Susan Blackmore
 
 
Estatísticas Oficiais da STR Publicado: 04/05/2003
Atualizado: 04/05/2003
   
                     
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de Susan Blackmore


A maioria das pessoas crê em Deus, sua própria alma e no paranormal. Esse é o tema de Em Busca da Alma: Natureza Humana e Crença no Sobrenatural, de Nicholas Humphrey, e ele narra o assunto habilidosamente usando retalhos da história da ciência desde Bacon e Brewster, filosofia desde Kant e Kierkegaard e abundantes citações literárias de Swift e Sontag.

O argumento básico de Em Busca da Alma é que os seres humanos querem desesperadamente duas coisas: o entendimento e o reconforto. Um panfleto cristão declara: “Quero apenas saber quem sou eu e por que estou vivo”. Gauguin colocou as perguntas “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?” na sua “última” pintura (ele sobreviveu à tentativa de suicídio subseqüente).

Todos queremos respostas para estas perguntas e procuramos por elas avidamente. Porém, a ciência não fornece as respostas pelas quais ansiamos. A ciência rasteja inexoravelmente na direção da conclusão de que os seres humanos não são nada além de matéria, postos aqui por forças acidentais ao invés de por um grande projetista, e que os únicos poderes que exercemos vêm de um reles maquinário corpóreo. Não temos mente ou alma separados, nem poderes mágicos de pensamento ou ação, e mesmo em uma crise as nossas necessidades mais profundas não podem ser conhecidas por amigos ausentes, exceto por milagres da tecnologia moderna.

A resposta que preferiríamos é que temos uma alma eterna. Isso fornece entendimento na forma de uma teoria sobre a natureza humana e a tranquilidade na forma de esperança numa vida futura. O que as pessoas querem, Humphrey afirma, é recuperar suas almas da ciência, como seus “bilhetes de entrada para um mundo melhor”. Elas podem usar os métodos da ciência, pois a ciência é poderosa e respeitada, mas no fundo querem provar que a ciência está errada. Querem provar que, lá no fundo, cada um de nós é mais que apenas um conjunto de partes mecânicas, mas uma poderosa entidade cujos pensamentos têm conseqüências e cujos desejos podem fazer o desejado tornar-se realidade.

Os humanos, diz Humphrey, são dualistas naturais. Esse dualismo explica por que a maioria das pessoas crê no paranormal. O argumento funciona em dois sentidos ao mesmo tempo, quase num círculo. De um lado, os fenômenos paranormais fariam sentido apenas se os seres humanos de fato tiverem uma alma. Por outro lado, as pessoas buscam avidamente evidências de fenômenos paranormais para sustentar a crença na alma.

É claro, diz Humphrey, que todas essas crenças são tolice. Não há alma e a busca pelo paranormal é toda ela um grande engano – uma busca vã. Muito do livro, portanto, está voltado a demolir as afirmações paranormais e rejeitar tudo que seja remotamente espiritual ou místico. O que torna esse livro diferente de muitos outros desse tipo é o que Humphrey chama de seu “argumento do projeto sem garantia”. Se achamos que algum alegado fenômeno é extraordinariamente restrito no modo em que ocorre e a nossa teoria não pode explicar por que ele tem a forma particular que tem, então devemos suspeitar que nossa teoria é falsa.

Gostei mais ainda desse argumento conforme ele foi aplicado a Jesus, embora eu suspeite que muitos cristãos acharão a análise de Humphrey ofensiva. Jesus operou “milagres”, tais como mudar a água em vinho, ressuscitar os mortos e andar sobre a água. Porém estes milagres, explica Humphrey, eram exatamente o tipo de truques que charlatões da época estavam fazendo regularmente. Por que os fenômenos eram tão restritos? Por que Jesus não fez algo realmente excepcional com seus poderes? De acordo com seu “argumento do projeto sem garantia”, é essa restrição de seus poderes que destrói o jogo. A teoria de que ele era o filho de Deus não pode explicar estas restrições e portanto é falsa.

Para Humphrey, a melhor explicação é que um ilusionista comum -- possivelmente um que genuinamente acreditava em seus próprios poderes sobrenaturais – mas um ilusionista comum mesmo assim. O mesmo argumento pode ser aplicado aos entortadores de metal modernos, cujos poderes restritos (entortar colheres e garfos, mas não espadas, por exemplo) não podem ser explicados pela psicocinese, mas fazem sentido em termos de ilusionismo, aos caçadores de poltergeists, fantasmas, médiuns e videntes, e para a pergunta do por que os videntes não enriquecerem na loteria.

