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de Carl Sagan
Por toda essa seqüência nosso observador imaginário fica surpreso acima de tudo pelo isolamento da Terra. A luz do sol, a luz de estrelas e raios cósmicos e ocasionalmente alguns restos interplanetários chegam a superfície da Terra, mas em todo esse longo período nada evitava que um pouco de hidrogênio e hélio deixasse o planeta. E então de repente, a menos de 20 anos atrás, o planeta começa, como um dandelion e suas sementes, a disparar pequenas capsulas para o interior do sistema solar. Primeiro elas entram em orbita ao redor da Terra e depois para o satélite natural estéreo, a lua. Seis pequenas capsulas, maiores que as restantes, aterrissam na lua e de cada um deles dois pequenos organismos emergem, exploram seus arredores brevemente e depois correm de volta para a Terra, tendo estendido timidamente um dedo dentro do oceano cósmico. Cinco pequenas espaço naves entram na infernal atmosfera de Vênus e três delas sobrevivem uns dez minutos na superfície antes de serem destruídos pelo calor. Mais de uma dúzia de espaço naves são despachadas para Marte; uma envia de volta informações por um ano inteiro de sua orbita em volta do planeta. Uma outra passa por Vênus para encontrar Mercúrio, em uma trajetória que fará com que ele passe próximo ao planeta mais interno muitas vezes. Dois mais atravessam com sucesso o cinturão de asteróides, voa próximo a Júpiter e são repelidos por sua gravidade para o espaço interestrelar. É bem claro, o observador deve relatar, que lago interessante está acontecendo no planeta Terra. Entramos, quase sem perceber, em uma era de exploração e descobertas sem paralelo desde o Renascimento, quando em apenas 30 anos os europeus atravessaram o oceano a oeste para colocar todo o globo a seus pés. O nosso oceano está além deste globo: é o raso disco de espaço ocupado pelo sistema solar. Os nossos novos mundos são o sol, a lua e os planetas. Em menos de 20 anos de exploração espacial nós aprendemos mais sobre esses mundos do que nós aprendemos em todos os séculos anteriores de observações feitas da Terra. Nós estamos começando a organizar essa informação em um novo formato do nosso sistema solar. É útil - e até humilde - começar colocando nossa pequena vizinhança solar em sua própria perspectiva cósmica. A Terra é um pedregulho de rocha e metal que passeia num mar de luz solar no recanto mais interno do sistema solar. Outras diminutas esferas de rocha e metal - Mercúrio, Vênus e Marte - movem-se em orbita ao redor do sol. Esses planetas internos e seus satélites não somam uma grande parcela do sistema solar como um todo. A maior parte da massa, momento angular e (do ponto de vista de qualquer astrônomo extraterrestre) e interesse aparente do sistema solar reside nos planetas Jovianos: quatro imensas esferas de rotação rápida. Os dois mais internos, Júpiter e Saturno, consistem principalmente de hidrogênio e hélio; de fato, Júpiter é algo parecido com uma estrela que não se formou. Os dois mais esternos, Urano e Netuno, são compostos por menos gases leves e mais de gases pesados como metano e amônia. Júpiter leva quase 12 anos para completar uma volta em torno do sol a uma mera distância de cinco unidades astronômicas. (Uma unidade astronômica é a mera distância da Terra ao sol, mais ou menos 93 milhões de milhas ou 150 milhões de quilômetros). Além dos planetas Jovianos, Plutão, menor e menos conhecido, orbita ecêntricamente a mais ou menos 40 unidades astronômicas. Mais distantes, a mais ou menos 100.000 unidades astronômicas, então alguns bilhões de cometas sem cauda, bolas de neve de um quilômetro de tamanho circulando lentamente o sol distante. De algum ponto mais distante, umas centenas de milhares de unidades astronômicas, o sol pareceria aos olhos leigos uma estrela brilhante sem nenhuma pista de seu conjunto de planetas. Isso seria a uma distância de alguns anos-luz (um ano-luz é aproximadamente 60.000 unidades