Luis Fernando Verissimo Publicado: 01/11/2001
Atualizado: 17/03/2002
TETRAGRAMMATONS

de Luis Fernando Verissimo


Com a próxima descoberta de todo o seu código genético, o ser humano se tornará totalmente diagramável, e tomará posse oficial do seu próprio destino. Pode-se mesmo encarar o anúncio, que foi feito ontem, de que estamos quase 100% decifrados como um prenúncio da transferência de posse, uma solenidade preliminar da futura troca de comando. Sai Deus e entra o que mesmo? Talvez Deus com outro nome. Pois o segundo Gênesis, agora sob inteira responsabilidade da ciência, vem, como o primeiro, com a sua própria linguagem esotérica. Em vez de JHVH, o nome indizível de Deus em hebraico, o Tetragrammaton da Kabala, temos ACGT, as letras que identificam as quatro bases químicas do DNA, e cujas combinações determinam nossas vidas. No fim, estamos trocando um mistério por outro. O nome secreto de Deus era o princípio ativo da Criação, a palavra inaugural do Universo, mas dizê-lo por completo equivalia a um sacrilégio, ao pecado de querer saber mais do que nos convinha. Por isso nas antigas línguas semíticas não existia a representação gráfica de vogais, existia o som, mas não existia o seu signo, para salvar o homem da indiscrição mortal de dizer o nome todo. ACG e T não formam qualquer palavra, designam, se entendi bem, a adenina, a citosina, a guanina e a timina, que, estas sim, formam o vasto vocabulário que nos traz de pé. Mas continuamos condenados ao mistério. Poder dizer as vogais não nos torna menos perplexos diante do seqüenciamento do DNA do que diante dos desígnios de Jeová. Sabemos os nomes todos e continuamos não sabendo nada.

Seja como for, a ciência, dentro de alguns anos, poderá fazer gente sem precisar confiar no outro nome de Deus, o Imponderável. Eventualmente até fará gente permanente e eliminará a morte do nosso carnê de preocupações - salvo, claro, por bigorna na cabeça ou similar. E aí teremos a eternidade inteira para não entender nada.

Comentários

Roberto Aguiar Medeiros - robertoaguiarm@zipmail.com.br - Bahia Bahia, enviou em 17/11/2001

A preocupação do autor é válida. Ele está preocupado com o uso ético das informações do genoma humano e sob esse ponto de vista essa descoberta pode produzir resultados negativos (como outras descobertas científicas, ex: bomba atômica). Quanto as observações comparando o Homem com deus são irrelevantes e tem como objetivo valorizar o argumento da utilização ética dessa descoberta. No meu ponto de vista o desvendamneto do genoma humano é a principal descoberta científica de minha geração! Possibilitando desenvolvimentos, antes inimagináveis, na medicina.

Cristiane - crismeh@hotmail.com - Paraná Paraná, enviou em 05/11/2001

Não concordo com o autor, pois estamos diante de uma conquista importantíssima, e toda a humanidade está empenhada nisto pois sabe que é algo real, assim sendo, acredito que esta técnica será logo utilizada com total conhecimento; e, comparando ao nome de Deus, este não temos certeza de sua procedência pois duvidamos até mesmo da Bíblia devido a inexistência de provas sobre sua veracidade.
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.estado.com.br/editorias/2000/06/27/pol505.html
  • Traduções para inglês e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.