Luis Fernando Verissimo Publicado: 01/11/2001
Atualizado: 04/02/2002
A EXPLICAÇÃO

de Luis Fernando Verissimo


Uma vez escrevi sobre a informatização no espiritismo - tinha lido em algum lugar que os computadores substituiriam os médiuns - e, como esperava, recebi algumas cartas de protesto contra o comentário, considerado desrespeitoso.

Está certo, deve-se respeitar a crença dos outros. Talvez a descrença seja apenas uma falta de imaginação. São tantas, tão variadas e tão literariamente atraentes as explicações metafísicas sobre o que, afinal, nós estamos fazendo neste mundo e o que nos espera no outro que não crer em nada, longe de ser uma atitude racional e superior, é uma forma de burrice.

De não saber o que se está perdendo. O negócio é ser pós-moderno e desistir conscientemente do racionalismo, pois, se as explicações finais são tão impossíveis quanto as utopias - e a própria física, quanto mais descobre sobre o mundo, mais perplexa fica -, então o negócio é voltar à mágica e ao deslumbramento primitivo, que são muito mais divertidos.

É verdade que eu sempre achei a explicação de que não há explicação nenhuma, ou pelo menos nenhuma que o cérebro humano entenderia, a mais fantástica de todas, mas reconheço que é um sumidouro. Não a recomendo. Toda a força, portanto, à imaginação, a todas as escatologias, a todas as seitas e a todos os santos. Tudo se resume naquela música - ou é apenas uma frase? - do John Lennon, Whatever Gets You Through The Night. O que ajudar você a atravessar a noite, está certo. É difícil lidar com toda essa herança que a gente recebe junto com um corpo e uma mente, uma vida finita num universo infinito, sem nem um manual de instrução. No escuro, todas as respostas são válidas, todas as crenças são respeitáveis.

Eu, por exemplo, estou desenvolvendo a tese de que a explicação de tudo está na alcachofra. Ainda não sei bem onde isto vai me levar, mas sinto que estou perto de uma revelação. Deus é uma alcachofra. Quando desenvolver melhor a idéia, volto ao assunto.

Comentários

Johny Tedezqui Rodrigues - Indiannaj@aol.com - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 17/12/2001

Concordo plenamente com a oportunidade que o artigo ofereçe. Meu receio é de que se nos tornamos, assim, tão simplistas, conformistas com os devaneios, nossa mente torne-se pueril, ainda mais obstinada e, por fim, obtusa. Não procuro a solução para o mundo, sequer surpreender-me com esta possibilidade (o que é improvável). Apenas, me assombro quando sei que muitos feitos e desfeitos, em prejuízo à dignidade humana, tem como base a inércia do juízo, por dar-se vasão às teorias puramente supositícias sobre a identidade da Humanidade e, através delas, justificarem-se tais movimentos.

Itamar S. de Andrade - itosandrade@ig.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 11/11/2001

Muito interessante esse ponto de vista (pelo até chegar na alcachofra!), talvez a descrença seja mesmo uma falta de imaginação. Mas eu ainda prefiro ficar com minha falta de imaginação, embora eu reconheça que para uma grande parte das pessoas é melhor que se apeguem a algo "místico", pois de outra forma não conseguiriam ter bases morais e éticas para se apoiarem e o mundo talvez se tornasse um pouco pior.
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.estado.com.br/editorias/2000/08/10/pol773.html
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.