astronômicas), ou a separação característica entre estrelas em nossa galáxia. De algumas dúzias de anos-luz distante, o sol seria quase indetectável ao olho humano sem instrumentos - uma distância de algumas dúzias de anos-luz é apenas mil vezes a distância do sol ao centro de nossa galáxia. A galáxia é uma vasta espiral rotatória maciça de alguns 250 bilhões de sóis, e o plano central denso da galáxia, visto pelas bordas, é a faixa difusa cruzando o céu que nós chamamos de Via Látea. Nossa galáxia é uma dentre pelo menos bilhões, e talvez centenas de bilhões, de galáxias. Nosso sol em particular e seus planetas constituem não mais que um exemplo de um fenômeno que deve ter certamente se repetido inúmeras vezes na vastidão do espaço e tempo. Se os 4.6 bilhões de anos de história da Terra pudessem ser comprimido em um simples ano, a época da exploração espacial teria começado a menos de um décimo de segundos atrás. As atitudes fundamentais em conhecimento responsável pela surpreendente transformação teria preenchido somente os últimos poucos segundos, desde a primeira ampla aplicação de lentes e espelhos simples para propósitos astronômicos no século 17. Antes disso, os planetas eram reconhecidos como sendo diferentes das "estrelas fixas" por milênios, que pareciam não mover com respeito mútuo. Os planetas (a palavra vem do grego "andarilho") eram mais claros que a maioria das estrelas, e eles se moviam contra o fundo estrelar. Uma vez que o sol e lua influenciaram significantemente a Terra, a doutrina astrológica diz que os planetas devem afetar a vida humana também, mas de maneiras mais sutis. Quase nenhum dos primitivos especulavam que planetas eram mundos como a Terra. Com os primeiros telescópios astronômicos, porém, Galileo ficou surpreso e maravilhado de ver Vênus como uma crescente iluminada pelo sol e visualizar as montanhas e crateras da lua. Johannes Kepler pensava que as crateras eram construções de seres inteligentes que habitavam a lua, mas Christiaan Huygens discordava. Ele argumentava que construções com tão grandes depressões requeriam um grandioso esforço - e pensava que poderia haver explicações naturais para elas. Huygens exemplificou o casamento da tecnologia avançada e habilidades experimentais com uma mente consciente e cética e uma abertura a novas idéias. Ele foi o primeiro a sugerir que em Vênus estamos olhando uma atmosfera e nuvens, o primeiro a entender alguma coisa da verdadeira natureza dos anéis de Saturno (o qual para Galileo tinha parecido como duas orelhas envolvendo o planeta), o primeiro a compreender uma notável marcação na superfície de Marte (Syrtis Major) e o segundo (depois de Robert Hooke) a desenhar a Grande Mancha Vermelha de Júpiter. As duas últimas observações são de grande significado atual porque elas marcam a continuidade das proeminentes características de superfície planetárias por pelo menos três séculos. (Huygens não era, certamente, um completo astrônomo moderno; ele não poderia escapar totalmente dos modos de crença de seu tempo. Considere os argumentos curiosos pelos quais ele deduziu a existência de maconha em Júpiter. Galileo tinha observado quatro luas circundando Júpiter. Huygens formulou uma pergunta do tipo que poucos astrônomos fariam hoje: por que é que Júpiter tem quatro luas? Bem, por que a Terra tem uma lua? A função de nossa lua, Huygens raciocinou, além de fornecer um pouco de luz a noite e levar as marés, é de ajudar os marujos a navegar. Se Júpiter tem quatro luas, deve haver muito mais marujos naquele planeta. Marujos implicam barcos; barcos implicam velas; velas implicam cordas. E cordas implicam na planta da maconha. As vezes eu penso quantos de nossos premiados argumentos científicos pareceriam igualmente tolos do ponto de vista de três séculos). Um registro útil do nosso conhecimento sobre um planeta é a quantidade de bits de informação necessária para caracterizar o que sabemos sobre sua superfície - em efeito, a quantidade de pontos pretos e