Foi realizado, entre 29 de novembro e 01 de dezembro de 2000, em Campinas, promovido pelo GEMHCA - Grupo de Estudos Médicos Homeopáticos de Campinas e pelo Departamento de Homeopatia da SMCC (Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas), o CONGRESSO MÉDICO HOMEOPÁTICO DO SÉCULO XXI. Em um certo sentido, não deixa de ser uma boa oportunidade para conhecer a homeopatia.
A primeira coisa que se observa é que este congresso anuncia que "seu objetivo é promover um debate científico sobre a especialidade médica da Homeopatia", e, em seu material de divulgação, diz que nele "…será debatida pela comunidade científica, entre outras questões, a eficácia da terapêutica homeopática." Ora, nada mais falso. Teria sido intelectualmente mais honesto se a organização do congresso tivesse dito que o congresso iria "divulgar a homeopatia" ou o que quer que seja, mas dizer que nele "(será debatida sic) … entre outras questões, a eficácia da terapêutica homeopática."? Basta ver a lista de palestrantes (todos homeopatas) para perceber que este não é o caso. Se um dos objetivos fosse realmente este, por quê pessoas que há anos participam desse debate, como o Prof. Renato Sabbatini, da própria Campinas, não foram convidadas?
Mas, de qualquer maneira, muito se pode aprender com este evento. Em sua página de artigos científicos, o congresso lista alguns trabalhos que apontaram resultados positivos para a homeopatia. Abaixo é reproduzido o texto relevante, comentários em vermelho:
Resumos de Pesquisas Interessantes em Homeopatia Meta-Análises de Estudos Clínicos em Homeopatia
1) K. Linde, N. Clausius, G. Ramirez, et al. Are the clinical effects of Homeopathy Placebo Effects? A Meta-analysis of Placebo-Controlled Trials. Lancet, September 20, 1997, 350:834-843
Os autores avaliam 186 estudos clínicos homeopáticos, 89 dos quais preencheram os critérios pré-definidos para a meta-análise. A maioria dos estudos comparam a eficácia do tratamento homeopático em relação ao placebo. Os resultados mostraram que pacientes recebendo medicamentos homeopáticos obtêm 2,45 vezes mais efeitos positivos que o placebo.
[Na verdade os resultados mencionados acima só surgiam quando trabalhos de baixa qualidade eram incluídos na análise. E, mesmo nessas condições, a conclusão dos autores foi "No entanto, encontramos evidência insuficiente de que que a homeopatia seja claramente eficaz no tratamento de qualquer condição clínica" (Linde et al 1997 p. 834). Os autores principais também afirmaram que "… a evidência não é decisiva, e ainda não foi independentemente replicada" (Linde & Jonas 1998 p. 368).]
2) J. Kleijnen, P. Knipschild, G Ter Riet. Clinical Trials of Homeopathy. British Medical Journal, February 9, 1991, 302:316-323
Esta é a meta-análise de pesquisa clínica mais amplamente citada desde 1991. Revisa 107 estudos sobre medicações homeopáticas, 81 dos quais (77%) mostraram efeitos positivos. Dos 22 melhores estudos, 15 mostraram eficácia da homeopatia. Os pesquisadores concluem: "A evidência apresentada nesta revisão provavelmente seria suficiente para estabelecer a homeopatia como um tratamento regular para certas indicações clínicas".
[Similarmente, é interessante que Kleijnen et al. mencionaram também, mas é omitido acima, que "até o momento a evidência é positiva mas insuficiente para extrair-se conclusões definitivas, devido à baixa qualidade da maior parte dos estudos", e que admitiram que o viés de publicação possuía um efeito que não se podia avaliar. A magnitude desse efeito e a qualidade dos estudos que forneceram resultados favoráveis pode ser vista pelo fato de que o trabalho de reumatologia considerado como o de melhor qualidade por Kleijnen et al. foi posteriormente reavaliado, chegando-se à conclusão de que, ao contrário do que foi considerado por eles, a homeopatia não tinha nesse trabalho efeito superior ao placebo (Walls 1991).]
