Renato Zamora Flores Publicado: 27/05/2000
Atualizado: 22/09/2000
BASIL PÚRPURA

de Renato Zamora Flores


Basil PúrpuraO vício do erotismo desenfreado, da procura incessante por sites eróticos na Internet, até da pornografia tem cura!

A terapia será o resultado de um processo complexo: Você vai precisar, inicialmente, de algumas flores de uma planta chamada basil púrpura (Ocilum basilicum), este simpático vegetal que você pode ver ao lado.

Ferva as flores por 10 a 30 minutos em água pura de fonte. Expôr a fervura à lua ou ao sol também ajuda, segundo alguns. Depois, misture com conhaque em proporções idênticas. Este miraculoso medicamento é indicado para os seguintes problemas:

"atividade sexual ligada ao secreto e ao pecaminoso, para gozar tem que dizer palavrão! Necessidade compulsiva de buscar relações sexuais fora do relacionamento principal, atividades sexuais rebaixantes e desumanizantes. Forte atração por pornografia e formas de sexualidade ilícita ou ilegal. Ou o oposto, um falso moralismo. Para grávidas que perderam a libido."
Este texto, com erros de pontuação, foi retirado de um manual sobre florais que tem feito bastante sucesso. Não há menção a doses, mas devido à presença de conhaque, suponho que deva ser tomado em doses generosas, depois das refeições, em cálices bojudos.

Mas o que são florais?

Literalmente, são flores dissolvidas ou cozidas em água. Eles são organizados em sistemas, um conjunto destas soluções que os produtores pensam poder atender a todas as necessidades humanas, com uma visão usualmente moralista: por trás de cada um destes sistemas está um modelo ideológico. Os sistemas de florais, que podem contar com mais de cem essências, foram desenvolvidos por indivíduos, do Alasca a Polinésia, que garantem possuir poderes paranormais que os permitem identificar as plantas certas, vegetais próprios de suas regiões.

Os fabricantes e vendedores, entretanto, nos informam que "os florais são compostos energéticos que atuam através das energias emocionais do indivíduo gerador da doença; portanto, quando o ser humano reconhece as distorções de comportamento e os desequilíbrios emocionais, que acabam por agredir seu organismo, passa por um processo de auto-conhecimento, tendo condições, assim, de anular os efeitos nocivos de seus próprios sentimentos. Pela dissolução de padrões mentais negativos, como raiva, melancolia, depressão, irritação, medo etc., os florais trazem o equilíbrio, a energia natural da essência da personalidade onde o tratamento se processa."

A julgar por esse discurso, os florais seriam bastante bons se não fosse o resultado de uma seqüência de enganos, alguns inconscientes, outros propositais. Os terapeutas florais estão convencidos de que a consciência humana, por meio dos comportamentos do indivíduo, é a causa de todas as doenças. Seria muito bom, caso fosse verdade, já que bastaria um comportamento correto para garantir saúde e longevidade. Pena que a vida real não é assim. Você gostaria de tentar curar uma infecção bacteriana sem antibióticos e com uma revisão da consciência?

Não existe nenhuma pesquisa científica, com os mínimos padrões de qualidade, que mostre qualquer efeito destas flores dissolvidas em água. São indicadas, por seus fãs, tanto para seres humanos como animais e até para plantas. Seria bastante razoável que os floralistas nos explicassem, porém, como um remédio para pensamentos pode curar plantas.

As explicações dadas para os efeitos alegados são, igualmente, ilógicas: "em vez de cuidar do órgão doente, trata-se a personalidade que gerou a doença. Quando a causa é eliminada, a conseqüência (doença) deixa de existir", informa um de seus especialistas. Se este método funcionasse seriamente, as curas de problemas complexos como a AIDS, as doenças cardíacas ou das diferentes formas de câncer seriam questões muito simples.

Outra explicação despropositada é a de que conhecimentos da Física Quantica poderão comprovar mecanismos de ação dos florais em situações tão inusitadas como "submeter-se à direção da vontade universal".

A lista de aplicações dos florais, caso fossem efetivos, seria prodigiosa. Lobularia maritima, para pessoas que fazem tudo mais complicado, Cericidium microphyllum para profunda vergonha interior e/ou auto-censura, Patersonia longifolia, para uma visão materialista e ateísta da vida e, até, Cereus giganteus para conflitos com a imagem de autoridade.

No que diz respeito ao sexo, há florais para ambivalência sobre identidade sexual, para o desabrochar da feminilidade na primeira menstruação, para o medo de ser violentada, para enfrentar os problemas de ser mãe solteira, para impotência, e para induzir uma sexualidade responsável.

Até a década passada, apenas os esotéricos mais fanáticos conheciam os Florais de Bach. Atualmente já é possível identificar 19 sistemas florais, dos quais alguns nem são mais só florais, pois contêm água do mar e animais marinhos.

A terapia floral é, sem dúvida, a forma de pseudociência que mais cresce no país.

Como surgiram os florais?

O mais antigo sistema de florais foi desenvolvido no começo do século XX pelo médico inglês Edward Bach, falecido aos 50 anos, em 1936.

Na faculdade, não era um dos alunos mais aplicados, pois acreditava que sua intuição era superior ao conhecimento científico. A idéia dos florais lhe surgiu da suposição (errônea para quaisquer outros ramos da ciência) de que o sol, ao aquecer o orvalho sobre as flores, retirava delas poderes curativos. Poético, mas irreal.

Atualmente, alguns de seus seguidores e admiradores contam que Bach fez pesquisas para escolher apenas flores que não produziam efeitos negativos, mas esta informação é falsa pois o próprio médico relatou que recebera inspiração divina sobre as propriedades de cada uma das planta.