brancos em reproduções fotográficas de meia tonalidade resumem toda a imagem existente. Lá nos dias de Huygens, aproximadamente 10 bits de informação, todas obtidas através de rápidas olhadas pelos telescópios, teriam caracterizado o conhecimento do homem da superfície de Marte. Na época da mais próxima aproximação de Marte com a Terra em 1877 aquele número cresceu para talvez alguns poucos milhares (se excluirmos uma grande quantidade de informações errôneas, tais como os desenhos dos "canais" que agora sabemos que eram totalmente ilusório). Com mais informações visuais e com um aumento na quantidade de fotografias astronômicas a quantidade de informações cresceu pouco até o advento da exploração do planeta por veículos espaciais deram uma onda de novas informações. Apenas 22 fotos obtidas em 1965 pela Mariner 4 em missão de passagem representava cinco milhões de bits de informação, pouco comparável a todo conhecimento fotográfico prévio do planeta, apesar deles cobriram só uma pequena fração da área do planeta. A dupla missão de reconhecimento da Mariner 6 e da Mariner 7 em 1969 estendeu essa cobertura, aumentando o total de bits de informação por um fator de 100, e em 1971 e 1972 a nave orbital Mariner 9 aumentou ainda mais um fator de 100. Os resultados fotográficos da Mariner 9 em Marte correspondem a mais ou menos 10.000 vezes o total anterior de conhecimento fotográfico de Marte acumulado durante a história da humanidade. A informação espectroscópica infravermelha e ultravioleta e mais outras informações obtidas pela Mariner 9 representam um acréscimo similar. A vasta quantidade de novas informações fotográficas envolvem não apenas um avanço na cobertura, ou quantidade, mas também um espetáculo avanço em resolução, ou qualidade. Antes da viagem da Mariner 4 a menor característica confiável detectável na superfície de Marte era várias centenas de quilômetro de diâmetro. Com a conclusão da missão da Mariner 9 vários porcentos do planeta foram observados com uma resolução eficaz de 100 metros, uma melhora na resolução por um fator de 100 nos últimos anos e por um fator de 10.000 desde a época de Huygens. Foi só por causa dessa melhora em resolução que conhecemos vários vulcões, formações polares laminadas, canais sinuosos; grandes vales, campos de dunas, faixas de poeira associadas a crateras e muitas outras características instrutivas e misteriosas do meio ambiente marciano. Ambas a resolução e a cobertura são necessárias para permitir informações adequadas sobre um planeta recém explorado. Por exemplo, por uma coincidência fortuita a Mariner 4, Mariner 6 e a Mariner 7 observaram a parte velha, cheia de crateras e comparativamente desinteressante de Marte e não deram nenhuma dica do terço jovem e geologicamente ativo do planeta que só foi revelado pela Mariner 9. A vida inteligente na Terra seria completamente indetectável por fotografia com a luz do sol refletida a menos que aproximadamente 100 metros de resolução fosse atingida, no qual a geometria urbana e rural de nossa civilização tecnológica se tornaria evidente. Isso significa que se houvesse uma civilização em Marte comparável em extensão e nível de desenvolvimento a nossa, ela não teria sido detectada fotograficamente até a missão da Mariner 9. Não há razão para esperar tais civilizações em outros planetas em nosso sistema solar; o que quero dizer é que estamos somente agora iniciando um reconhecimento de nossos mundos vizinhos. Não há dúvida que maravilhas e surpresas nos aguardam enquanto ambas as resoluções e cobertura fotográfica, a espectroscopia e outros métodos estão melhorando dramaticamente através de futuras missões de sondas espaciais. O vigor das ciências planetárias e o volume de detalhes de achados recentes impressionará qualquer um que freqüentar uma reunião da divisão para ciências planetárias da Sociedade Astronômica Americana. Na reunião de 1975, em fevereiro, haviam relatórios sobre a descoberta de vapor de água na atmosfera de