Publicado: 17/09/2001
de Gary P. Posner, M.D.Um estudo publicado na edição de 25 de outubro de 1999 do Archives of Internal Medicine "tentou reproduzir as conclusões do Dr. Randolph Byrd testando a hipótese de que pacientes que, sem saber, recebem as orações de intercessores à distância, têm menos complicações e uma permanência mais curta no hospital do que os pacientes que não recebem essas orações."1 O artigo de Byrd, de 1988, foi o primeiro a tentar estabelecer os efeitos positivos de orações intercessórias (não realizadas pelo próprio paciente), sem o conhecimento do recipiente, na trajestória hospitalar dos pacientes.2 Byrd notou que de 26 indicadores atribuídos a pacientes de uma Unidade de Terapia Coronária (UTC), a maior parte das diferenças entre o grupo que recebeu as orações e o grupo de controle era estatisticamente insignificante. Apesar disso, ele relatou uma diminuição significativa em algumas complicações médicas no primeiro grupo: menos insuficiência cardíaca congestiva [inabilidade de bombear sangue suficiente para evitar a congestão dos tecidos], pneumonia, e paradas cardiorrespiratórias; menos necessidade de terapia diurética, antibióticos e entubação ou ventilação respiratória. Byrd também desenvolveu um sistema de notas para classificar o conjunto dos acontecimentos no hospital entre "bom," "intermediário," or "ruim," e relatou uma diminuição estatisticamente significativa no número de resultados “ruins” entre os pacientes que receberam as orações. Apesar de suas deficiências de procedimento e estatísticas,3,4,5,6 o estudo de 1998 frequentemente tem sido citado como indicador dos efeitos positivos da oração. Escritores como o Dr. Larry Dossey atribuem ao estudo o incentivo de suas próprias buscas por maiores evidências do poder da oração.7 Os autores do recente artigo no Archives contam que seus esforços para "reproduzir os achados de Byrd" foram bem-sucedidos: "nossos achados confirmam as conclusões do Dr. Byrd ... " Mas, como reconhecem os autores, há muito mais (ou menos) nessa afirmação. Num período de 12 meses, cerca de mil pacientes que foram internados na UTC do Mid America Heart Institute (MAHI) em Kansas City, no estado de Missouri (EUA), foram aleatoriamente colocados no grupo de oração ou no grupo de controle seguindo um protocolo baseado no número dos seus registros – pares ou ímpares. Como no estudo de Byrd, cada paciente do MAHI's que recebeu orações foi associado a um grupo de "intercessores" que oravam diariamente pelo paciente. Esses grupos tinham cinco membros cada; os grupos do estudo de Byrd variavam de três a sete. Os intercessores do MAHI oravam por "uma rápida melhora sem complicações" e "o que mais lhes parecesse apropriado." Em relação à questão da "rápida melhora," o estudo de Byrd, cujas orações visavam "uma rápida melhora e a prevenção de complicações e morte," não encontrou diferenças significativas no tempo de permanência na UTC, no número total de dias de hospitalização, ou no número de mortes. O MAHI também não encontrou diferenças significativas nessas categorias. Assim, em relação aos dados negativos de Byrd, o estudo do MAHI reproduziu seus resultados. Quanto ao desenvolvimento de "complicações" médicas durante a hosptialização, o estudo do MAHI não encontrou nenhum dos efeitos benéficos estatisticamente significativos relatados por Byrd em relação à insuficiência cardíaca congestiva, pneumonia, e paradas cardiorrespiratórias; menos necessidade de terapia diurética, antibióticos e entubação ou ventilação respiratória. Além do mais, usando o sistema de classificação em "bom/intermediário/ruim" de Byrd para avaliar seus próprios dados, os pesquisadores do MAHI não encontraram "diferenças significativas entre os grupos." Assim, em relação aos dados positivos de Byrd, o estudo do MAHI não reproduziu seus resultados. Os autores do MAHI não alegam terem reproduzido as descobertas de Byrd – que era seu objetivo. Eis aqui a íntegra da sua frase, citada parcialmente acima: "nossas descobertas confirmam as conclusões [ênfase acrescentada] de Byrd a despeito do fato de não termos conseugido documentar o efeito da oração usando seu método de classificação." Os pesquisadores do MAHI tinham seu prórpio "sistema de classificação por pesos chamado de nota MAHI-CCU [que é] uma variável contínua que procura descrever resultados de excelentes a catastróficos." Esse sistema foi desenvolvido a pedido deles por quatro outros clínicos que trabalham no MAHI. O sistema MAHI-CCU, assim como o de Byrd, é "uma medida não validada de ... resultados" (eles não encontraram nenhum outro sistema previamente validado na literatura médica). Ainda assim os pesquisadores do MAHI alegaram "descobertas... consistentes com as de Byrd, que relatou que as orações intercessórias por pacientes hospitalizados diminuíram a nota de avaliação dos resultados da permanência no hospital." No todo, os pacientes que receberam as orações, como grupo, se saíram 11% melhor