Publicado: 14/10/2002
de Carl Sagan & Frank Drake
A partir dos movimentos de um número de estrelas próximas, temos detectado corpos despercebidos em órbita ao redor delas que compreendem a massa de planetas grandes. Através de nossos conhecimentos sobre os processos pelos quais a vida surgira aqui na Terra, sabemos que processos similares devem ser fielmente comuns por todo o universo. Desde que a inteligência e a tecnologia têm um elevado valor de sobrevivência, parece provável que formas de vidas primitivas nos planetas, de outras estrelas, evoluindo por muitos bilhões de anos, desenvolveria, ocasionalmente, inteligência, civilização e uma alta tecnologia. Além disso, nós na Terra possuímos toda tecnologia necessária para nos comunicar com outras civilizações nas profundezas do espaço. Sem dúvida alguma, podemos agora estar em um limiar prontos para darmos o passo significativo que uma sociedade planetária dá como inicial: o primeiro contato com outra civilização. Em nossa atual ignorância de como a vida extraterrena pode realmente ser, qualquer tentativa de estimar o número de civilizações técnicas em nossa galáxia é necessariamente insegura. Temos, contudo, alguns fatos relevantes. Existe razão para acreditar que os sistemas solares são formados facilmente e que são abundantes nos arredores do Sol. Em nosso próprio sistema solar, por exemplo, existem três miniaturas de "sistemas solares": os sistemas de satélites dos planetas Júpiter (com 13 luas), Saturno (com 10) e Urano (com 5). [NOTA DO EDITOR: o número de satélites conhecidos aumentou bastante desde a época da publicação original deste artigo.] Está claro que, de qualquer forma, os sistemas são feitos, quatro deles formados em nossos arredores. A única técnica que temos no momento para a detecção de sistemas planetários em estrelas próximas é o estudo das perturbações gravitacionais que tais planetas induzem no movimento de sua estrela de origem. Imagine uma estrela vizinha que por um períodos de décadas move-se mensuravelmente em respeito ao fundo de estrelas mais distantes. Suponha que haja uma companhia não luminosa que circule em uma órbita cujo plano não coincide com nossa linha de visão da estrela. Ambas a estrela e a companheira orbitam em um centro de massa comum. O centro de massa traçará uma linha reta contra o fundo estelar e assim a estrela luminosa traçará um caminho senoidal. A partir da existência da oscilação, podemos deduzir a existência da companheira. Mais tarde, a partir do período de amplitude da oscilação poderemos calcular o período e a massa da companheira. A técnica é apenas sensível o suficiente, contudo, para detectar as perturbações de um planeta massivo nas redondezas das estrelas mais próximas. A estrela solitária mais próxima do Sol é a estrela de Barnard, uma (vermelha-anã escura???) a cerca de seis anos-luz distante. (Embora Alfa Centauri esteja mais perto, é um membro de um sistema de três estrelas.) Observações fitas por Peter van d Kamp do Sproul Observatory em Swarthmore College por um período de 40 anos sugerem que a estrela de Barnard esteja com pelo menos duas companheiras escuras, cada uma com a massa de Júpiter. Há ainda alguma controvérsia sobre essa conclusão, entretanto, porque as observações são muito difíceis de se fazer. Talvez muito mais interessante seja o fato de que cerca de uma dúzia de estrelas sozinhas mais próximas do Sol, metade têm companheiras escuras com uma massa entre uma a dez vezes a massa de Júpiter. Além do que muitos estudos teóricos da formação dos sistemas planetários fora das nuvens contraentes de gases interestelares e pó sugerem que o nascimento de planetas freqüentemente, se não inevitavelmente, acompanha o nascimento de estrelas. Sabemos que as moléculas mestre dos organismos vivos na Terra são proteínas e ácidos nucléicos. As proteínas são constituídas de aminoácidos e os ácidos nucléicos são constituídos de nucleotídeos. As atmosfera primordial da terra era, como o resto do universo, rica em hidrogênio e em componentes do hidrogênio. Quando o hidrogênio molecular H2, o metano CH4, a amônia NH3, e a água H20 são misturados juntos na presença de virtualmente qualquer fonte intermitente de energia capaz de quebrar elos químicos, o resultado é uma alta produção de aminoácidos, açúcares e bases de nitrogênio