Júpiter, de etano em Saturno, de possíveis hidrocarbonetos no asteróide Vesta, de uma pressão atmosférica que se iguala a aquela da Terra na lua Titã de Saturno. A lua Ganymede de Júpiter tinha sido detectada por radar e o espectro de emissão de rádio de uma outra lua Joviana, Callisto, tinha sido elaborada. E novas vistas espetaculares de Júpiter e Mercúrio e suas magnetosfera foram apresentadas pelos aparelhos da Pioneer 11 e Mariner 10. Tais descobertas são importantes e excitantes por si só, mas são suas implicações e inter-relações que são mais significantes. Cada novo achado contribui para a acumulação de evidências que são requeridas antes de podermos escrever uma autêntica história da origem e evolução do sistema solar. Nenhuma versão completa da história foi aceita ainda, mas este campo de estudo está agora rico em dicas provocativas e apostas ingênuas. Fora o entendimento do sistema solar como um todo, está ficando claro que informações sobre qualquer planeta ou satélite ilumina nosso conhecimento dos outros. Em particular, se é para entendermos a Terra, devemos ter um compreensivo conhecimento dos outros planetas. Deixe-me dar alguns exemplos do que poderia ser chamado de planetologia comparativa. Agora existe evidência observacional para apoiar uma idéia que eu propus pela primeira vez em 1960: que as altas temperaturas na superfície de Vênus são devidas ao efeito estufa no qual água e dióxido de carbono na atmosfera planetária impede a emissão de radiação térmica da superfície para o espaço. A temperatura aumenta ao ponto onde há um equilíbrio entre a luz do sol visível que chega a superfície e a radiação infravermelha que a deixa; essa maior temperatura da superfície resulta em uma maior pressão de vapor de gases estufa, dióxido de carbono e água, e o processo continua até que todo o dióxido de carbono atinja a fase de vapor, formando um planeta com uma pressão atmosférica alta e uma temperatura de superfície alta. A razão de Vênus ter uma atmosfera como a da Terra, não parece que Vênus recebe um pouco mais de luz solar do que a Terra. Se fosse para o sol ficar mais claro ou as nuvens e superfície da Terra mais escura, poderia a Terra se tornar uma réplica da clássica visão do inferno? Vênus pode ser um aviso para nossa civilização tecnológica, que tem a capacidade de alterar profundamente o meio ambiente de nosso pequeno planeta. Apesar das expectativas dos quase doentes cientistas planetários, Marte acaba por estar coberta por milhares de canais tributários sinuosos que tem provavelmente um ou dois bilhões de anos. Se eles foram formados por água corrente ou por dióxido de carbono, tais canais não poderiam ser esculpidos sob condições atmosféricas presentes; elas requerem pressões muito maiores e provavelmente temperatura polares mais altas. E então esses canais testemunharam pelo menos uma época e talvez muitas épocas prévias de condições mais amenas em Marte, o que implica que houveram grandes variações climáticas durante a história do planeta. Não sabemos se tais variações são o resultado de causas internas ou de externas. Se as causas são nativas a Marte, fica impossível saber se a Terra poderia estar, talvez como resultado das atividades do homem, sujeita a excursões climáticas da magnitude de Marte. Se as variações climáticas de Marte fossem resultado das causas externas (talvez variações na luminosidade do Sol), então uma correlação entre a paleoclimatologia marciana e a terrestre seria extremamente interessante. A Mariner 9 chegou em Marte no meio de uma grande tempestade de poeira global e suas informações permitem determinar se tais temperaturas aquecem a superfície planetária ou se a esfriam. Qualquer teoria com pretensões para prever as conseqüências climáticas de um aumento na abundância de partículas diminutas na atmosfera terrestre tem que ser capaz de fornecer a resposta correta para aquela tempestade de areia em Marte. De fato, utilizando nosso experimento na Mariner 9, James