Mario Giudicelli Publicado: 04/05/2001
Atualizado: 20/11/2001
RELIGIÃO: A MAIS GRAVE DOENÇA SOCIAL HUMANA

de Mario Giudicelli


O título deste ensaio provocará espanto. Por ser a crença numa entidade divina qualquer uma das vacas sagradas das convicções humanas - essa fé produziu no passado como continua a produzir até hoje, as mais violentas reações quando a crença em Deus é posta em dúvida. Dessa forma, a afirmação acima é imediatamente considerada como uma audácia e seu autor é logo condenado à execração popular. E se não somos hoje queimados em praça pública nas ruas de Salem, no estado de Massachusetts, ou se em nosso mundo ocidental não tem mais o estado leis para fuzilar os que se opõem à religião, existem ainda, entretanto, enormes pressões públicas contra os que se levantam em oposição a qualquer tipo de fé. No entanto, tal como com um arroz cru e indigesto, façamos aqui um cozimento lento dos diferentes ingredientes desse tema difícil e em nome do bom senso, vejamos alguns dos principais argumentos que parecem comprovar que a religião é, indiscutivelmente, talvez a mais séria doença social do "Homo sapiens".

Em seu notável livro, "A Ilusão da Imortalidade", o professor Corliss Lamont, em brilhantes 300 páginas, demonstra que as crenças em Deus e na imortalidade não passam de uma simples ilusão. John Dewey, um dos maiores filósofos dos tempos modernos e possivelmente uma das figuras mais respeitadas nos Estados Unidos no campo da filosofia, num maravilhoso prefácio em homenagem ao professor Corliss Lamont reconhece que, conquanto o livro seja de uma clareza meridiana, estamos de tal maneira agarrados ao temor da morte, que nenhum argumento racional ou inteligente parece entrar no cérebro das pessoas, inclusive daquelas mais cultas. Tal como a paixão pela pátria ou, em escala menor, em nossa paixão pelo clube de futebol, se somos seu desesperado "fã", o animal selvagem que existe dentro de nós reage furiosamente quando abalamos e sacudimos as crenças que cercaram toda nossa educação e que desafiam o que acreditamos, ou que nos foi ensinado.

Neste trabalho de pesquisa, entretanto, procurarei sintetizar, em poucas páginas, os argumentos principais que demonstram que não apenas a crença num Deus qualquer ou na imortalidade não tem sentido, como, pior ainda, a religião constituiu no passado, como continua a constituir até hoje, talvez a mais grave e danosa enfermidade social humana e que precisamente por isso, é extremamente maléfica para a felicidade e o bem estar da humanidade. Assim, com o propósito de ser bastante simples e ao mesmo tempo procurando responder à curiosidade daqueles que se surpreendem com a declaração acima, darei abaixo as principais perguntas que o público geralmente levanta, seguidas de explicações que espero sejam claras, objetivas e que representem uma resposta inteligente a sua preocupação.

De onde surge incialmente a idéia de Deus?

No nosso mundo ocidental - como de resto em todas as demais nações embora com lendas diferentes - somos bombardeados desde os primeiros anos na infância por nossos pais, amigos, parentes, escolas, etc, com uma imensa série de historietas, contos, lendas e fatos. Como o cérebro da criança é indefeso e não tem como investigar e indagar a validade de tais estórias e como muitas delas são geralmente apresentadas não apenas para atrair atenção dessa criança, sobretudo porque se apresentam com enredos e temas curiosos, divertidos, assustadores e alegres (quaisquer que elas sejam, tanto para assustar com punições, como para divertimento e entretenimento), por tudo isso essa criança tende a acreditar em tudo o que lhe é contado.

Há ainda que levar em conta que esse cérebro infantil possui a característica do "imprint", isto é, aquela condição genética que leva o recém nascido (pássaros, mamíferos, insetos, etc) a marcar em sua mente certos aspectos da vida que permanecem indeléveis para o resto da existência dessa ou daquela espécie em particular. Conseqüentemente, a idéia da existência de um Deus poderoso que nos protegerá contra a morte, como a idéia de um Papai Noel que nos trará presentes durante a noite, são condicionamentos poderosos no cérebro infantil. Um fenômeno idêntico, por exemplo, ocorre com os patinhos recém nascidos, que identificam a mãe pata, porque esta é a primeira coisa que se mexe e se movimenta em sua frente no ninho escondido.

Pode-se argumentar que a crença num Papai Noel desaparece com uma idade maior da criança e que portanto Deus não pode ser comparado como uma lenda natalina, que desaparece depois de alguns anos. Mas há aqui, entretanto, um erro de percepção. A idéia do Papai Noel desaparece, porque na meninice logo as demais crianças mais adultas fazem com que a criança menor e ainda inocente constate que esse divertido personagem realmente não existe. E com o exemplo dos mais velhos, a ingênua criança que acredita no Papai Noel, em pouco tempo deixa tal crença de lado. No caso da existência de Deus, entretanto, a condição e a situação são diferentes, porque tal crença permanece e é alimentada, repetida e instilada todos os dias por todo o mundo, de modo que a criança não possui nesse caso um contra-argumento ou pessoas insistentes de sua idade e companheiros de brincadeiras, que logo destruam a crença natalina nesse Papai Noel maior que aprendem a chamar de Deus. Tal imprint, portanto, é o ponto de partida poderoso inicial, que leva a criança desde muito cedo a estar predisposta a acreditar no indivíduo misterioso e poderoso que todos os adultos acreditam.

Por que razão os seres humanos acreditam em Deus?

Os seres humanos QUEREM ACREDITAR NUM DEUS porque esse Deus lhes promete a salvação. Se para a crença em Deus não estivesse automaticamente incluída no pacote religioso a idéia da salvação e ressurreição após a morte, ninguém seria religioso. Em outras palavras, para nós não teria nenhum valor um deus que não prometa uma outra vida após a morte. É evidente que seria muito melhor que esse Deus impedisse a própria morte, mas como os religionistas não conseguiram obter desse Deus nenhuma resposta precisa em relação a esse desejo humano, os porta-vozes das religiões logo apresentam uma solução, ao argumentarem, em primeiro lugar, que a morte foi algo imposto por Deus, mas que apesar disso esse Deus bondoso ali estará presente após a morte para nos proporcionar uma nova vida que, no mínimo, conterá os mesmos prazeres de nossa vida terrena (Uma espécie de compensação por nos ter morto - se poderia dizer assim...)

É evidente que, para um indivíduo que possua um pouco de bom senso, poderia ocorrer esta pergunta: "Mas nesse caso, se Deus é tão bondoso, para que matar (ou permitir que morram) os seres humanos (que obviamente não querem morrer) quando seria muito mais prático mantê-los vivos "per omnia saecula saeculorum"?

Os religionistas, entretanto, parecem ter sempre resposta para tudo, por mais estapafúrdia e cínica que a resposta possa ser. Assim, eles argumentam que o homem foi posto na terra para sofrer e em pagamento de seu pecado original, isto é, por ter Adão cometido o bobo e ingênuo pecado de comer a maçã. Conforme verá o leitor instruído em psicologia moderna, aqui se deduzem duas observações: Em primeiro lugar, na religião cristã, os temas são apresentados em linguagem confusa e obscura para a massa geralmente ignorante (e para as crianças ingênuas e despreparadas, que ainda não têm defesas culturais). É óbvio que não faz nenhum sentido condenar a humanidade porque um determinado cidadão imaginário teria mordido ou comido a maçã. Essa questão para um cidadão de Moçambique, onde não existiam maças, por ser uma região tropical onde a fruta não pode ser plantada, pois se trata de uma planta originária de climas frios, pareceria idiótica, uma vez que tal indivíduo nem sequer teria uma idéia do formato da fruta ou seu gosto, não necessariamente tentador ou apetitoso.

O religionista, entretanto, argumenta que o que Deus quis dizer foi que Adão tinha liberdade para tudo, exceto desrespeitar a determinação divina no sentido de não tocar na macieira, uma vez que esta continha a fruta proibida.

Dentro, ainda, do bom senso, temos que analisar outras duas coisas. Em primeiro lugar, parece-nos que a punição divina da morte e do sofrimento eterno demonstra ser uma punição demasiado cruel e pesada pelo desrespeito a um comando tão ingênuo, em cujo caso esse Deus tão louvado como eternamente bondoso, foi exageradamente mau.

Em segundo lugar, Deus, sem nenhuma necessidade, provoca uma tentação tola, quando teria sido muito mais prático se Ele retirasse a macieira do céu. Afinal, qual era o objetivo de provocar a tentação num Adão ignorante? Se Deus havia construído um ser humano perfeito - ou que deveria ser perfeito, visto que Deus somente faria as coisas certas - então também provavelmente Adão não deveria ter sido tentado a comer a fruta proibida. Se, entretanto, não respeitou a desnecessária proibição e se comeu a maçã, então nesse caso temos que convir que Deus construiu um ser imperfeito, com o propósito posterior de puní-lo, o que seria nova crueldade contra um indivíduo sem proteção ou defesas, uma atitude, por sinal, muito pouco típica de um Deus que se supõe (pelo menos assim o querem os religionistas) deva ser um indivíduo muito bom.

Mas os religionistas logo argumentam que a maçã é apenas "um símbolo" e que o que se quer dizer é outra coisa. Segundo eles, o primeiro homem (Adão) criado por esse mesmo Deus, que por motivos óbvios teria que ser perfeito (posto que no caso contrário seria uma falha imperdoável e inaceitável que Deus fizesse algo imperfeito) revela ser um indivíduo sem caráter, porque desrespeitando um comando de Deus, resolve comer o fruto proibido. Em outras palavras, Deus lhe diz que pode comer tudo, MENOS A MAÇÃ. Ou em outras palavras, que não apenas será punido por desrespeitar a ordem divina, como é negado a Adão indagar o porquê da proibição, explicação que nunca nos é fornecida pelos religionistas em nome do Deus que inventaram.

Não pretende este autor examinar parágrafo por parágrafo as lendas da Bíblia por várias razões. Em primeiro lugar, seria um trabalho demasiado longo e fugiria aos propósitos deste ensaio. Em segundo lugar, porque outros autores muito mais brilhantes já o fizeram com rara inteligência. Se o leitor tem interesse em conhecer a análise feita por um dos mais brilhantes norte-americanos sobre o assunto, recomendo a leitura do livro "A Idade da Razão" escrito por Thomas Payne, que foi um dos líderes da revolução pela independência dos Estados Unidos e o principal mentor intelectual de Thomas Jefferson. Numa palavra, Thomas Payne se dedica a examinar cada versículo da Bíblia e nos oferece provas contundentes de que a Bíblia nada mais é senão o somatório de um monte de lendas antigas, das quais posteriormente se apropriou o cristianismo. Esclarece também que os evangelistas (Paulo, Thomas, Pedro etc) escreveram seu trabalho em diferentes períodos (de mais de 300 anos entre eles) e que todos esses capítulos e contos são absolutamente contraditórios, conforme Thomas Payne nos demonstra em sua obra, um desmentindo e contradizendo o outro. Finalmente, e conforme seria de esperar, não obstante Thomas Payne ter sido uma das maiores figuras da revolução norte-americana, ele tem sido sempre boicotado pelos fundamentalistas protestantes nos Estados Unidos, que procuram a toda força apagá-lo sem sucesso da história desse país em todo o sistema escolar norte-americano.

De onde se origina o homem? E o que é que ele faz que o torna mais poderoso que os demais animais? Por que são os seres humanos inteligentes e não os animais?

A imensa maioria dos animais vivos (e até mesmo muitos vegetais) e os mamíferos, dos quais fazemos parte, possuem em seu nascimento uma característica biológica e determinada geneticamente, que é chamada pelos cientistas de "imprint". Por "imprint" quer-se dizer aquela característica, por exemplo, que a mãe pata e seu patinho recém nascido desenvolvem nos primeiros 20 minutos de vida deste, de "cunharem" ou "carimbarem" em sua mente uma ligação de "identificação" entre ambos. Se tal "imprint biológico" - que é um comando da natureza - não existisse, as espécies animais desapareceriam, uma vez que o animal recém-nascido necessita do trato e proteção da mãe para sobreviver, antes de poder ser independente como adulto.

A extensão ou duração desse "imprint" varia segundo cada animal ou espécie. Entre os patos, dura em média 20 minutos. Se o patinho for separado da mãe no momento do nascimento, a mãe pata não o reconhecerá mais como prole e aquele morrerá por abandono e falta de ajuda ou proteção da mãe. O Dr. Konrad Lorenz, prêmio Nobel em sóciobiologia e ex-diretor do Instituto Max Plank de Berlin, realizou na Universidade de Connecticut (onde o autor deste trabalho foi seu aluno no curso de mestrado dessa matéria) uma experiência que tem maior importância para explicar porque acreditamos em Deus, do que todas as Bíblias juntas. Reunindo uma dúzia de ovos galados de pata, o Dr., Lorenz criou-os numa estufa. Ao faltar uma semana para o nascimento dos patinhos, o Dr. Lorenz batia de forma suave nos ovos com a ponta de seus dedos e, ao mesmo tempo com a boca próxima aos ovos, repetia seguidamente "cri cri cri cri".

Quando, sob sua ajuda, os patinhos quebraram a casca dos ovos, os recém-nascidos só tinham o Dr. Lorenz como indivíduo presente e visível. Ao final dos primeiros vinte minutos e quando os patinhos começaram a andar, estes passaram a acompanhar o cientista por toda a parte, como se fosse ele a mãe verdadeira, ao mesmo tempo que não tomaram o menor conhecimento da mãe que havia sido colocada a pouca distância destes (a própria mãe também não tomava nenhum conhecimento dos seus patinhos). O "cri cri cri " do Dr., Lorenz era o sinal de comunicação que substituia o "quack quack quack" da mãe verdadeira. No caso dos cachorros selvagens ou dos gnus africanos (wildebeasts, conforme seu nome no original Afrikaan) da mesma forma a identificação é rápida: os cachorros levam cerca de uma hora para identificar seus cachorrinhos, enquanto que o gnu toma por volta de hora e meia.

No caso dos seres humanos, as crianças recém-nascidas podem levar, em certos casos, cerca de um ano para identificar a mãe, embora também, ocorram casos de "imprints" mais rápidos. Em outras palavras, quando os animais têm uma vida relativamente curta - como é o caso dos patos - seu "imprint" é muito mais rápido, enquanto que os seres humanos, que vivem várias décadas, necessitam de um "imprint" mais demorado.

A principal característica para a sobrevivência dessa espécie animal que denominamos de "Homo sapiens" foi o desenvolvimento do cérebro. Isso será examinado dentro de mais alguns parágrafos. Mas, para que isso possa ser compreendido, há que explicar que cada espécie animal, dentro das inelutáveis leis da evolução, tão maravilhosa e completamente descritas por Charles Darwin em meados do século passado, desenvolve esta ou aquela característica biológica visando à sua sobrevivência. Para evitar confusão na mente do leitor, torna-se imperioso esclarecer que a "preferência" desta ou daquela espécie animal em "escolher" desenvolver asas, caninos, ou patas ligeiras para escapar ao predador e assim sobreviver como espécie, não é um ato ou gesto consciente. O caminho seguido por um leão, por exemplo, que desenvolveu fortes patas e poderosos caninos, foi apenas o produto de circunstâncias genéticas determinadas ao acaso, em que participaram igualmente ao acaso as condições do tempo, a disponibilidade de alimento, a região onde viviam e numerosas outras causas. Assim, somente aqueles animais que adotavam este ou aquele caminho que mostrava ser mais eficaz e melhor para a sobrevivência do animal, é que determinava se este permaneceria vivo ou desapareceria como espécie.

Algumas espécies, como é o caso do crocodilo, têm vencido, galhardamente, e com incrível sucesso a luta pela sobrevivência, visto que há milhões de anos esses répteis continuam a viver e se multiplicar com tranqüilidade, sem nenhuma modificação genética mais importante, senão uma modesta redução no seu tamanho. Tais répteis, que vem populando o planeta ha mais de 200 milhões de anos, conseguiram sobreviver o período glacial, vulcânico ou com a queda de enorme meteorito que teria provocado violenta queda de temperatura na terra, que destruiu todos os dinossauros de sangue frio. E, como se vê, esses répteis são muito mais antigos que o próprio ser humano.

Outro detalhe importante a observar é que o número total das espécies vivas hoje, constitui APENAS MENOS DE DOIS PORCENTO DE TODAS AS ESPÉCIES QUE JÁ EXISTIRAM NO PLANETA. Isso quer dizer, em outras palavras, que 98% das espécies já extintas desapareceram pela simples razão de que não tiveram ou não souberam produzir meios de adaptação para poderem sobreviver. Algumas delas se adaptaram, modificando-se, (como foi o caso de alguns répteis, que se transformaram em aves) da mesma maneira que o aparecimento do Homo sapiens é apenas a evolução de espécies anteriores primatas, hoje conhecidas e descobertas com variados nomes. Foi o caso do Australopithecus africanus, descoberto no sul da África, do Pithecantropus erectus, do homem de Neanderthal e etc etc. Os primatas que nos antecederam desapareceram, deixando em seu lugar o eventual surgimento do Homo sapiens, como o conhecemos hoje.

Visto, portanto, que cada animal segue este ou aquele caminho para poder sobreviver como espécie, a razão do sucesso "momentâneo" (momentâneo em termos de eras geológicas, já que a presença humana no planeta é recente) do Homo sapiens se deve à curiosa circunstância de que o proto-homem, ao procurar manter-se ereto para melhor poder ver o animal predador, produziu curiosas alterações em sua constituição genética e física. Em primeiro lugar sua coluna vertical se modificou, já que passou a andar apenas sobre os pés, ficando as mãos livres para outras ações. Essa modificação, que alterou sua coluna vertebral, levou-o a se comunicar com os demais animais de sua espécie através de gestos e grunhidos para a transmissão de sinais de alarme. Os gestos e grunhidos, por sua vez, provocaram um aumento de células nervosas nas áreas acima de seu hipotálamo.

O hipotálamo é aquela massa colocada bem abaixo e no centro da cabeça dos animais e reconhecida como a sede dos instintos animais de sobrevivência (sexo, fome, territorialidade, agressão, defesa etc). Todos as espécies animais vivas (com a exceção de uns poucos vermes) possuem um pequeno cérebro, que inclui apenas o hipotálamo já explicado. Essa reduzida área, conforme explicamos antes, age como um centro de comando de defesa da vida dessa espécie.

No caso do ser humano, entretanto, que não desenvolveu caninos, couro, visão especializada noturna, patas velozes para escapar ao inimigo ou asas para voar, o caminho ao acaso seguido foi o do desenvolvimento de uma camada superior por cima do hipotálamo, que hoje cientificamente se denomina de neocórtex ou cérebro inteligente e que é produto apenas do resultado de uma necessidade de sobrevivência dessa espécie.

Dessa forma, a ação da inteligência humana, somada ao "imprint" que se localiza na porção do hipotálamo, que em ciência chamamos de "cérebro reptílico", agiganta ainda mais a ação desse mesmo imprint. Assim, além da ligação emocional entre mãe e filho, existem outras formas "culturais" de imprint. Como exemplo disso, podemos citar o fato de que uma criança brasileira aprende a falar português (porque foi "imprintada", - para voltarmos a usar o termo que não existe no idioma falado no Brasil) nesse idioma pelas pessoas que a rodeavam e que falavam todas o português. Esse "imprint", no período infantil, faz com que a criança rapidamente aprenda um idioma, qualquer que ele seja ou quaisquer que sejam as várias línguas ensinadas ao mesmo tempo e é o que também explica porque os adultos têm muito mais dificuldade de aprender uma nova língua, apesar de vários anos de estudo. Dentro dessa mesma forma "cultural" do "imprint" animal, uma criança também assimila sem discutir (e não tem capacidades desenvolvidas do ponto de vista cultural para analisar opiniões ou visões diferentes) qualquer coisa, valor ou crença, que lhe queiramos ensinar. Assim, por exemplo, se ensinarmos a uma criança que irá sofrer os horrores do inferno se fizer pipi na cama, podemos estar certos de que no futuro, e agora adulta, tal criança continuará a conservar o mesmo temor de se molhar com urina. Tal característica animal é a razão porque uma das primeiras - senão a mais importante - preocupação de todas as religiões é de poder apropriar-se da educação (como ela igualmente sempre se empenhou com determinação para impedir que o estado assumisse a função social de criar escolas públicas onde a religião não fosse ensinada) pois instintivamente deu-se conta, com o passar dos séculos e de observação, que é somente na mente das crianças que se pode infundir crenças religiosas com caráter permanente e assim manter no futuro controle sobre suas mentes. É verdade que em algumas ocasiões os adultos podem mudar de uma religião para a outra. Mas, para que isso ocorra o processo é muito mais demorado, complicado e de difícil aceitação. Torquemada e os demais líderes religiosos da Idade Média forçaram a conversão dos judeus na base da violência e da ameaça de morte. A primeira preocupação dos soldados muçulmanos, quando invadiram a Península Ibérica, foi a de matar os cristãos e se apropriarem das crianças, que eram logo levadas para as mesquitas, com o propósito de serem transformadas em muçulmanas.

