Frank Zindler
 
 
Estatísticas Oficiais da STR Publicado: 31/12/2002
Atualizado: 31/12/2002
   
                     
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ESPÍRITO, ALMA E MENTE
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de Frank R. Zindler


Sempre que examino um dicionário me surpreendo pelo número impressionante de palavras que não se referem a absolutamente nada do mundo real. Muitas das palavras são, obviamente, fabulosas: leprechaun, unicórnio, gremlin, Pedra Filosofal, Zeus, elfo, Fonte da Juventude, fantasma, etc. Outras, embora se refiram da mesma forma a coisas inexistentes, são menos obviamente fabulosas. O Sol Médio, o Cidadão Mediano, força vital, espírito, alma e – pelo menos em alguns de seus significados aceitos – mente.

Por que a espécie humana inventou tantas palavras que não se referem a nada na realidade é uma questão das mais interessantes para investigação científica, e provavelmente exigiria um livro completo para elucidá-la adequadamente. Neste artigo vou tentar tratar apenas com umas poucas palavras: especificamente as palavras espírito, alma e mente.

É um fato pertinente que quase todas as línguas do mundo, extintas ou existentes, têm – ou tinham – palavras que poderiam corresponder a “espírito” ou “alma” em inglês. À primeira vista, pareceria que isso é um bom argumento a favor da existência real das almas e espíritos. Pois, não seria improvável que tantos povos e línguas tão diferentes pudessem estar enganados? Se muitas línguas diferentes e não aparentadas inventaram independentemente palavras para alma, isso não é um bom motivo para crer que eles assim fizeram porque realmente existe tal coisa?

Penso que não. A primeira pista para solucionar esse quebra-cabeça vem da etimologia, o estudo das origens das palavras.

Enquanto a origem da palavra inglesa “soul” (alma) é obscura, ela quase com certeza tem sua origem em uma palavra que significa “respiração”, “hálito” ou “vento” ou “ar”, ou alguma coisa assim. A palavra “spirit” (espírito) – geralmente um sinônimo de alma – vem do latim spiritus e claramente significava “respiração” originalmente. Tanto “espiritual” quanto “respiratório” derivam da mesma raiz!

Mais ainda, se verificarmos as bíblias grega e hebraica para ver que palavras são traduzidas como “alma”, etc., na Versão do Rei James, descobriremos muitas cujo significado literal é “respiração” ou “vento”. Por exemplo, a palavra hebraica neshamah (que significa literalmente “respiração, hálito”) é traduzida duas vezes como “espírito” e uma como “alma”. A palavra hebraico-aramaica ruach (literalmente “vento”) é traduzida 240 vezes como “espírito” e seis vezes como “mente”. A palavra nephesh (literalmente “respiração”) é traduzida como “alma” 428 vezes, “mente” 15 vezes, “espírito” 2 vezes e “vida” 119 vezes. Voltando-se para a Bíblia Grega, encontramos pneuma (literalmente “respiração, hálito”) traduzida como “ghost” (espírito) 91 vezes (incluindo o reverenciado “Holy Ghost” [Espirito Santo]) e 292 vezes como “espírito”. O leitor reconhecerá a mesma raiz na palavra pneumonia, uma palavra que se refere a uma doença dos órgãos respiratórios. E finalmente, nessa parada de palavras um tanto pedante, podemos notar a importante palavra psyche. Como esperado, seu significado literal é “respiração”. Como podíamos adivinhar, ela é traduzida como “alma” 58 vezes, “mente” 3 vezes e “vida” 40 vezes.

O fato de que quase todas as palavras que agora significam “alma”, “espírito”, “vida”, etc., traçam suas origens até palavras que significam “respiração” ou “vento” me leva a concluir que os significados derivados foram uma conseqüência da inabilidade dos povos primitivos de resolver um quebra-cabeça biológico básico, a saber, qual é a diferença entre um corpo vivo e um morto?