B. Pollack do Centro de Pesquisas Ames da NASA e Owen B. Toon e eu na universidade de Cornell calculamos os efeitos de explosões vulcânicas simples e múltiplas no clima da Terra e fomos capazes de reproduzir, dentro dos limites do erro experimental, os efeitos climáticos que foram observados depois de explosões vulcânicas recentes. A perspectiva da astronomia planetária, que sozinha nos permite visualizar um planeta como um todo, parece ser um bom treinamento para estudos da Terra. Como um outro exemplo da contribuição feita por estudos planetários para problemas terrestres, um dos principais grupos que está investigando os efeitos da injeção de propelantes aerossóis de fluorcarbono na camada de ozônio da Terra é chefiado por Michael B. McElroy da Universidade de Harvard - um grupo que trabalhou duro na física e química da atmosfera de Vênus. Agora depois das observações feitas por veículos espaciais, nós sabemos um pouco sobre a densidade das crateras de diferentes tamanhos em Mercúrio, na Lua, Marte e seus satélites; e estudos por radar estão fornecendo boas informações sobre Vênus. Apesar da superfície da Terra ter sido duramente alterada pelo vento, água e pelo deslocamento da crosta, nós também temos algumas informações sobre crateras na superfície terrestre. Se a quantidade de objetos que produzem tais impactos fossem a mesmo para todos esses planetas, seria possível calcular ambas a cronologia absoluta e relativa de várias crateras superficiais. O problema é que nós ainda não sabemos se os meteoros são de uma fonte comum (ex: o cinturão de asteróides) ou se são de origem local (ex: anéis de dejetos varridos nos estágios finais da formação planetária). Os planaltos lunares cheios de crateras nos informa de uma época antiga na história do Sistema Solar, quando a freqüência dos impactos era muito maior do que é hoje. A presente quantidade de dejetos interplanetários falha de longe em explicar a densidade das crateras dos planaltos. Por outro lado, a maria lunar, ou "mares", nos revela uma densidade muito mais baixa de crateras, o que pode ser bem explicada pela presente quantidade de dejetos interplanetários : na maioria asteróides e possivelmente cometas mortos. Para superfícies planetárias que não sofreram tantos impactos é possível determinar um pouco sobre a idade absoluta, muito sobre a idade relativa e em certos casos a mais sobre a distribuição de tamanhos no número de objetos que fazem as crateras. Em Marte, por exemplo, nós descobrimos que os flancos das grandes montanhas vulcânicas estão quase sem crateras, indicando sua relativa juventude: elas não existiram por tempo suficiente para terem acumulado muitas cicatrizes de impactos. Essa é a base para a hipótese do vulcanismo marciano comparativamente recente. O objetivo máximo da planetologia comparativa, pode-se dizer, é algo como um vasto programa de computador no qual inserimos alguns parâmetros iniciais (talvez a massa inicial, composição e momento angular de um protoplaneta e a quantidade de objetos vizinhos que o atingem) e daí derivamos a evolução completa do planeta. Nós estamos longe de ter um profundo conhecimento da evolução planetária no presente, mas estamos muito mais pertos do que pensávamos possível apenas algumas décadas atras. Para completar, cada nova descoberta levanta várias questões que nós não podíamos até agora. Mencionarei somente algumas delas. A rápida análise inicial por radar das crateras de Vênus as mostram extremamente rasas. Não há nenhuma água líquida para a erosão da superfície de Vênus, e a baixa atmosfera parece mover tão vagarosamente que seus ventos podem não ser fortes o suficiente para encher as crateras com poeira. Poderiam as crateras de Vênus ser preenchidas pelo lento colapso de morros parcialmente derretidos, fluindo como piche? A explicação mais popular para a geração de campos magnéticos planetários invoca correntes de convecção rotacional em um centro planetário eletricamente condutivo. Era esperado que