Os líderes nacionais de todos os países do mundo conhecem o processo muito bem e estes igualmente se preocupam no sentido de que a todas as crianças sejam ensinadas o hino nacional e as chamadas "grandezas da pátria", pois se torna imperativo que tais crianças recebam desde cedo uma lavagem cerebral patriótica, o que facilitará no futuro o trabalho dos donos do país e do poder no sentido de obterem fácil recrutamento de soldados que morram em defesa dos interesses da classe dominante daquela nação. Nenhum melhor exemplo mais recente nos ocorre do que o caso de Adolf Hitler, cuja primeiríssima preocupação, ao assumir o governo alemão em 1933, foi a de criar clubes da juventude, onde a primeira providência era a de instilar na mente dos jovens alemães uma mistura de patriotismo e devoção absoluta ao Fuhrer. O general Galtieri, na Argentina, fez a mesma coisa há alguns anos. Em sua desesperada ânsia pela obtenção do poder, levantou a bandeira da pátria ameaçada pelo suposto imperialismo britânico e um público ingênuo e mal informado, dominado pelo "imprint" comum da territorialidade que lhes foi ensinada desde criança, logo se lançou numa guerra ridícula e injustificável, sem compreender que estava apenas servindo aos interesses de um ambicioso líder militar que desejava todo o poder para si.

Assim, portanto, e em resposta à pergunta inicial, as pessoas acreditam em Deus, em Jesus Cristo ou outra manifestação religiosa qualquer por uma única razão: porque isso assim lhes foi ensinado. Um corolário óbvio dessa constatação é que, se o único argumento em defesa desta ou daquela religião é o fato de que somos cristãos apenas e somente porque fomos ensinados assim, então vemo-nos em em face de uma justificativa apoiada nas nuvens.

Mas há dois mil anos que a bíblia nos descreve com precisão a vida, a ascensão e a morte de Cristo e outras características religiosas inteiramente aceitas por mais de 500 milhões de pessoas. Como então duvidar dessas verdades?

Bem, em primeiro lugar, o fato de que a Bíblia afirma que o mundo foi feito em sete dias, não significa que tal informação seja verdadeira. As afirmativas, quando são científicas, (o que não é o caso da Bíblia), conforme qualquer estudioso do assunto conhece bem, tem que ser comprovadas, testadas, verificadas e experimentadas. Nenhuma das afirmações da Bíblia passaria por qualquer teste científico e portanto não merecem nenhuma validade. Que um grupo de pessoas queira acreditar que o cabelo cai se passarmos por debaixo de uma escada, ou que Jesus Cristo multiplicou pães, é um direito inegável de cada um. Num regime democrático, qualquer indivíduo tem o direito de acreditar no que quiser. O problema surge, entretanto, quando nos apropriamos da educação pública (como ocorre no Irã, por exemplo) e forçamos, através de leis, o ensino obrigatório de tais estórias para crianças sem defesa cultural e que não possuem elementos para verificar se os dados e fatos que lhes são ensinados têm qualquer veracidade. E como as crianças, pelo fenômeno do "imprint" já explicado, tendem a acreditar em qualquer coisa, criamos posteriormente com isso um mundo de intolerância e ódios, que levam e continuam a levar os seres humanos às guerras, conforme ocorre vez por outra na Irlanda, ou no Paquistão, que são regiões de intenso fanatismo religioso no planeta.

A Bíblia, por outro lado, não merece muito crédito, MESMO COMO HISTÓRIA, pelo simples fato de que ela foi composta por quatro indivíduos em eras diferentes e, conforme demonstramos antes, Thomas Payne constata que o que Mateus afirma, não se coaduna com o que diz Paulo, que por sua vez está em desacordo com o que diz Pedro. Isto é, cada um inventa sua própria estória em relação ao mesmo evento. Imagine, agora, o leitor se um delegado de polícia mandasse quatro detetives investigar e reportar um crime ocorrido e ao retornar à delegacia policial, o primeiro informasse: o crime teve lugar na Tijuca, enquanto que o segundo dissesse que foi em Copacabana. No primeiro caso o criminoso seria louro e homem e no segundo seria morena e mulher. Quero crer que tal delegado demitiria tais agentes policiais como incompetentes. Isso é o que ocorre com as estorietas e lendas da Bíblia.

Deve-se notar igualmente que o Novo Testamento só começou a ser escrito por volta do ano 300 AD (ou pelo menos foi oficialmente adotado nessa época). Nos trezentos anos anteriores o cristianismo, segundo a história (que também não merece muita fé por ser muito imprecisa e ao sabor da opinião e das emoções de seus historiadores) era a religião dos escravos retirados da Palestina para servir aos senhores romanos, não tendo assim havido nesse longo período nenhuma biblioteca ou qualquer movimento literário ou intelectual para asseverar a correção e exatidão dos fatos trazidos pelos escravos. Sem precisarmos ir muito longe, basta apenas examinar rapidamente o caso da desastrosa guerra do Paraguai, conforme a conhecemos no Brasil. O autor passou vários anos procurando obter documentação e provas para saber a origem desse estúpido conflito, chegando à conclusão que cada país alterara mentirosamente os fatos - sem nenhuma exceção - de modo que a versão das escolas brasileiras, por exemplo, é tão falsa e tão destituída de verdade, que mais mereceria o lixo e, não, os bancos escolares das crianças brasileiras. O mesmo ocorre nas escolas do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. E note-se que a guerra a que me refiro ocorreu há apenas 130 anos, quando já havia grande imprensa e muitos jornalistas. Em verdade, tanto no caso da guerra do Paraguai, como na Bíblia, tudo não passou de um "hearsay", do "disse me disse", do "ouvir dizer" e, portanto sem nenhum valor jurídico ou legal. O leitor pode assim perceber porque insisto que a Bíblia nada mais é do que apenas um monte de contos de fadas, possivelmente não muito diferente dos contos da Branca de Neve e os Sete Anões.

Contudo, há ainda que indagar: Quem nos pode afirmar que o que declara o cristianismo é certo e que as demais religiões estão erradas? Por acaso merecerá maior credibilidade o Papa de Roma do que o Sr. Ayatollah Khomeini com seu Corão? Embora eu, pessoalmente, não tenha a menor simpatia pelo fanático e enlouquecido (e felizmente falecido) líder muçulmano do Irã, em nome do bom senso do profissional jornalista e professor, não posso afirmar que sua religião seja a errada pela simples circunstância de que fui criado num mundo católico. O que posso afirmar, sim, é que ambos fanaticamente afirmam que A SUA RELIGIÃO É A UNICA CORRETA, ENQUANTO QUE AS DEMAIS ESTÃO TODAS ERRADAS E SÃO FALSAS. Ora, como nenhuma delas pode comprovar o que afirma, parece-me que o bom senso recomenda que eu rejeite todas elas.

Por que razão afirmam os socio-biologistas que a religião possui mais seguidores entre os que têm pouca educação escolar? Não será tal afirmação uma arrogância?

Todas as estatísticas realizadas nos Estados Unidos e mesmo qualquer simples observação indicam com clareza que a maior intensidade religiosa e o número mais acentuado de fanáticos fundamentalistas nesse país estão concentrados nos estados mais atrasados dos Estados Unidos, particularmente no sul da nação e conhecidos como os "red necks" (pescoços vermelhos - vermelhos porque permanecem todo o dia colhendo algodão e são pessoas sem instrução) dentro do "Bible belt", ou seja, o cinturão da Bíblia. Há várias razões para isso. Em primeiro lugar, os indivíduos de baixa educação escolar são, na sua imensa maioria, igualmente pobres, sofrem maiores dificuldades, têm empregos mais baixos na escala social, moram nas piores residências, têm menos saúde e menos oportunidades, em geral. Tais indivíduos, por conseguinte, procuram desesperadamente, uma forma de escapar dessas desvantagens sócio-econômicas. Na falta de recursos pessoais ou sociais, para poder melhorar sua condição na vida, são facilmente levados a procurar qualquer apoio, qualquer muleta, qualquer ajuda que os faça sair de situação tão difícil. Assim, não apenas encontram essas pessoas um apoio psicológico na religião, como inclusive são aqueles que mais são vitimas dos líderes da propaganda religiosa. As religiões, que servem apenas às classes dirigentes, insistem perante tais massas pobres e ignorantes, que não percam as esperanças porque "Para vós será o reino dos céus". Em outras palavras, os líderes religiosos procuram vender aos pobres e desgraçados (e, por tabela, sem educação universitária) a idéia de que devem contentar-se com a sua posição de inferioridade e pobreza, visto que, ao morrerem, irão para o céu. Alguns até insistem que será mais fácil um camelo passar por um orifício de uma agulha de cozer, do que os ricos irem para o céu (as versões variam, mas o tema é mais ou menos esse). Tal reforço psicológico dá às massas uma espécie de conforto vingativo, pois sabem que sofrendo nesta terra, em compensação verão todos os ricos no inferno, enquanto que aqueles terão a bendição de Deus e um lugar assegurado no paraíso. Creio ser desnecessário acrescentar que os líderes religiosos, após tais constatações, devem gostosa, divertidamente e às risadas correrem para o banco onde depositam o dinheiro recolhido dos ignorantes que acreditam em tais lendas, conforme ocorre com o conhecido "bispo" Macedo, a versão nativa do fundamentalista protestante no Brasil, ao estilo do Sr. Jimmy Swaggart, já preso duas vezes por ter sido apanhado em prostíbulos de Los Angeles e Nova Orleans, horas depois de, no púlpito, prometer o céu àqueles que considerassem o sexo como pecaminoso e sujo.

Mas, e o que dizer dos homens que são inteligentes, ricos e que possuem educação universitária? Ah! Já imaginava que isso era o que deveria estar pensando a leitora! Há aqui dois aspectos fundamentais a observar. Para quem vive com conforto nesta vida terrena, a idéia de Deus e da ressurreição não ocupa praticamente nenhum tempo em sua vida diária. Quem vive bem, feliz, com dinheiro, com bons empregos (ou possivelmente dando ordens a seus empregados para que limpem sua piscina) não têm muito tempo para preocupar-se com a ressurreição e com a morte física. É verdade que o fato de sermos ricos e termos uma vida confortável não nos exime ou implica necessariamente que não fiquemos velhos ou doentes. Mesmo os ricos podem ter sido "imprintados" desde criança com relação à idéia de Deus. Com efeito, a maioria das crianças de famílias ricas costuma receber educação em escolas particulares religiosas, visto que na maioria dos países a educação pública - com certa exceção dos Estados Unidos - é de muito baixa qualidade. Além do desinteresse geral do estado em dar educação às massas pobres, essa mesma educação é boicotada sempre pelas entidades religiosas, onde muitas vezes não conseguem ter acesso às crianças em tenra idade. Isso, aliás, é o que vem ocorrendo nos últimos 60 anos nos Estados Unidos, onde permanece intensa a luta entre os chamados criacionistas, que procuram sob todas as formas solapar as leis federais desse país, que proíbe o ensino religioso nas escolas públicas. Ora, como nas escolas se ensina ciência, essa é a matéria que sofre o maior ataque. Os criacionistas batistas, não faz muito tempo, realizaram um último golpe, ao tentarem impor o ensino do chamado criacionismo nas escolas públicas sob o tolo argumento de que a matéria que pretendiam introduzir nessas escolas era... veja agora o cinismo...ciência... uma vez que denominavam seu trabalho de "criacionismo científico!!!"

A Academia de Ciência dos Estados Unidos e a American Civil Liberties Union, entretanto, têm, em várias ocasiões, conseguido derrubar através dos tribunais tais imposturas, mas a luta não terminou. Uma séria desvantagem que levam os cientistas nessa desagradável falsidade e impertinência religiosa, é que estes estão concentrados e preocupados com ciência e não com religião. Em outras palavras: os cientistas não passam dias e meses ou o ano inteiro tentando provar que o planeta terra não é o centro do universo, ou que a noite se segue ao dia. Os dirigentes daquela seita protestante com título oximorônico, no entanto, os chamados fundamentalistas criacionistas, dispõem de milhões e milhões de dólares e trabalham vinte e quatro horas por dia procurando influenciar legisladores, na busca desesperada de uma fórmula marota que permita que tais religionistas penetrem no campo da educação pública, a fim de impor suas crenças bíblicas.

Mas o que sucede entre as crianças ricas, é que por terem melhor educação de um modo geral (inclusive fora das próprias escolas) estas são mais expostas a outros interesses culturais da vida, reduzindo-se, assim, entre as classes altas qualquer tendência ao fanatismo religioso ou mesmo um reduzido interesse pela religião. Nas escolas norte-americanas se insiste persistentemente que os "Pilgrims", ou peregrinos. que viajaram da Europa para a América em meados do século XVI, supostamente fugiam em busca de liberdade religiosa. Na verdade haviam sido expulsos, visto que a classe rica e dominante européia os considerava como intolerantes e inconvenientes. O conhecido e escritor e historiador Gore Vidal fornece-nos ampla documentação para afirmar que os peregrinos e não a classe rica européia eram os que queriam a toda força obrigar sua versão protestante a todo o continente.

Mas isso não significa que a religião possa ser eliminada entre as classes altas tão pouco. Ela continua existindo, porém reduz-se, notoriamente na classe mais rica, a intensa preocupação (que existe entre os pobres) em relação à crença num Deus qualquer. Afinal de contas, quem é que se preocupa com a aspirina, quando inexiste a dor de dentes? Os ricos não precisam se preocupar com o paraíso do Éden, quando o tem, agora, na nossa vida terrena de Búzios, de Cabo Frio ou da Côte D'Azur, na Riviera francesa.

Entre as pessoas de alto nível cultural ocorre, também, um outro notável paradoxo, conforme é o caso de um ilustre professor brasileiro J.C.M. (o nome completo não é mencionado porque não lhe pedi autorização para tornar público seu pensamento) que é uma das maiores autoridades em psiquiatria no Brasil. Meu caro e dileto amigo Dr., J.C.M. criou uma curiosa dicotomia em sua mente, de modo a poder realizar a façanha de combater a religião, mas mantendo-se ao mesmo tempo dentro dela.

Como um indivíduo brilhante e de grande humanismo, o Dr., J.C.M. está bem a par da nefasta influência da religião católica no Brasil. Ele, assim, combate abertamente "os padres", mas permanece mais ou menos acreditando em Deus, sobretudo mais recentemente quando passou da casa dos 70 anos e se dá conta de que lhe restam poucos anos de vida - e que a morte está próxima. Uma espécie de seguro adicional para a defesa contra a morte, se poderia dizer...

O hábito das classes ricas de criticar os padres, mas defender a religião, é uma escapada inconsciente de não ter que pensar no assunto inconveniente e incômodo, sobretudo quando não temos realmente necessidade de nos preocupar com um "vale de lágrimas" que não existe em nossas casas de ar condicionado e piscina de água quente. É verdade que o ilustre professor citado não possui casa com piscina de água quente, mas seu "imprint" católico, desde criança, foi extremamente poderoso e acentuado, por um lado, e sua extraordinária bondade o leva naturalmente a querer acreditar que tem que haver alguma coisa depois da morte e que essa coisa é Deus. Afinal de contas, sejamos ricos ou pobres, é uma reconfortante ilusão imaginarmos que a nossa vida continuará depois da morte, mesmo que o bom senso nos obrigue a repelir essa idéia, sobretudo, como no caso do meu amigo Dr. J.C.M., dispomos de fatos científicos modernos e inegáveis que demonstram o contrário... ou se não são completamente satisfatórios, tem muito mais valor do que as crendices e lendas da Bíblia.

Mas mesmo supondo-se que a religião seja um mito, não seria ela algo que mereça incentivo, visto que é reconfortante?

A vida na sociedade humana está repleta de mitos, superstições, conceitos éticos falsos e numerosos desvios de comportamento: mitos sobre honestidade, drogas, patriotismo, fidelidade matrimonial, cabelos compridos, homossexualismo, passar por debaixo de uma escada, misturar manga com leite, apanhar resfriado com ar condicionado e um não terminar mais de contos de fadas. Isso sucede entre os ignorantes (por ignorantes incluo também aqueles que possam inclusive ter freqüentado universidades, mas sem jamais terem tido qualquer interesse por ciência), porque o mito, ou a superstição, responde de forma imediata e satisfatória a todos os nossos temores. Primeiro recordemos que muitos dos mitos que acreditamos são resultantes do aprendizado (admiração por certos clubes, grupos de sociedade, religião, patriotismo, torcida por um clube de futebol ou horror a comer miolos de boi). Mas o seu cultivo decorre de nossa constante luta diária pela sobrevivência, onde buscamos toda sorte de ajudas, apoios e muletas para escapar a nossos "predicaments".

Do ponto de vista psicológico não parece haver um inconveniente muito sério com os mitos. Se, ao chegar ao Rio visto o fardamento de um coronel da Força Aérea Norte-americana e vou passear com meu carro importado e placa dos Estados Unidos pela Avenida Copacabana, desenvolvo o mito ou a divertida crença que impressionarei as mulheres, e estas, por sua vez, também acreditam no mito de que se vêem passar um homem fardado com tal uniforme, provavelmente isso significará que terão poder, prestígio, dinheiro, com a possibilidade de um casamento nos Estados Unidos, onde tais mulheres poderão vir a ter um carro Cadillac do último tipo.

O primeiro problema com os mitos é que estes são falsos e meu senso comum indica que não há qualquer vantagem em acreditar em mentiras. No entanto, um outro problema muito maior decorre dessa falsidade e esse problema é a indústria exploradora que surge em seguida e que logo se aproveita de tal ingenuidade.

Esse fenômeno ocorre todos os dias nos Estados Unidos, onde os indivíduos espertos e empreendedores tratam, imediatamente, de tirar vantagens de tais oportunidades. No caso da indústria do emagrecimento, por exemplo, existem hoje enormes organizações de valor incalculável, que vivem da exploração dos mitos divulgados em relação à perda de peso. Assim, logo surgiram revistas especializadas, remédios especializados, exercícios especiais, médicos e "gurus" espertíssimos, que visam a explorar a ignorância popular. Em outras palavras, primeiro criou-se o mito, ou falsa crença e, logo a seguir, surgiram os exploradores desses mitos, que se enriquecem com a ignorância e crendices populares, sempre prontas a engolir qualquer pílula mentirosa de propaganda.

No caso da religião, não apenas o fenômeno é o mesmo, como, pior ainda, ocorre um trágico subproduto, que são o fanatismo e a intolerância; que tantas guerras e tantos milhões de mortos têm causado. Nesse sentido, muito pior que os mitos de emagrecimento, ou os mitos de combate às drogas, ou o mito do hino nacional, a religião é danosa para a sociedade humana, porque em nossos últimos dois mil anos de história, uma vasta literatura de informação demonstra que as massas são facilmente levadas por tais fés, crenças, crendices e mitos, a cometerem os piores crimes contra a própria vida humana. Dois dos melhores exemplos do que acabo de descrever acima são os casos da luta fratricida entre católicos e protestantes na Irlanda e o efeito terrível e trágico da tomada do poder no Irã, pelo Ayatollah Khomeini.

Qual seria a razão porque os protestantes criacionistas se opoem tanto ao Darwinismo e à ciência, tão completamente reconhecidos, testados, estudados e aceitos pelos cientistas do mundo inteiro?

A feroz oposição dos chamados "criacionistas científicos" em relação à evolução não é, tanto, porque se oponham à ciência, embora a religião de um modo geral através da história sempre tenha se oposto aos trabalhos científicos e Galileu nos proporciona um excelente exemplo disso.

As controvérsias raramente discutem o tema que as provocam. Se as razões da controvérsia fossem reveladas e discutidas, os problemas se solucionariam. A falta de entendimento, em tais casos, se deve sobretudo ao fato de que essas motivações, por serem ocultadas, impedem que essas controvérsias sejam solucionadas. Assim, no caso da grande reação dos criacionistas contra a evolução, isso se deve, em essência, a causas escondidas que convém esclarecer neste momento e que explicam o motivo por que esses grupos lutam com tanto desespero nos Estados Unidos contra a ciência. A principal delas, é o fato de que a evolução, hoje completamente aceita pela ciência mundial, demonstrou numerosas coisas que retiraram da Bíblia qualquer verdade ou qualquer sentido em relação à existência do Homo sapiens na Terra. Todas a lendas da Bíblia, a partir mesmo de sua primeira página, logo mostram que tudo não passa de lendas curiosas, sem nenhum valor científico. A antropologia, e a paleontologia já possuem dados sobre a existência da vida no planeta, tendo sido demonstrado que ao invés das divertidas afirmações protestantes de que Deus teria criado o mundo no ano de 2040 antes de Cristo (como chegaram a essa estranha data nunca explicaram), sabe-se que a chamada "grande explosão" ("big bang") ocorreu há milhões de anos, como se sabe também com rigorosa precisão que o primata proto-homem tem mais de 60 milhões de anos de existência. Segundo as medidas realizadas pelo carbono radioativo, constatou-se que os crocodilos, por exemplo, já existiam na terra, milhões de anos antes do próprio Homo sapiens.