A seguir, o congresso cita quatro estudos isolados nos quais a homeopatia apresentou efeitos superiores ao placebo (Reilly et al 1988, Jacobs et al 1994,. Reilly et al 1994, Shealy 1998). O problema é a falta de reprodutibilidade desses estudos. Mesmo na meta-análise mais recente citada pelo congresso é afirmado que jamais um estudo homeopático foi replicado por um grupo independente (Linde et al 1997 p. 839, Linde & Jonas 1998 p 368).
Ao mesmo tempo, não é dificil achar na literatura estudos em que a homeopatia não apresenta efeito superior ao placebo, por exemplo, nos últimos 10 anos:
Fingerhut 1990
Estudo duplo cego com 600 pacientes, nenhum efeito foi detectado com tratamento homeopático na restauração do trânsito intestinal após cirurgia do abdomen.
Hill & Doyon, 1990
Uma revisão de 40 estudos duplo-cego envolvendo a homeopatia; "os resultados não forneceram evidência aceitável de que tratamentos homeopáticos são efetivos"
Walach 1993
Quarenta e sete voluntários foram divididos em dois grupos, um dos quais recebeu placebo, e o outro Belladona C30. Não houve uma clara distinção entre os sintomas observados nos dois grupos.
De Lange et al. 1994
"Remédios homeopáticos individualizados parecem acrescentar pouco ao aconselhamento cuidadoso de crianças com infecções recorrentes do aparelho respiratório superior".
Lokken et al. 1995
"Nenhuma evidência da eficácia do tratamento homeopático no tratamento da dor e outros eventos inflamatórios foi encontrada".
Kainz et al. 1996
Duplo-cego para o tratamento de verrugas em crianças. "Não houve diferença aparente ente os efeitos da terapia homeopática e do placebo".
Aulas 1996
"Não há evidência de que a homeopatia seja mais eficaz do que um placebo".
Kurz 1992
Revisão sistemática da literatura referente à homeopatia pediátrica. "…a revisão revelou – na melhor das hipóteses – um efeito placebo para a homeopatia".
Vickers et al. 1997
O estudo não detectou benefício resultante do tratamento homeopático de dores musculares em corredores de longa distância.
Barnes et al. 1997
Em uma meta-análise não foi encontrado efeito de remédios homeopáticos para o tratamento da condição de íleo pós-operatório.
Friese et al 1997
O estudo não detectou benefício resultante do tratamento homeopático de vegetação adenóide.
Hart et al 1997
O estudo não detectou benefício resultante do tratamento homeopático para pacientes que sofreram histerectomia radical.
Whitmarsh et al 1997
Duplo-cego para o tratamento de dores-de-cabeça. O estudo não detectou benefício resultante do tratamento homeopático.
Wallach et al. 1997
Outro duplo-cego para o tratamento de dores-de-cabeça. O estudo não detectou benefício resultante do tratamento homeopático.
Ernst & Pittler. 1998
Revisão sistemática da literatura. "A afirmação de que a arnica homeopática é mais eficaz que um efeito placebo não é apoiada por ensaios clínicos rigorosos".
Vickers et al. 1998
Homeopatia comparada a placebo no tratamento da dor muscular em corredores de longa distância. Nenhuma diferença foi encontrada.
Simpson et al. 1998
Estudo que comparou o tratamento do tinitus auditivo em dois grupos, placebo x tratamento homeopático. "… conclui-se que o tratamento homeopático não pôde ser demostrado mais efetivo que o placebo usado na comparação"
Harrison et al. 1999
Não foi detectada diferença estatisticamente significante entre crianças tratadas por homeopatia x tratamento convencional para problemas de audição na Inglaterra.
Ernst 1999
"Conclui-se que os resultados disponíveis até o momento não sugerem que a homeopatia seja efetiva na profilaxia da dor-de-cabeça ou da enxaqueca mais do que placebos".
Como de hábito, o estudo de qualidade metodológica inferior era o mais sugestivo da eficácia da homeopatia.
Ainda em sua seção de "artigos cientícos", o congresso apresenta algumas remissões recomendadas. Eis uma oportunidade única, a de se poder verificar o que de melhor existe em pesquisa homeopática, na opinião de seus próprios praticantes. Infelizmente, o que se observa é que um conjunto de afirmações estapafúrdias podem aí ser encontradas, por exemplo:
A condenação, freqüente entre homeopatas, de qualquer tipo de vacinação (veja-se por exemplo Ernst 1997, Bedford & Elliman 2000).