Mercúrio, cuja rotação completa dura 59 dias, tivesse nenhum campo magnético detectável, mas a Mariner 10 descobriu um. Aparentemente uma reavaliação séria das teorias do magnetismo planetário estão em andamento. Somente Saturno tem anéis. Por que? Existe uma bela coleção de dunas longitudinais em Marte, apoiadas contra a parede interior da cratera de Procter. No Colorado, no Grande Monumento Nacional de Dunas de Areia, dunas de areia parecidas se apoiam nas curvas da montanha Sangre de Cristo. As dunas marcianas e as terrestres tem a mesma extensão total, o mesmo espaçamento entre dunas e a mesma altura. Mas a pressão atmosférica marciana é apenas 1/200 da pressão da Terra, então os ventos precisariam ser 10 vezes mais fortes que os da Terra para mover os grãos de areia; e mais, a distribuição do tamanho das partículas deve ser bem diferente nos dois planetas. Como pode então os campos de duna produzidos pela força dos ventos serem tão similares? Observações feitas da Mariner 9 indicam que os ventos em Marte pelo menos ocasionalmente excedem metade da velocidade do som. Os ventos são algumas vezes mais fortes? E se forem, qual é a natureza da meteorologia transsônica. Existem formações piramidais em Marte que tem aproximadamente três quilômetros de diâmetro de base e um quilômetro de altura. Não é provável que elas foram construídas por faraós marcianos. A taxa de grãos de areia transportados pelo vento em Marte é talvez 10.000 vezes maior do que a taxa na Terra por causa das grandes velocidades necessárias para moverem as partículas na fina atmosfera marciana. As faces das pirâmides marcianas poderiam ter sofrido erosão por milhares de anos de tais vendavais de mais de uma direção? As luas do sistema solar externo não são quase que certamente réplicas da nossa cinzenta lua. Muitas delas tem densidades tão pequenas que elas consistem basicamente gelos de metano, amônia e água. Como seria suas superfícies de perto? Como que as crateras sofrem erosão em superfícies de gelo? Poderia haver vulcões de amônia sólida com lava de amônia líquida descendo suas encostas? Por que Io, o maior satélite e mais próximo de Júpiter, está envolto em uma nuvem de sódio gasoso? Por que um dos lados da lua Iapetus de Júpiter é seis vezes mais claro que o outro? Seria por causa de uma diferença nos tamanhos das partículas? Uma diferença química? Como tais diferenças se estabeleceram e por que se estabeleceram em Iapetus e em mais nenhum outro lugar no sistema solar de forma tão simétrica? A gravidade da maior lua de Saturno, Titã, é pequena o suficiente e a temperatura da atmosfera superior é alta o suficiente para que o hidrogênio escape rapidamente para o espaço. Porém as evidências espectroscópicas sugerem que uma quantidade substancial de hidrogênio permanecem em Titã. Por que? Além de Saturno o sistema solar ainda é literalmente coberto por ignorância. Nossos fracos telescópios não determinam precisamente nem mesmo o período de rotação de Urano, Netuno e Plutão, muito menos a característica de suas nuvens, atmosfera e a natureza de seus sistemas de satélites. Uma das mais intrigantes questões, e a que agora estamos começando a abordar seriamente, é a questão da química e biologia orgânica em outros lugares no sistema solar. A questão se há organismos tanto grandes quanto pequenos, em particular em Marte, está totalmente aberta, o meio ambiente marciano não é de forma nenhuma tão hostil a ponto de excluir a vida, mas não sabemos o suficiente sobre a origem e evolução da vida para garantir sua presença lá - ou em qualquer lugar. Os três experimentos em microbiologia, o experimento em química orgânica e os sistemas de camera abordo dos dois veículos Vikings programados para aterrizar em Marte no próximo verão podem fornecer a primeira evidência experimental sobre a questão. A atmosfera rica em hidrogênio de lugares tais como Júpiter, Saturno, Urano e Titã são em alguns pontos similares a atmosfera da Terra quando da origem da