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de Susan Blackmore
Eu queria escrever algo em homenagem a ele, não só porque o conhecia havia muitos anos, mas porque sua perda terá enorme repercussão na parapsicologia. Não tenho certeza de que espécie de repercussão será.
Eu e ele nunca tínhamos, para dizer o mínimo, entrado em acordo com relação ao paranormal. Lembro-me com carinho uma discussão, um tanto ébria, numa convenção de parapsicologia na Tufts University, na qual ambos quase chegamos às lágrimas e a abraços desesperados devido ao nosso fracasso total em compreender como o outro continuava acreditando no que acreditava. Naquela época, em 1985, ele era diretor dos Psychophysical Research Laboratories, em Princeton, Nova Jersey. Em 1989 a verba acabou (como tem acontecido com tantos laboratórios de parapsicologia) e ele se mudou para a Edinburgh University a fim de trabalhar com Bob Morris e equipe na Koestler Chair. Depois que ele chegou lá, eu e ele tivemos muitas conversas longas por telefone e descobrimos que, fossem quais fossem nossas diferenças, tínhamos em comum a determinação de tentar entender os depoimentos paranormais e a falta de disposição para aceitar pesquisas ou críticas sem qualidade. Um jornal italiano de céticos pediu recentemente a três parapsicólogos famosos que escrevessem sobre o futuro da parapsicologia. A mim e a Chuck pediram que comentássemos as contribuições de pontos de vista opostos. Embora eu ainda não tenha visto a resposta dele, tenho o pressentimento de que o texto dele e o meu terão mais em comum do que em oposição. Mas já é o bastante de minhas recordações. O mais importante é explicar por que a morte dele terá tão grande repercussão. Sempre se diz que surgem e desaparecem modas na parapsicologia mais ou menos a cada dez anos: como o trabalho de S. G. Soal na década de 1950 e a telepatia em sonhos na década de 1960. A suposta moda da década de 1970 foi o ganzfeld. Mas é uma moda que ainda não passou. Foi em 1974 que Honorton e Harper publicaram o primeiro trabalho que descrevia a técnica psi-ganzfeld no qual o sujeito, ou receptor, relaxa numa cadeira ou cama confortável, tem bolas de pingue-pongue cortadas ao meio sobre os olhos para produzir um campo visual uniforme (o ganzfeld) e ruídos brancos ou sons repetitivos nos fones de ouvido. A hipótese dele era que essa redução nos dados sensoriais padronizados incentivaria o fluxo livre de imagens e a incorporação da percepção extra-sensorial (PES), e que seria muito mais fácil estudar outros "estados psi-conducentes", tais como a meditação e os sonhos. Os resultados significativos incentivaram muitos outros parapsicólogos a reproduzir ou ampliar o método. Por volta de 1982, quando a Parapsychological Association juntou-se à Society for Psychical Research numa conferência durante as comemorações do centenário, o "Debate Ganzfeld" estava a todo vapor. Ray Hyman encarregara-se da tarefa de avaliar toda a base de dados, com cerca de 40 experiências ganzfeld. Ele afirmava que o índice de 55% de êxito era um grande exagero, que a multiplicidade de testes forçava o verdadeiro nível de importância para muito além dos 0,05 presumidos, e que muitos estudos sofriam de falhas na execução. Ele submeteu os dados à meta-análise e demonstrou que algumas falhas tinha correlação positiva com a extensão do efeito - em outras palavras, as falhas eram provavelmente responsáveis pelo efeito e os dados eram fracos demais para sustentar quaisquer afirmações sobre a psi (Hyman 1985). Em reação a isso, Honorton (1985) empregou uma técnica estatística para eliminar o problema da multiplicidade de análises. Demonstrou que os resultados bem-sucedidos não dependiam de investigador nenhum e realizou sua própria meta-análise, que não demonstrou relação nenhuma entre as falhas e os resultados do estudo. O debate completo foi publicado em 1985 e foi um momento decisivo na parapsicologia. Embora continuasse havendo divisão na questão mais importante - Existe PES no ganzfeld ou não? - havia consenso com relação à grande utilidade do debate e que Hyman e Honorton mereciam parabéns pelas persistência e coragem ao trabalhar juntos e elaborar uma declaração conjunta (Hyman e Honorton 1986). Talvez o mais importante seja que o debate uniu céticos e parapsicólogos para discutir os assuntos. Lembro-me de diversos congressos, nos quais tentaram entrar em acordo apenas acerca do que se poderia considerar experiência sem falhas. Percebendo, naturalmente, que tal ideal é inatingível, ainda era possível chegar a algum consenso. Foi então que Chuck elaborou um teste ganzfeld totalmente automatizado. Nos anos seguintes, Honorton e sua equipe de Princeton trabalharam com esse sistema e, em 1990, publicaram os resultados de 11 experiências com 241 voluntários e 355 sessões do teste ganzfeld (Honorton et al. 1990). Imagino a quantidade de tempo e trabalho investidos nisso com base na minha própria experiência em uma experiência ganzfeld simples com apenas 20 tentativas. Os resultados desses estudos automatizados foram surpreendentemente significativos. Minha própria impressão ao ler o texto muitas vezes foi que as experiências foram muito bem-elaboradas e os resultados decerto não se deviam ao acaso. Caso fossem provenientes de algo que não fosse psi, não estava óbvio o que era. Em outras palavras, essas experiências se destacavam de toda a massa de estudos fracassados, de pouca importância ou obviamente falhos. Por que tiveram êxito? Esse é o X da questão e um dos motivos porque Chuck Honorton fará muita falta. Todos os interessados em parapsicologia, sejam crentes, descrentes ou céticos, devem levar esses resultados a sério. Não podem ser facilmente descartados. Obedecem à maioria, se não a todos, os requisitos definidos pelos céticos, e os resultados foram importantíssimos, convincentes para muitos da realidade da psi em laboratório. Com certeza o grupo de Edimburgo os levou a sério e ficou muito contente quando Chuck foi à Escócia para montar o mesmo sistema automatizado em outro local e com outros colegas. Eles, assim como todos nós, queriam saber se obteriam os mesmos resultados. Agora é claro que jamais saberemos. A equipe de Edimburgo está decidida a dar prosseguimento ao bom trabalho de Chuck, mas o que descobrirão? Se tiverem tanto êxito quando a equipe de Chuck em Princeton, haverá material de trabalho, e talvez ainda cheguemos ao fundo do mistérios - seja a solução paranormal ou normal. Mas se fracassarem, desconfio que jamais saberemos por que Chuck Honorton parecia ter o dom da magia quando se tratava de produzir psi. Seria a personalidade dele? Seria algo que ele levou consigo ao projeto experimental? Estaria mesmo correta a hipótese da redução dos ruídos sensoriais? Lamento muitíssimo que não possamos ver o próprio Chuck repetir tais experimentos aqui para nos dar a oportunidade de descobrir. Sua morte foi um golpe para a parapsicologia e ele fará muita falta. Bibliografia
Susan Blackmore era professora titular de psicologia da University of the West of England, Bristol, quando escreveu este artigo. Publicado em 1993 na Skeptical Inquirer, Vol. 17, 306-308.
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