Tais verificações, por negarem completamente os dados ingênuos oferecidos pela Bíblia, fazem desabar todo o castelo de cartas dos religionistas e, por tabela, ameaçam a própria integridade e crédito das organizações protestantes nos Estados Unidos, que representam um enorme investimento financeiro. Há, assim, necessidade de se combater tudo aquilo que possa ameaçar tais "vested interests". Há, além disso, a forte influência calvinista, que feroz e fanaticamente pretende ser dona da verdade, mantendo uma posição de ódio ao catolicismo, uma religião que, segundo eles, é corrupta. Como todas as minorias, os batistas calvinistas do sul dos Estados Unidos se entendem como cercados e procuram, assim, reagir contra o poderio econômico do Vaticano, que, afinal de contas, não considera o homem tão pecador e que todas as falhas humanas podem ser perdoadas desde que algum dinheiro seja passada às mãos dos padres católicos. É interessante aqui também acrescentar que uma das principais, senão a principal razão alegada por Martinho Lutero para protestar contra o Vaticano de sua era, consistia no fato de que o Papa vendia bulas de perdão a preços extorsivos e as massas pagavam assim sua "cadeira cativa" no céu. Isso levou o neurótico e doentio prelado alemão a lançar um novo cristianismo que denominou de protestante. No entanto, hoje em dia nos Estados Unidos, um vasto número de pregadores protestantes (e somente em raras circunstâncias, na igreja católica norte-americana) se empenha todos os dias em numerosos canais de televisão numa desesperada tomada de dinheiro, que é sempre pago pelo povo ignorante. A revista TIME MAGAZINE, num de seus número do ano de 1988, publicou uma longa lista dos nomes e das contribuições recebidas pelos principais pregadores protestantes norte-americanos (Billy Graham, Jerry Falwell, Oral Roberts, Jimmy Swaggart e Jim Bakker e sua colorida mulher Tammy e vários outros) cujo total arrecadado anualmente excedia em muito 3 bilhões de dólares.

Por que razão a igreja católica não se levanta contra as leis da evolução de forma tão acentuada como é o caso entre os fundamentalistas batistas? Não seriam igualmente afetados também os interesses econômicos do "establishment" católico e do Vaticano?

Bem, em primeiro lugar, se pudesse fazê-lo, a igreja católica se oporia visceralmente às leis da evolução darwiniana. Ela não o faz de modo claro por duas razões principais. A primeira é que seus principais adversários são o crescente protestantismo do primeiro mundo (leia-se os norte-americanos e europeus brancos e do norte) e mais remotamente os muçulmanos e outras religiões (até 1988 era o comunismo o maior adversário da igreja católica). O Vaticano, portanto, tem que se preocupar com seus inimigos mais imediatos, do que com um pequeno número de cientistas e universidades, que estão muito mais concentrados em seus estudos e constatações científicas. A igreja católica não dá muita importância às críticas desses grupos intelectuais em relação à religião. Einstein, por exemplo, conquanto um declarado ateu, jamais se preocupou em combater a religião, dedicando-se, sim, a sua ciência e, durante os anos de 1930 a 1945, a combater o nazismo.

A segunda razão, é que o catolicismo tem dois mil anos de existência, com um vasto acervo de homens inteligentes e hábeis argumentadores (São Thomas de Aquino, Kant, Spinoza e vários outros) que não se preocupavam muito com homens como Galileu e sim em levar a religião católica para os quatro cantos do mundo, apreciando ao mesmo tempo os bons vinhos das confortáveis adegas de seus conventos, um prazer negado aos calvinistas. Do ponto de vista intelectual, também, a igreja católica tem muito mais "classe" do que os protestantes. A própria história do protestantismo se inicia com um cidadão alemão gordo e feio, talvez dominado por problemas sexuais, neuroticamente preocupado e dominado pelo ódio contra o Papa em Roma, misturando com isso uma revolta contra os agentes do Papa, na Alemanha, que distribuíam "bulas de perdão contra pecados" e que eram vendidas abertamente, de cujos lucros Martinho Lutero não participava. Essa subdivisão do cristianismo se tornou ainda mais fanática com o aparecimento de Calvino, na Suíça, e são os seus descendentes que vieram depois constituir a própria essência da igreja batista fundamentalista nas regiões mais atrasadas do sul dos Estados Unidos.

Conquanto ainda muito poderosa, a Igreja Católica perdeu muito de seu poder político no Século XX. Nas principais potências mundiais do nosso mundo de hoje, ela não pode mais interferir. Nos Estados Unidos, porque a maioria é protestante e além disso, a constituição norte-americana proíbe com inteligência o ensino da religião nas escolas públicas estaduais. E na União Soviética, porque os 70 anos de comunismo acabaram, em termos práticos, com o cristianismo naquela nação.

Mas há na América do Sul um outro e poderoso fator a levar em conta. A Igreja Católica não se intromete ou se levanta contra o ensino das leis da evolução nas universidades ou nos cursos ginasiais, como também não tem se levantado contra a penetração do protestantismo crescente, pelo fato de que as massas estão ainda muito longe de chegar a esse nível de intelectualidade. O problema imediato das massas pobres ou da classe média brasileira, por exemplo, é ainda o de sobreviver, de comer, de ter bons empregos. No caso da Igreja Católica, sua única preocupação tem sido nos últimos séculos o de simplesmente manter o "status quo" de poder entre a classe dominante. Com efeito, em 1974, durante programa de televisão na cidade de Minneapolis, estado de Minnesotta, expliquei para um público admirado e surpreendido, que a razão principal da completa ausência de fanatismo religioso no Brasil se devia a uma espécie de "pacto secreto" entre a igreja e o povo, que poderia ser simplesmente definido com a frase (dita em inglês) e que traduzida significava o seguinte: "Você não me chateia e eu não chateio você". Em outras palavras, "desde que o governo ou o povo não tocassem no bolso da igreja católica dominante, esta, por sua vez, não inventava o pecado". Esclareci a surpresa, explicando que, como a Igreja Católica não tinha, na prática, nenhum concorrente, ela se achava "deitada eternamente em berço esplêndido" (conforme divertidamente se lê no hino nacional do Brasil). Não tendo necessidade, (ou melhor ainda), não podendo explorar mais as massas pobres que nada tinham, e sendo praticamente dona de todo o território nacional desde o Tratado de Tordesilhas em 1493, ela possuía um vasto "real estate" de terras, edifícios e vantagens fiscais que lhe proporcionavam vastos e imensos lucros. Adicionei que, diferentemente dos grupos protestantes variados que não podiam explorar o erário nacional nos Estados Unidos, e que, assim, eram forçados a uma corrida financeira diária para tomar dinheiro das massas suas seguidoras, a igreja católica na América do Sul sabia que nada podia extrair do povo senão uma fé policiada com rigor, mas desimportando-se se esse povo se divertia sexualmente da maneira que mais lhe aprouvesse, ou se misturasse macumba, espiritismo ou outras formas de fé com o catolicismo prevalecente.

A igreja católica sempre operou de uma maneira sutil no caso da educação, torpedeando-a em relação às grandes massas nacionais de classe pobre e média, a não ser que essa educação fosse ou seja dada e fornecida por ela própria. Uma das principais razões do alto nível de analfabetismo nos países da América Latina se deve ao quase completo domínio e influência que Roma e o Papa têm sobre essa infeliz região do planeta. Durante o enorme período da Idade Média, por exemplo, toda a cultura e instrução estavam escondidas e reservadas nos conventos e eram somente utilizadas pelos monges. Era até mesmo um crime ensinar o povo a ler durante aquele período. Da mesma forma, as igrejas mantinham a ilusão entre os governantes de que saber ler era algo abaixo da dignidade dos reis. Carlos Magno, o imperador franco (742-814 DC) nunca aprendeu a escrever, embora se diga que sabia ler. Isaac Asimov, em seu notável livro de curiosidades denominado "O Livro dos Fatos", confirma que Carlos Magno, por saber ler... "estava à frente dos reis de seu tempo, que consideravam essas habilidades abaixo de sua dignidade, deixando-as para os servos e monges católicos".

O que sucederá agora na União Soviética com a derrubada total e completa do comunismo? Voltarão as religiões?

O grandioso fracasso do comunismo se deveu ao fato, em primeiro lugar, de que, tal como o cristianismo, aquele também prometia coisas impossíveis. A grande vantagem, entretanto, que o cristianismo teve sobre o comunismo se deveu ao fato de que naquela religião se prometia algo PARA DEPOIS DA MORTE!. Ora, como o cristianismo nunca teve que comprovar ainda durante a vida que suas promessas seriam cumpridas, as massas ignorantes não só não tinham meios para "cobrar" tais comprometimentos de salvação, como não tinham a necessária educação e cultura para desmascarar tais promessas. O comunismo, que igualmente oferecia igualdade e justiça para todos, fazia entretanto uma promessa impossível de ser realizada AINDA DURANTE A VIDA DOS SEUS CRENTES E ISSO CONSTITUIU SEU GRANDE DESASTRE!

As leis da evolução e da natureza conquanto possam parecer de certo modo repugnantes e desagradáveis para o espírito humano do Homo sapiens, que pensa e sabe que vai morrer, são entretanto fatos reais. A natureza não tem preocupações em relação às esperanças humanas. Uma das suas mais importantes constatações é que na implacável seleção das espécies, vencem apenas os mais qualificados, os mais fortes e os que melhor sabem sobreviver e se adaptar. Não existe nenhuma espécie animal que proteja os fracos, velhos e doentes. Tais leis se aplicam com o mesmo rigor entre os seres humanos. No caso da religião, esta sempre atuou e agiu em favor dos ricos e poderosos e a despeito de todas as máscaras e sua "constituição", os dois mil anos passados demonstram sempre que qualquer religião serve aos poderosos, aos que dominam e nunca deixou de ser o algoz dos mais fracos. Ela, portanto age precisamente dento dos comandos da lei da seleção das espécies, por mais que se queira negar essa realidade. Isso foi o que ocorreu no Brasil, em 1964, quando meia dúzia de enlouquecidos esquerdistas, revoltados ingenuamente contra a pobreza da imensa maioria da população brasileira e reconhecendo que a igreja possuía as melhores terras, que permaneciam abandonadas ou produziam para o Vaticano, tentaram através da Reforma Agrária, nacionalizar o vasto "real estate" de propriedade do "establishment" religioso católico. O resultado foi a prisão de todos os esquerdistas, ou seu asilo no exterior durante vinte anos.

No caso do comunismo, ocorreu precisamente a mesma coisa, com a agravante de que as promessas que tinham que ser cumpridas ainda dentro das gerações vivas, falharam completamente. E falharam, primeiro porque é impossível - como se diz em inglês - "to fool mother nature" - enganar a natureza mãe. Como resultado disso, durante os 70 anos de comunismo na União Soviética, somente os líderes do partido comunista podiam tirar férias nas praias do Mar Negro, enquanto que a grande massa trabalhadora nada teve, para citar apenas um exemplo. Além disso, para conservar o poder pessoal, Stalin manteve um regime de miséria e terror durante a maior parte do período de domínio do partido comunista na União Soviética. Toda a estrutura "cristã" (as aspas são propositais para mostrar a semelhança das duas doutrinas) do partido, ao invés de servir às massas, acabou por tornar-se uma vasta burocracia exploradora e incapaz, além de incompetente e que nada produzia, vivendo às custas do dinheiro do próprio trabalhador. Isso foi o que acabou por levar ao desabamento do poder estalinista e o surgimento eventual futuro do Sr. Gorbachev.

Ao mesmo tempo em que falhava esse paraíso soviético, na terra, o próprio mundo ocidental cristão e capitalista se levantava, em armas, contra a nova religião anti-Deus e essa luta contribuiu a inda mais para acelerar o desabamento do comunismo. É óbvio que não pretendo dar aqui uma de futurólogo. Existem, contudo, alguns aspectos que merecem ser considerados no estudo das possibilidades do que virá a acontecer. Em primeiro lugar é provável que a grande massa faminta soviética associe o grande progresso do capitalismo no ocidente, como uma provável "verdade" e "superioridade" do cristianismo. Nesse caso, não seria difícil que as iguais massas ignorantes soviéticas se passem com armas e bagagens para a nova religião. É muito provável na União Soviética, com a atual abertura - como aliás já está acontecendo - que haja uma grande penetração dos conhecidos "scoundrels" do cristianismo, como são os indivíduos tais como Jimmy Swaggart, o Papa, Billy Graham etc. Entretanto, o que sobra de "cristianismo" na Rússia está dominado pela Igreja Ortodoxa Russa. Assim, seria provável pensarmos que, se houver alguma revivescência do cristianismo na antiga União Soviética, ela será capitaneada por essa antiga versão russa do cristianismo. A questão, entretanto, é que a penetração ou invasão capitalista do ocidente traz de arrastão o catolicismo ou, sobretudo, o protestantismo de Primeiro Mundo dos Estados Unidos. Conseqüentemente. uma das hipóteses futuras seria um provável conflito entre a igreja Ortodoxa Russa, que se considera dona das almas dos ex-comunistas e as forças protestantes ou católicas do mundo ocidental.

Significaria isso, então, que a religião e a fé em Deus, o patriotismo ou a nossa torcida por um clube de futebol não tem nenhuma validade ou valor e que tudo isso é apenas o produto de nossos instintos animais? Somos realmente tão maus?

Exato! A resposta é muito simples. É a sua compreensão que se torna difícil, particularmente quando o indivíduo não possui uma boa educação científica. Se, por toda minha vida, fui bombardeado pela propaganda religiosa altamente "imprintante" (perdoe-me o leitor pela cunhagem repetida dessa palavra aparentemente tão estranha), se fui sempre pobre (e por conseguinte encontrei na religião uma espécie de aspirina para aliviar minhas dores econômicas e sociais) e se em adição a isso sou um carpinteiro pobremente educado ou um modesto funcionário de escritório - em suma, se minha mente não tem condições para pensar e se nunca me interessei, nem tive oportunidade de estudar ciência - é bem provável que nunca questionarei, nunca duvidarei ou terei interesse em analisar a veracidade das coisas que me ensinaram e, acima de tudo, que foram IMPRINTADAS NA MINHA MENTE DURANTE MEUS ANOS DE FORMAÇÃO!

Há, entretanto, outro aspecto muito importante a considerar: a ciência se apresenta com duas sérias inconveniências. Em primeiro lugar é desconfortável e desagradável ter que estudar uma matéria que demonstra ou parece ser muito difícil. Em segundo lugar, é muito mais confortável acreditarmos num mundo que foi criado especialmente para nós e que cuida de todas as nossas necessidades imediatas, do que imaginar um vasto mundo impessoal, que nos considera como grãos ínfimos de pó, diminutos, invisíveis e imperceptíveis, num vasto universo onde não significamos nada. Tal como no caso de uma doença incurável, isto é, uma AIDS ou um câncer, o que queremos é encontrar alguma coisa ou alguém que nos prometa a salvação e, não, um frio médico que nos dirá que nossos dias estão contados e que nada nos poderá salvar.

No caso da questão anterior e a despeito das negaças dos religionistas e de toda sua reação (indivíduos que odeiam a ciência da sóciobiologia, como igualmente odeiam e detestam a ciência de um modo geral) a origem e a motivação da religião ocorre PRECISAMENTE PORQUE SOMOS ANIMAIS E PORQUE NÃO HÁ NADA DE DIVINO NA NOSSA ESPÉCIE! A invenção da religião, conforme descrevi anteriormente, é um produto direto e imediato de nosso medo da morte. É o nosso instinto de sobrevivência - instinto que está presente em todos os seres vivos, inclusive as plantas e que não tem nenhuma divindade - que nos empurra desesperadamente no caminho da busca de muletas que nos salvem do inevitável. Talvez o leitor mais exigente considere o tema repetitivo. Mas é sempre importante voltar a acentuar que todos seres vivos procuram evitar a morte. Cada um deles, dentro do processo maravilhosamente descrito por Charles Darwin, desenvolveu esta ou aquela característica em sua luta pela sobrevivência. Os pássaros desenvolveram as asas, como os leões desenvolveram os caninos e os antílopes suas rápidas e ágeis patas para correr. Nenhum ser, entretanto, seguiu a estrada adotada pela espécie de primatas que chamamos - arrogantemente - de "Homo sapiens". Não tendo desenvolvido grandes caninos, rápidas patas ou couro duro, ou ainda a capacidade de voar para evitar predadores, os seres humanos desenvolveram o córtex cerebral e isso permitiu-lhes a capacidade de pensar.

No entanto, isso em si contém uma séria desvantagem. Essa desvantagem é que o homem é o único ser que tem conhecimento da existência do ontem, do hoje e do amanhã. É assim advertido de que morrerá um dia. Faltando-lhe um córtex cerebral, e, por conseguinte, não tendo condições de perceber o perigo sob a forma de tempo elástico, um antílope, quando ameaçado pelos caninos de um leão, só se dá conta da morte, quando é apanhado por aquele. Os homens, entretanto, devido a sua conscientização do tempo elástico, são lembrados a todo momento de que a morte os espera na esquina. Esse instinto animal é então o que os leva a desesperadamente tentar um escape e os fetiches - quaisquer que eles sejam - é que são as muletas intelectuais da salvação.

Afinal de contas, tal como o Dr. Robert Ardrey (no seu livro "The Territorial Imperative") nos conta com humor mas com base na evidência científica, o ser humano é o único animal entre todas as espécies que mente para sí mesmo e acredita nas próprias mentiras.

A necessidade de inventar um Deus poderoso é, em última análise simplesmente uma reação animal contra o medo da morte e nesse sentido ele é em nada diferente de quaisquer outros animais ou plantas. O patriotismo, da mesma maneira, como minha paixão pelo Redskins de Washington, ou minha torcida pelo Clube Flamengo de futebol do Rio de Janeiro, são igualmente ações desses instintos animais. A idéia tribal do patriotismo não apresenta nenhuma diferença da motivação de um cachorro, que urina com a perna levantada contra um poste. A maior parte das pessoas que pouco sabem de ciência, acreditam que um cachorro urina num poste simplesmente por conveniência, conforto ou para simplesmente aliviar sua bexiga num local mais alto. Dos cinco sentidos dos animais, o olfato é o principal ponto de contato do cachorro com sua existência. Suas narinas são sua vida. Um cachorro sem olfato é um cachorro morto. Observe um cachorro na rua, momentos após ter saído da casa de seu dono e você instantaneamente perceberá que suas narinas estão constantemente farejando o chão. Isso se deve ao fato de que seu sentido de olfato o conduz por toda a parte. Um cachorro - como no caso de todos os carnívoros - é um animal altamente territorial e como seu olfato é seu principal contato com o mundo em sua volta, procura deixar seu cheiro por toda a parte onde anda. Essa é a área que o cachorro defende como sua propriedade e para onde procurará atrair as fêmeas. Em outras palavras, trata-se de sua "pátria"; seu "lar"!

Assim, se desejarmos usar um termo antropomórfico, poderíamos dizer que o "hino nacional" de um cachorro, ou se quisermos, sua "bandeira", é a urina que deixa em volta do poste de luz ou de uma cerca. Outros animais têm formas diferentes de expressar sua territorialidade, ou, em termos humanos, seu "patriotismo". Mas, qualquer que seja a forma que expressemos essa territorialidade, tal como no caso do bem conhecido macaco gritador ("howler monkey"), ou guariba da floresta amazônica, com seu grito penetrante, ou com a lançar de fezes em volta de si, como o faz o hipopótamo, a verdade é que o patriotismo é única e exclusivamente uma forma de representar um instinto animal. Da mesma forma, nossa torcida emocional por uma equipe de futebol nada mais é do que a revelação da necessidade de expressarmos nossa territorialidade. O clube de futebol a que pertencemos é uma reunião tribal, onde encontraremos outros companheiros que nos protegerão e que estarão a nosso lado na hora da batalha com outros competidores. Quando vários cidadãos britânicos viajaram para a Holanda para assistir a um jogo de futebol entre seu clube inglês e os holandeses, o resultado foi uma brutal série de atos de violência causados pelo fanatismo de um grupo de animais humanos, movidos pelo instinto territorial. Afinal de contas, não importa quanto os Fundamentalistas Protestantes tentem negá-lo, não somos nada mais senão uma espécie animal e sem qualquer divindade ainda por cima.

Diria então você que deveríamos preferir o comunismo ao cristianismo?

