S.T.R. Publicado: 02/11/2001
Atualizado: 20/11/2001
O CETICISMO E O CONHECIMENTO DE CADA UM

de Francisco Prosdocimi


Os cientistas são, muitas vezes, céticos com relação à grande maioria dos eventos místicos, paranormais e ufológicos que parecem acontecer à sua volta. Entretanto, devemos considerar que os cientistas são indivíduos que conhecem a natureza do universo melhor do que qualquer outro profissional na sociedade humana. Afinal, essa é sua profissão!

No âmbito de nossa sociedade, cada pessoa se especializa em uma determinada área de seu interesse e se torna cética com relação à sua área de conhecimento (excetuando-se aqui religiosos e místicos, que aceitam certas premissas dogmáticas sem uma gota de ceticismo). Considerando que é impossível que nos especializemos em todas as áreas do conhecimento humano, muitas vezes tendemos a aceitar as opiniões de especialistas. Apesar de tudo, quando o assunto envolve crenças e convicções pessoais, é difícil aceitar o que os especialistas dizem (por mais bem colocado e lógico que seja) e é por isso que nossa sociedade vive tão cheia dos mais absurdos e diferentes mitos.

Experimente, um dia, chegar pra uma dona de casa e dizer que consegue assar um bolo apenas com o calor de suas mãos, que consegue fazê-lo crescer apenas com a força do pensamento ou que utilizando cem vezes menos ingredientes você faz um bolo do mesmo tamanho. Experimente dizer a um engenheiro civil que você é capaz de construir um edifício de vinte andares utilizando apenas um pilar com dois milímetros de diâmetro. Experimente falar a um cientista da computação que você conseguiu fazer com que seu disco rígido de 540Mb conseguisse armazenar 200Gb. Experimente surpreender um advogado dizendo que você conseguiu criar um sistema de leis perfeito, onde nunca haveria erros de sentença e todos pagariam de forma justa e adequada por seus atos ilegais. Diga a um publicitário que você bolou uma propaganda que fizesse qualquer um sair correndo para comprar seu produto.

Sou capaz de apostar dez para um como, em todos os casos citados no parágrafo anterior, o profissional, no mínimo, iria duvidar de você. (É claro que algumas vezes ele poderia achar que você é louco e concordar: “– Sim, sim, parece interessante...”) Mas é claro que ele iria querer saber como você conseguiu tal façanha. Todos são céticos quando conhecem o objeto de seu estudo! A dona de casa, por mais humilde que seja, nunca vai acreditar que você consegue fazer um bolo do mesmo tamanho utilizando apenas um centésimo de cada ingrediente. É importante notar que talvez, num futuro distante, seja possível fazer esse bolo com tão poucos ingredientes, mas não vale a pena perder muito tempo com essa pessoa que diz fazê-lo hoje, a não ser que ela explique de forma lógica e mostre passo a passo seus procedimentos.