que são os constituintes químicos dos nucleotídeos. Por exemplo, a partir de experimentos em laboratórios podemos determinar a quantia de aminoácidos produzidos por fóton de radiação ultravioleta emitida pelo Sol nos primeiros bilhões de anos de existência da Terra. Os dois índices capacita-nos a computar a quantidade total de aminoácidos que foram formados na Terra primitiva. Os aminoácidos também quebram-se espontaneamente em uma razão que depende da temperatura ambiente. Conseqüentemente podemos calcular sua abundância universo-infinito no momento da origem da vida. Se aminoácidos naquela abundância foram misturados nos oceanos hoje, o resultado seria uma solução de um por cento de aminoácidos. Que é aproximadamente a concentração de aminoácidos encontrados nas melhores marcas de caldo de galinha enlatado, uma solução que é alegadamente capaz de manter a vida. A origem da vida não é a mesma que a origem de seus blocos componentes, estudos em laboratório sobre a união dos aminoácidos em moléculas semelhantes às proteínas e sobre a união dos nucleotídeos em moléculas semelhantes aos ácidos nucléicos estão progredindo bem. Investigações de como correntes curtas de ácidos nucléicos replicam-se in vitro têm proporcionado chaves para códigos genéticos primitivos para traduzir informações do ácido nucléico em informações protéicas, sistemas que têm precedido o mecanismo dos ribossomos e ativado enzimas cujas células agora fabricam proteínas. Os experimentos de laboratório também produzem uma grande quantidade de polímeros pardacentos que parecem constituir principalmente de correntes de hidrocarbono. As propriedades espectroscópicas do polímero são similares àquelas das nuvens avermelhadas em Júpiter, Saturno e Titan, o maior satélite de Saturno. Uma vez que as atmosferas desses objetos são ricas em hidrogênio e são similares à atmosfera da terra primitiva, a coincidência não é surpreendente. É entretanto notável. Júpiter, Saturno e Titan podem ser vastos laboratórios planetários ocupados com química dos organismos pré-biológicos. Outra evidência da origem da vida vem do registro geológico da Terra. Fatias grossas de rochas sedimentares com 2.7 e 3.5 bilhões de anos revelam a presença de inclusões de centenas de milímetros de diâmetro. Estas inclusões foram identificadas por Elso S. Barghoon, da Universidade de Harvard e por Willian Schoof, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, como bactérias e algas blue-green(?). Bactérias e algas blue-green são organismos evoluídos e devem ser beneficiários de uma longa história evolutiva. Não existem pedras na Terra ou na Lua, entretanto, com mais de 4 bilhões de anos de existência; antes desse período, a superfície da ambos os corpos acredita-se ter sido derretida no estágio final de sua acreção. Por isso o tempo disponível para a origem da vida parece ter sido curto: poucos cem milhões de anos no máximo. Uma vez que a vida originou-se na Terra em um período bem menor que a presente idade da Terra, temos evidências suplementares que a origem da vida tem uma alta probabilidade, pelo menos em planetas com um suprimento abundante de gases ricos em hidrogênio, água líquida e fontes de energia. Uma vez que essas condições são comuns por todo universo, a vida também pode ser comum. Até que tenhamos descoberto pelo menos um exemplo de vida extraterrestre, contudo, essa conclusão não pode ser considerada segura. Tal investigação é um dos objetivos da missão Viking, que está agendada para pousar um veículo na superfície de Marte no verão de 1976, um veículo que conduzirá a primeira busca rigorosa por vida em outro planeta. A Viking carrega três experimentos separados sobre o metabolismo dos hipotéticos microorganismos marcianos, um sobre a química orgânica do material da superfície marciana e um sistema de câmera que poderia apenas concebivelmente detectar organismos macroscópicos se existirem. A inteligência e a tecnologia têm se desenvolvido na Terra cerca de meio caminho através do período estável de vida do Sol. Há óbvias vantagens seletivas para a inteligência e a tecnologia, pelo menos até o presente estágio evolutivo quando a tecnologia também traz as ameaças das catástrofes ecológicas, a exaustão dos recursos naturais e a guerra nuclear. à exceção se tais desastres, o meio físico