante, por exemplo. Agora, se eu estou dando dinheiro pra um pastor, certo, será que isso está realmente me fazendo bem, ou eu estou apenas engordando a conta dele?

Clodovil: É, é a mesma coisa quando você paga um médico e aí a pessoa morre, você tem que pagar a cirurgia do mesmo jeito e tal. Quer dizer, no fundo como é que você analisa essa questão? Aí você... É tudo complicado. Agora, nós... Todo ser humano, por mais cético que ele seja, ele fica pensando: "Eu nasci..." Você não pode contestar o seu nascimento, você está aí. Agora, "A que que eu vim? Por que que eu vim? Pra que que eu vim? Pra onde que eu vou?" Isso pelo menos você pensa?

Ricardo: Todo mundo pensa, né? Porque existem certas questões que a humanidade pensa há milênios. Porque faz parte de você ser ser humano pensar determinadas coisas, é da natureza mesmo.

Clodovil: Nós vamos conversar junto com você com outro cético, que é engenheiro, não é? E ele trabalha na Escola Politécnica da USP, e ele tem trabalhos publicados em congressos nacionais e internacionais. Vamos ver como é que é a cabeça dele com relação a essa coisa do ceticismo. [Pergunta pra Ricardo] Você conhece o Daniel?

Ricardo: Conheço.

Clodovil: Daniel Sottomaior que vai entrar agora, pra gente poder conversar... [Aplausos, Daniel entra]

Como vai? Ta bom? Vamos só pegar uma cadeirinha pra você. Senta aqui do lado do seu amigo. Que signo você é, hein? Você também não...

Daniel: Eu sou cético.

Clodovil: Você é cético?

Daniel: Eu sou cético.

Clodovil: Como é que você se coloca nesse mundo de ceticismo? Quem é você enquanto cético?

Daniel SottomaiorDaniel: O Ricardo Bonalume tem uma coluna na qual ele tem a oportunidade profissional de informar as pessoas. O cético ativista, nem todos eles são jornalistas, mas de maneira geral eles vão estar engajados numa luta mais ou menos semelhante. Informar as pessoas pra que elas não sejam ludibriadas tão facilmente.

Clodovil: Mas ludibriadas como? No que que você colabora pra que elas não sejam ludibriadas?

Daniel: As pessoas quando tem que tomar decisões, elas precisam de informações. Qualquer pessoa mal informada vai tomar uma má decisão. Então, no caso da saúde por exemplo, uma pessoa que acha que o charlatão da barbatana de tubarão cura mesmo, ela está fadada não só a gastar muito dinheiro, como talvez até a morrer.

Clodovil: Mas normalmente quem acredita nessas coisas é gente que não tem dinheiro.

Daniel: Bom, vai gastar o pouco que tenha. E eu não sei se é tão certo que só pessoas sem dinheiro que acreditam, tem muitas pessoas de todos os estratos sociais...

Clodovil: Mas a grande maioria das pessoas não tem dinheiro. Quer dizer, então... É, er... E as pessoas que não tem dinheiro, ou que tem uma condição de vida muito ruim dentro desse esquema que não fomos nós que estabelecemos, ou seja, ter ou não ter dinheiro. Essas pessoas precisam mais de ajuda em acreditar nas coisas do que as outras.

Daniel: Mas nesse caso a crença de que a barbatana de tubarão cura vai matá-la, em vez de curá-la.

Clodovil: Ué, isso é uma coisa na qual você acredita?

Daniel: Olha, não é só uma crença. Existem excelentes dados pra mostrar que as coisas são assim. Em vez de falar em crenças eu prefiro dizer que eu tiro conclusões.

Clodovil: Você foi criado por céticos ou a sua família tinha alguma formação religiosa?

Daniel: Não, eu estudei em colégio religioso, embora meus pais não fossem religiosos, então tive as aulas necessárias, mas nunca me interessei.

Clodovil: Não, nunca se interessou... Não, você não prestou atenção nisso porque não dizia...

Daniel: Prestei, prestei até concursos bíblicos, ganhei. Mas sempre achei que aquilo não era pra mim.

Clodovil: Não era pra você?

Daniel: Não.

Clodovil: Mas você deve... Pra você chegar à conclusão você deve ter se baseado em alguma coisa, isso não acontece como num estalo.

Daniel: Aos poucos. Uma das coisas que me ajudou bastante foram divulgadores famosos de ciência, como Isaac Asimov, Carl Sagan e muitos outros que fizeram um trabalho excelente.

Clodovil: Eu quero saber o que que é bom pra mim nisto no qual você acredita.

Daniel: Er...

Clodovil: Ou não acredita, digamos assim.

TodosDaniel: Eu acho que nesse sentido, por mais que a gente queira fugir ou não da definição de verdade, tá todo mundo procurando a verdade, procurando as melhores coisas pra si, e tentando não se enganar, e se possível não enganar os outros. E a gente sabe que existe uma tendência humana de se enganar com muita facilidade. Isso é próprio do ser humano, a gente consegue se enganar achando que está certo. O que o ceticismo propõe é que as pessoas tomem cuidado com isso.

Clodovil: Obrigado por ter vindo Ricardo Bonalume Neto, obrigado ao Daniel Sottomaior.

Daniel: Obrigado.

Clodovil: Vocês são ótimos, e sem vocês não haveria luz, porque é isso que estimula a discussão, que é exatamente o que nós mantém de pé e que faz que a gente cresça realmente. O negar é afirmar, e o afirmar é negar. Vão com Deus. [Aplausos]

Comentários

Gustavo Vargas de Toledo - gvtoledo@mtv.com.br - Mato Grosso do Sul Mato Grosso do Sul, enviou em 16/06/2001

Por favor, sempre continuem mandando mesnsagens contendo entrevistas com pessoas conhecidas, como Clodovil, pérolas que agente perde por falta de tempo. Maravilhoso, extremamente maravilhoso.
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