Publicado: 25/05/2002
de Maria Helena Bodanese Zanettini
Outra alternativa, agora considerada convencional, bastante utilizada no passado, e ainda empregada no presente para o aumento de variabilidade, é a indução de mutações por agentes mutagênicos químicos ou por radiações. Desde a descoberta dos raios-X, há aproximadamente 100 anos atrás, o uso de radiações ionizantes, tais como raios-X, raios-gama e nêutrons, tornou-se uma tecnologia bem estabelecida. Mutações induzidas têm sido usadas para melhorar culturas como o trigo, arroz, algodão, amendoim, feijão, entre outras. Mais de 1800 cultivares, obtidas diretamente como mutantes induzidos por radiações ou derivadas de cruzamentos envolvendo tais mutantes, foram liberadas em 50 países (Ahloowalia & Maluszynski, Euphytica, 118, p. 167. 2001). Como a mutação induzida não pode ser direcionada a genes específicos, não se tem controle dos genes que estão sendo alterados. Entre um grande número de indivíduos submetidos ao agente mutagênico, faz-se a seleção daqueles que apresentam a característica desejada, porém outros genes podem ter sido modificados por mutação, sem efeitos aparentes. É importante enfatizar, também, que alimentos oriundos de plantas mutantes induzidas, bem como daquelas resultantes de cruzamentos interespecíficos, apesar de serem avaliadas agronomicamente pelos melhoristas, não são submetidos a testes especiais, rotulagem ou qualquer regulamentação e/ou inspeção governamental. O advento das denominadas "técnicas modernas" de modificação genética ou "técnicas de DNA recombinante" tem permitido que um gene desejável de uma espécie seja isolado e inserido em outra espécie, sem a necessidade de compatibilidade sexual. Uma vez inserido, a descendência conterá cópia do novo gene e poderá ser reproduzida na maneira convencional. Certamente, inserir em uma planta um ou poucos genes cuidadosamente escolhidos, com função conhecida e detalhadamente caracterizados, é mais seguro do que introduzir milhares de genes de uma só vez, como ocorre quando as plantas são cruzadas pelos métodos convencionais. A adoção comercial das culturas transgênicas é um dos casos de mais rápida difusão de nova tecnologia, na história da agricultura. Num período de cinco anos, a área global das culturas transgênicas aumentou mais de 25 vezes, de 1,7 milhões de hectares em 1996 para 44,2 milhões de hectares em 2000. O número de países que cultivam plantas transgênicas mais que duplicou, aumentando de 6 em 1996 para 9 em 1998, 12 em 1999 e 13 em 2000. As quatro principais culturas transgênicas em 2000 foram: soja (25,8 milhões de hectares), milho (10,3 milhões de hectares), algodão (5,3 milhões de hectares) e canola (2,8 milhões de hectares); em conjunto, as quatro culturas ocuparam mais de 99% da área global de transgênicas (James, C. ISAAA Briefs no 21 (Preview) 2000). Nas culturas transgênicas que atualmente estão sendo comercializadas foram incorporadas características da primeira geração ("input traits"), que conferem vantagens agronômicas, ou seja, aquelas dirigidas para a solução de estresses ambientais. Estas incluem, em primeiro lugar, a tolerância a herbicidas, seguida pela resistência a insetos e alguns produtos resistentes a vírus. Neste grupo de plantas transgênicas incluem-se, ainda, aquelas que incorporaram vantagens como a tolerância a metais tóxicos do solo, ao frio e a outros estresses abióticos. A alta taxa de adoção de culturas com tais características reflete a satisfação dos agricultores com produtos que oferecem benefícios significativos, variando de manejo mais flexível, menos trabalho e mais alta produtividade, além de benefícios econômicos e ambientais, pelo conseqüente decréscimo no uso de agroquímicos. A segunda geração de características, que conferem melhoria na qualidade do produto ("output traits"), resultam em benefícios que serão mais evidentes para os consumidores. A primeira característica de qualidade introduzida numa cultura transgênica foi o amadurecimento retardado no tomate Flavr Savr, aprovado para comercialização no Estados Unidos, em 1994. Os produtos com características de qualidade que estarão disponíveis a curto prazo incluem:
Além das culturas trasgênicas já aprovadas para a comercialização, uma grande variação de material experimental vem sendo testado, tanto em laboratório como a campo. O número de espécies que se encontram em testes aumentou enormemente. De um pequeno número inicial, que incluía tomate, tabaco, milho e soja atingiu-se uma lista de mais de 70 espécies, incluindo frutíferas, hortícolas, florestais, forrageiras e ornamentais. Vivemos numa época de mudanças e avanços sem precedentes nas ciências biológicas. As novas tecnologias oferecem enormes benefícios mas, como qualquer outra tecnologia, apresentam riscos inerentes, que devem ser cuidadosamente considerados. Nem os riscos nem os benefícios dos organismos transgênicos são certos ou universais; ambos podem variar no espaço e no tempo. Por este motivo é importante a avaliação particular de cada planta transgênica. Além disto, comparações entre a agricultura convencional, orgânica e transgênica irão elucidar os benefícios e os riscos relativos da adoção de culturas geneticamente modificadas. É muito importante voltar a enfatizar, entretanto, que a avaliação detalhada da segurança à qual as culturas transgênicas são submetidas é muito mais completa e rigorosa do que a aplicada para novos materiais produzidos pelo melhoramento convencional. Uma das mais confiáveis fontes de informação nos Estados Unidos, a Associação Médica Americana (AMA), afirmou que "é política da AMA apoiar e implementar programas que irão convencer o público e agentes governamentais de que a manipulação genética não é inerentemente perigosa e que os benefícios da tecnologia de DNA recombinante, tanto em termos econômicos como para a saúde, excedem em muito qualquer risco anunciado para a sociedade. A idéia atual de que os organismos DNA-engenheirados representam maior perigo para o ambiente ou para a saúde humana não são apoiados nem pela pesquisa científica e nem pela maioria da comunidade científica". Uma declaração redigida pelo Dr. C.S. Prakash da Tuskegee University e assinada por mais de 3.300 cientistas de todo o mundo afirma que: "Nenhum produto alimentar, seja produzido com técnicas de DNA recombinante ou com métodos mais tradicionais, é totalmente sem risco. Os riscos apresentados por alimentos são uma função das características biológicas dos alimentos e dos genes que foram utilizados e não do processo empregado para o seu desenvolvimento. Nosso objetivo como cientistas é assegurar que qualquer novo alimento produzido com a utilização de DNA recombinante seja tão ou mais seguro do que aqueles que já vêm sendo consumidos" (http://www.agbioworld.org/index.html). A União Européia divulgou o resultado das pesquisas em biossegurança realizadas entre 1985 e 2000. A publicação sumariza 81 projetos, que receberam um total de 70 milhões de euros e envolveram 400 grupos de pesquisa de toda a Europa. Segundo esta publicação: "A pesquisa em plantas geneticamente modificadas e produtos derivados, até agora desenvolvidos e comercializados, seguindo os processos usuais de análise de risco, não mostraram qualquer novo risco para a saúde humana ou para o ambiente, além das incertezas já percebidas no melhoramento convencional de plantas. Na verdade, o uso de uma tecnologia mais precisa e maior rigor na análise torna tais plantas e alimentos mais seguros do que os convencionais" (http://europa.eu.int/comm/research/quality-of-life/gmo/index.html). É responsabilidade da comunidade científica manter o Governo e a sociedade em geral informada sobre os avanços científicos, estimular e participar do debate público sobre o seu uso. A confiança e a credibilidade nas autoridades reguladoras é também importante para tranqüilizar o público sobre a segurança das novas tecnologias, que não são entendidas pela maioria da população. Entretanto, se o processo for conduzido de forma ineficiente prejudicará severamente a pesquisa e retardará a exploração apropriada desta nova e valiosa ferramenta para o melhoramento vegetal.
Maria Helena Bodanese Zanettini trabalha no Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicado na Coletânea de Palestras proferidas nos Seminários sobre Alimentos Geneticamente Modificados promovidos pela Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação - ABIA. p.115- 119. 2002.
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