Scientia Publicado: 27/05/2000
Atualizado: 02/10/2001
PESQUISAS DE OPINIÃO PARA OS CURRÍCULOS ESCOLARES?

de J. E. Hill


Recentemente, uma sondagem de opinião mostrou que a maioria dos americanos querem que a evolução seja ensinada nas escolas públicas dos Estados Unidos.

Os americanos devem ter muito cuidado antes de considerarem isto como um argumento a favor do ensino da evolução em vez do criacionismo (ou vice-versa). A evolução deve ser ensinada porque é a melhor teoria científica, com a evidência mais favorável do seu lado para explicar o nosso mundo natural e não porque é a mais popular. Os defensores da evolução consideram que a sua veracidade é razão suficiente para ensiná-la nas escolas, em vez de ser porque a maioria pensa que ela deve ser ensinada.

Ao ficarmos cativados ou endossarmos uma sondagem como esta, estamos a admitir o fato de que se a evolução caísse para menos de 49% da opinião pública, então devíamos seguir a opinião majoritária e começar a ensinar o criacionismo. Por outras palavras, a maioria de hoje é a minoria de amanhã.

As pesquisas de opinião são uma maneira disparatada de formar uma opinião, no entanto milhões de pessoas dão crédito a essas coisas em vez de formarem uma opinião informada baseada em fatos e investigação. Especialmente infeliz é o caso de jornais que são constantemente vítimas de pesquisas de opinião antes de formarem opiniões ou conteúdo editoriais. Quer isto seja preguiça ou predisposição para ter outros que nos digam aquilo em que devemos acreditar, é um caminho perigoso que leva a legislação motivada por slogans, que verdadeiramente infringe os nossos direitos.

'Regras ditadas pela maioria', mesmo numa democracia, não se devem aplicar a estudos acadêmicos. Não duvido que a vasta maioria das pessoas acreditam na astrologia. Porém, em nenhumas circunstâncias devia a astrologia ser ensinada lado a lado com a astronomia só porque a maioria das pessoas acredita nela. A maioria das pessoas detestam álgebra, no entanto não há professor de matemática que defenda que se deixe de ensinar o assunto. Um professor de matemática não cederia à opinião pública nem retiraria ênfase ao ensino da álgebra pois esta é a base de toda a matemática superior. [Faz lembrar uma situação recente que ocorreu no Kansas?]

Ainda mais mal direcionada é a noção de que um segmento da população devia abdicar dos seus direitos de minoria somente porque a maioria os considera desnecessários. Um exemplo disto é o caso das orações [rezas] nas escolas ou a proteção contra buscas não razoáveis. De fato, será que vamos abdicar dos nossos direitos de minoria que nos protegem nestas áreas devido a uma maioria democrática que gosta da idéia das orações nas escolas, ou que pensa que buscas sem restrições podem reduzir o uso de drogas?

Embora as pesquisas de opinião possam ser uma maneira instrutiva de tomar o pulso a uma cultura, bem como um modo interessante de ver o que pensa a população em geral, as pesquisas são enganadoras e muitas vezes são grosseiramente mal interpretadas para se ajustarem a uma mentalidade ou paradigma particular.

Não caiamos na armadilha das pesquisas de opinião, em vez disso concentremo-nos no fato de a teoria da evolução fornecer a melhor explicação para a origem da vida.

Comentários

Milton Bins - fambins@terra.com.br - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 30/09/2001

Mesmo a verdade não-científica pode não ser "democrática". Pois as conjeturas não testáveis podem ser defendidas ou atacadas com argumentos racionais - dentre os quais podemos escolher o melhor (cf. Popper).
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.infidels.org/library/modern/features/2000/hill2.html
  • Traduzido por: João Rodrigues
  • Traduções para espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.