da terra permanecerá estável por muitos bilhões de anos a mais. é possível que o número de passos individuais requeridos para a evolução da inteligência e da tecnologia seja tão grande e improvável que nem todos os planetas habitados evoluam civilizações tecnológicas. Também é possível, alguém diria, que as civilizações tendem a auto-destruir-se aproximadamente ao nosso nível tecnológico. Por outro lado, se existem 100 bilhões de planetas convenientes em nossa galáxia, se a origem da vida é altamente provável, se existem bilhões de anos de evolução disponíveis em cada planeta e se mesmo uma pequena fração de civilizações tecnológicas passam ilesas através dos estágios iniciais da adolescência tecnológica, o número de civilizações tecnológicas na galáxia hoje seria muito grande. É certamente um exercício de alta incerteza tentar estimar o número de tais civilizações. As opiniões daqueles que têm considerado o problema diferem significantemente. Nossa melhor aposta é a de que existe um milhão de civilizações em nossa galáxia igual a, ou além de nosso nível de desenvolvimento tecnológico. Se estão distribuídas aleatoriamente pelo espaço, a distancia entre nós e a civilização mais próxima seria de cerca de 300 anos-luz. Conseqüentemente qualquer informação transmitida ente a civilização mais próxima e a nossa levaria no mínimo 300 anos para uma viagem de ida e 600 anos para resposta e pergunta. A radiação eletromagnética é o método mais rápido e também de longe o mais barato para estabelecer tal contato. Em termos de um previsível desenvolvimento tecnológico na Terra, o custo por fóton e a quantidade de absorção de radiação por qualquer gás interestelar e pó, as ondas de rádio parecem ser o método mais eficiente e econômico para comunicação interestelar. Veículos espaciais não podem ser excluídos a priori, mas em todos os casos eles seriam um meio de comunicação mais lento, mais caro e mais difícil. Uma vez que conseguimos alcançar a capacidade da comunicação interestelar via rádio apenas poucas décadas atrás, não há virtualmente nenhuma chance que qualquer civilização que entremos em contato estará tão atrasada como nós. Parece também que não há possibilidade de diálogo exceto entre civilizações de vida longa e muito pacientes. Sob tais circunstâncias, o que seria comum e deduzível para todas as civilizações em nossa galáxia, parece para nós quase possível que mensagens via rádio estejam sendo transmitidas na Terra neste momento por transmissores de rádio em planetas orbitando em outras estrelas. Para interceptar tais sinais devemos supor ou deduzir a freqüência pela qual o sinal está sendo transmitido, a largura da banda de freqüência, o tipo de modulação e de estrela que estaria transmitindo a mensagem. Embora as suposições corretas não são fáceis de fazer, não são tão difíceis como parece. A maioria dos espectros de rádio astronômicos são bem barulhentos. Existem contribuições da matéria interestelar, da radiação de fundo Kelvin de três graus deixada desde o princípio da história do universo, do ruído que é fundamentalmente associado com a operação de qualquer detector e a partir da absorção da radiação pela atmosfera da Terra. Esta última fonte de ruído pode ser evitada colocando um radiotelescópio no espaço. As outras fontes devemos viver com elas assim como quaisquer outras civilizações. Há, no entanto, uma pronunciada menor quantidade no espectro de ruído de rádio. Com esse mínimo ou perto estão várias freqüências naturais que deveriam ser discerníveis por todas sociedades cientificamente avançadas. São as freqüências ressonantes emitidas pelas mais abundantes moléculas e radicais livres no espaço interestelar. Talvez a mais óbvia dessas ressonâncias é a freqüência de 1.420 megahertz (milhões de ciclos por segundo). Esta freqüência é emitida quando o elétron que está girando em um átomo de hidrogênio espontaneamente move-se para que sua direção do giro esteja oposta àquela do próton comprimindo o núcleo do átomo de hidrogênio. A freqüência da transição do giro do hidrogênio em 1.420 megahertz foi sugerida pela primeira vez como um canal para comunicação interestelar em 1959 por Philip Morrison e Giuseppe Cocconi. Tal canal pode ser muito ruidoso para a comunicação precisamente por causa do hidrogênio, o mais abundante gás