Para os antigos autores da Bíblia – homens que ainda achavam que viviam em uma Terra plana sob um céu sólido (firmamento) – a solução parecia decepcionantemente simples: coisas vivas respiram, coisas mortas não. Em princípio, apenas os animais (do latim anima, que significando “respiração” ou “brisa” originalmente) eram considerados plenamente vivos. O caso das plantas foi visto com confusão por muito tempo. Algumas autoridades consideravam-nas vivas, outras não. Os antigos não perceberam que “almas” eram na verdade apenas uma mistura gasosa de nitrogênio e oxigênio, contaminadas com quantidades variáveis de vapor d’água, dióxido de carbono, gases nobres e – dependendo do que a pessoa comeu e se escovou os dentes após cada refeição – quantidades variadas de substâncias aromáticas!

No Mito da Criação do Gênesis, a força animadora da respiração é descrita claramente. Deus, após haver moldado Adão a partir do pó, tem de soprar dentro dele o sopro da vida a fim de que ele se torne uma alma viva. Respiração é vida.

O modo pelo qual a respiração se tornou equivalente a vida não é difícil de discernir. Uma pessoa morta recentemente, digamos, de ataque cardíaco, não é muito diferente, anatomicamente, do que era antes da morte. ele ainda tem cinco dedos em cada mão, uma língua em sua boca, um cérebro em sua cabeça e um coração em seu peito. Os antigos, sem saber da febre microcósmica de uniões e separações químicas que chamamos de metabolismo, podiam ver apenas uma diferença obvia: a falta de respiração no morto.

Quando um homem expirava (literalmente “expelia a respiração”), seu espírito (literalmente “respiração”) deixava seu corpo e ele morria. Quando um homem espirrava, seu espírito era ejetado à força para fora de seu corpo, e alguém tinha de dizer “God bless you” (Deus te abençoe) ou fazer um gesto mágico, tal como o sinal da cruz, muito rapidamente, antes que espíritos malignos pudessem vir e tomar conta da carcaça momentaneamente vazia de espírito. A “possessão” demoníaca era o resultado, muito simplesmente, de inalar um ou mais hálitos malignos que se pensava vagarem pelo ar a nossa volta. Para os primeiros cristãos, o hálito do Diabo estava em toda parte.

É claro, nem todas as possessões eram necessariamente más. As pessoas poderiam ser “inspiradas” – ou seja, o hálito de um deus poderia tomar seus corpos para entregar palavras de sabedoria ou admoestações apocalípticas. De fato, crê-se que a origem da própria igreja cristã tenha sido um ato de possessão em massa pelo Espírito Santo (“Hálito Sagrado” no texto em grego!). Em Atos 4:31 lemos que quando os Apóstolos e outros “mal acabavam de rezar, tremeu o lugar onde estavam reunidos. E todos ficaram cheios do Espírito Santo [respiração] e anunciaram com intrepidez a palavra de Deus.” (Dada a associação das palavras com respiração – que se acreditava ser a própria vida – é de se admirar que as religiões de todos os tipos têm sempre se concentrado no significado mágico das palavras?)

Se alguém ainda acha que o elo entre a respiração e os fundamentos do cristianismo é duvidoso, dirija sua atenção ao conto que se passa em João 20:22. Jesus voltou para visitar os Discípulos para dizer-lhes que ele os está enviando para perdoar ou não perdoar os pecados do mundo. “Depois dessas palavras, [Jesus] soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo”. Bem no começo, o cristianismo se baseou em um hálito quente – que com o tempo tornou-se ar quente.

Os biólogos modernos, ao contrario dos antigos fazedores de mitos, sabem que todos os fenômenos dos sistemas vivos podem ser reduzidos a termos físicos e químicos. Eles não têm nenhum indício de qualquer “força vital” ou espírito místico – e não têm necessidade de procurar por um. Eles vêem um corpo plenamente vivo e um morto recentemente como nada mais que dois pontos arbitrários ao longo de um contínuo de organização decrescente.

Já basta de espírito, alma, e ghost (“espírito” também, ou “fantasma”). Originalmente denotavam respiração e vento, são palavras que adquiriram uma hoste de conotações místicas quando pessoas pré-científicas tentaram estabelecer a diferença entre a vida e a morte. Mas e quanto à palavra mente? Ela se refere a algo real? Ou é, também, uma entidade fabulosa?