Na página do congresso, aparentemente isto é considerado "boa ciência", pois sob o cabeçalho "artigos científicos" existe uma remissão para o texto homeopático "Vaccination: a sacrament of modern medicine";
A prática de alguns homeopatas de proibir que seus pacientes ingiram "antídotos". Antídotos seriam substâncias que anulariam o efeito dos remédios homeopáticos por … terem cheiro forte (!) Exemplos seriam o café, a hortelã, alho, etc. etc. (para uma discussão amistosa do tópico, veja-se a remissão também listada sob "artigos científicos" na página do congresso);
A afirmação de que a "potencialização homeopática" de uma substância pode ser enviada pelo correio eletrônico.
Esta é a continuação das "pesquisas" de Benveniste, que se notabilizou por publicar um artigo na conceituada Nature afirmando que a água dinamizada teria uma mémoria das substâncias com que entrasse em contato.
A verificação do experimento de Benveniste por uma equipe da Nature é muito instrutiva. Basicamente, o que se descobriu é que:
seus experimentos não tinham controle duplo-cego;
quando os eperimentos "não funcionavam", o que era comum, eles eram desconsiderados;
não havia os mínimos controles estatísticos;
quando os experimentos foram repetidos com esses controles, nenhum efeito pode ser detectado (Madox et al 1988, New Scientist 1997).
Pode um campo do conhecimento onde tais afirmações passam por pesquisa ser encarado com seriedade? Mas, resta ainda a questão, por quê alguns poucos trabalhos homeopáticos dão resultados positivos? A resposta pode ser encontrada com a ajuda de vários trabalhos que estudaram a relação entre a qualidade dos estudos homeopáticos e os resultados encontrados, por exemplo Linde et al 1999 e Pittler et al 2000.
A mensagem que consistentemente emerge é que os trabalhos com resultados positivos são aqueles de pior qualidade metodológica, em que o aspecto duplo-cego não pode ser garantido, ou que foram publicados em revistas menos rigorosas, por exemplo de "medicina complementar". (Kleijen et al 1991, Wall 1991, Jarvis 1994, Langman 1997, Kahn 1998, Ernst 1999, Linde et al 1999). Revistas de "medicina complementar", por sua vez, impõe um altíssimo viés de publicação na área, uma vez que, nestas, muito mais estudos positivos são publicados, em comparação aos negativos (Ernst & Pittler 1997, Pittler et al. 2000).
Certamente também, este viés é mais intenso do que o que acontece em outros campos da medicina, devido à característica de culto que a homeopatia assume (basta ver a freqüência com que o nome "Hahnemann" aparece em trabalhos homeopáticos, ou até mesmo o uso do termo "convencional" para designar revistas científicas feito na própria página do congresso).
Outros motivos também podem ser apontados:
Remédios homeopáticos com baixa diluição ainda podem reter propriedades farmacológicas (Barnes et al 1997).
A qualidade de remédios homeopáticos varia tremendamente, tendo sido documentadas ocasiões em que eles se encontravam adulterados com substâncias "alopáticas" (Kerr & Yarborough 1986, Morice 1986, citado em Jarvis 1994).
Tem-se identificado que um terço dos estudos de meta-análise chegam a conclusões falsas, devido as dificuldades de identificação da literatura pertinente e outros viéses (Lelorier et al 1997).
Finalmente, também é muito relevante a pergunta que, ironicamente, é feita na própria página do congresso:
Até que ponto tem validade um estudo clínico controlado cuja pesquisa é patrocinada pelos que querem vender o que está sendo pesquisado?
Ironicamente, este é um sério problema para os estudos que apresentam resultados positivos da homeopatia, por exemplo os trabalhos de Benveniste, financiados pelas multinacionais francesas de produtos homeopáticos (Madox et al 1989).
Resumindo, não se trata de que a homeopatia seja "discriminada". A verdade é que suas premissas foram examinadas, testadas, e mostradas falsas. Faltaria à homeopatia uma teoria consistente com experimentos, que explicasse como substâncias com diluição tão grande podem reter atividade farmacológica; e estudos controlados de alta qualidade que mostrassem ser essa atividade benéfica. Após 250 anos, já é tempo de seguir adiante.