interestelar, absorve e emite radiação em tal freqüência. O número de outras comunicações plausíveis e disponíveis não é grande, daí determinar a maneira correta não deve ser tão difícil. Não podemos usar uma lógica similar para adivinhar qual banda poderia ser usada para comunicação interestelar. Quanto mais estreita a banda for, mais distante o sinal pode ser transmitido antes que se torne fraca demais para sua detecção. Por outro lado, quanto mais estreita for a banda, menor a informação que o sinal carregará. Um acordo é, por isso, requerido entre o desejo de enviar um sinal de distância máxima e o desejo de comunicar a quantidade máxima de informação. Talvez sinais simples com bandas estreitas são enviados para aumentar a probabilidade dos sinais estarem sendo recebidos. os sinais de banda-larga seriam direcionados àquelas civilizações que têm investido maiores recursos em sistemas de recepção grandes. Quando estamos realmente procurando por sinais não é necessário adivinhar a banda exata, apenas a banda mínima. É possível se comunicar com muitas bandas estreitas adjacentes de uma vez. Tais canais podem ser estudados individualmente, e os dados de cada canais adjacentes podem ser combinados para produzir o equivalente de um canal mais amplo com nenhuma perda de informação ou sensibilidade. O procedimento é relativamente fácil com o auxílio de um computador, é um fato rotinamente empregado em estudos de pulsares. Em qualquer evento devemos observar o máximo número de canais por causa da possibilidade da civilização não estar transmitindo em uma das freqüências "naturais" como 1.420 megahertz. Não sabemos, obviamente, qual estrela devemos escutar. A aproximação ,mais cautelosa é virar nossos receptores na direção de estrelas que sejam similares ao Sol, começando pela mais próxima. Duas estrelas próximas, Epsilon Eridani e Tau Ceti, ambas com cerca de 12 anos-luz de distância, foram as candidatas para o Projeto Ozma, a primeira busca por inteligência extraterrestre com um radio telescópio, conduzido por um de nós (Drake) em 1960. O Projeto Ozma, recebeu esse nome em atenção ao Governador de Oz nos contos infantis de L. Frank Baum, ficou "no ar" por quatro semanas em 1.420 megahertz. Os resultados foram negativos. Desde então houveram um número de outros estudos. Apesar de alguns falsos alarmes ao contrário, nenhum teve sucesso. A falta de sucesso não é muito esperada. Se há um milhão de civilizações com tecnologia em uma galáxia com cerca de 200 bilhões de estrelas, devemos virar nosso receptor para 200.000 estrelas antes de termos uma chance estatística de detectar uma única mensagem extraterrestre. Ou então temos escutado apenas um pouco mais de 200 estrelas. Em outras palavras, apenas empregamos 1 por cento do esforço necessário. Nossa atual tecnologia é inteiramente adequada tanto para transmissão quanto para recepção de mensagens por distâncias interestelares imensas. Por exemplo, se o rádio-telescópio de ?.000 metros no observatório de Arecibo em Porto Rico transmitisse informação em uma taxa de um bit (dígito binário) por segundo com uma faixa de um hertz, o sinal poderia ser recebido por um rádio-telescópio idêntico em qualquer lugar na galáxia. Justamente por isso, o telescópio de Arecibo poderia detectar um sinal similar transmitido de uma distância centenas de vezes maior que nossa estimativa de 300 anos-luz até a civilização extraterrestre mais próxima. Uma busca por centenas de milhares de estrelas na esperança de detectar uma mensagem necessitaria de uma dedicação extraordinária e levaria aproximadamente várias décadas. Parece improvável que qualquer rádio-telescópio grande fosse cedido para um programa tão intenso excluindo-o de seu trabalho normal. A construção de um rádio-telescópio ou algo mais que poderia dedicar talvez metade do seu tempo para a busca parece ser o único método prático para procura de inteligência extraterrestre de uma maneira séria. O custo seria de alguns dez milhões de dólares. Até hoje temos discutido sobre a recepção de mensagens que uma civilização transmitiria intencionalmente para a Terra. Uma possibilidade alternativa é a de que poderíamos tentar "espreitar" o tráfego de transmissão de rádio que uma civilização extraterrestre estaria empregando para seus próprios propósitos. Tal tráfego de