Tanto o comunismo, como o cristianismo, oferecem uma promessa que é, em verdade, um sonho de impossível realização. Tanto o comunismo, como o cristianismo estiveram e ainda estão encobertos por uma capa composta de um conjunto de promessas que não puderam, nem nunca poderão ser cumpridas. É bem possível, se quisermos acreditar que o cristianismo foi o produto do desespero das massas escravizadas e oprimidas da Palestina e levadas contra sua vontade para Roma - que essa "proposta" cristã conteria uma mensagem de amor e compreensão entre os seres humanos. Isso em sí não tem nada de novo. Todo o ódio tende a desaparecer quando os passageiros de um navio que está afundando se encontram todos juntos e em face ao mesmo perigo de morte. Os soldados tendem a ser sumamente carinhosos com seus companheiros ainda que uns sejam brancos e outros pretos, quando um bombardeio cerrado ameaça a vida de todos eles. Entretanto, à medida que os ex-escravos palestinos com seu cristianismo vieram eventualmente a tomar o poder durante o reinado de Constantino em 330 AD, a religião dessas antigas vítimas, que prometia e patrocinava a libertação da escravatura imposta pelos brutais romanos, rapidamente tornou-se a tirânica e brutal exploradora de seus antigos soldados da fé.

Lenin, da mesma maneira, também prometeu uma mensagem de justiça social e pão para todos os russos e para a humanidade como um todo. Afinal de contas, quando pensamos seriamente sobre o assunto, nada é aparentemente mais justo do que procurar salvar a classe trabalhadora contra a cruel exploração dos ricos e opressores (para usar sua própria linguagem). Entretanto, tão logo Lenin e Stalin assumiram o poder em nome das massas, a União Soviética testemunhou um dos maiores crimes e assassinatos em massa jamais vistos e tudo em nome da salvação da classe trabalhadora.

Winston Churchill declarou certa vez que o regime capitalista era um terrível sistema econômico. Mas acrescentou que este havia sido o melhor dos métodos inventados até hoje e que funcionava melhor e mais eficientemente do que qualquer outro sistema sócio-econômico. A declaração do falecido Primeiro Ministro Britânico contém uma interessante revelação, que certamente surpreenderia o próprio Churchill, tivesse ele lido algo sobre sóciobiologia: o que o capitalismo propõe, afinal de contas, é a livre iniciativa ou, em outras palavras, meu direito de devorar os adversários mais fracos e competidores, à medida que procuro evitar ser devorado pelos mais fortes.

Não questiono em nenhum momento que a eliminação do cristianismo e outras religiões na União Soviética teria significado um grande avanço cultural e social naquela nação. No entanto, a grande tragédia russa é que eliminaram e liquidaram com o desnecessário "ópio das massas", isto é, as muletas da religião exploradora, substituindo-a por outro igual ópio das massas, que, conforme Thomas Jefferson tão equivocadamente declarou, afirmava que "all men are created equal", uma desastrosa frase que hoje deixa os norte-americanos de cabelos em pé, quando de vêem em face à tremenda competição dos japoneses a quem ajudaram logo depois da destruição desse país oriental no fim da II Guerra Mundial. Assim, portanto, com a idéia tola soviética de que todos os homens eram iguais, o comunismo afundou-se no fracasso. Melhor houvera sido se, na declaração de Jefferson, tivesse ele afirmado que todos os homens deveriam ter oportunidades iguais, tanto de serem indivíduos alfas dominantes, ou completos imbecis.

Mas se aceitarmos que as religiões são falsas e que Deus - o Deus inventado pelos homens - não existe, então qual é a opção? O que fazemos com os sonhos e as esperanças humanas? Se o capitalismo é brutal e cruel e se tanto o comunismo como o cristianismo são falsos, que outras opções poderiam ser analisadas e sugeridas?

Bem, em primeiro lugar, temos que analisar o que existiu no passado e continua a existir até hoje. Para qualquer leitor de história da vida humana no planeta nos últimos dois mil anos, será fácil constatar que a proposta humana da existência com Deus demonstra ser falsa e desastrosa. Os ódios religiosos, as guerras, a brutalidade humana e o permanente terror da morte não parecem deixar feliz a população do planeta, que enfrenta hoje, como sempre enfrentou, uma via dolorosa com sofrimentos que não terminam nunca. A promessa de Deus parece ser insatisfatória e incompleta. Se nos transportarmos para o período das conquistas de Cortez e Pizarro ou da Inquisição, vemos que a humanidade era desgraçada e que o cristianismo foi um implacável algoz das infelizes populações americanas dos astecas e incas. Se saltarmos para a era napoleônica, as civilizações européias viviam em guerras intermináveis. No século XX, tivemos duas monstruosas guerras e mais de outros cem conflitos localizadas, demonstrando, assim, que todo o progresso e o continuado cristianismo não foram capazes de modificar uma vírgula do brutal comportamento humano. Daí, então, que a pergunta é: existe alguma alternativa, já que podemos com tranqüilidade constatar que a crença em Deus nada adiantou para a felicidade humana?

Minha impressão é que a espécie humana, como muitas outras que fracassaram e sucumbiram, está condenada ao desaparecimento. É indiscutível que isso ocorrerá em largo prazo, visto que todas as espécies animais desapareceram no passado e todas continuarão a desaparecer ou se modificar no futuro - mas, sim, provavelmente num período de tempo bem mais curto, certamente mais curto e breve do que os dinossauros (que viveram mais de 200 milhões de anos e, nesse sentido, foram muito superiores ao Homo sapiens). Isso porque o contrapeso da enorme inteligência humana, cobra-nos um preço que os seres humanos estão demonstrando não ter condição de pagar. Os seres humanos demonstram não saber adaptar-se, a despeito de toda sua inteligência, e diferentemente do que ocorreu com o crocodilo, de já tão longa existência no planeta. Afinal, temos que nos recordar que a presença humana no planeta é muito recente, nada sendo comparável a esse réptil. Em termos de idade geológica, a espécie humana surgiu há alguns segundos, quando comparada aos dinossauros. Existe, contudo, na espécie de Homo sapiens, uma característica muito especial, que inexiste nas demais espécies e que é o desenvolvimento do neocórtex. Acompanhando o instinto de agressão humana, desenvolveu-se ao mesmo tempo uma notável ciência, que faz apenas poucos anos deu os primeiros passos para a produção da vida artificial. Enquanto que a natureza levou 60 milhões de anos para produzir o Homo sapiens, a ciência humana de hoje tem realizado, em cerca de 200 anos, progressos fantásticos, que inclusive têm um crescimento geométrico. Assim, pode-se admitir, com certa cautela, a possibilidade de que os cientistas venham a provocar alterações cromossomáticas na violência humana, talvez através da engenharia genética do neocórtex, que modifique de alguma forma satisfatória o Homo sapiens atual, e que não pretenda "to fool mother nature". O processo deverá ser mais difícil e complicado do que se imagina, uma vez que ao se controlar a violência humana, retira-se do próprio ser humano a força motriz que o faz - como nas demais espécies - sobreviver. Mas o que podemos dizer é que se escapamos ao último "round" de uma explosão nuclear no passado conflito entre a União Soviética e os Estados Unidos, nada nos impede imaginar a possibilidade do uso de bombas nucleares montadas nos laboratórios ilegais de nações terroristas, que provocariam um completo caos internacional. Afinal, na Idade Média bastava mandar as tropas cristãs para a Palestina em sua luta contra os muçulmanos. Poderiam morrer centenas de milhares de cristãos ou muçulmanos fanatizados, mas a humanidade de um modo geral sobrevivia. Hoje, entretanto, nunca poderemos estar certos se um novo Ayatollah Khomeini em nome de Allah, ou um Papa vingativo em nome de qualquer coisa, de posse de bombas nucleares resolver liquidar com os novos infiéis, onde quer que eles se encontrem.

Um possível e provável bom caminho seria o de substituir a religião no ensino das crianças, dando-lhes em troca uma maior compreensão da humildade e do ridículo significado que os seres humanos representam num universo muito maior. E, mesmo que se queira adotar o nome de Deus - consciente ou inconsciente, atuante ou indiferente - nisso que chamaríamos de imensamente grande - procurar fazer compreender às crianças que não existem contos de fada e que não existe nada de anormal ou especial na idéia da morte, que nada mais é do que a continuação da vida e que assim como aceitamos o nascimento de uma nova vida, da mesma forma deveríamos criar um ambiente social em que as pessoas não fossem ensinadas a temer a morte e, sim, a saber gozar intensamente a vida. Tal como expliquei, no caso dos milionários que vivem na Riviera francesa, que pouco se preocupam com a idéia da morte, pois não tem tempo para perder no "enjoyment" da vida deliciosa que têm, da mesma forma a humanidade possui condições tecnológicas para criar um admirável mundo novo ao estilo de Huxley. Afinal, se vivêssemos um mundo dominado pela inteligência e, não, pelo cérebro reptílico, os seres humanos de hoje, que não mais precisam de suor sangue e lágrimas para escavar a terra com um arado simples e sim possuem máquinas gigantescas que realizam o trabalho de milhões, não seria difícil criarmos uma vida bem mais agradável para todos nós.

Uma das numerosas razões da miséria das favelas - uma apenas entre centenas de razões que seria demasiado cansativo mencionar aqui - é a indiferença das classes ricas e poderosas (e da exploração que fazem dos que nada tem) em relação aos pobres. E como essa imensa massa nada tem, seu único divertimento consiste no uso inadequado e ignorante de sua sexualidade e assim o mundo cada vez mais está populado de milhões de crianças pobres e abandonadas. Na China, o governo dessa imensa nação deu-se conta de que não era mais possível continuar a permitir que as massas continuassem a se multiplicar como insetos. O processo poderia ter parecido aos olhos de crocodilo dos piedosos religiosos do ocidente, como uma medida brutal. Entretanto, através de firmes e continuadas medidas educacionais, hoje, o povo chinês transformou aquilo que antes era imposto praticamente à força, num hábito saudável de evitar sua descontrolada multiplicação. Mas as novas providências que vêm sendo adotadas com um relativo sucesso na China somente se tornaram possíveis porque o governo chinês conseguiu, aparentemente com grande sucesso e a despeito da reação às medidas coercitivas, acabar com a religião.

Parece haver maior fanatismo religioso nos Estados Unidos - o país mais adiantado do mundo - do que no Brasil sub-desenvolvido e nação do terceiro mundo. Como se explica isso?

Existem várias razões. A primeira é o fato de que na sociedade de livre iniciativa e intenso capitalismo dos Estados Unidos, os numerosos grupos que hoje formam essa nação nada tem em comum entre si, exceto o fato de que estão sob a mesma bandeira e debaixo da mesma proteção nacional. Os "Mexican-Americans" da cidade de El Paso, tem tanto em comum com os "Jewish-Americans" de New York, ou com os "Chinese-Americans de São Francisco, como têm os esquimós com os negros de Uganda. Todos eles lutam na disputa pelo quinhão de riquezas do país e todos se comportam precisamente dentro da lei da seleção das espécies, conquanto nenhum deles reconheça esse fato. As numerosas religiões, ou as sub-facções dentro de cada grupo (como ocorre entre os protestantes, por exemplo) disputam igualmente o mesmo bolo, cada uma delas procurando capturar o maior número possível de seguidores. Com o progresso da tecnologia de comunicação, essas facções religiosas se apoderaram de numerosos canais de televisão, procurando arrancar das massas a maior contribuição possível de dinheiro. Para fazê-lo, entretanto, é indispensável que seu produto seja o mais atraente possível e, como o temor à morte é a principal preocupação das massas de menor cultura, esses religionistas tratam de assustar e atormentar os telespectadores desesperados com a ameaça do inferno, ao advertirem que só eles é que tem condições de comunicação com Deus e só eles é que podem salvar as massas ignorantes. Paralelamente lançam-se ferozmente contra os chamados "pecados" relacionados com o álcool. Mas como a grande massa do povo nos Estados Unidos já sofre, há várias gerações, o constante incentivo do uso de bebidas alcoólicas (exatamente porque sua proibição provoca entre os jovens o desejo daquilo que lhes é proibido), tais pregadores encontram nessa bebida uma excelente fonte de renda. Ora aplicam seus enormes capitais na própria indústria de vinho e de Scotch (como é o caso dos Christian Brothers da Califórnia, ou na indústria Schenley do estado de Minnesotta), ou então incentivam diariamente o público a enviar-lhes dinheiro para que possam "combater com maior eficácia o pecado do chamado abuso do álcool".

Convém aqui adicionar um parêntese importante para o leitor brasileiro desconhecedor desse curioso fenômeno do chamado "vício do álcool" e colocá-lo dentro de uma visão ou perspectiva brasileira. Conforme se sabe, a despeito de ser uma religião "originária" da Palestina - isto é, seus primeiros seguidores foram os escravos trazidos para Roma e a religião cristã se infiltrou de baixo para cima na população da capital do Império Romano, - em termos práticos estamos tratando de um movimento religioso puramente romano, no sentido de que foi nesse império que o cristianismo tomou corpo e adquiriu as características que todos conhecemos. Ora, o Império Romano se situava numa região cuja maior cultura era a do vinho, isto é, de uma bebida alcoólica. (o Scotch escocês, o rum da Jamaica ou a cachaça brasileira feita da cana de açúcar são produtos que surgiram várias décadas depois). Sendo assim o vinho uma bebida romana, o cristianismo não fugiu a sua poderosa influência e a própria missa tradicional de 1.700 anos de existência inclui o consumo dessa bebida, sob o eufemismo de estarem bebendo seus seguidores o sangue de Cristo.

Lutero, entretanto, ao levantar-se na Idade Média contra o Papa de Roma, levantou também a bandeira do combate ao alcoolismo típico dos Papas e padres romanos, como um complemento adicional à corrupção moral e financeira de Roma. Dessa forma, com a chegada do protestantismo nos Estados Unidos no começo do século XVII, trouxeram os "Pilgrims" consigo a mesma e neurótica obsessão do pecado do álcool, alegando inclusive, que a perigosa bebida trazia em seu interior os "spirits" do demônio (o álcool nos Estados Unidos é também chamado de "spirits"). Contudo, a resultante perseguição calvinista contra o uso de vinho (a que rapidamente os inteligentes distiladores norte-americanos das 13 colônias acrescentaram o rum ilegalmente contrabandeado do Caribe e o Scotch da Inglaterra) produziu o resultado oposto que tais pregadores neurotizados objetivavam.

Há que acrescentar, igualmente, um aspecto moral e geográfico que completa o quadro de fanatismo religioso. Por um lado, temos a obsessão calvinista contra o prazer, já que segundo John Calvin todos iremos para o inferno sem perdão. E há, também, o aspecto geográfico a considerar. Os Estados Unidos, como a Inglaterra ou a Alemanha, de onde partiram esses primeiros imigrantes, não apenas procediam de regiões frias, como igualmente já tinham um tipo de vida social muito tolhido pelo colete apertado do chamado puritanismo, que condenava o sexo ou qualquer outro tipo de prazer. Dessa forma, somando-se o clima geralmente frio dos Estados Unidos em mais da metade do ano, com uma vida vazia de prazeres terrenos, os casais eram, assim, obrigados a levar uma vida diferente da luxuria, da liberdade sexual e do clima apetitoso e tentador das regiões mais quentes do sul da Europa onde comandava o catolicismo e, no caso do Brasil, de uma enorme área tropical, que, inclusive, levava à nudez, à sexualidade mais ou menos aberta e à licenciosidade, segundo os padrões ianques.

Um dos aspectos curiosos de todo o puritanismo é que com a aparente e ingênua obsessão contra os prazeres materiais da carne (que os primeiros cristãos consideravam como o maior pecado nas sociedades romanas antes de Cristo) sua perseguição acabava por provocar o resultado oposto ao desejado. Assim, conquanto os pais, nas igrejas calvinistas ouvissem a ladainha diária da condenação ao inferno entre aqueles que caiam na tentação demoníaca da bebida alcoólica, eram os jovens sem poder e ainda em estado de crescimento, que mais se viam influenciados pelos pais, a quem desejavam imitar, de vez que a embriaguez prevalecia numa sociedade sujeita ao colete das variadas formas de pecado. Desse modo, os Estados Unidos passaram a possuir uma percentagem extremamente elevada de alcoolismo, pois ali se achavam todos os componentes necessários para levar a massa a essa enfermidade social: as igrejas que condenavam o prazer, uma sociedade sem entretenimento, um clima exageradamente frio em mais da metade do ano e hábeis e inteligentes comerciantes prontos a produzirem as mais deliciosas e euforizantes bebidas. Assim, parafraseando a famosa frase do falecido Senador Estes Kefauver, que se levantou contra o crime organizado das drogas na década de 50, "entre o que o povo quer e o que é proibido, tem que haver uma ponte e essa ponte é o crime organizado". Isto, sem esquecer também a outra brilhante frase do Governador Rockefeller, do estado de Arkansas, que declarou que: "o puritano é o maior aliado do pornógrafo" (quando da campanha nacional, durante o período Nixoniano, no chamado combate aos filmes considerados pornográficos).

De qualquer forma, o resultado dessa luta pelo dinheiro do contribuinte ingênuo e desinformado, fez com que se desenvolvesse nos Estados Unidos uma constante campanha de fanatismo religioso que inexiste no Brasil. Deve-se igualmente recordar que, para essas mesmas massas, a repetição constante de idênticas mentiras, acabaram por levá-las a acreditar que seus pregadores estavam dizendo a verdade.

Desde o Tratado de Tordesilhas, em 1493, que o Brasil, em termos práticos, é um feudo da Igreja Católica. Assim, durante largos anos, foi inteiramente proibida a imigração de regiões protestantes para a América espanhola e portuguesa. O resultado foi que nos Brasil de hoje, praticamente todos se intitulam católicos. E como a igreja de Roma não tinha até recentemente nenhuma competição válida e possuindo praticamente em suas mãos toda a riqueza nacional, não havia nenhuma necessidade de introduzir nessa região qualquer campanha nacional contra "o pecado", como igualmente era dispensável a necessidade de sair à rua para a conversão das massas. Paradoxalmente, entretanto, o caso da ausência do fanatismo aberto no Brasil nada tem a ver com a possibilidade de que o povo brasileiro tenha um nível maior de educação. A única e verdadeira razão se deve simplesmente ao fato de que durante os últimos 400 anos de existência do país, a Igreja Católica nunca teve qualquer competição de outras religiões pela posse das almas brasileiras. Pode-se alegar que existe muito curandeirismo, macumba ou espiritismo no país. No entanto, a Igreja Católica pouco se importa, porque tais grupos não significam em nenhum momento qualquer ameaça ao "Establishment" católico. Primeiro porque aqueles dispõem de poucos recursos. Segundo, porque possuem um nível intelectual sumamente baixo e terceiro porque os umbandistas, macumbeiros ou espiritistas representam apenas uma espécie de clube social alegre e divertido e não uma ameaça à fé católica. Mesmo com a crescente penetração protestante recente e que procede, sobretudo, dos Estados Unidos, a principal preocupação do Papa no Brasil não é contra estes, mas sim contra os padres da chamada Teologia da Libertação, que é uma nova facção dentro do próprio catolicismo. O que essencialmente pedem e reclamam os teólogos dessa "libertação" é que a Igreja Católica em Roma cumpra apenas com aquilo que promete e apregoa como sendo sua bandeira, isto é, a defesa dos pobres. Mas como o Vaticano sempre serviu a si mesmo a aos poderosos dominantes, a bandeira levantada pelos padres da Teologia da Libertação, capitaneados pelo Padre Curran nos Estados Unidos e pelo Padre Leonardo Boff, no Brasil, foi o que preocupou o Papa e o que o levou ao Brasil. Sua visita, em termos práticos, foi colocar uma rolha na boca do prelado brasileiro, tal como já havia feito o mesmo com o padre Curran. Enquanto isso, é verdade, os grupos fundamentalistas protestantes estão conquistando milhões de novos seguidores e crentes nas áreas pobres e ignorantes do Brasil. Algumas vozes entre os elementos da classe rica brasileira, que têm íntima ligação com o Vaticano (como é o caso da Rede Globo do Rio de Janeiro de rádio, jornais e televisão) tem iniciado um modesto ataque contra os grupos evangélicos, teleguiados pelos fundamentalistas batistas dos Estados Unidos. Durante os anos de 1991 e 1992, o aumento do poder econômico desses protestantes foi impressionante.

Confiantes na poderosa posição que a Igreja Católica sempre ocupou na América Latina e no Brasil, e tendo se assentado na confortável poltrona da indiferença e do lazer, os dirigentes católicos não se aperceberam da enorme penetração fundamentalista no Brasil, que se iniciou a partir do nordeste brasileiro.

O autor deste trabalho não tinha até então em Washington, se dado conta do que ocorria. Foi a partir de 1972, quando ainda estudante de mestrado na Universidade de Connecticut, que o fato começou a mostrar-se alarmante.

Sou radioamador e na ocasião em Connecticut possuía uma poderosa estação de rádio, que utilizava para atender a numerosos brasileiros que ali também se achavam fazendo um curso de treinamento para administradores de desenvolvimento. A maioria desses brasileiros procedia do nordeste do Brasil e assim pouco a pouco comecei a desenvolver uma grande rede de contatos de radioamadores nas cidades de Belém, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Maceió, Recife e Salvador na Bahia. Em menos de seis meses comecei a perceber que nossas freqüências começavam a ficar inundadas de supostos radioamadores ou mesmo de registrados e legais rádio amadores, que realizavam um intenso tráfego telefônico via "phone patch" (ligação telefônica através da estação de rádio amador), todos eles ligados a numerosas igrejas fundamentalistas já instaladas em todo o nordeste brasileiro.