No caso do cientista pode-se dizer que não vale a pena gastar muita saliva discutindo com uma pessoa que diz que pode haver vida inteligente no Sol, como aconteceu comigo há bem pouco tempo. Toda a vida que já observamos, até hoje, é a que existe na Terra, onde todos os organismos são formados por informações codificadas em cadeias de moléculas que formam os ácidos nucléicos (RNA ou DNA). Sabemos que o DNA se desestabiliza a cerca de 100ºC, quando acontece a quebra das ligações de hidrogênio e a abertura da dupla fita, descaracterizando a forma de dupla hélice da molécula. Numa temperatura um pouco maior acontece a ruptura das ligações fosfodiéster que ligam os nucleotídeos entre si, cortando o DNA em minúsculos pedacinhos que são incapazes de constituir vida, inteligente ou não, da forma como conhecemos. Sei que a temperatura na superfície do Sol é muito maior do que míseras centenas de graus Celsius (e, no seu interior, é ainda maior) e, portanto, estou convicto que não podemos encontrar vida inteligente no Sol. É claro, e esse é um dos pontos-chave da questão, que pode existir vida no Sol, baseada em outras cadeias químicas ou em coisas completamente inusitadas para nós no dia de hoje. A minha pergunta para essa pessoa é similar àquela feita pela dona de casa ao indivíduo que diz fazer o bolo com um centésimo dos ingredientes: explique-me, através de um raciocínio lógico e mostrando passo a passo, como é que pode existir vida inteligente no Sol? Como a pessoa não é capaz de explicar e nem de apresentar provas convincentes, mantenho-me cético com relação a esse fato, assim como a dona de casa manteve-se cética com relação ao bolo econômico. Algum dia, num futuro sabe-se lá quão distante, pode-se chegar a fazer tal bolo ou mostrar a existência de tal vida. Até lá, a dona de casa e eu nos manteremos céticos com relação a cada um dos fatos.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a grande parte dos fenômenos místicos, parapsicológicos ou religiosos. Enquanto ninguém mostrar evidências ou explicar detalhadamente através de raciocínios lógicos que um determinado evento (seja uma cura através das mãos, uma torção de talheres com a força da mente, uma abdução por alienígenas, a existência de Deus ou um bolo com um centésimo dos ingredientes) realmente existe ou pode acontecer, temos o direito e o dever de permanecermos céticos em relação a ele. Do contrário seríamos obrigados a acreditar em qualquer coisa que qualquer um inventasse, como o fato de sermos controlados por uma mente em forma de ostra. Se não há evidências de que somos controlados por uma mente em forma de ostra ou que existe vida após a morte, não temos por que acreditar em uma ou outra coisa, por mais que um milhão de pessoas nos digam que já viram em seus sonhos uma mente em forma de ostra dizendo-lhes o que fazer.

Somente com uma maior educação científica e cética a população conseguirá se desvencilhar de crenças e misticismos absurdos, sem quaisquer evidências físicas e criados a partir de lógicas falhas. Com uma legião de céticos espalhados pelas mais diversas áreas do conhecimento, da culinária à biologia molecular, poderá chegar um dia em que será muito mais difícil enganar até mesmo a mais simples das pessoas. Mas é claro que toda a minha argumentação pode estar errada ou incompleta. Mostre-me o porquê e poderei, se utilizar bons argumentos explicar passo a passo, concordar com você.

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Francisco Prosdocimi Santos é técnico em informática pelo CEFET-MG e estudante do 8º período do bacharelado em genética do curso de ciências biológicas da UFMG. Trabalha em bioinformática como estagiário de iniciação científica no laboratório de Genética Bioquímica do ICB-UFMG.

Comentários

Humberto Quaglio - hquaglio@zaz.com.br - Minas Gerais Minas Gerais, enviou em 16/11/2001

Você conseguiu expor o ceticismo de uma forma que toda pessoa pode compreender de uma maneira bastante clara, qualquer que seja a atividade que esta pessoa exerça, desde atividades mais simples, até as mais complexas. Creio que este texto pode ter um impacto muito positivo em muitas pessoas, pois mostra que todos somos céticos, mesmo sem sabermos, e pode motivar leitores a enxergar com mais clareza que o ceticismo que cada um pratica em seu ramo do conhecimento pode ser algo útil em todos os aspectos da vida. Além de tudo isso, seu exemplo, onde você citou os advogados, foi perfeito, exato ! Você conseguiu captar com exatidão algo que despertaria completamente um forte ceticismo em qualquer pessoa que trabalhe com o Direito e com a Justiça !

Rálamo - ralamo@porncity.net - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 06/11/2001

Muito bom. Não tenho dúvida de que só através da educação científica e cética vamos nos livrar das religiões e dos charlatanismos.

Peterson Leal - peterlsm@terra.com.br - Mato Grosso Mato Grosso, enviou em 05/11/2001

Muito bom o texto. Demonstra de forma simples e objetiva que o ceticismo não é simplesmente uma inclinação à descrença, mas sim uma atitude de busca sincera que procura não sacrificar nossa capacidade de RACIOCINAR.
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.icb.ufmg.br/~franc/cool/ceticismo/conhecimento.htm
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.