transmissão de rádio poderia ser bem evidente. Na Terra, por exemplo, um novo sistema de radar empregado com o telescópio no Observatório de Arecibo para Estudos Planetários, emite um sinal de banda estreita que, se fosse detectado de outra estrela, seria entre um milhão a 10 bilhões de vezes mais luminoso que o Sol na mesma freqüência. Além do mais, por causa das transmissões de rádio e televisão, a Terra é extremamente luminosa com comprimentos de ondas de cerca de um metro. Se planetas de outras civilizações têm um brilho de rádio comparável à Terra relacionado à transmissão de televisão apenas, poderiam ser detectáveis. Devido ao complexidade dos sinais e ao fato de que não são emitidos especificamente na Terra, contudo, o receptor que precisaríamos para espreitar teria de ser muito mais elaborado e sensível do que o sistema de rádio-telescópio que possuímos agora. Um sistema semelhante foi planejado preliminarmente por Bernard M. Oliver da companhia Hewlett-Packard, que dirigiu um estudo patrocinado pelo Centro de Pesquisas da Nautical Aeronautics and Space Administration. O sistema, conhecido como Cyclops, consistiria de um enorme rádio-telescópio conectado a um sistema de computador complexo. O sistema de computador seria designado particularmente para procurar, através dos dados do telescópio, por sinais trazendo marcas de inteligência, para combinar numerosos canais adjacentes para construir sinais de várias faixas e para apresentar os resultados de análises automáticas para todas as formas aceitáveis de comunicação interestelar de uma maneira que fosse inteligível para os cientistas do projeto. Construir um radiotelescópio de grande abertura como uma simples antena seria proibitivamente caro. O sistema Cyclops, ao contrário, capitalizaria nossa capacidade de conectar muitas antenas individuais para trabalharem em uníssono. Este conceito já é a base do Very Large Array agora em construção no Novo México. O Very Large Array consiste de 27 antenas, cada uma com 82 pés de diâmetro, arranjadas em um padrão em forma de Y cujos 3 braços têm 10 milhas de comprimento. O sistema Cyclops seria bem maior. Seu desenho atual conta com 1.500 antenas de 100 metros de diâmetro, todas conectadas eletronicamente umas às outras e ao sistema do computador. O arranjo seria o mais compacto possível, mas cobriria talvez 25 milhas quadradas. A área efetiva de coleta de sinal do sistema seria centenas de vezes a área de qualquer radiotelescópio já existente, e seria capaz de detectar até mesmo sinais relativamente fracos tais como transmissões de televisão de civilizações centenas de anos-luz à nossa frente. Além disso, seria um instrumento sem igual para receber sinais especificamente direcionados para a Terra. Uma das maiores virtudes do sistema Cyclops é que nenhum avanço tecnológico seria necessário para construí-lo. As técnicas eletrônicas e os computadores já estão bem desenvolvidos. Necessitaríamos apenas construir um vasto número de itens que nós já construímos muito bem. O sistema Cyclops não apenas teria um enorme poder para procurar vida extraterrena inteligente como também seria uma ferramenta extraordinária para estudos de radar. Se os corpos no sistema solar, para a astronomia tradicional fora do sistema solar e para rastreamento de veículos à distâncias além dos atuais receptores. O custo estimado do sistema Cyclops, chegando até 10 bilhões de dólares, pode torná-lo proibitivamente caro para nosso tempo. Além do mais, o argumento a favor da escuta interestelar não é completamente eficaz. Meio século atrás, antes das transmissões de rádio tornarem-se lugar comum, a Terra era silenciosa em relação a comprimentos de ondas. Daqui meio século, por causa do desenvolvimento da TV à cabo e das comunicações via satélite, que emitem sinais em um feixe de luz muito estreito, a Terra poderá ser silenciosa novamente. Deste modo talvez por apenas um século em bilhões de anos os planetas tais como a Terra apareçam notavelmente brilhantes em comprimentos de ondas de rádio. As vantagens de descobrirmos uma civilização durante esse curto período na História poderão não ser boas o suficiente para justificar a construção de um sistema como o Cyclops. É mais provável que por todo o universo, seres normalmente detectam evidências extraterrenas com radiotelescópios