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Atualizado: 06/08/2003
   
                     
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CIÊNCIA E CETICISMO
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de Marcelo Knobel


Você já ouviu falar do novo tratamento para dor de cabeça? E de um novo vírus de computador que se espalha pelos telefones celulares? Sabia que surgiu uma nova teoria provando que Einstein estava errado? E conhece o novo método de leitura que permite ler centenas de páginas em minutos, com total compreensão e retenção? No meio de conversas, ouvindo rádio ou televisão, ao ler revistas ou jornais, ou por meio de mensagens eletrônicas, surgem freqüentemente assuntos que nos interessam particularmente, pois se referem a novos tratamentos de doenças, perigos no uso e manuseio de objetos cotidianos, técnicas de aprendizado mais eficazes, entre outros. De uma maneira ou de outra, qualquer afirmação que indique a eficácia de algo novo (produto, tratamento serviço ou teoria) pressupõe, a priori, a realização de algum tipo de experiência científica para comprovar a sua validade.

Mas, como podemos discernir, nesse mar de informação, o que é realmente confiável ou não?

Em seu clássico livro “O Mundo Assombrado por Demônios - A Ciência vista como uma Vela na Escuridão”, o físico Carl Sagan descreveu, de modo brilhante, um kit de detecção de mentiras ou bobagens (Baloney Detection Kit), principalmente no que se refere a afirmações aparentemente científicas. Ele enfatiza o uso do pensamento crítico para reconhecer argumentos falhos ou fraudulentos, o que podemos chamar de um modo geral de “pseudociência”. Além do raciocínio lógico e do reconhecimento de alguns elementos característicos das pseudociências, é particularmente importante conhecer, ao menos superficialmente, como a ciência funciona.

De acordo com Sagan, há algumas ferramentas básicas no kit que devem ser utilizadas para analisar argumentos e afirmações que, aparentemente, são embasadas em experimentos científicos:

Sempre que possível deve haver uma confirmação independente dos “fatos”;

Deve-se estimular um debate substantivo sobre as evidências, do qual participarão notórios partidários de todos os pontos de vista;

Os argumentos de “autoridade” têm pouca importância - as ‘autoridades’ cometeram erros no passado. Voltarão a cometê-los no futuro. Uma forma melhor de expressar essa idéia é, talvez, dizer que na ciência não existem autoridades; quando muito há especialistas;

Deve-se considerar mais de uma hipótese. Se alguma coisa deve ser explicada, é preciso pensar em todas as maneiras diferentes pelas quais poderia ser explicada. Então deve-se pensar em formas de derrubar sistematicamente cada uma das alternativas. A hipótese que sobreviver a esta “seleção natural” tem maiores chances de ser a correta;

Não se apegar demais à sua própria hipótese. Deve-se buscar razões para rejeitá-la. Se você não fizer isto, outros o farão;

Quantificar sempre que possível. Aquilo que é vago e qualitativo é suscetível a muitas explicações;

Se há uma cadeia de argumentos, todos os elos da cadeia devem ser válidos (inclusive a premissa) - não apenas a maioria deles;

Na realidade, há muitas outras características comuns que podem ser utilizadas para tentar esboçar uma demarcação das pseudociências, o que nem sempre é trivial. De fato, as pseudociências têm esse nome pois tentam mimetizar uma aparência de ciências, incluindo uma linguagem mais complexa, com afirmações veementes de que os resultados são “comprovados cientificamente”, ou abalizados por “estudos aprofundados”. Além disso, as pseudociências normalmente baseiam-se em anedotas e rumores para “confirmar” os fatos, e incluem personagens que afirmam que não são compreendidos e são hostilizados por nossa sociedade, assim como foram Galileu e Copérnico em suas épocas.

Para tentar combater as crenças propagadas pelas diversas pseudociências, surgiram no mundo diversos grupos de pessoas que se auto-denominam “céticos”.

Os céticos tentam aproveitar o espaço dado pela mídia aos mais esdrúxulos charlatões para oferecer o contraponto científico, como explicar alguns fenômenos com as ferramentas construídas pela ciência ao longo dos anos. Mas a idéia de ceticismo é um tanto quanto restritiva. Os cientistas (e as pessoas, de modo geral) devem ser céticos, mas no sentido proposto por Sagan, de sempre manter a mente aberta. Por exemplo, eu sou físico, acredito na ciência, mas não me considero um cético fundamentalista. Até acredito em coisas incríveis: entes que são ondas e partículas simultaneamente; universos multi-dimensionais; tempos e comprimentos que dependem da velocidade do objeto; estruturas nanoscópicas que podem atravessar verdadeiras paredes, e em muitos outros fenômenos que certamente não são nada intuitivos, mas continuam sendo impressionantes, mesmo após anos e anos de estudo. O importante é que as teorias sejam comprovadas seguindo critérios rígidos, metodologias adequadas e publicadas em periódicos de circulação internacional, para que outros pesquisadores possam tentar repetir os experimentos e modelos. Se algo novo é proposto ou descoberto, o primeiro passo do cientista é tender ao ceticismo, repetir o experimento, verificar possíveis falhas, buscar explicações alternativas. Ter um espírito crítico aguçado, mas sempre com algumas janelas abertas para enfrentar algo completamente novo e desconhecido, ainda inexplicado, mas não necessariamente inexplicável.

***

Marcelo Knobel é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), coordenador do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri) e editor da sessão “Radar da Ciência”, da Revista Eletrônica ComCiência.

Informativo:

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/julho2003/ju220pg02.html
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.
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