S.T.R. Publicado: 18/09/2001
Atualizado: 18/09/2001
MINHA SANT@RROBA DOS ÚLTIMOS EMAILS!

de Rosana Hermann


Não é po Silvio! Na natureza tudo que tem vida amadurece: manga, chuchu, beterraba, salsinha. Tem até o tipo goiaba que ao amadurecer vai ficando cada vez mais bichada. Tudo menos uma criatura teimosa: o ser humano. Eu, inclusa.

Juro que não é por causa do apagão, querido leitor, mas já estou acendendo vela para Sant@rroba dos Últimos Emails, aquela que protege a gente contra os spammers que tentam arrombar a caixa de entrada da gente à força. Mas não está adiantando nada. A Sant@arroba nada pode contra todos nós, que passamos e repassamos email e ainda jogamos torta na cara.

Algumas pessoas pegaram esta nova mania, esta de que vou falar agora: autoria fantasma.

Não sei como foi que começou, mas um dos primeiros spams de autoria fantasma foi um Tantra Totem da Sorte supostamente vindo do Nepal (sic!), feito em caracteres ASCII, aqueles desenhos compostos pelos ícones do teclado. Alguém resolveu juntar à figura do Tantra Sorte uma mensagem que circula há anos, muito bonita aliás, chamada em inglês Instructions for Life, com uma lista básica de 40 coisas para você fazer na sua vida. Só que, a esta soma bizarra somaram o nome do suposto autor: o Dalai Lama.

Eu soprei e soprei e pesquisei e pesquisei e a casinha derrubei. Porque o Dalai Lama nunca escreveu nada disso. E se escreveu, nega até hoje. Só sei que foi em vão a tentativa de avisar os remetentes dos emails que aquilo não procedia. Ninguém quer ouvir a verdade e toda vez que as pessoas avisam que o crédito do texto é falso, atiram dalais e lama na gente.

A coisa foi piorando e subitamente surgiu um texto chamado "se eu pudesse viver minha vida novamente" (cuidado que o link tem aquelas musiquinhas chata de fundo, em arquivo mid!! desabilide o som antes de clicar...), que foi chamado no Brasil de "Instantes", também supostamente de autoria de uma senhora chamada Emma não sei das quantas (depois eu pesquiso o nome certo), começou a circular por email como se fosse do Borges, o argentino cego, maravilhoso e falecido, Jorge Luiz Borges. Eu não sou nenhuma entendida em literatura mas tenho alguns livros do Borges aqui em casa e qualquer um pode ver que ele não escreveria aquilo. Seria mais fácil atribuir o texto ao José Sarney. Todo mundo tentou avisar os remetentes que aquele texto não era do Borges, mas ninguém quer saber. O pior cego é aquele que não quer ler. E mandam com cópia pra Deus e todo mundo, sendo que o único que não passa adiante, é Deus.

A coisa foi virando moda no Brasil e do Dalai Lama do oriente ao Borges do Mercosul, passaram a assinar bobagens com nomes de autores brasileiros vivos. Assim, querido leitor, começaram a entrar em nossas caixas postais, textos como Não quero drogas, comparando a música popular brasileira à droga, atribuído ao Veríssimo. Pois ele não escreveu isso e deve estar enlouquecido com a encheção que ontem, a rádio CBN deu uma nota vinda do próprio escritor. Veríssimo diz que apesar do texto ser 'até bem bolado', não foi escrito por ele. Mas o povo não quer saber. Não adianta o autor dizer que não escreveu, se o povo acha que foi, pronto. Autor não tem direito a palpite sobre o julgamento popular.

Tem mais: dizem que o Ziraldo escreveu o texto 'Por que não vou colaborar com o racionamento de energia.' Coisa de louco, o Ziraldo nada tem com isso. Hoje, o Ziraldo falou novamente na CBN.

Eu fico me pergutando, qual será o perfil dos engraçadinhos que começam o processo de assinar de forma fantasma esses textos ápodes e acéfalos, ou seja, sem pé nem cabeça. Faço a cena na minha cabeça: um garoto, sentado no computador, abre a caixa postal e vê o texto do email sem autor. Se ele passar adiante ninguém acredita. Então, ele assina com um nome que ele conhece e manda adiante. Dá uma p... credibilidade ao texto, certamente e aí, os incautos que recebem, simplesmente passam adiante. E todos nós, crédulos, inocentes e de boa vontade e mau critério, passamos em frente.

O mais recente, pelo menos pra mim, é um texto atribuído a Lygia Fagundes Telles, mas como é mentira eu nem vou passar adiante. Aliás, minto, foi um lapso. Tem um outro email mais recente ainda atribuído à Clarice Lispector. Coitada, era tão maravilhosa, já morreu e nem pode se defender.

Eu sempre achei que a pior coisa que podia acontecer na vida de um escritor era morrer. Mas errei. A pior coisa é morrer e ainda ter que ficar circulando por email como um zumbi, assinando um monte de bobagens, destruindo toda a sua reputação em vida.

Só de vingança, acho que a gente deve continuar vivo, o máximo possível.

Por isso mesmo, com a ajuda da minha sant@rroba dos últimos emails, eu fiz e publiquei o meu epitáfio, esse, de minha própria autoria.

Quando eu morrer quero que escrevam em minha lapide:

" - Era só o que me faltava!"

Em tempo, estou alterando este texto porque uma querida amiga, que disse ter sido uma das pessoas que me mandaram o texto sobre o racionamento, assinado como sendo do Ziraldo, ficou chateada e ofendida. E nenhum texto vale a pena quando entristece uma amiga. Por isso, quero pedir a todos que não me levem a mal, não estou culpando quem passa, mas quem inventa essa autoria.

É por isso que sou contra ficar passando e repassando tudo sem critério, porque acabamos entrando na onda de gente mal intencionada. E quando a gente não tem razão, não adianta ser o inocente. No cemitério, o culpado como a vítima podem estar lado a lado. Talvez, lá no juizo final, a diferença apareça.

Pelo sim, pelo não, não passe textos assinados. Lembre-se, se for um texto bacana, que alguém quer divulgar, a pessoa de boa vontade passa o LINK, ou a url da página do site onde está publicado.

Espero não ter ofendido ninguém. Pelo menos, não tanto quanto o Ziraldo, o Borges, o Veríssimo, a Lygia, a Clarisse, foram ofendidos.

Um beijo, um browse, um aperto de mouse

da
Rosana Hermann
rosanahermann@aol.com

***

São Paulo, 25 de maio de 2001

  • A publicação foi autorizada pela autora do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://farofa.americaonline.com.br/querido_leitor/anteriores/querido250501.adp
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.