Publicado: 04/05/2001
de Moacyr Scliar
Mas agora está sendo ressuscitado. Não por médicos, mas por um osteopata. O objetivo da osteopatia é de, mediante manobras, "alinhar" os ossos, mas Jean-Pierre Barral, um osteopata de Grénoble, França, "alinha" vísceras. Que, segundo ele, estão sempre saindo do lugar, porque caminham dentro da barriga, movendo-se "30 mil vezes por dia". Só o fígado, garante Barral, caminha 600 metros por dia - o que deveria ser uma lição para os sedentários. O mesmo acontece com o estômago e com os rins, que ele coloca no lugar com massagens. É claro que o paciente precisa voltar lá porque seu tratamento, diferente da nefropexia, não é para sempre. Você ficou assombrado com o que leu? Pois então vai ficar mais assombrado ainda. A descrição do "tratamento" de Barral não figura em nenhum livro esotérico, mas sim na prestigiosa revista Time. Pior: numa seção que está sendo publicada semanalmente e que se chama Os Inovadores - supostamente pessoas que vão renovar o mundo, que constituem "a próxima onda" (Deus, como os americanos gostam de "ondas"). Barral não está sozinho na "onda alternativa". Ali está também um homem chamado John Upledger que "manipula" os ossos do crânio para "liberar" o líquido que banha o cérebro, e Jeanne Achterberg, que combate o câncer, "imaginando-o" (notei agora que a quantidade de aspas neste texto é enorme. Mas é por causa do assunto).
Pergunta: como uma revista pretensamente séria se presta a essas coisas? A resposta está na introdução do artigo: "Estima-se que 50% dos americanos adotam algum tipo de terapia alternativa; as seguradoras de saúde estão começando a pagar por esses tratamentos." Aí está: se há grana por trás, então é sério. "Show me the money", como diz Cuba Gooding Jr. naquele filme sobre esporte. Que o dinheiro, e a popularidade, venham da crendice, isso não importa muito. Mas há, sim, uma lição a extrair daí. E a lição é a seguinte: se os pacientes não encontram respostas para suas inquietações nos serviços médicos, eles a buscarão em outros lugares. Lugares alternativos. Os pacientes precisam de quem os ouça, de quem os compreenda. Os charlatães sabem como trabalhar esse desamparo. E os médicos precisam aprender como fazê-lo. É mais difícil que a nefropexia. Mas é mais honesto. E mais eficaz.
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