Quando o líder fundamentalista brasileiro, de nome "bispo" Macedo se sentiu forte para expor publicamente suas unhas, resolveu, tanto como tática e tanto por vaidade e orgulho pessoal para exibir poder, o arrendamento de vastos espaços públicos, como foi o caso do uso do estádio do Maracanã. A princípio, as fotos nos jornais, que exibiam a incrível presença de 150 mil pessoas no maior estádio do mundo, pareciam mais e apenas uma comemoração de alegre esportividade. O carioca, habituado a usar seu grande estádio para entretenimento futebolístico ou para acolher visitantes tais como o cantor Frank Sinatra e outros, não se deram conta de que uma nova religião havia atingido o litoral brasileiro.

E à medida que o "bispo" Macedo arregaçava as mangas e atraia um público ainda maior, o Sr. Roberto Marinho, um dos homens mais inteligentes e espertos do Brasil, percebia que havia chegado o momento de levantar a bandeira do alarme. Com sua poderosa cadeia de jornais, rádio e sobretudo sua estação de televisão de primeiro mundo, iniciou, a princípio timidamente, e dando a suas reportagens apenas o ar de informação e notícia, um velado ataque ao Sr. Macedo, que não poderia enfrentar o gigante da "mídia" brasileira.

Foi somente depois de dois anos de rápido e gigantesco crescimento entre as enormes massas pobres - AGORA JÁ NÃO MAIS NO NORDESTE DO PAÍS APENAS, MAS DENTRO DA PRÓPRIA CIDADE MARAVILHOSA, que o "bispo" Macedo despertou as primeiras reações, tudo, imaginamos, com a orientação e liderança do Vaticano em Roma e através das estações de TV e jornais da Rede Globo. Mas o Sr. Roberto Marinho, não atacaria abertamente A RELIGIÃO PROTESTANTE! Ele sabia que isso ofenderia o investimento norte-americano no Brasil e, também, a obtenção de seus créditos em dólares para a compra do vasto material de primeira categoria que importa daquele país para suas estações de TV. Assim, o que parece ter ocorrido é que esse poderoso jornalista se valeu da mesma tática que o levou a destruir o poder do Sr. Getúlio Vargas e seu acólito, o jornalista Samuel Wainer, proprietário então do jornal Ultima Hora, isto é, perseguiu seu inimigo pela via do ataque à vasta corrupção brasileira, que sempre imperou em todo o país. O Sr. Wainer, que havia, como o Sr. Roberto Marinho, obtido vastos recursos através do Banco do Brasil durante a gestão Vargas, julgando que o ex-ditador lhe devia uma obrigação pelo apoio político, achou que simplesmente não precisava pagar o empréstimo vultuoso que obteve com o aval do antigo presidente do Brasil. Quando finalmente caiu o governo Vargas, enquanto que o Sr. Roberto Marinho pagava regularmente seus débitos ao banco, os militares de direita que haviam derrubado o Sr. Getúlio Vargas, constataram que a desonestidade do Sr. Wainer era o ponto extremamente fácil que seria utilizado para derrubar o poderoso concorrente do Sr. Roberto Marinho.

Ora, no caso do "bispo" Macedo, que havia adquirido vultuosa fortuna com a exploração da ignorância das massas pobres (com as coletas de dinheiro recebido em milhares de enormes sacos em estádio como o Maracanã) foi fácil, então, para o Sr. Roberto Marinho iniciar uma campanha jornalística contra esse pregador fundamentalista, que acabou por levá-lo à cadeia, embora este tivesse ficado detido por apenas alguns dias, visto que a prisão havia sido inconstitucional, uma vez que o suposto "crime" do Sr. Macedo não justificava sua detenção. Bastaria apenas uma vasta multa ou um prolongado processo na justiça. Seja como for, parece que agora a Igreja Católica está se despertando pela primeira vez em toda a historia do Brasil para a penetração de uma nova religião, que ameaça toda a estrutura católica do país latino. A propósito, todo o comentário e fatos históricos acima nada mais são do que um rápido apanhado de uma conferência em que participei como intérprete num centro de estudos da Universidade Católica em Washington em 1991. Como não fiz apontamentos na hora, as descrições e palavras mencionadas, poderão não ter sido exatamente como descrevi, mas os fatos são todos verdadeiros.

Um ingênuo argumento que os desinformados católicos na massa popular apresentam - e por isso mesmo acham que o Sr. Macedo está "explorando a religião ao tomar dinheiro dos pobres", é que segundo aqueles, a igreja católica "nunca pede dinheiro ao povo e os seus serviços são gratuitos". Essa falsa declaração, que a própria igreja ajuda a conservar, calando-se, tem que ser desafiado. A Igreja Católica é a proprietária de vastas áreas de terras no Brasil, e hoje em dia, de numerosos edifícios em todas as cidades (38% só na Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro e todos de propriedade dos conventos da Lapa, São Bento e Candelária). Além disso - e mais importante ainda - não apenas a cúpula em Roma não precisa de "migalhas", (as chamadas esmolas dadas nas horas das missas), como o próprio povo brasileiro é imensamente pobre e não poderia, como nos Estados Unidos, contribuir com uma média de 10% de suas rendas para o seu clero (como ocorre, por exemplo, com os Mórmons em Salt Lake City, para citar apenas um). Assim, enquanto que não existe uma religião oficial nos Estados Unidos, com direito de cobrar recursos diretamente ao governo (como ocorre no Irã entre os muçulmanos), no Brasil a Igreja participa de atividades oficiais e se beneficia de enormes vantagens fiscais, visto que suas enormes rendas estão livres de impostos. Convém também não esquecer que, embora as cobranças de missas e festividades de casamento ou enterros sejam cobrados diretamente por padres e seja dinheiro embolsado diretamente por estes, é, também, fonte adicional de recursos. Essas provas desmentem assim tolo argumento acima, de que " a igreja nada cobra por seus serviços".

É evidente que mesmo que o Sr. Macedo consiga atingir os seus objetivos, os brasileiros ainda se acham muito longe do dia em que este pregador fundamentalista introduzirá no país a mesma técnica de indivíduos como o Sr. Jerry Falwell ou Jimmy Swaggart, visto que a questão do pecado do álcool está longe de ser motivo de preocupação ou interesse dos fundamentalistas brasileiros. Afinal de contas, a imensa massa de pobres e desgraçados do Brasil está apenas interessada em comer e poder encontrar abrigo, satisfazendo-se com seu joguinho de futebol aos domingos que pode ouvir pelo rádio ou através de um aparelho barato de TV. O Brasil ainda está longe de vir a ser uma nova Irlanda, inclusive porque as causas do fanatismo e ódio entre católicos e protestantes, naquele país infeliz, nada tem a ver com os problemas do Brasil. Mas existe o potencial!

Por outro lado, tem havido, porém, em escala muito mais modesta, um discreto ataque e combate aos seguidores do conhecido Reverendo Moon, que é uma outra facção cristã originalmente financiada pela C.I.A. na Coréia. De um modo geral, entretanto, o "establishment" católico, dirigido e orientado pela burocracia do Vaticano, não se deu conta completamente do novo e poderoso inimigo, que está pouco a pouco conquistando as massas pobres do Brasil, abandonadas pelos dirigentes do Vaticano. Afinal, até há pouco tempo, o Papa polonês em Roma tinha toda sua atenção voltada para seu inimigo mortal, o comunismo, e mais precisamente contra os comunistas (Gomulka e outros) de seu próprio país de origem, de onde foi posto para fora logo após a derrubada do nazismo em 1945.

No caso ainda dos fundamentalistas, alguns alegam que o nível educacional dos pregadores "crentes" no Brasil é tão baixo, que não há o que temer. Os mais cegos alegam que pobre não conta mesmo e, assim, não se interessam se estes preferem esta ou aquela religião, visto que o poder continua ainda nas mãos dos católicos e não parece haver nenhuma ameaça visível ou próxima, que dispute sua riqueza e poder. Um fato "promissor", (para os protestantes, naturalmente) é a circunstância de que já existem na Câmara dos Deputados, em Brasília, numerosos representantes eleitos pelos fundamentalistas. Estes não votam segundo as ordens do partido que os elegeu e, sim, segundo sua coloração religiosa. Votam em massa seguindo os interesses e obedientes ao protestantismo nativo e, mais especificamente, dos fundamentalistas batistas, que correspondem no mundo ocidental, ao mesmo fanatismo do Ayatollah Khomeini entre os muçulmanos. A crescente penetração dos pregadores fundamentalistas através dos vários canais de televisão e jornais que têm adquirido, já serve de amostra de que talvez não demore muito o momento em que comecem, católicos e protestantes a se matar gloriosamente em nome de Deus uns aos outros nas ruas do Rio e de São Paulo, como nas ruas de Belfast.

Mas, se conforme se afirma, somos apenas uma espécie animal, movidos, guiados e dirigidos por nossos instintos animais, deixa então de haver o bem e o mal? Somos apenas maus e crueis? Não haverá esperança para a nossa espécie?

Os seres humanos, como todos os demais animais, são o produto de sua gênese. Somos o que somos, ponto final! Você e eu somos apenas o resultado de uma recombinação ao acaso de cromossomos e todo o seu corpo - sangue, cor dos olhos, gordo ou magro, preto ou branco, - tudo é a soma recombinada de todas as características dadas por nossos pais e por seus ancestrais. Se você nasceu um elefante, isso se deve apenas ao fato de que seus pais e os pais de seus pais eram elefantes. Você nunca poderia ter nascido um pássaro ou um antílope, se seus pais eram elefantes. O comportamento é uma característica herdada. Se você é uma fêmea de uma ave do paraíso, se sentirá atraída pelo macho que apresente as cores mais atrativas e somente se acasalará com aquele macho que oferecer a você e ao seu ninho, os objetos mais coloridos. Se você é um antílope Orix africano, aquele belo animal que tem um chifre que parece um saca-rolha, você primeiro lutará para desalojar seus competidores da arena de combate e em defesa do território a sua volta, antes que as fêmeas sequer se dignem notar sua presença.

Cada ser vivo na Terra seguiu este ou aquele caminho na via evolucionária. Alguns, como as águias, desenvolveram as asas, garras poderosas e olhos extremamente sensíveis e perceptíveis, que podem enxergar um coelho a uma milha de distância. Alguns se transformaram em carnívoros, enquanto que outros comem apenas plantas. E conquanto a explicação acima possa dar a impressão de repetição de um tema tratado anteriormente, parece ao autor importante citá-lo por outro ângulo.

No mundo dos primatas, uma soma variada de fatores e fatos conduziu ao surgimento de nossa espécie, conhecida como "Homo sapiens". Assim como as características mais acentuadas de um pássaro são suas asas e sua habilidade de voar, o mesmo ocorreu com o desenvolvimento do neocórtex, e o subsequente surgimento da característica mais importante e especial do homem, que é sua capacidade de pensar e de possuir uma inteligência altamente desenvolvida. Uma das bem conhecidas leis da física é a de que para cada movimento numa direção, há sempre uma reação em sentido contrário. Por conseguinte, há sempre um preço a pagar por qualquer ação, qualquer movimento, qualquer decisão, ou por qualquer acidente que possa ocorrer na natureza. O que quer que você faça, sempre haverá um preço a pagar. Se você é africano, vivendo sob o forte sol do equador, então sua pele acabará por se tornar negra. Se você nasceu na Islândia e é de pais e avós naturais daquele país, sua pele será branca e você terá perdido a maior parte da melanina protetora contra os raios solares, pois seu corpo, dentro das leis da evolução, deixou de produzir a combinação química necessária para protegê-lo contra esses raios. Na natureza você é o que é, quaisquer que sejam as circunstâncias que o criaram.

Com o desenvolvimento do neocórtex e o resultante nível mais alto daquilo que definimos como inteligência, surgiram resultados naturais e ao acaso do novo caminho evolucionário seguido pelo homem. Um desses subprodutos é o desenvolvimento do conceito do bem e do mal. Trata-se, de um certo modo, de uma idéia um tanto arrogante e notavelmente curiosa. Ela poderá dar ao homem a impressão auto-ilusória de que ele é superior e está acima dos demais animais, mas ainda é o produto de uma massa de células materiais de nosso cérebro. Você pode usar a inteligência e, através da imaginação, transportar-se para as ruas de Paris, conversar com seu irmão já falecido no ano passado, ganhar o maior prêmio de Las Vegas, ou mesmo inventar Deus. Tudo é possível. Mas o que quer que faça com sua inteligência e sua habilidade de pensar, continua sendo um animal e sua ação e comportamento serão essenciais e basicamente ditados pelo animal humano que reside dentro de seu corpo animal.

Mas você não tocou na noção humana do bem e do mal. Onde a coloca? Não lhe da importância? Não haverá alguma arrogância humana envolvida com o julgamento de tal tipo de valores?

Não, não descarto a idéia do bem e do mal inteiramente. O que é necessário é o esclarecimento de seu verdadeiro significado. A questão é que tal noção está inadequada e impropriamente definida. O que desejo é proporcionar definições dentro do seu contexto científico e não dentro do campo imaginário e emocional que foram tão refinadas por nossa inteligência superior.

Assim, começaria por dizer que em termos científicos e naturais, não existe o que chamamos de "bem" ou "mal". Poderá ser uma idéia humana curiosa e interessante, mas em termos das leis naturais da vida, trata-se simplesmente de "non-sense", como igualmente não faria sentido esperar e sonhar que ganharemos na roleta em Las Vegas por meio de orações ou simplesmente por intenso desejo ("wishful thinking") de ganhar dinheiro.. Em primeiro lugar, devemos compreender que qualquer que seja o chamado "mal", segundo sua interpretação, não é necessariamente um mal para os outros. Ou, o que quer que seja "bom" para você, não é necessariamente bom para mim. Para que algo tenha validade universal, uma exigência essencial é que seja também universalmente comprovada, testada, verificada e reconhecida por todos como verdade. Por exemplo, o ar é bom para os seres humanos (posto que todos morreríamos sem ele). Da mesma forma, ninguém discute que dois e dois somam quatro, independentemente do fato de ser você chinês, africano ou europeu, ou ainda se é branco, preto, casado ou solteiro, macho ou fêmea. Outro ponto a considerar é que para haver o bem ou o mal, tal ação está sempre ligada e relacionada com alguém ou alguma coisa. Os dois termos são sempre diretamente relacionados com outra ou outras pessoas e isso é o que torna impossível fazermos um julgamento adequado de tal "valor". Além disso, as declarações ou afirmações piedosas em relação às duas palavras, caem num campo obscuro e emocional, que tem muito pouco valor científico.

Se você é fazendeiro boliviano, que planta árvores de coca, essa atividade é um "bem" para você. Você tem que se recordar que um fazendeiro norte-americano tem completa independência para plantar aquilo que lhe parece mais lucrativo ou vantajoso, salvo o que as leis federais puritanas o impedem de fazer. Suponhamos, por exemplo, que se constate que o clima e as terras do sul do Texas são excelentes para a cultura do café. O fazendeiro americano decide então plantar café e em seis anos, com maquinaria moderna, terá destruído o ganha pão de milhões de brasileiros que começarão a passar fome. Para o homem do campo dos Estados Unidos é coisa irrelevante o fato de que de agora em diante um grande número de cidadãos do Brasil vão empobrecer. Isso não lhe importa. No caso do fazendeiro campesino boliviano que planta coca, isso lhe proporciona recursos para ter uma casa, suficiente alimentação e até talvez um passeio tipo "sightseeing" pelas casas de baixa reputação das ruas de La Paz (o que ele faz com seu dinheiro não interessa nem a mim nem a você, a menos que você seja um Batista fundamentalista, que procura "salvar almas dos 'cucarachas'" latino-americanos em relação ao sexo, que segundo este é, obviamente, um "mal"). Para um sincero, honesto e ingênuo Fundamentalista moralista de Waco no Texas, as folhas de coca deveriam ser eliminadas do planeta e, os fazendeiros bolivianos presos. Para um agente da Drug Enforcement Administration (Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos), por outro lado, caso este deseje ser honesto consigo próprio, e fazendo uma confissão particular e privada que jamais poderia tornar pública - este também se encontra em águas barrentas e opacas. Ele poderá, como homem honesto, se opor às drogas, embora tal decisão seja baseada na ignorância do que sejam drogas. Mas, se tais policiais de drogas dos Estados Unidos pudessem erradicar a coca da Bolívia,(ou outras drogas de outros países) perderiam seus empregos da noite para o dia, perdendo, também, as opulentas viagens ao Rio de Janeiro em seu caminho para La Paz. Ele não teria mais seus "love affairs" nem nas ruas do Rio, nem nas ruas de Paris e tão deliciosamente longe de sua fria, insípida e cansativa esposa de Ohio, que além de puritana, vai à missa todos os dias. Como você vê, nunca poderá haver um consenso sobre drogas, porque o que é bom para você não é um bem para mim, a menos que você queira me impor seus valores, achando que eles devem ser universais porque essa é sua opinião, goste eu ou não de seus pontos de vista imperiosos.

Mas as drogas são um mal! Isso é o que todos afirmam!

Você está completamente equivocado! As drogas são um mal para quem não gosta delas (quaisquer que sejam as razões) ou porque tem algum interesse particular em se opor a elas. São também um "mal" para quem delas abusa, isto é, as utiliza de forma "exagerada" e danosa para o organismo. São também um mal para quem não precisa delas, quaisquer que sejam suas motivações. Tal como expliquei, você nunca convencerá um fazendeiro boliviano de que as folhas de coca são um mal enquanto a vida dele, a vida de sua família ou seu bem estar e felicidade dependem desse alcalóide. Por dezenas de anos - minto - por centenas de anos os nativos dessa região andina vêm usando as folhas de coca para fazer um chá, que em verdade, não é muito diferente do chá comum, ou mesmo do café. O café contém um excitante, a cafeína, que é uma droga suave que nos mantém despertos e bem dispostos. O mesmo acontece com as folhas de coca. Para milhões de pessoas, as várias drogas são um presente de Deus. Alguns a usam porque foram levados pelos outros; devido ao vício (dependência fisiológica) resultante de ferimentos de combate (como foi o caso de soldados norte-americanos feridos durante a guerra do Vietnã e mais tarde tratados com morfina fornecida por seus enfermeiros no campo de luta desse infeliz país). Dentro de nossa ética Puritano-Protestante, tem havido uma longa e idiótica tradição de que a vida tem que ser um vale de lágrimas e que todos nós terminaremos um dia no inferno e que o prazer é coisa pecaminosa.

Os métodos tragicamente errados de combate às drogas na sociedade dos Estados Unidos também causam imenso sofrimento e milhares de mortes desnecessárias. Tomemos o simples exemplo de um jovem negro norte-americano de 19 anos, que foi ferido no Vietnã na década de 60. Devido ao terreno difícil e distante de sua base, o soldado negro recebe atendimento médico de seu enfermeiro, que lhe aplicou morfina durante três ou quatro dias, enquanto não pode ser retirado do meio da floresta distante onde lutou.

Um mês depois de ter-se recuperado, esse soldado consegue uma licença de 15 dias em Saigon, e levado por seus companheiros mais experimentados, vai divertir-se numa noite de prazer nos cabarés da cidade, onde a heroína e o sexo marcham de mãos dadas. O soldado negro, que procede de um gueto na área noroeste de Washington, onde até a educação primária não existe ou é extremamente deficiente, verifica que os deliciosos prazeres do sexo e da heroína, combinados, são algo muito difícil de suplantar e onde ele é considerado como super-homem.

Um ano mais tarde, depois de ser desligado do exército, esse soldado negro de 20 anos está agora viciado em heroína, desempregado e vivendo num mundo branco que o discriminará como ser inferior e durante o resto de sua vida miserável. Sua única via - o único caminho que entende dentro do seu mundo deseducado e limitado - é o de roubar, matar, ou - talvez o menor dos males - torna-se um vendedor de drogas, de modo a poder sustentar seu hábito.