vida. Através de simulações experimentais em laboratório sabemos que moléculas orgânicas são sintetizadas aos montes sob tais condições. (Nas atmosferas de Júpiter e Saturno tais moléculas seriam transportadas por convecção à profundidades onde elas seriam decompostas pelo calor, mas mesmo lá o estado estável da concentração de moléculas orgânicas podem ser significantes) Em todos os experimentos simulados a aplicação de energia em tais atmosferas produzem um material polimérico marrom que com o devido respeito lembra a matéria de coloração marrom das nuvens de Júpiter e Saturno. Titã pode estar completamente coberto por um material orgânico marrom. É possível que nos próximos poucos anos veremos descobertas importantes e inesperadas na ainda criança ciência da exobiologia. O principal meio para continuar a exploração espacial do sistema solar nas próximas décadas será certamente em missões planetárias não tripuladas. Veículos espaciais científicos tem sido lançados com sucesso a todos os planetas conhecidos pelos antigos. Se mesmo uma pequena fração das missões que estão programadas e que foram propostas forem implementadas, estará claro que o presente período de ouro da exploração planetária continuará. Mesmo com um reconhecimento preliminar do sistema solar inteiro até Plutão e a exploração mais detalhada de alguns planetas (por exemplo: veículos que atravessarão a superfície de Marte ou penetrarão a atmosfera de Júpiter) isso não resolverá o problema fundamental da origem do sistema solar. O que precisamos é descobrir outros sistemas solares, talvez em vários estágios de sua evolução. Avanços em instrumentos de solo e espaço nas próximas duas décadas possa tornar possível a detecção de dúzias de sistemas planetários em volta de estrelas solitárias próximas. Recentes estudos observacionais de sistemas de estrelas múltiplas por Helmut Abt e Saul Levy do Observatório Nacional Kitt Peak sugerem que mais de um terço de todos as estrelas possuem companheiros planetários. Não sabemos se tais sistemas serão como o nosso ou se serão formados seguindo princípios diferentes. Richard Issacman de Cornell e eu calculamos uma variedade de sistemas planetários possíveis baseados em um modelo teórico originalmente elaborado por Stephen H. Dole da Corporação Rand. As hipóteses por trás desses modelos são tão simples que nos fazem acreditar que elas são irrealistas, e ainda assim a quantidade de sistemas para os quais eles se originam é intrigante. O tempo pode não estar tão distante quando tivermos informações observacionais sobre a distribuição no espaço de vários tipos de sistemas planetários. Então poderemos repetir Huygens: "Que esquema maravilhoso e surpreendente nós temos aqui da magnífica vastidão do Universo! Tantos sóis, tantas Terras." Séculos mais tarde, quando os problemas sociais e políticos parecerem como os problemas da Guerra dos Trinta Anos parecem para nós, nossa época poderá ser lembrada principalmente por um fator: "foi a época quando os habitantes de Terra fizeram contato pela primeira vez com o vasto cosmos no qual repousa seu pequeno planeta.
CARL SAGAN foi professor de astronomia e ciências espaciais na Universidade de Cornell, onde também dirigiu o Laboratório de Estudos Planetários. Formou-se pela Universidade de Chicago e lá recebeu seu Ph. D em 1960. Antes de se juntar a faculdade de Cornell em 1968 lecionou na Universidade de Harvard e trabalhou no Observatório Smithsonian de Astrofísica em Cambridge, Mass. Um expert em física de atmosferas planetárias, condições de superfície planetárias e a possibilidade de vida extraterrestre, Sagan atuou como consultor e pesquisador em várias missões planetárias americanas, incluindo a próxima aterrissagem da Viking em Marte. Ele foi editor chefe da Ícaros: Jornal Internacional de Estudos do Sistema Solar, e atuou como chefe de departamento da divisão de ciências planetárias da Sociedade Astronômica Americana.
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