Ao contrário da análise de “espírito” e “alma”, a análise de “mente” não é tão simples. Esse caso está tão claramente entre os acidentes gramaticais que em todas as línguas da Europa, antigas e modernas, a palavra mente é um substantivo.

Tendemos a pensar nos substantivos como coisas concretas: mesa, cadeira e prumo são todos substantivos e são todos concretos. Há muitas palavras, entretanto, que embora sejam gramaticalmente substantivos, não são, de modo algum, concretos. Palavras como: beleza, verdade e velocidade seriam exemplos. Infelizmente, o nosso pensamento tende a ficar próximo à gramática e ocultar pressupostos ocultos com aquilo que pensamos. E assim, acontece de novo e de novo que substantivos abstratos passam a ser vistos como representando coisas tão substanciais quanto aquelas representadas por substantivos concretos. Dessa forma, temos a confusão básica necessária para fundamentar sistemas filosóficos tais como o de Platão – cuja triangularidade perfeita existe no paraíso dos triângulos e assim por diante.

Devido a mente ser um substantivo, ela foi concebida como sendo uma coisa. E por causa disso, pensou-se que ela teria existência independente do cérebro. Por ser independente, pensou-se que fosse capaz de sobreviver à morte do corpo. E milhões pensaram que isso seria uma boa razão para investir milhões no maior dos negócios: a religião.

Estudos neurobiológicos mostram que essas três idéias são um tanto inúteis. A mente é um processo, uma relação dinâmica, e não uma coisa. Se mudarmos os processos do cérebro, mudamos a mente. As drogas psicodélicas nos ensinaram esse fato, se não outros. A historia da filosofia ocidental e da religião, bem como da ciência, teria sido bastante diferente se a palavra mente tivesse se desenvolvido como um verbo ao invés de um substantivo.

Especular para onde a mente vai depois que o cérebro deteriora é tão tolo quanto perguntar onde os 112 quilômetros por hora foram depois que o carro se acidentou contra uma árvore. Do mesmo modo como o movimento relativo de um carro pode ser alterado apenas dentro de certos limites e ainda representar o processo chamado “aceleração”, podemos também alterar o funcionamento do cérebro apenas um tanto antes que o processo chamado “mente” ou “pensamento” deixe de existir.

Agora que os cientistas reconhecem a mente como um processo ao invés de uma coisa, eles estão fazendo avanços rápidos no entendimento da dinâmica cerebral especifica que corresponde aos vários estados subjetivos conhecidos coletivamente como mente. Certas drogas são conhecidas, por exemplo, por afetar certas vias e centros neurais no cérebro e produzir o estado psíquico conhecido como euforia. Outros afetam outros circuitos e produzem depressão ou sono. Podemos implantar eletrodos no cérebro e fazer com que a pessoa “ouça” sinos e sinfonias que não estão “lá”, absolutamente. Pode-se fazer com que “vejamos” coisas e luzes sem usar nossos olhos, absolutamente, estimulando o córtex visual, na parte de trás do cérebro. Podemos provocar o surgimento de emoções como ira, sexualidade, pesar, êxtase religioso, etc, alterando as funções dinâmicas do cérebro de maneiras apropriadas. Estamos começando a entender como os circuitos neurais complementam um ao outro de modo a nos dar a ilusão de “livre arbítrio”. De fato, estamos à beira de poder escrever equações relacionando os estados psicoquímicos do sistema nervoso com os estados mentais subjetivos descritos por psicólogos e outros místicos. Em resumo, estamos aprendendo a estudar os estados subjetivos objetivamente.

Se seremos ou não mais responsáveis na aplicação desse novo conhecimento do que fomos na aplicação do fogo, da dinamite e da energia atômica, permanece por saber. Mesmo a pessoa fora da média fica desconfortável no papel de Prometeu. A não ser que nós, coletivamente os novos Prometeus, julguemos sabiamente o que fazer com os nossos novos poderes psicológicos, como Prometeu podemos nos ver acorrentados às rochas, com as nossas entranhas sendo comidas pelas águias. Ou pior.

***

Da The Probing Mind, fevereiro de 1985.

Informativo:

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.atheists.org/Atheism/mind.html
  • Traduzido por: Arnaldo Inouye Elias
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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