Ora, o submundo do negócio de drogas não é uma piada ou algo que sirva como divertimento. Trata-se de um campo brutal, ilegal e sujo de criminalidade, de polícia corrupta, de violência, de desonestidade e onde encontramos a podridão da sociedade humana. Nosso jovem soldado negro de 29 anos, que estava habituado a tomar 1 cc. de heroína dez anos antes com apenas 30 por cento de pureza nas ruas de Saigon, ao retornar ao seu gueto de Washington DC, encontra alguém que lhe venderá a droga que necessita. Durante algum tempo ele consegue obter sua dose numa base regular, mas um dia seu vendedor é preso e o soldado tem que encontrar seu "fix" na rua 16, próximo à Casa Branca, cujo novo vendedor tem mercadoria apenas para clientes ricos e que, por conseguinte, exigem droga mais pura. Não percebendo, em sua ignorância, que agora está recebendo e injetando 1. cc. de heroína a 90% de pureza, o soldado morre de "overdose", embora estivesse pensando que ainda estava consumindo a mesma quantidade da droga. Se não fôssemos animais, seria concebível que uma criatura formada por Deus denominada de "super-Homo-sapiens", poderia pensar numa resposta lógica e "cristã" para solucionar o problema de nosso soldado negro, ao dar-lhe uma dosagem controlada diariamente de heroína (da mesma maneira que os médicos dão prescrições ou receitas de insulina para diabéticos, ou um tranqüilizante para um indivíduo nervoso) e isso teria impedido sua morte. Mas isso jamais é feito, entretanto, por várias razões, todas ligadas ao nosso comportamento animal natural: ou desejamos impor nossa vontade (ou valores ou religiões) aos outros; seja porque detestamos os pobres, ou porque odiamos negros; porque falsamente acreditamos e afirmamos ser moralistas, ou ainda, tal como os pregadores da TV norte-americana, porque é bom tema para explorar, a fim de nos utilizarmos da ignorância e ingenuidade das massas e assim ficarmos ricos nesse triste processo (como foi o caso, anteriormente citado, do conhecido Jimmy Swaggart, aquele pregador de New Orleans, que foi apanhado num prostíbulo exigindo sexo fetichista de uma mulher da vida e depois foi chorar nas telas da TV, pedindo perdão a seus ingênuos seguidores.)

Em termos técnicos, qualquer droga pode ser danosa para seu organismo. Se um médico verifica que você precisa de iodo para ajudar a controlar as funções de sua pituitária, a droga pode melhorar sua saúde. Mas se você beber um vidro inteiro de iodo, pode morrer devido à enorme ulceração resultante no estômago. A morfina pode ser benéfica para ajudar a controlar a dor severa de um câncer e se você tiver a sorte de se livrar dessa doença nem sempre curável, então, em verdade, não ocorrerão efeitos sérios em seu organismo, com o uso da morfina, em circunstâncias controladas, conforme é o caso de praticamente toda a população chinesa de Macau, que diariamente fuma ópio e mantém, contudo, uma vida normal de trabalho e isso porque a polícia portuguesa desse enclave age e procede com inteligência.

Tive uma longa e interessante experiência pessoal nesse enclave português na costa sul da China. A fim de impor seu domínio sobre um fraco governo chinês, generais britânicos, a mando da Rainha Vitória e do Parlamento da Inglaterra impuseram à população local o uso da heroína. Os dirigentes chineses, que eram impotentes ante a poderosa marinha de Sua Majestade, não conseguiram impedir o completo vício da população (a heroína produz dependência fisiológica), uma área que também incluía Macau e Hong Kong. Como intérprete simultâneo da Drug Enforcement Administration, um órgão federal equivalente à Divisão de Repressão aos Entorpecentes da Polícia Federal do Brasil, num período de mais de 15 anos estive em Macau várias vezes acompanhando alguns agentes da D.E.A., que viajavam para essa colônia portuguesa, com o propósito de "ensinar" aos dirigentes coloniais portugueses a forma de erradicar o uso do ópio. Eu sei, de longa data e graças a minha experiência como intérprete, que serviu em dezenas de conferências do D.E.A., tanto sobre essa droga, como em relação a várias outras, que a chamada "guerra contra as drogas" não é exatamente o que se declara em público. Há tantos interesses envolvidos, existem tantas máscaras falsas, tanta ignorância, tantas mentiras e tantas declarações hipócritas, que chega a ser mesmo difícil fazer de uma longa história uma descrição breve, simples e compreensível. Entretanto, em nome da simplicidade. acredito que posso declarar que, entre outras coisas, a abordagem oficial presente e dominante do governo dos Estados Unidos em relação ao problema de drogas importadas, não é visando ou tentando fazer com que as demais nações parem de produzir drogas, mas, sim, de impedir que elas entrem nos Estados Unidos. Alguns ingênuos e decentes cidadãos "cristãos" poderão ter a firme convicção de que é um dever deles "salvar almas" e, é claro, isso inclui evitar que as pessoas tomem drogas (examinaremos essa questão mais adiante, mas ainda não chegamos nesse ponto interessante). As autoridades portuguesas, que estão longe de ser puritanas e protestantes e estão muito mais interessadas em administrar seu enclave colonial sem qualquer conflito com as autoridades chinesas vizinhas, não estão realmente interessadas em "comprar briga" na campanha antidroga oficial do D.E.A.. O governo português, com a tradicional habilidade diplomática de nação sem nenhuma expressão (qualidade herdada pelos brasileiros no seu Itamarati) percebe duas coisas. A primeira é que a "luta pela salvação através de Cristo" não passa de uma tremenda farsa, acreditada por uns e aproveitada pelos mais espertos. Compreendem, também, que é um perigo enfrentar o radicalismo dos deputados eleitos pelos fundamentalistas protestantes no Congresso dos Estados Unidos e se preocupam, sim, em tomar dinheiro emprestado dos bancos americanos, caso isso seja possível. Daí então, que têm que agir com prudência, quando os agentes do D.E.A. "se convidam" para salvar as almas perdidas de chineses de Macau, colônia portuguesa. Os portugueses também se dão conta de que tentar eliminar o ópio da população chinesa dessa península é uma tola esperança, algo que jamais terá sucesso. A cidade, que tinha 300 mil habitantes em 1974, é composta de 95% de naturais chineses que não conhecem uma única palavra do português. É um local muito estranho, para não fazermos uma descrição demasiado exagerada, como é aliás tudo o que envolve oficiais portugueses bastante cínicos (e igualmente muito práticos ao estilo brasileiro), Macau parecendo ser o epicentro de uma deliciosa hipocrisia portuguesa. Tudo começou no século XVI, quando alguns navegadores portugueses chegaram a Macau, trazendo consigo produtos atrativos e raros, que as autoridades da China jamais haviam visto. Sendo muito hábeis e diplomáticos em fazer negócios e, acima de tudo, sendo muito práticos e simpáticos, os navegadores portugueses assinaram um acordo, na época, através do qual o governo chinês deu a Portugal uma concessão vitalícia e Macau passou a ser o centro uma espécie de almoxarifado para as mercadorias portuguesas, numa península ao sul de Cantão, que ocupa uma área aproximada de 10 kms de largura por 30 kms de comprimento e mais umas duas ilhas de lambuja. Diferentemente dos ingleses dos séculos posteriores, Portugal obteve esse enclave através de uma concessão que dura mais de 400 anos em completa paz e entendimento entre as duas nações. Em 1974, entretanto, alguns aspectos divertidos e cômicos começaram a ter lugar e tudo isso devido em parte à nova e grande sensibilidade dos comunistas e à falta de tato dos diplomatas portugueses supernacionalistas, que surgiram no final da desastrosa era salazarista. As autoridades de Mao Tsé Tung não tinham planos para tomar Macau dos portugueses. Primeiro, porque possuíam um bom almoxarifado de mercadorias de difícil aquisição no mundo ocidental bloqueado pelos Estados Unidos. Em segundo lugar porque o governo de Lisboa era demasiado fraco para ser levado a sério ou constituir ameaça para o líder chinês. Mao Tsé Tung sabia muito bem quais eram seus inimigos e Lisboa não estava incluída em sua lista. Mao, que não queria interferir com a então administração portuguesa do enclave livre de Macau, uma cidade que oferecia todos os produtos possíveis e imagináveis fabricados no ocidente por preços baratos. O líder chinês também não queria absorver a grande população de Macao, sobretudo porque estes ganhavam salários imensamente maiores do que a população da China, em geral, e além disso estes últimos mandavam moeda forte para seus parentes além da fronteira dentro da China continental. O único interesse nacionalista de Mao era ter completo controle político da península e sua exigência era de que o partido comunista tivesse liberdade completa para controlar a mente dos chineses macaenses.

As autoridades portuguesas, cuja única preocupação era a de ganhar dinheiro, não se interessavam pela população nativa de chineses e, assim, os colonialistas em Lisboa jamais se interessaram em ensinar português e esses chineses de Macau, da mesma forma que os colonialistas portugueses jamais conseguiram aprender mais do que umas poucas palavras em cantonês. Havia, assim, uma completa paz. Havia (como é o caso da Igreja Católica no Brasil e do povo brasileiro em geral), uma espécie de pacto secreto e não escrito entre as autoridades portuguesas em Macau e a população local ao estilo do "você não se mete comigo, e eu não me meto com você!". Enquanto ninguém afetasse os interesses econômicos e comerciais dos portugueses, estes tampouco incomodavam a população chinesa e seu vício do ópio. Deve-se também dizer que a maior parte do ópio consumido em Macau procede do famoso "Triângulo Dourado" bem conhecido, que inclui o Laos, a Camboja e o Vietnã e essas drogas todas passavam pela China a caminho do ocidente via Macau.

Num certo dia, em meados de 1974, ocorreu um incidente que iria mudar - ou ameaçava mudar - toda a cínica e amistosa relação entre Lisboa e Pequim e ligada a Macau: havia um chinês que possuía uma casa numa das ruas estreitas da cidade. A seu lado vivia também um português recém-chegado e que influenciado pelos jornais norte-americanos ou pelos puritanos protestantes, determinou que os chineses eram inferiores e que deveriam ser tratados como sub-gente. Decidiu, então, esse inteligente cidadão português, que o muro que tinha sido erguido entre seu jardim e o do vizinho chinês havia sido construído dentro do "território" português e por isso resolveu derrubá-lo. O chinês resistiu e disse alguns nomes feios no próprio idioma de Camões - se é que isso merece crédito uma vez que dificilmente um cidadão nativo chinês de Macau jamais saberia falar o idioma colonialista. O bravo lisboeta pegou, então, um revólver e à maneira dos malandros cariocas de morro, matou "o filho da puta". Em poucas horas as autoridades chinesas além do portão da fronteira (que ficava a apenas uns 300 metros de distância desse portão) e que eram demasiado sensíveis em relação a qualquer "agressão imperialista", decidiram que havia chegado o momento de ensinar uma lição aos portugueses. Vinte quatro horas mais tarde, Mao Tsé Tung ordenou que um exército de 300 mil chineses cercasse os dois portões de entrada para Macau e exigiu o imediato pedido de desculpas do general português comandante da diminuta guarnição lisboeta (na verdade isso era tudo o que Mao Tsé Tung desejava), a fim de apaziguar seus impulsos superpatrióticos contra o "imperialismo português lacaio do imperialismo norte-americano" (estas foram as palavras noticiadas pela imprensa comunista local). Agora, veja a situação com calma, se é que você agüenta todo esse humorismo, estilo lisboeta. Do lado de Macau havia 32 oficiais de polícia que transportavam velhas carabinas, do tempo de Pedro Alvares Cabral (muita arma estava sendo vendida livremente nas numerosas lojas de Macau, mas isso era de propriedade privada chinesa, coisa que o governo não iria tocar). Além disso, a colônia estava ali para dar lucros para os portugueses e não para provocar briga com um forte vizinho (afinal ali se achava um general português que havia apoiado o movimento anti-salazarista em Lisboa e que pouco se importava com o chamado "imperialismo português"). Decidiu, assim, o general que havia chegado o momento de agir com prudência e de forma inteligente e bem ao estilo lisboeta. Ele entrou em contato com o general chinês do outro lado da porta de entrada além da fronteira e solicitou às autoridades chinesas que lhe dessem 30 dias, quando então Portugal lhes entregaria Macau com armas e bagagens (mais com bagagens do que armas), acabando assim com um acordo que havia durado mais de 400 anos. "Na na na na na!, disse o general chinês em cantonês. Em outras palavras, nada feito! Os chineses não queriam a batata quente de volta. E prosseguiu, agora com um intérprete macaense arranjado às pressas:

"Somos pessoas honradas e cumprimos nossos acordos. Além disso essa concessão é perpétua. Ou você fica ai, quietinho, governando sem abrir o bico, ou eu o mando prender por querer nos entregar Macau de volta! A única coisa que queremos é uma carta assinada pelo general imperialista português com um pedido de desculpas e uma pequena compensação pelo cidadão chinês herói morto e isso encerra o incidente".
Como se pode ver, a coisa soa mais como ópera bufa, mas isso foi o que ocorreu. No dia seguinte, foi publicada uma carta em todos os três jornais chineses de Macau e as relações eternamente amistosas entre Pequim e Lisboa retornaram a sua habitual normalidade. O oficial de polícia que mencionei anteriormente, levou-me depois para um "tour" de "Macau by night", quando pude ver dezenas de locais de uso de ópio, onde os chineses se congregam todas as noites para satisfazer seu vício.

— "É isso o que existe por aqui" - disse ele com um olhar bem maroto ao estilo português-brasileiro e com um piscar dos olhos. "Enquanto a gente deixar essa gente em paz fumando seu ópio, não há nenhum incidente ou problema. Não há crimes, não há roubos, nem assaltos. É também um local onde não existem problemas com os comunistas chineses. Entretanto, se você tentar acabar com a droga, pode estar certo que ocorrerá uma revolução sangrenta interna e milhares morreriam. Nós não podemos ser acusados pela introdução do ópio em Macau. Foram os ingleses que fizeram isso no fim do século passado. Nosso trabalho aqui é o de manter a paz e não tentar impedir que essa gente fume ópio. Ninguém poderia fazê-lo, de qualquer maneira, e nossa longa experiência tem demonstrado que toda essa gente trabalha e leva uma vida normal todos os dias e isso é o que sucede", concluiu ele.

Mas permitam que eu retorne à abordagem mais direta sobre a questão das drogas e a trágica e danosa influência dos religionistas norte-americanos a esse respeito.

Há certas drogas para o tratamento da colite (o remédio denominado BELPAR do Laboratório SMITH KLINE & FRENCH era um deles, por exemplo) que não somente controlam a diarréia, como proporcionam uma leve sensação de bem-estar que é causada por uma quantidade de concentração diminuta de codeína (que é um derivado do ópio). Um moralista Batista Fundamentalista norte-americano, que trabalhava nessa companhia no Rio de Janeiro, conseguiu entretanto, retirar essa eficiente droga das farmácias do Brasil, sob a alegação tola de que " a S.K.& F não se achava no mercado de drogas para produzir prazer!"

A miséria humana e o sofrimento causado pelo anormal comportamento do Homo sapiens foram bem descritas pelo Dr. Desmond Morris, em seu famoso livro "O Jardim Zoológico Humano" que merece ser lido por todos os que se interessam pelo comportamento estranho do "Homo sapiens".

No começo de minha resposta à questão anterior à última, comentei sobre a idéia do "bem" e do "mal" e que esta exigia uma abordagem científica e não emocional. Volto, agora, ao assunto.

Os seres humanos, diferentemente dos demais animais, possuem um incrível poder de inteligência. Exceto em casos raros - digamos por exemplo quando escrevemos uma sonata musical - o neocórtex (isto é, a parte pensadora e inteligente do cérebro humano) é um servidor obediente e humilde de nosso cérebro reptílico (aquela parte denominada de hipotálamo, que envolve células nervosas que controlam o sexo, a fome, o medo, a agressão e o território e que é, em suma, o centro de controle que é semelhante aos demais animais e cuja principal função é a de apenas proteger e manter alerta o corpo vivo contra quaisquer ameaças externas). Algumas pessoas religiosas e educadas sabem bem disso. Entretanto, a fim de procurar acomodar suas crenças religiosas "imprintadas", com os novos fatos científicos, argumentam que se é aceitável que o homem seja um animal, por outro lado a qualidade humana "concedida por Deus" da inteligência, permite que o ser humano EXERÇA CONTROLE SOBRE AS AÇÕES REPTÍLICAS DO HIPOTÁLAMO, no momento em que se dá conta da existência do bem e do mal. Por conseguinte, argumenta o religionista, o neocórtex TRIUNFA SOBRE O CÉREBRO REPTÍLICO! O argumento, tal como o vejo, parece-me mentiroso e desonesto e tende a distrair-nos da realidade. Acima de tudo, tende a provocar a imediata aceitação geral, tal como a promessa da vida após a morte - porque se trata de ALGO QUE DESEJAMOS REALMENTE ACREDITAR!

No entanto, é uma afirmativa falsa por várias razões e motivos. Olhe, por exemplo, para o comportamento das sociedades humanas e para seu comportamento animal a partir do começo do século XX. Nos últimos 92 anos, milhões de pessoas foram mortas em 142 guerras. Os atos de genocídio, mortes, assaltos, roubos e crimes de toda espécie ocorrem todos os dias e por toda a parte no planeta.

Mesmo supondo-se que alguns seres humanos sejam doces e gentis no interior de um vilarejo brasileiro de Goiás, ou numa fazenda próxima a Lincoln, estado de Nebraska, estes podem transformar-se em verdadeiros Mr's Hides de um momento para o outro, se for declarada uma guerra patriótica, ou se alguém gritar FOGO! dentro de um cinema. As religiões, por conseguinte, nada mais são senão uma capa cultural que cobre nossos temores e agressões. Elas não apenas são destituídas de qualquer valor, mas, para concluirmos humoristicamente este trecho, são também daninhas para sua saúde.

Mas se isso é assim, qual é o comportamento geral tanto na sociedadade norte-americana como na brasileira, em relação ao papel da mulher? Terão as mulheres norte-americanas mais liberdade e igualdade do que as mulheres brasileiras? É o machismo - comportamento normal dos homens - uma aberração no nosso jardim zoológico humano? Tem a religião um papel na assim chamada "batalha dos sexos"?

Como tudo mais que ocorre na sociedade do "Homo sapiens", cada comportamento, cada ação, cada procedimento e cada norma social, tudo parece muito confuso e por vezes difícil de ser entendido, devido ao inter-relacionamento anormal entre o neocórtex e seu "master", o cérebro reptílico. Há uma tal enorme variedade de ações, de formas de comportamento, de máscaras, de sutilezas e etc., que se torna muito difícil procurar mostrar um único padrão. Neste ensaio, limitado a umas poucas centenas de páginas, seria impossível tentar cobrir todos eles. Entretanto, em nome da simplicidade, é possível estabelecermos algumas regras gerais e eu procurarei dar alguns exemplos generalizados, com a convicção de que os padrões de comportamento humano sejam compreensíveis de alguma forma. Assim, de um modo geral, pode-se dizer que:

  1. os machos são dominantes em todas as sociedades animais (salvo em raros casos como certas aranhas que têm o tamanho dez vezes maior que o macho e por vezes o confundem como alimento, quando este delicadamente se aproxima para o acasalamento).

  2. as fêmeas são sempre "dominadas (explicaremos o significado animal desse termo mais adiante) ou "montadas" em todas as espécies.

  3. esse relacionamento dominante/dominado é o padrão normal e seu formato natural é tal que ocorre um perfeito equilíbrio entre eles. Não existe nas demais espécies nada parecido com o machismo dominante da espécie humana e, em verdade, aquele é um termo antropomórfico que temos que utilizar com os animais com o devido cuidado e restrição. Tanto quanto possamos detectar, não há um único exemplo em todas as espécies animais em que uma fêmea demonstre o desejo de exibir qualquer "revolta" ou "reação" contra o macho dominante. Por exemplo, para o olho humano, pareceria doloroso para uma águia fêmea ser montada por um poderoso e pesado macho com penetrantes talões grossos e pesados, pressionados contra o corpo apenas coberto de plumas da fêmea. Pareceria igualmente doloroso ver uma águia fêmea debaixo de um macho, com sua cabeça presa pelo forte bico de seu macho. O ato sexual entre numerosas espécies exibe uma incrível variedade de posições. Qualquer que seja a forma, entretanto, tudo parece funcionar muito bem e tanto quanto possamos detectar, não tem havido nenhum movimento social de protesto entre as fêmeas animais contra as formas como os machos as montam. No caso dos seres humanos, entretanto, tudo parece se tornar muito complicado, devido à participação adicional do neocórtex, em todo esse padrão de relacionamento entre o homem e a mulher. Como aquele está a serviço do cérebro reptílico, a inteligência produz uma nova dimensão para o papel dominante do macho e é essa característica especial humana, que procurarei agora descrever aqui.