Finalmente, Humphrey se engaja numa critica à parapsicologia moderna. A capa diz até que é uma “crítica devastadora”. Não é.

Ele começa argumentando que os parapsicólogos estão procurando a alma. Entretanto, ele parece ignorar os argumentos antigos e veementes sobre este assunto específico. Em 1987, o prestigiado periódico Behavioral and Brain Sciences debateu o tópico num artigo de capa intitulado “Parapsychology: Science of the anormalous or search for the sou?” (Parapsicologia: Ciência do anormal ou busca pela alma?” do psicólogo canadense James Alcock. Ele, como Humphrey, argumentou que os parapsicólogos estavam realmente tentando defender o dualismo metafísico. É certo que alguns parapsicólogos são dualistas (como John Beloff, que Humphrey cita com freqüência), mas a maioria não é, ou pelo menos diz não ser. Vários parapsicólogos respoderam ao artigo de Alcock dizendo que o dualismo era irrelevante para sua busca por anormalidades e explicaram por que. Ainda assim esse debate crucial é totalmente ignorado por Humphrey.

Sua manipulação das evidências reais é igualmente enganosa. Por exemplo, ele menciona brevemente a pesquisa de Helmut Schmidt em PK (psicocinese, ou a mente sobre a matéria) usando geradores de números aleatórios, mas então a descarta com uma citação datada de um único cético. Qualquer um que não conheça a literatura pode concluir que Schmidt é o único pesquisador de PK usando geradores de números aleatórios em seus testes, quando na verdade há centenas desses estudos. Houve até uma meta-análise de quase 600 experimentos de geração de números aleatórios, que mostraram um efeito pequeno mas confiável que não foi relacionado à qualidade do estudo ou dependendo de qualquer laboratório individual.

'O próprio Gauguin perguntou: De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?'

A pesquisa mais conhecida em parapsicologia hoje em dia usa a técnica ganzfeld, um tipo de privação sensorial parcial que se crê aumentar a PES (percepção extra-sensorial). Humphrey a resume em duas paginas e a descarta com uma re-análise recente não publicada que sugere uma falha séria. Isso não é justo, dado o fato de que a técnica ganzfeld vem sendo usada por duas décadas, tem recebido enorme publicidade e tem sido exaustivamente criticada – dentro e fora da parapsicologia – sem que qualquer consenso tenha surgido. Humphrey pode mesmo estar certo ao dizer que alguma coisa que não a percepção extra-sensorial seja responsável pelos resultados, mas muitas pessoas mais bem informadas do que ele falharam em descobrir o que seria.

Onde Humphrey contribui com alguma coisa nova é em aplicar seu “argumento do projeto sem garantia” à parapsicologia: o fato de que as afirmações paranormais são falsas pode ser deduzido, não dissecando cada experimento e encontrando falhas neles, mas procurando por restrições inexplicadas na sua ocorrência. Há várias restrições em quando, onde e com quem os fenômenos psíquicos ocorrem, e já que elas não podem ser explicadas pela PES ou pela PC, alguma teoria diferente é necessária. Mas que tipo de teoria? Humphrey parece ignorar as muitas teorias parapsicológicas que tentam (mesmo que sem muito sucesso) explicar as estranhezas da PES e dos experimentos projetados especificamente para testá-las.

Imagino também que a maioria dos parapsicólogos concordaria que são necessárias novas teorias. Eles podem comparar o nosso conhecimento sobre a PES em 1995 ao, digamos, da eletricidade em 1795. Não fazia sentido na época que faíscas pudessem ser produzidas com pêlo de gato e âmbar, mas não com seda e casca de laranja. Faz sentido agora porque temos boas teorias. Se há uma anormalidade na comunicação humana, podemos ser capazes de compreendê-la no futuro.

Seria de fato maravilhoso se os céticos pudessem pular a tarefa trabalhosa da análise critica. Ainda assim Humphrey não me convenceu de que podemos. Ao ignorar o melhor da parapsicologia, ele incluiu a si próprio na lamentável lista de críticos da parapsicologia que são desinformados e injustos.

***

Da New Scientist 11/11/1995

Informativo:

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.fortunecity.com/emachines/e11/86/natborn.html
  • Traduzido por: Arnaldo Elias
  • Revisado por: Leo Vines
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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