Entre as excentricidades deste Doutor estava sua crença de que banhos com água quente eram perniciosos, pois abriam os poros da pele e permitiam que a sujeira entrasse no corpo. Acreditava também que as doenças cardíacas eram causadas pela falta de amor pela humanidade.

Se Edward Bach estivesse vivo, ficaria indignado com a proliferação de sistemas de florais pois ele sabia, também por inspiração divina, que apenas as suas 38 essências, todas localizadas próximas a sua casa, tinham utilidades psicológicas. Ainda que existissem milhares de espécies de plantas no mundo, centenas com utilidade médica, todas aquelas com ação em pensamentos e sentimentos foram colocadas (certamente por Deus) próximas à residência deste enigmático médico do interior da Inglaterra. É difícil de acreditar.

Por que há tantos usuários?

Em parte, por seu aspecto de panacéia, uma medicação para todos os fins. Uma mesma essência floral serve para problemas diametralmente opostos: girassol, por exemplo, é útil tanto para baixa auto-estima como para auto-estima elevada demais. Uma pesquisa americana identificou, em média, 6,3 indicações por essência.

Em parte, também, porque os propagadores de doutrinas de florais usam diversas técnicas de marketing para convencer o público das propriedades miraculosas de seus produtos. Há muito dinheiro em jogo, ainda que em quantidade inferior ao da indústria farmacêutica tradicional. O preço de uma consulta on-line incluindo os florais indicados para os problemas diagnosticados e despesas de correio, em um "site" na Internet, é de R$15,00, o mesmo que um único comprimido de Viagra. A diferença é que, ao comprar um comprimido você sabe previamente que ele contêm 25 miligramas de uma substância chamada citrado de sildenafil. Ao adquirir um floral, o que é que está comprando, além de um reforço para sua boa-fé?

Muitos dos problemas ou doenças para as quais florais são recomendados são patologias transitórias que o organismo acabará, na maior parte dos casos, por combater com seus próprios métodos, como resfriados ou dores de cabeça. Outras são doenças cíclicas, com quadros de melhora e piora, como transtornos gastrointestinais, depressão, alergias, etc.

Mas a principal causa de seu sucesso é a crença dos usuários de que vão melhorar com o suposto medicamento. Esta crença pode ser ampliada por profissionais que demonstram interesse nos problemas dos paciente e que acreditam, eles mesmos, que estão indicando algo efetivo para aliviar o sofrimento.

Para quem não se sente bem, qualquer promessa de cura é bem vinda. Tavez fosse mais correto, entretanto, que os pacientes fossem informados de quão subjetivos são os sintomas e, ainda, de que sentir-se mal não está diretamente vinculado com estar doente ou sofrendo de uma patologia crônica.

Há um preço a pagar por tanta subjetividade, é o auto-engano, que pode ser identificado nesta afirmação despropositada, quase inacreditável, retirada de um livro de florais:

"Os remédios [do Dr. Bach] tratam da persperctiva mental das características da personalidade; do temperamento do doente, em vez de se ocupar diretamente da enfermidade física; deste modo, o medo é que é importante, não a varíola ou a AIDS."
Quem sabe não seria melhor para você plantar algumas flores em sua casa ao invés de comprar florais? Você vai gastar menos dinheiro e se sentir melhor. Terá comprado um vaso ou semente pelo que ele, de fato, vale e não por que alguém o convenceu de seu poder miraculoso. Melhor, terá sido mais um passo rumo a sua independência intelectual.

***

Renato Zamora Flores é Professor do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1984, obteve o título de mestre em genética no curso de pós-graduação em genética e, em 1997, o título de doutor em ciências no programa de pós-graduação em genética e biologia molecular pela mesma universidade. É coordenador de projetos de extensão que presta atendimento clínico e psicológico em escolas e na Febem. Coordena também o ambulatório de genética do comportamento no departamento de genética da UFRGS, que atende crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos. Uma versão deste texto foi publicada originamente na Revista BRAZIL SEX MAGAZINE, IV:35, 1998, págs. 26 a 28.

Referências:

Comentários

Renato Zamora Flores - rzflores@if.ufrgs.br - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 24/08/2000

Fiz uma pequena esperiência para testar a hipótese da Letícia Trindade, com oito pessoas da terceira idade, das quais quatro com mais de 70 anos.
Para minha surpresa, não ficaram chocadas nem o acharam rude. Proposta. sugiro que todos os que disponham de pessoas da terceira idade por perto, lhes apresentem o texto e pergundem se o acharam rude e agressivo. Enviem a resposta para mim que me emcarregarei de fazer a tabulação. Se os velhinhos estão tão sensíveis, vamos precisar rever os textos.
Afinal, ninguém gosta de perder leitores.
P.S.: Minha mãe, que é muito brava e moralista, teria me puxado (arrancado seria um termo mais adequado) as orelhas se não gostasse do texto. Talvez ameaçasse, até, de me deserdar.

Leticia Lima Trindade - limatrindade@ig.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 14/08/2000

O texto sobre florais coloca de uma maneira bastante inteligente argumentos contrários ao seu uso. Entretanto, a primeira parte, onde faz referência ao "Basil Púrpura" me parece um tanto agressiva. Não aconselharia sua leitura a pessoas da terceira idade (muitas delas usuárias dos "tais" florais) pelo tom rude da exposição.
De qualquer forma o autor está de parabéns, já que seu texto foi referido na revista da Folha de S.Paulo de 13/08/00.
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • Traduções para inglês, espanhol, e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.