Existem algumas formas específicas de comportamento de todos os mamíferos machos e fêmeas. Por exemplo, os machos lutam pelo território (isto é, o domínio sobre os outros machos - ou sua expulsão) e nunca pelas fêmeas. As fêmeas, por outro lado, estão apenas interessadas na "propriedade", nunca pelo "proprietário" (examinarei essa característica feminina única mais adiante). Em outras palavras, a natureza criou uma maneira evolucionária de manter as espécies vivas através da disputa territorial. Ao lutar, entre si, o mais poderoso macho vencerá e é esse macho, então, que terá o "direito" de passar para a próxima geração suas características genéticas superiores. Exemplos simples disso podem ser observados entre os sapos, antílopes, tigres, elefantes e assim por diante. Essa regra geral, entretanto, não é universal. Outras forças poderão também ter sua participação no processo. Por exemplo: entre os leões no deserto da Namíbia, as fêmeas não se importam de serem montadas por vários machos, sejam eles alfas dominantes ou descartados ômegas. O domínio territorial, nesse caso, não parece ser o meio essencial para transmitir as características genéticas superiores do indivíduo alfa. Também se poderia dizer que, como os leões devoram e não são devorados por ninguém, seria de se imaginar que deveria haver uma superpopulação desses felinos africanos em todo continente. Mas isso não ocorre, entretanto. Existem outros fatores em jogo, que contribuem para que haja um controle do excesso de população desses felinos. Por exemplo, na planície do Serenjeti, o clima e a migração, em massa, dos antílopes podem representar um importante papel na limitação da superpopulação leonina. A mortalidade infantil é uma maneira de reduzir-se o número excessivo de filhotes. Se, durante o período das águas você vê as fêmeas com 3 ou 4 filhotes, pode estar certo que, no fim do período das secas, quando os herbívoros retornam, dois ou três filhotes estarão mortos por falta de alimento. Para começar, os leões machos comem primeiro. Depois vem a vez das fêmeas. Os filhotes são os últimos. Como a maior parte dos herbívoros (zebras, gnus, etc) emigram para áreas distantes, os leões ficam limitados a caçar pequenos antílopes como o Impala ou mesmo os diminutos dick-dick, que não pesam mais do que uns poucos quilos. Não existe suficiente comida para todos e, assim, ocorre o controle populacional, com a conseqüente morte da maioria dos filhotes. Esses processos, como muitos outros da natureza, podem parecer dolorosos e desagradáveis para o olho humano; mas o processo natural de seleção das espécies não leva em conta os sentimentos humanos.

As relações sexuais entre os seres humanos e seu resultante comportamento social são também guiados pelas leis naturais, que nenhum Batista fundamentalista ou Papa, em Roma, pode modificar. Entretanto, dada a única característica humana da existência do neocórtex, se é verdade que o comportamento permanece o mesmo, ele é alterado de certa forma devido à confusa participação do neocórtex, com sua obediente prestação de serviços ao cérebro reptílico.

Os seres humanos, como o antílope Orix, o elefante, o Impala ou o lobo canadense, são animais territoriais. O instinto territorial do homem é assim destacado e alargado pelo uso da inteligência e isso é o que explica nossas guerras, nosso patriotismo e a razão porque matamos para proteger, defender e manter nossas mulheres. Poderemos, conforme expliquei antes, utilizar toda a sorte de máscaras sociais para explicar ou justificar nossos instintos animais, mas independentemente de quanto torçamos a realidade, não somos nada mais senão uma outra espécie animal. A inteligência não nos modifica. Ela nos torna mais perigosos para com nós mesmos e, sem a menor dúvida, para as outras espécies vivas no nosso pequenino planeta.

E as mulheres? Como elas participam de todo esse processo?

As mulheres também agem como animais. E, tal como os homens, também se comportam em obediência a seus instintos animais. Conforme disse, todas as fêmeas são montadas. Nas nossas ações sociais, a manifestação cultural desse instinto é melhormente observada em formas humanas que as fazem parecer "humanas", "divinas", "feitas por Deus", embora permaneçam animais. Poderá surpreender-lhe que a fêmea do Orix só será montada por um macho dominante. Também será surpreendente constatarmos que a maior parte dos Orixes ômegas permanecem castrados psicologicamente, dada sua posição social mais baixa nessa sociedade de antílopes. Se, aos 67 anos caminho pela praia de Copacabana num domingo ensolarado, a maior parte das mulheres provavelmente não tomará nota de minha presença. Se eu usar um terno de 300 dólares, talvez uma ou outra perceba que eu existo. Mas, se eu dirigir uma Mercedes Benz ou um Jaguar do ano de 1993, conversível, pode estar certo de que, no fim daquela manhã cheia de sol, terei em minhas mãos uma dúzia de números de telefones de encantadoras cariocas, todas certamente muito interessadas em conhecer o "belo carioca que virou gringo". Será que isso não lhe diz alguma coisa? Um dos homens de menor atração física, segundo a critica internacional, entre os milionários internacionais, foi o magnata da navegação e de petroleiros, Aristóteles Onassis. Ele não teve nenhuma dificuldade, entretanto, em casar-se com a fêmea mais desejável da época, Jacqueline Kennedy, e somente os muito inocentes ou ingênuos é que teriam declarado que os dois estavam completamente apaixonados um pelo outro. A senhora Onassis, como as garotas de Copacabana, estavam apenas interessadas na "propriedade" e não no proprietário. Em outras palavras, agiram precisamente como procede a fêmea do Orix africano de chifres que parecem um saca-rolha. Quaisquer que sejam as justificativas oferecidas pela fêmea humana, a capa cultural do Homo sapiens não é uma cobertura suficiente para esconder o impulso feminino, que é o fato de que todas estão interessadas na propriedade e não no proprietário. Este vem no "pacote".

É claro que é importante reenfatizar repetidamente que não há nada de estranho ou anormal em tal forma de comportamento. Essa é a maneira que a natureza funciona e faz as coisas, e essa é a forma como todos agimos, estejamos falando de um elefante, de um Impala ou de um ser humano. No que diz respeito ao relacionamento entre homens e mulheres na nossa sociedade humana, o processo é o mesmo, com a cláusula adicional, talvez, que, como tudo o mais que ocorre em nosso jardim zoológico humano, trata-se da exibição de uma forma "doentia" e "anormal" que, a seguir, analisaremos.

Disse antes que o papel "dominante" dos machos entre as outras espécies é um processo normal que funciona muito bem. No caso humano, entretanto, é a obediente participação do neocórtex que provoca uma considerável alteração de um padrão, que de outra forma, seria normal. O principal objetivo do cérebro reptílico é proteger o indivíduo, mas quando essa parte do hipotálamo tem a vantagem adicional de fazer uso de seu obediente servo mais acima, aí então as coisas se tornam perigosas, difíceis e complicadas. O cérebro reptílico, agora, instrui o neocórtex que procure meios e formas para aumentar seu poder e domínio. Em seu papel inteligente e obediente, o neocórtex, a seguir, elabora coisa tais como religião, valores morais, leis impedimentos, controles, punições ou justificativas legais, para abusar, explorar, escravizar e dominar as mulheres. Existem e existiram numerosas formas de que se valem os homens para explorar as mulheres. Na maior parte dos países, inclusive nos Estados Unidos, as mulheres geralmente ganham menores salários que os homens (por volta de 80% na melhor das hipóteses). As posições executivas são quase sempre negadas às mulheres. No Brasil, os casamentos podiam ser anulados se o marido constatasse que a mulher não era virgem, ou pelo menos essa era a lei até recentemente. Nos países árabes, as meninas recém-nascidas têm seu clitóris extraído e o argumento para justificar esse procedimento brutal é que esse é o melhor modo para aplacar o futuro interesse da mulher pelos homens e para que assim possam ser "vendidas" para o marido escolhido pelos pais delas. Na maior parte das sociedades, as mulheres não podem dispor com facilidade da herança do marido falecido. A lista, conforme se vê, é interminável e a principal força propulsora é o instinto animal do homem, de poderoso domínio sobre as mulheres.

Mas como as mulheres também possuem um cérebro reptilico e um neocórtex, por que não reagem? Não é isso que esta acontecendo nos Estados Unidos? Não é essa a razão porque existem tantas leis nos Estados Unidos para proteger as mulheres contra a exploração e abuso masculinos?

Conquanto seja estranho, as mulheres são dominadas, não tanto porque os homens são supostamente mais poderosos... mas precisamente porque são fêmeas! Sua função cultural é a de serem "montadas", de serem "dominadas". Aqui podemos citar alguns exemplos interessantes. Nos Estados Unidos, todos os movimentos pelo direito das mulheres têm sido prejudicados e bloqueados, não tanto pela ação de certos conservadores machistas, mas pelas próprias mulheres. Há uma mulher muito conhecida nos Estados Unidos com o nome de Phyllis Schlafly, identificada como a "Quisling" do movimento anti-feminino.(Nota: Vidkun Quisling foi o antigo traidor da Noruega que ajudou a entregar seu país aos nazistas, em 1941). Ela dirige um poderoso movimento contra toda a sorte de direitos da mulher e provou ser vitoriosa, ao torpedear todos os esforços para dar à mulher um melhor papel na garantia maior dos direitos femininos na sociedade dos Estados Unidos. As mulheres, também, tendem a aceitar seu "rank" mais baixo nas sociedades humanas, uma vez que sua "propriedade" seja garantida. É claro que não lhes falta inteligência e muitas mulheres podem ser e são ativas, capazes, inteligentes e tão poderosas, por vezes, quanto os próprios homens. Mas aqui estamos falando de exceções à regra. Não podemos usar modelos e exemplos norte-americanos de locais tais como New York ou Washington DC. Temos que olhar para o mundo como um todo. Por conseguinte, temos que considerar o papel inferior de milhões e milhões de mulheres do Oriente Médio, na India, na China, no Japão e até mesmo em áreas menos desenvolvidas dentro dos Estados Unidos. As exceções nada mais fazem senão confirmar a própria regra geral e os modestos exemplos da nação mais desenvolvida do mundo não alteram a verdade, a clara constatação de que a fêmea das espécies é sempre dominada pelo macho, estejamos nós falando de macacos babuínos, de antílopes ou de um ser humano. É claro que as mulheres têm amplas condições senão de mudar, pelo menos reduzir, em muito, o papel dominante e explorador masculino em nossas sociedades. Curiosamente, entretanto, uma forte arma contra o domínio e exploração do homem por parte da mulher é seu sexo. Retornemos um pouco atrás e lembremo-nos do que ocorre em outras espécies animais. Tem-se dito que, quando nos achamos em em face de um problema complicado, talvez a melhor solução seja a de usarmos um modelo algo parecido, que nos ajudará a solucionar o quebra-cabeça inicial.

Em todas as sociedades animais, um macho não poderá montar uma fêmea, a menos que ela se ache em estado de cio. Certos pássaros, como a Ave do Paraíso da Nova Guiné, por exemplo, não pouparão esforços para atrair uma fêmea (veja os primeiros parágrafos deste artigo com relação a esse belo pássaro). Entretanto, independentemente do que ele faça e não parecendo sua companheira dar muita importância ao comportamento agitado do macho em relação à coleta de todas as pedras ou tecidos coloridos que possa oferecer a sua fêmea escolhida, o macho só conseguirá montá-la se esta o permitir por estar no período de cio. Em termos humanos, o processo deveria ser o mesmo. As mulheres possuem a mais poderosa arma e esta é sua capacidade de dizer NAO! Se as mulheres soubessem como explorar essa qualidade única, todos os homens se abaixariam tímidos e humildes e as mulheres assumiriam o controle da situação. A dificuldade, entretanto é genética: as mulheres são feitas para serem dominadas e obedientes de um modo geral. Elas simplesmente não sabem - falando em termos gerais - como empregar sua formidável arma que é a de dizer não ao homem que a deseja e é aqui que reside o problema.

Existem diversos segmentos da sociedade norte-americana instruída que se dá conta de que, mesmo que não houvesse outros propósitos além do simples egoísmo e autoprazer, a maior parte dos homens estaria pronta para conceder direitos iguais à mulher. Um bom número de homens educado conhece a idéia de que seria melhor que se apaixonassem por uma mulher que os ama, possuindo ou não território, tendo ou não dinheiro, empregos ou propriedades. Nada dá mais prazer a esses homens do que a admiração pura de uma mulher. Entretanto, a grande maioria dos homens de nossa sociedade está mais interessada no domínio e no poder e as mulheres são suas presas mais fáceis. É, por conseguinte, um sonho impossível esperarmos mudar o impulso animal do homem, e isto porque, diferentemente dos demais animais, aqueles têm um poderoso e obediente aliado, que é seu neocórtex.

Mas dadas essas circunstâncias, qual é então o papel da religião no caso do dominio do homem sobre a mulher?

Aqui, trata-se, apenas, de uma questão de lermos a história da humanidade. Por toda essa história, temos milhares de exemplos em que os homens usam a religião, com o objetivo de explorar, escravizar e dominar as mulheres. Alguns exemplos são suficientes. Durante a Idade Média, o Cristianismo brutalizou, seviciou e matou milhares de mulheres que foram acusadas de ter ficado grávidas pelo demônio. Todos os "pecados" religiosos envolveram diretamente as mulheres, começando com a primeira estória da Bíblia, quando Eva foi condenada por ser tentadora. A maior parte dos preconceitos religiosos impede que a mulher tenha sexo normal e em nossas próprias tradições Cristão-Ocidentais os grupos religiosos têm inventado numerosas leis que são cruéis e desumanas contra as mulheres. Nos países árabes, as mulheres têm que cobrir seu "corpo pecaminoso" e nem sequer têm o direito de dirigir um automóvel. Precisaríamos mais exemplos? Nos nossos tempos modernos, alguns grupos religiosos mais "liberais" ensaiam novidades como a de permitir que a mulher exerça o púlpito - isto é, exerça a função de "padre". Mas tais esforços são logo ridicularizados e os homens repelem os esforços nessa direção. Essa foi a razão porque a Rainha Hatchepsut do Egito faraônico determinou que todo o texto que se encontrava em sua sepultura em construção fosse passado para o gênero masculino, uma vez que a massa egípcia não poderia aceitar que um Faraó-Deus fosse do sexo feminino. Na Igreja Católica, possivelmente a mais machista de todas depois da religião muçulmana, a consideração da idéia de se permitir que uma mulher seja padre tem sido rejeitada categórica e energicamente pelos Papas em, Roma.

Mas o que poderiam elas então fazer para modificar isso?

Não podem! E não podem, porque elas, também, são animais e, como tais, obedientes seguidoras e escravas das leis naturais. Num certo sentido, são como os insetos que voam em torno da lâmpada acesa. Não importa quão visíveis e abundantes sejam as provas, as mulheres foram e continuam a ser e agir como os insetos, quando estes se chocam com a lâmpada quente. Algumas mulheres, é claro, se dão conta desse inexorável destino e certamente gostariam de modificá-lo. Mas, neste artigo, estamos falando da população feminina no mundo como um todo e não de algumas mulheres universitárias com alto nível de educação do "Establishment" cultural dos Estados Unidos. Trata-se de uma tarefa sem esperanças procurarmos educar a mulher árabe, no sentido de que não precisa nem deve cobrir o rosto com o "chaddor". É inútil tentar educar a mulher brasileira no sentido de que não tem porque se submeter ao machismo brasileiro. É um sonho impossível acreditarmos que a mulher norte-americana não tem que ser uma esposa doméstica e que seu dever neste mundo é só parir filhos. Tal como ficarem grávidas e criar filhos, as mulheres são animais com instintos animais e elas, como os homens, são predominantemente dominadas por seu cérebro reptílico e esse cérebro, no caso da mulher, lhe diz que tem que ser montada, que tem que servir ao homem e isso tudo é o que se pode constatar quando estudamos tal fenômeno. Uma colega minha da Rádio do Cairo, nas noites em que ambos, sozinhos, aguardávamos às duas da manhã o horário para entrarmos no ar (ela com o programa para o mundo árabe do Paquistão e eu transmitindo um programa, em português, para o Brasil) passávamos horas conversando. Ela, uma rara egípcia com diploma de direito e mulher "avançada", sobretudo em comparação com a imensa maioria das mulheres árabes, ficou uma noite muito surpreendida quando lhe disse que se eu fosse mulher e se fosse forçada a escolher uma religião, teria obviamente preferido ser cristão. Sem entender, ela me perguntou por quê? Em resposta, expliquei que, pelo menos, no mundo cristão um homem, tecnicamente, só poderia ter uma esposa, enquanto que, no mundo muçulmano, um homem podia, pela lei, ter quatro esposas e quantas concubinas desejasse. Mais surpresa ainda ela protestou, afirmando que eu estava enganado e disse:

"Bem ao contrário! O nosso sistema é que é o certo. Os muçulmanos, ao terem três esposas, dividem assim o trabalho doméstico em casa, em que cada uma fica aliviada do peso de suas responsabilidades. Uma cria os filhos, a outra cuida do cozinha e a outra toma outras providências..."
Observe-se, como disse antes, que eu tinha ali na minha frente uma mulher advogada e bastante inteligente e que falava um inglês fluente. Não se tratava de um exemplar humano como aquelas tristes mulheres que tanto vimos na televisão no Irã, cobertas com o "chaddor", humildemente aceitando sua situação passiva de dominadas.

Devo encerrar esta análise com uma nota triste. Mencionei, antes, a rara exceção de algumas mulheres com alto nível de educação universitária nos Estados Unidos, que embora impossibilitadas de modificar o papel inferior da mulher, tiveram entretanto sucesso em encontrar alguma forma tolerável de viver uma vida melhor num mundo dominado pelo homem. No entanto, um novo e estranho fato está começando a ocorrer nesse país.

Recentemente ocorreu um fato espantoso, uma nova lei aprovada pelo governo no ano de 1987, que somente pode ser entendido se tivermos o cérebro de cimento dos fundamentalistas protestantes. Trata-se de uma nova determinação legal que tornou crime nacional que o homem dirija um galanteio a uma mulher na rua (a forma como a lei foi apresentada é um pouco mais extensa e elaborada, mas em síntese isso foi o que disse a lei).

Johnny Carson, o conhecido humorista e homem da noite, que ocupa um notável programa na NBC em New York e transmitido por todo o país, revelou, de forma bem divertida, que as mulheres norte-americanas estava viajando, em massa, para a Itália. A razão, segundo ele, era que os homens norte-americanos tinham agora tanto medo de "agir como homens" (o que ele insinuava era que os norte-americanos antes dirigiam galanteios às mulheres), que as aquelas fugiam todas para Roma, com o propósito de serem "beliscadas" no bumbum ("pinched in the ass") pelos homens italianos mais machos e que aparentemente não acreditavam ainda no chamado "direito das mulheres".

O moral dessa estória humorística, tão bem contada por Johnny Carson, é que no jardim zoológico humano desenvolvido dos Estados Unidos, os protestantes parecem continuar a não ter condições para entender que os seres humanos não foram feitos à imagem de Deus e que são, sim, apenas mais uma espécie animal. E como ninguém pode "to fool mother nature", as mulheres continuam a ser mulheres e os homens continuam a ser homens. Ao adotarem as novas leis que consideram um crime dirigir gracejos a uma mulher nas ruas norte-americanas, é claro que o comportamento neurótico toma conta da situação. Os homens, agora, temem as mulheres e estas, que segundo a lei devem repelir o "avanço masculino", ou ficam neuróticas... ou voam para Roma, em busca de sua identidade feminina. Acredite quem quiser, conforme diria o humorístico Ripley.

Qual é o papel do que chamamos de "aprendizado cultural"? Não teremos nós os meios para controlar os instintos animais? Não valerá nada o córtex cerebral como órgão independente e somos assim apenas cérebro reptílico?

É óbvio que a inteligência humana tem grande importância. Se não fosse assim, não estaríamos viajando para a Lua, ou produzindo Monas Lisas. O cérebro humano tem enorme capacidade de aprendizado cultural, isto é, aquilo que realizamos sem uma interferência muito direta do cérebro reptílico. Mas, antes de responder a essa pergunta, convém esclarecer um aspecto importante, freqüentemente citado pelos religionistas, como se fosse um argumento válido para dar características divinas ao homem e que sempre provoca grande confusão e dúvida nos que pouco conhecem a aplicação científica da sóciobiologia. Em seu desesperado esforço para recuperar a antiga posição perdida quando inexistia a ciência e a religião era absoluta para explicar tudo, as igrejas, e os religionistas, tentaram se agarrar na própria ciência e após serem forçados a concordar com má vontade que o homem possui instintos, que até então negavam furiosamente, passaram a afirmar que ser o homem "filho de Deus", tem o poder de controlar o cérebro reptílico, através do raciocínio e de sua inteligência. Um dos exemplos é que um homem na rua se controla e não força uma mulher a ter relações sexuais com ele, embora a possa desejar com intensidade. Passam, também, a citar as grandes obras humanas como a música, ou buscam exemplos de generosidade e devoção humanas, "demonstrando" assim que o homem não é um animal como as demais espécies.

Essa desonestidade cultural, entretanto, é facilmente desmascarável. Para isso é preciso enumerar alguns aspectos importantes:

  1. lembramos que todos os animais têm, necessitam e não poderiam existir sem um mecanismo instintivo do cérebro, para determinar como proceder a fim de defender sua existência ou sua espécie. O homem não é uma exceção e também tem seu componente reptílico.

  2. Conforme já explicamos, o desenvolvimento do neocórtex no cérebro humano só ocorreu nessa espécie, da mesma forma que as asas só ocorreram entre as aves, ou os enormes caninos, nos leões e tigres. Conseqüentemente o neocórtex é um desenvolvimento humano acessório e, não, predominante. Sua função é a de auxiliar do cérebro reptílico (como ocorre com as asas entre as aves, ou como os caninos são auxiliares para a existência do leão ou ainda o faro para os cães). Conquanto o animal humano não pudesse atingir o nível que chegou sem o desenvolvimento do neocórtex, ele poderia igualmente sobreviver, conforme ocorre, hoje, com os gorilas ou chimpanzés, embora não chegasse jamais ao nível to atual "Homo sapiens".