do que os outros, com uma probabilidade de somente 1:25 de que esse resultado se deva somente ao acaso (P = .04). Em comparação, quando meus colegas céticos ou eu testamos os alegados possuidores de poderes paranormais, tentamos desenvolver testes em que a probabilidade de “sucesso” somente por acaso esteja na faixa de 1:10.000.000. A James Randi Educational Foundation não conferiria seu prêmio de um milhão de dólares a alguém que conseugisse, em uma única ocasião, identificar corretamente um número entre um e 25. Segundo o axioma da ciência, alegações extraordinárias – em especial as sobrenaturais – exigem prova extraordinária. Embora elas não tenham “nenhuma explicação” para, mesmo ao nível de P = .04, o sistema de Byrd não ter encontrado signofocância em seus próprios dados, os autores do MAHI fazem especulações. Eles notam que o seu protocolo foi mais cuidadosamente cegados que o de Byrd, pois nem os pacientes nem a equipe médica sequer sabiam que havia um estudo sendo conduzido. Esse conhecimento entre os pacientes de Byrd assegurou que aqueles com objeções a um estudo assim pudessem deixar o grupo, indicando assim para os autores do MAHI que "somente pacientes ‘receptivos a orações’ foram incluídos no grupo final [de Byrd]." Além disso, os intercessores de Byrd foram informados das condições e progresso dos seus pacientes, enquanto a única informação fornecida aos intercessores do MAHI era o primeiro nome dos pacientes. Tradução: o sistema de classificação de Byrd talvez tenha sido rígido demais para um teste mais cuidadosamente cegado envolvendo pacientes não selecionados por sua receptividade a orações. Mas os dados de Byrd passariam no teste pelo sistema MAHI-CCU? Presumivelmente sim, embora os autores não mencionem nada a respeito. Quanto ao estudo de Byrd, fica-se a ponderar o sentido cósmico das conclusões do MAHI. Primeiro, elas sugerem a existência de um Deus que responde a orações? Os autores alegam somente que "quando indivíduos fora do hospital falam (ou pensam) nos primeiros nomes de pacientes hospitalizados com uma atitude de oração, os últimos tendem a ter uma experiência na UTC 'melhor'." Adicionalmente, "é provável que muitos, senão a maioria dos pacientes em ambos os grupos já estivessem recebendo orações intercessórias e/ou diretas de amigos, família e clero durante sua hospitalização." Os autores reconhecem que o que eles estudaram não foram os efeitos da oração intercessória per se, mas da "oração intercessória adicional." Algumas conclusões lógicas de tais estudos não são mencionadas. Uma conclusão que resulta do estudo do MAHI, assim como do estudo de Byrd, é que as respostas à oração intercessória "adicional" parecem quase imperceptíveis. Além disso, as respostas à oração parecem ser baseadas no número de orações/pensamentos sendo oferecidos, independentemente da personalidade ou crenças religiosas dos pacientes. Espera-se que um "Adolph Hitler" no grupo que recebeu orações teria um resultado marginalmente "melhor" do que uma "Madre Teresa" no grupo de controle, ou em outra UTC não envolvida em um estudo de oração. Apesar disso, os autores do MAHI concluem que, dados os "possíveis benefícios da oração intercessória", como sugerido no seu estudo e no de Byrd, "justificam mais estudos utilizando medidas validadas e padronizadas de resultados e variações nas estratégias de oração para explorar o papel potencial da oração como auxiliar ao tratamento médico padrão." Embora, como assinalei, eles não achassem "medidas validadas e padronizadas de resultados" aplicáveis na literatura médica, suspeito que isso não impedirá constantes tentativas de provar a eficácia da oração intercessória.
Da The Scientific Review of Alternative Medicine, Vol. 4, No. 1, Primavera/Verão 2000 Referências 1 - Harris WS et al. A randomized, controlled trial of the effects of remote, intercessory prayer on outcomes in patients admitted to the coronary care unit. Arch Int Med 1999;159(19):2273-2278. Voltar 2 - Byrd RC. Positive therapeutic effects of intercessory prayer in a coronary care unit population. Southern Med J 1988;81(7):826-829. Voltar 3 - Posner GP, God in the CCU? Free Inquiry. 1990;10(2):44-45. Voltar 4 - Witmer J, Zimmerman M. Intercessory prayer as medical treatment? An inquiry. Skeptical Inquirer. 1991;15(2):177-180. Voltar 5 - Sloan RP, Bagiella E, Powell T. Religion, spirituality, and medicine. Lancet. 1999;353:664-667. Voltar 6 - Tessman I, Tessman J. Efficacy of prayer: A critical examination of claims. Skeptical Inquirer. 2000;24(2):31-33. Voltar 7 - Dossey L. Healing Words. New York, NY: HarperCollins, 1993: xv. [Leia minha resenha do livro] Voltar Leia as Cartas ao Editor nos Archives of Internal Medicine depois da publicação deste estudo. Leia o "Commentary" do Dr. Larry Dossey defendendo o estudo face a estas críticas. Leia minha Carta ao Editor do Archives em resposta ao "Commentary" de Dossey.
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