mais tradicionais. Parece, entretanto, claro que nossa dança da busca por vida extraterrestre pode aprimorar se conscientemente tentarmos encontrá-la! Como poderíamos ter certeza que um sinal particular de rádio estaria sendo deliberadamente transmitido por um ser inteligente? É fácil reconhecer uma mensagem que é claramente artificial. Os 30 primeiros números primos, por exemplo, seria difícil atribuí-los a algum fenômeno astrofísico natural. Uma simples mensagem desse tipo poderia ser um farol ou sinal de alerta. Uma mensagem informativa subseqüente poderia ter várias formas e poderia consistir em um enorme número de bits. Um método de transmitir informação, iniciando simples e progredindo até conceitos mais elaborados, é com imagens. Uma aproximação definitiva na busca por inteligência extraterrena merece menção. Se há de fato civilizações milhares ou milhões de anos luz mais avançadas que nós, é inteiramente possível que eles poderiam transmitir alguma comunicação via rádio através de grandiosas distâncias, talvez distâncias até maiores que as do espaço intergaláctico. Não sabemos quantas civilizações avançadas poderiam ser comparadas com um número de civilizações mais primitivas que a Terra, mas muitas dessas civilizações mais antigas estariam em galáxias mais antigas que a nossa. Por esta razão, os sinais de rádio mais prontamente identificáveis provindos de outra civilização poderiam estar vindo de fora da nossa galáxia. O relativamente pequeno número de tais transmissores extragalácticos poderia ser mais do que compensado pelo grande poder de seus sinais. Na freqüência apropriada, eles poderiam ser até o mais brilhante sinal de rádio no céu. Por isso a alternativa para examinar as estrelas mais próximas do mesmo tipo de espectro como o Sol, é examinar as galáxias mais próximas. Galáxias espirais tais como a Great Nebula em Andrômeda são candidatas óbvias, mas as galáxias elípticas são muito mais velhas e mais altamente evoluídas e poderia concebivelmente abrigar um grande número de civilizações extremamente avançadas. Pode haver um tipo de lei biológica decretando que há muitos caminhos para a inteligência e a alta tecnologia, e que cada planeta habitado, se lhe é dado tempo suficiente e não autodestruir-se, chegará em um resultado similar. A biologia em outros planetas é, espera-se, obviamente, diferente da nossa por causa da natureza estatística do processo evolucionário e da adaptabilidade da vida. A ciência e a engenharia, contudo, pode ser bem parecida com a nossa, porque qualquer civilização comprometida com a comunicação interestelar via rádio, não importa onde existe, deve contender com as mesmas leis da física, astronomia e radiotecnológica que nós. Poderíamos estar emitindo mensagens para nós mesmos? É claro que não sabemos ainda onde nós poderíamos direcioná-las melhor. Uma mensagem já foi enviada para a Great Cluster em Hércules pelo radiotelescópio de Arecibo, mas apenas como um tipo de símbolo dentro das capacidades de nossa atual radiotecnologia. Qualquer sinal de rádio que enviamos seria detectável acima das distâncias interestelares se fosse maior que cerca de um por cento o brilho do Sol na mesma freqüência. Na verdade algo perto de 1.000 sinais tais como esse têm deixado a terra a cada segundo nos últimos 20 anos em nossas comunicações internas diárias. Esta fronteira eletromagnética da humanidade está agora a uns 20 anos-luz à frente, e está movendo-se para fora na velocidade da luz. Sua frente esférica de onda, expandindo-se como uma ondulação provinda de um distúrbio da água em uma piscina e inadvertidamente carregando as informações que os seres-humanos têm alcançou a capacidade da conversação interestelar, cobre cerca de 20 novas estrelas a cada ano. Também enviamos outro tipo de mensagem: duas placas gravadas que estão à bordo da Pioneer 10 e Pioneer 11. Estas espaçonaves, os primeiros artefatos da humanidade que sairão do sistema solar, viajarão através da galáxia a uma velocidade de algumas 10 milhas por segundo. A Pioneer 10 foi acelerada à velocidade de escape do sistema solar pelo campo gravitacional de Júpiter em 3 de dezembro de 1973. A Pioneer 11 impulsionou-se em 4 de dezembro de 1974, e viajará até Saturno antes que seja acelerada a um curso para o lado distante da galáxia. Placas