  3. Para os seres humanos que querem, com desespero, escapar da morte (uma constatação a longa distância que o desenvolvimento do seu neocórtex lhe permitiu), qualquer argumento que favoreça e satisfaça esse desejo, é aceito e acreditado, porque ele cai como uma luva para a satisfação de nossas esperanças humanas. O problema é que o cientista não pode pensar como um "wishfukl thinker", a não ser que se trate de um charlatão qualquer universitário, que busca falsificar seus "papers". Diga-se de passagem que nos Estados Unidos freqüentemente ocorrem casos de cientistas que se desviam, provocados pela ambição e pelo sucesso e prestígio, formulando teses ou defendendo "descobertas científicas", que no entanto em breve são desmascaradas por outros colegas. A mentira na ciência, como a censura do estado contra os cientistas, são coisas que mais cedo ou mais tarde se desmoralizam completamente.

  4. Os seres humanos possuem um grau imensamente variado de capacidades de inteligência. As estatísticas indicam, por exemplo, que nas populações humanas, apenas dez porcento dos seres humanos possuem um nível de inteligência superior. Por outro lado, nascem diariamente milhões de crianças imbecis (por um vasto número de razões que se torna desnecessário comentar, porque tornariam o tema demasiado longo) e estas terão um quociente de inteligência não muito superior, talvez, ao de um orangotango. A grande maioria da massa humana (como a grande maioria dos ômegas das demais espécies em relação aos machos alfas) não tem condição ou meios para atingir um nível mais avançado de cultura e, assim, não podem entender um problema científico, uma descrição de trigonometria, um computador com suas línguas, ou entender sequer um eclipse da lua. A ciência para tais indivíduos é um mistério que nunca perceberão. Daí, então, que, para estes, a única linguagem que entendem, quando se trata de fenômenos da natureza que não percebem, é aquela proporcionada pelos charlatões que lhes apresentam soluções simplórias e digeríveis em seus limitados níveis de cultura ou de inteligência. Por exemplo, é uma matéria complicada, demorada, difícil e que exige altos estudos, compreender paleontologia. Para um auditório que não possua, pelo menos, um curso universitário completo, é tarefa inútil tentar explicar uma supernova, a evolução darwinista das espécies ou um "black hole" estelar. Conseqüentemente para a grande massa, as explicações simplórias da religião encontram uma fácil e rápida recepção. Além disso, os conhecidos pregadores da televisão norte-americana, por exemplo, que vem obtendo grandes fortunas com suas preleções, ameaças e promessas divinas, são muito hábeis nessas técnicas e nenhum melhor exemplo nos vem à mente do que a conhecida estória representada pelo ator Burt Lancaster no filme em que faz o papel do pregador vigarista de nome Elmer Gantry. Esse personagem representa o que ocorre com os atuais pregadores evangelistas da TV norte-americana. Assim, portanto, não apenas temos uma platéia ingênua, que está pronta para comprar qualquer solução e salvação, como logo aparecem os malandros das almas, no modelo idêntico dos vigaristas tipo "flim-flam" que se colocam no alto do morro do Corcovado e com três casquinhas e duas bolas pretas, procuram enganar, com suas mãos malabaristas e ágeis manobras, os ingênuos e desligados turistas.

Dito isso, vejamos agora então qual a realidade da situação da inteligência humana e até onde esta pode afetar a vida humana. O aspecto principal a levarmos em conta é que a inteligência humana poderia ser comparada à música, enquanto que o cérebro reptílico seria o piano. O piano, sem o pianista, nada faz e é apenas um objeto. Torna-se necessário o aprendizado, para que o músico possa, então, extrair desse corpo (o piano) a música. Mas a música, em si isoladamente, não serviria para nada se não existir o instrumento para tocá-la. Dessa forma, verificamos que o animal humano, tal como nos demais animais, pode usar o instrumento (o piano) para defender o seu território, da mesma forma que o leão empregaria seus caninos para sobreviver. A inteligência, entretanto, permite-lhe atingir níveis maiores. Mas aqui convém enfatizar que a música, isoladamente, de nada serve. Trata-se, apenas, de um produto resultante do emprego de um instrumento e ela por si não existe. isto é, não tem corpo próprio. Torna-se necessário o instrumento, para que ela possa existir.

Mais importante, ainda, como essa inteligência está ligada ao comando central de defesa do organismo, não seria lógico imaginarmos que ela sozinha pudesse atuar. Ela funciona, sim, mas a serviço do organismo e a função do comando central reptílico é a de proteger o indivíduo. Como resultado, o neocórtex, irmão siamês do comando mais abaixo, serve como obediente servo e isso se demonstra pela atuação geral da humanidade, seja através das revoluções, das ambições políticas, dos crimes comuns de toda espécie.

A inteligência não perde, entretanto, sua musicalidade, isto é, isoladamente, e quando o organismo humano não tem que enfrentar a luta pela vida, pode o neocórtex produzir um Beethoven, como pode produzir um romance divertido. Mesmo assim, essa musicalidade, a despeito da pureza de seus tons, com muita freqüência é movida, ainda que aparentemente sem uma exibição crua do controle reptílico, pelo poder animal mais abaixo. Afinal, quando Chopin escreve uma sonata de amor para sua amante, sua inteligência está impulsionada pela sexualidade, que é um comando do cérebro reptílico. Além disso, é importante recordar aqui que essas análises se aplicam a toda a humanidade como um todo, incluindo a imensa maioria de ômegas, cujo nível de ação inteligente pouco conta. A citação de exceções, por outro lado, nada mais faz senão confirmar a regra. Um grito de fogo dentro de um cinema provoca uma explosão de medo de toda a platéia. Da mesma forma, o marido civilizado e que respeita as leis do trânsito ou age na sociedade como um modelo de cidadão, repentinamente se transforma num animal, caso sua esposa ao lado seja vítima de uma agressão sexual de um passante macho qualquer. Os jornais estão cheios, todos os dias, no nosso mundo inteiro desse tipo de ação típica do cérebro reptílico.

Pretender atribuir ao neocórtex um poder que não possui, é argumentar com os pés nas nuvens. A própria atitude dos religionistas em persistirem em acreditar nos deuses que inventam, é uma demonstração de que o cérebro reptílico se utiliza da inteligência para tentar formular um monte de teses e formulações inteligentes, embora descabidas, para evitar a morte... e o medo dessa morte é precisamente uma ação dos nossos instintos animais. Daí então que é importante que coloquemos as coisas nos seus lugares e compreendamos que a inteligência humana, embora algo típico do Homo sapiens apenas, não contém em sí nenhuma divindade. O neocórtex pode imaginar deuses, como pode igualmente nos transportar, num segundo, para o planeta Marte, através da imaginação. Mas entre esse "wishful thinking" e a realidade material de que continuamos com os pés na terra, há uma enorme distância intransponível.

Os seres humanos educados podem, dentro de modestos limites, não diria "controlar" o cérebro reptílico, mas, em certas condições, "trapaceá-lo". Por exemplo, posso ser dominado pelo terror, ao ver-me encerrado num elevador no vigésimo andar de um edifício, como resultado de um curto circuito. Mas posso aplacar esse terror provocado pelo cérebro reptílico, através de um grande esforço de auto-sugestão, que acalma meus nervos aterrorizados. Se, entretanto tiver um companheiro ou companheira de elevador, que possui um baixo nível de cultura ou inteligência, é muito provável que este ou esta entrarão em completo pânico, que os levaria talvez a um ataque cardíaco provocado pelo medo animal inconsolável de seu cérebro reptílico dominante. Daí, portanto, e para concluir todas as respostas às perguntas iniciais, sem dúvida a inteligência tem grande importância, mas não passa de um simples acessório do corpo animal humano. Não somos apenas cérebro reptílico, como seria o caso do antílope, mas também nada temos de excepcional, ou divino, pelo fato de que, dentro das leis da evolução, desenvolvemos o neocórtex, ao invés de desenvolver asas ou patas velozes. O que ocorreu, como tudo mais, foi um simples desenvolvimento natural, sobre o qual não temos controle. E os religionistas nunca poderão provar o contrário!

Em face aos modernos desenvolvimentos tecnológicos, ao observatório espacial Hubble, à constatação de que, segundo os melhores dados científicos o universo se iniciou da famosa explosão conhecida como o "big bang", tudo isso não seria suficiente para reduzir a zero as afirmativas religiosas de um mundo simples criado em apenas uma semana?

Negativo! Três poderosas forças contribuem para que isso tenha pouco efeito na eliminação da religião ou da crença em Deus ou deuses. Em primeiro lugar a grande massa é ignorante de ciência. Em segundo lugar os dirigentes religiosos empenham todos os seus esforços para impedir que a ciência seja ensinada nas escolas, quando não a combatem abertamente, conforme ocorre entre os fundamentalistas ricos nos Estados Unidos. Finalmente, é muito mais cômodo acreditar em coisas simples e que não exigem muito esforço, do que estudar ciência, que é uma matéria que exige estudos prolongados, inacessíveis e cara para o público em geral.

Mas que mal sério pode haver numa criança aprendendo a acreditar num deus qualquer?

Vários são os males. Em primeiro lugar ensina-se na criança a começar a viver na base do faz de conta, da irrealidade, das coisas falsas. Uma grande decepção em crianças e que pode ser medida, é a tristeza e a decepção quando estas constatam, através dos amiguinhos mais velhos, que foram enganadas em relação à existência de um imaginário Papai Noel. Isso cria na mente dela uma desconfiança e a convicção de que os mais velhos são mentirosos. O mesmo pode ocorrer, e muitas vezes ocorre, depois que a criança se torna adulta e tem contato com outras "verdades". Outro mal é que nos aproveitamos da mente desprotegida, desinformada e ingênua de uma criança para fazer-lhe crer em valores sem nenhuma base cientificamente comprovável de verdade dos contos e lendas que aprende dos mais velhos.

Mas a coisa não termina ai. Há também o desastroso perigo (que sempre ocorreu e continua a ocorrer em todo o mundo e em todas as eras) de que ao ensinarmos que o nosso Deus particular é o verdadeiro, estamos automaticamente negando a veracidade do Deus igualmente diferente e acreditado pelas crianças e adultos do outro lado da cerca e isso leva invariavelmente aos conflitos de grupos de indivíduos. O exemplo do fanatismo na Irlanda e o ódio entre católicos e protestantes é um recente e constante exemplo disso. Além disso a religião é freqüentemente a máscara usada pelos grupos ou pessoas dominantes em todas as sociedades ou nações, para impor-se econômica e territorialmente sobre outras.

A religião, por outro lado, é como bicho berne no couro de um boi ou vaca. Ela suga, explora e tira vantagem da massa ignorante para enriquecer-se. Os majestosos castelos e palácio das igrejas e ocupados pelos líderes religiosos (conforme ocorre, por exemplo, na Abadia de Westminster em Londres ou pelo Vaticano em Roma.) são um exemplo disso e todo esse luxo foi e será sempre pago pela população explorada. Houve largos períodos entre os anos de 1475 e 1535 em, que os Papas do gênero Bórgia e outros mandavam bispos viajar por toda a Europa para a coleta de dinheiro. Essa coleta se tornou necessária porque os carnavais, as orgias religiosas e bacanais sexuais (amplamente descritas por Guiciardini e de fácil obtenção na Biblioteca do Vaticano - onde a Internet tem fácil acesso relativamente falando) atingiam escandalosos custos que não chegavam mais a ser cobertos pelos vastos negócios e propriedades do alto clero católico do Vaticano. Por essa razão o Papa Borgia e outros mandavam seus bispos viajar pela Europa agora levando em mãos documentos que autorizavam o Papa, em nome do Deus que representava, a vender perdão para todos os pecados a serem cometidos no futuro. Deve-se observar que tais extorsões, entre outras, foram as que acabaram por levar o complexado bispo alemão Martinho Lutero (que não gozava dessas regalias) a levantar-se contra tal exploração, dando com isso início à chamada Reforma, que acabou por criar o protestantismo e os milhões de mortes que ocorreram posteriormente em toda a Europa devido a essa divisão religiosa do cristianismo.

Chegará um dia a espécie humana a descartar completamente a idéia ou a crença de um deus na forma como hoje o conhecemos através das variadas religiões?

Todos nós, na atual geração viva, como as milhares de gerações que já morreram, acreditaram e ainda acreditam em Deus de uma forma ou de outra. Mas muitos dos mitos passados (e completamente aceitos em sua época) hoje não tem mais qualquer valor. Por exemplo, o clero católico no Vaticano e todos os papas até o período da Renascença tornavam obrigatório o ensino católico que afirmava categoricamente que o planeta Terra era o centro do universo. Centenas de outros mitos foram igualmente desmascarados pela ciência, embora ainda hoje persistam impressionantes tolices, como é o caso dos judeus que não comem carne de porco, como os seguidores da Ciência Cristã que não permitem que seus filhos sejam operados em hospitais ou recebam penicilina.

Na época da descoberta da América e com a chegada de Cortez e seus quinhentos e poucos homens nas praias de Conzumel no México, uma aventura que destruiu completamente o reinado de Montezuma, o grande impulso oficial da invasão espanhola era essencialmente o de converter os índios ou nativos conquistados para o cristianismo. Todas as batalhas eram precedidas por missas católicas realizadas por padres que acompanhavam Cortez, mas que minutos depois participavam da matança de mexicanos. Hoje tais fatos não mais acontecem, conquanto o exemplo recente dos Taleban no Afeganistão parecem ter feito novamente com que a civilização retrocedesse quinhentos anos. Algo bastante parecido ocorreu também no Irã, com seu Ayatollah Khomeini.

O progresso e avanço da ciência vão pouco a pouco minando e destruindo o antigo poder das igrejas e tudo indica assim que, dentro de algumas dezenas de anos (ou mesmo centenas, quem sabe) em termos práticos a religião, tal como a conhecemos hoje, terá perdido completamente seu valor social e, melhor ainda, seu poder econômico. Mas enquanto temermos a morte e enquanto a sociedade humana não conseguir encontrar uma fórmula para poder controlar (sem fazer perigar sua própria) a ferocidade selvagem e natural de seu cérebro reptílico, parece-me muito difícil que a inteligência possa algum dia controlar seu irmão siamês mais abaixo.

***

Mario Giudicelli é professor de sociobiologia das Universidades de Maryland e Connecticut. Mario também é intérprete simultâneo do State Department e da Casa Branca há 35 anos.

Comentários

Mceus Slovick - mceus@hotmail.com.br - São Paulo São Paulo, enviou em 06/11/2001

Grande texto e tristes comentários viciados pela religião e infelizes vidas. Há, obviamente, opinião do autor, mas isto não muda a essência do texto. Religião é fato originário do homem para nossa infelicidade. Bíblia idem.

Paulo Ernandes Pereira da Silva - peps@correios.com.br - Distrito Federal Distrito Federal, enviou em 25/10/2001

O texto acima esta simplesmente carregado de heresias e absurdos destilados por alguem que deve estar muito magoado, achei muito tendenciosa a defesa que o autor fez das drogas, dizendo que as mesmas são más para quem não gosta delas, será que o cristianismo também não é ruim apenas para quem não gosta dele como é o caso do autor

Pedro Werneck - pedro.werneck@bol.com.br - Minas Gerais Minas Gerais, enviou em 11/11/2001

Para começar citando Baruch Spinoza, que era judeu, e depois se tornou marrano, não exatamente católico, como o autor deste "trabalho" afirma.

"As escrituras religiosas foram elaboradas para um povo inteiro, por conseguinte, seu conteúdo deve necessariamente adaptar-se o melhor possível à compreensão das massas. Seu objetivo não é o de convencer a razão dos sábios, e sim dominar a imaginação dos simplórios".

Acho que embora a intenção do "trabalho" seja até louvável, ele é, assim como Marcus Valério e Fábio Meneghetti, repleto de preconceitos, opiniões pessoais tratadas como fatos, falácias absurdas, pelo menos um em cada parágrafo (eu contei) e o pior, no primeiro parágrafo o autor já afirma que que qualquer um que o contestar não é diferente de um inquisidor.

O autor, como sociobiólogo, deveria limitar os seus argumentos aos assuntos que conhece, para não cometer todas as impropriedades e falácias que cometeu. O número de absurdos históricos (os primeiros cristãos eram escravos palestinos ?, religiões só existem há 2000 anos ?, os clubes de jovens nazistas só surgiram com o governo de HItler ?), teológicos (a bíblia foi escrita por 4 homens ?, critica a história simbólica da queda de Adão em pé de igualdade com os radicais, ou seja, literalmente ?) e mesmo concernentes a fatos atuais, facilmente verificáveis (os judeus de Nova York fazem propaganda de sua religião e cobram contribuições ? os conflitos na irlanda tm causa religiosa ?) e falácias (usando opiniões pessoais de autoridades para argumentar ?, atraindo o escárnio ? ad baculum ? generalizações precipitadas ?) são realmente deploráveis para um artigo do STR.

Como já disse, acho a intenção do "trabalho" louvável, no entanto, os argumentos apresentados são tão preconceituosos que fugiram ao ponto que deveria ser a causa principal. Citando Freud, "não se pode destruir a religião, pois assim os pobres cultural e intelectualmente não suportariam o fardo da vida". É preciso substituir a religião e então descartá-la, e não destruí-la, e a única forma de fazer isso é combater a ignorância, a intolerância e o preconceito.

Por fim, acho que o mesmo critério de seleção que o STR impõe às opiniões dos leitores deveria ser aplicado igualmente aos escritores dos artigos, para que casos como este não mais ocorram.


Fábio Meneghetti - fabio_gaucho@uol.com.br - Rio de Janeiro Rio de Janeiro, enviou em 04/09/2001

O processo de "inprint", em português, é conhecido como "estampagem". Após ler o texto inteiro, a tradução da palavra inprint me parece insignificante. Concordo plenamente com o comentário de Marcos Valério. O texto é carregado de preconceitos, banalizações perigosas e distorções da história (quer dizer que, algum dia, Lênin e Stálin tomaram o poder juntos???). O determinismo genético seguido pelo autor em suas observações sobre nosso "lado animal" e o determinismo climático sobre a "frieza" dos protestantes nos remetem a teorias pseudocientíficas tão obscurantistas quanto a religião que o autor combate. O contraste cristianismo/comunismo é pavoroso. O que Mario chama, levianamente, de comunismo não é um princípio filosofico, uma crença ou uma idéia metafísica que foi imposta à população russa, mas um fenômeno histórico inseparável de seu local e época. E por que Mario combate, de passagem, a idéia de que todos os homens são criados iguais? Certamente há argumentos no seu pensamento contra a idéia dos homens serem criados, mas não contra a idéia de igualdade.

Inútil prosseguir. O texto é enorme e realmente não valhe a pena destrinchar. Destoa completamente em qualidade do resto do site. É, enfim, um desserviço à STR, à ciência, ao ateísmo e ao pensamento racional de um modo geral.


Fábio Luis Emerim - f.emerim@terra.com.br - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 10/05/2001

Esse texto é, simplesmente, tudo que precisa ser dito.

Perfeito.


João Rodrigues - joaor@mailandnews.com, enviou em 04/05/2001

Onde está:

"composta por quatro indivíduos em eras diferentes"

devia estar:

"composta por quarenta indivíduos em eras diferentes"

Acho muito estranha a frase:

"divertidas afirmações protestantes de que Deus teria criado o mundo no ano de 2040 antes de Cristo (como chegaram a essa estranha data nunca explicaram),"

O que tenho visto alguns declararem é que o mundo foi criado em 4004 a.C.

Se o mundo tivesse sido criado em 2040 a.C., então o mundo teria cerca de 4.000 anos — e não tenho visto eles dizerem tal coisa. O que eles costumam dizer é que o mundo tem 6.000 anos.

Quanto ao comentário "como chegaram a essa estranha data nunca explicaram", o que lhe posso dizer é que acho que eles se baseiam nos cálculos do bispo James Ussher, que por sua vez se baseou nas genealogias da Bíblia (fulano de tal tinha x anos quando teve o seu filho beltrano, vivem y anos e depois morreu. Beltrano tinha z anos quando teve o seu filho Sicrano, vivem w anos depois disso e morreu. Sicrano ....)


Marcus Valerio XR - mv@xr.pro.br - Distrito Federal Distrito Federal, enviou em 21/06/2001

Este é para mim, sem sombra de dúvida, o pior texto postado no STR. Completamente confuso e desorientado. Só tem tamanho.
Apesar de possuir algumas passagens brilhantes, e de concordar quase em total com a premissa principal do autor expressa no título, opino que este não soube desenvolver o assunto comentendo autênticas gafes, tanto teológicas quanto científicas e mesmo falácias.
Aquele que se dispuser a lê-lo em completo, e que queira examinar melhor meus argumentos, mande um e-mail que terei prazer em responder em privado, pois apesar da boa intenção do autor, a gama de erros é tão assombrosa, na verdade proporcional ao texto, que seria demais descrevê-la aqui.
Só colocarei que o autor sequer esboça, em nenhum momento, qualquer diferenciação entre o JEOVÁ Bíblico ou qualquer outra concepção de Deus, concepções essas que exigiriam argumentos totalmente diferentes para serem abordadas.

Marcus Valerio XR

FREE MIND!!!

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