idênticas para cada veículo foram desenhadas por nós e Linda Salzman Sagan. Cada placa mede 15cm por 22cm e são feitas de alumínio ouro-anodizado. Este cartões de visitas cósmicos levam a localização da Terra e a data em que a espaçonave foi construída e lançada. O Sol está localizado com referência a 14 pulsares. Os períodos precisos das pulsares estão especificados em um código binário para permitir que eles identifiquem. Uma vez que as pulsares são relógios cósmicos que estão correndo a uma razão amplamente constante, a diferença nos períodos pulsares no momento em que uma das espaçonaves é recuperada e os períodos indicados na placa possibilitarão qualquer civilização sofisticada deduzir o ano que o veículo foi lançado a sua jornada épica. As unidades de tempo e distância são especificadas em termos de freqüência da rotação do hidrogênio a 1.420 megahertz. Para identificar a exata localização do lançamento da espaçonave, um diagrama do sistema solar é apresentado. A trajetória da espaçonave é mostrada a partir do terceiro planeta, a Terra, e passa pelo quinto planeta, Júpiter. ( O desvio da Pioneer 11 em Saturno não tinha sido planejado quando as placas foram preparadas.) Por último, as placas mostram imagens de um homem e uma mulher da Terra em 1973. Uma tentativa de dar às imagens características pan-raciais foi estabelecida. Suas alturas são mostradas em relação à espaçonave e também são dadas por um número binário determinado em termos de comprimento de onda a 1.420 megahertz (21 centímetros). Essas placas estão destinadas a ser o trabalho da humanidade com a maior estimativa de vida. Elas sobreviverão virtualmente imutadas por centenas de milhões, talvez bilhões de anos no espaço. Quando as placas tectônicas reagruparem os continentes por completo, quando todas as atuais formas da paisagem da Terra já tiverem ido pra baixo do solo, quando a civilização já tenha sido profundamente transformada e quando os seres-humanos poderão ter evoluído em algum outro organismo, essas placas ainda existirão. Mostrarão que no então distante ano que chamávamos de 1973 haviam organismos vivos, retratados nas placas, que importavam-se o suficiente com seu lugar na hierarquia de todos os seres inteligentes para compartilhar conhecimento sobre eles mesmos com os outros. O quanto nos importamos? O suficiente para empregar um esforço apreciável com telescópios existentes para procurar por vida em algum lugar no universo? O suficiente para dar um passo maior tal como o projeto Cyclops que oferece uma maior chance de levar-nos a cruzar o limiar, para finalmente nos comunicarmos com uma variedade de seres extraterrenos que, caso existirem, enriqueceriam, inevitavelmente, a humanidade além de nossa imaginação? A verdadeira pergunta não é como, porque sabemos como; a pergunta é quando. Se um número suficiente de seres da Terra se importasse, o limiar poderia ser cruzado por muitos daqueles vivos hoje.
CARL SAGAN and FRANK DRAKE are professors of astronomy at Cornell University, where Sagan is director of the Laboratory for Planetary Studies and Drake is director of the National Astronomy and Ionospheric Center. "In returning from the International Astronomical Union meetings in Sydney in 1973," they write, "we spent some days skin-diving in Bora Bora in Tahiti, where our Scientific American article was first devised. Since Polynesia had been settled by voyagers crossing thousands of kilometers of ocean, we thought a two-kilometer journey by outrigger canoe would be a modest homage to those intrepid explorers, particularly since we were assured that such canoes are unsinkable. We discovered that this is true; when they are swamped, they only sink as far as the shoulders of the passenger, and the outrigger affords some discouragement to those sharks that are to starboard. The experience confirmed our belief that radio communication is easier than direct contact." Nota A Sociedade da Terra Redonda é membro do projeto SETI@Home. Nossas estatísticas estão disponíveis em http://setiathome.ssl.berkeley.edu/cgi-bin/cgi?email=strbrasil%40hotmail.com&cmd=user_stats_new. Visite o site oficial do projeto, que está em setiathome.berkeley.edu e registre-se como um membro da STR, usando o e-mail: strbrasil@hotmail.com.
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