Frank Zindler Publicado: 10/05/2000
Atualizado: 04/09/2000
MÁCULA ENGANOSA: A "CIÊNCIA" DO CRIACIONISMO

de Frank Zindler


Poder da pirâmide, triângulos das Bermudas e do Diabo, psicocinese, astrologia, discos voadores, o Horror de Amityville, reencarnação, e iridologia foram apenas alguns dos assuntos tratados no curso sobre pseudociência que eu costumava dar em uma pequena faculdade no norte do Estado de Nova Iorque. Muitos dos alunos matriculados no curso já eram sobreviventes dos meus cursos de biologia, zoologia, ou psicobiologia, e trouxeram uma boa quantidade de sofisticação aos projetos de pesquisa que trouxeram para o curso. Quase todo ano - a pedido dos alunos - o tópico "ciência criacionista" era adicionado à lista de tópicos a serem examinados.

Uma vez que a maioria das pseudociências - Velikovskyismo1, por exemplo - são simplesmente os produtos de cabeças excêntricas e peculiares, o criacionismo parece ser o resultado de quantidades doentias de distorção, engano, e pura desonestidade da parte da maioria de seus proponentes. Não demora muito para os alunos descobrirem que o criacionismo é apenas um ramo especializado de apologéticas fundamentalistas.

Crânios Qualquer um lendo a literatura criacionista rapidamente vê que essa distorção deliberada - não apenas o desentendimento dos fatos - é uma característica maior do gênero. Além disso, ao contrário da ciência real, que é autocorretiva e geralmente expõe seus próprios logros rapidamente, a "ciência" criacionista nem corrige suas fraudes, ou apenas sob irresistível pressão da ciência real. Assim como o câncer, os erros e as distorções criacionistas simplesmente entram em metástase, se tornando mais amplamente distribuídos e mais profundamente implantados.

Um exemplo típico de tal desorientação metastática chegou à minha atenção há bem pouco tempo, quando um ativista criacionista me criticou na coluna de cartas de um dos jornais de Columbus. Minhas opiniões sobre o homem fossilizado são de baixa credibilidade, escreveu ele, especialmente minhas opiniões sobre o Homem de Pequim. Sem fazer nenhuma tentativa de obter material atualizado acerca de recentes estudos sobre a China, e se referindo a Marcellin Boule (um paleoantropólogo Francês que morreu em 1942), ele me repreendeu dizendo, "Boule, que examinou o sítio e os fósseis do homem de Pequim, disse que os fósseis eram de um macaco que provavelmente foi morto para ser comido."

Agora conheci esse crítico particular, e eu sou da opinião que ele é um homem honesto que não iria deliberadamente inventar tal afirmação absurda. Estando familiarizado com a edição Inglesa de 1957 do famoso texto paleantropológico de Boule (HOMEM FÓSSIL, co-escrito com Henri Vallois), eu sabia muito bem que Boule não tinha nunca dito algo tão estúpido. De fato, na página 142 do texto nós encontramos a afirmação:

Morfologicamente, não há a menor dúvida. O Sinanthropus [Homem de Pequim] confirma e completa a prova que essas são criaturas com características físicas intermediárias entre o grupo dos Macacos Antropóides e o grupo dos Hominídeos [homem moderno e seus parentes mais próximos].
Se o meu crítico não tira idéia dos crânios de macaco do próprio Boule, e se não inventou esse absurdo sozinho, de onde tirou isso?

Evolucionistas que são experientes em combater as distorções e ilusões do criacionismo têm um movimento harmonioso que eles usam quando o material criacionista cheira mais fétido do que o normal: "cherchez le Gish!" - referindo-se a Duane Gish, o principal artista de todo o criacionismo.

Prevendo que meu crítico seria desencaminhado por Gish, consegui o livro de Gish, EVOLUÇÃO? OS FÓSSEIS DIZEM NÃO! Esse livro, um dos mais populares de todos os livros entre os criacionistas, é encontrado em muitos colégios para usar como um antídoto para a evolução. O livro aparece em duas versões: a edição geral (que contém as crenças religiosas de Gish) e a edição para escolas públicas (que contém apenas tanto quanto Gish pensa poder tirar de tudo isso). Virando para a seção sobre o Homem de Pequim, acho que Gish devota um espaço considerável para as alegadas opiniões de Boule nesse genuíno elo de conexão entre criaturas parecidas com macacos e humanos.

Na página 123 de EVOLUÇÃO? OS FÓSSEIS DIZEM NÃO!, [Edição para Escolas Públicas, Creation-Life Publishers, San Diego, 1978], Duane Gish diz, "Em uma publicação de 1937, Boule se referiu aos crânios de Sinanthropus como parecidos com de macaco'(36)." Na referencia a essa citação lê-se, "36. M. Boule, L'Anthropologie, 1937, p.21."

Novamente na página 129, Gish escreve:

Em um artigo publicado em 1937 no L'Anthropologie (p. 21), Boule escreve: 'Para essa fantástica hipótese [de Abbe Breuil e Fr. Teilhard de Chardin], que os possuidores de crânios parecidos com de macacos foram os autores da indústria de larga escala, tomo a liberdade de preferir uma opinião mais em conformidade com as conclusões de meus estudos, que são que o caçador (que amassou os crânios) era um homem real e que as pedras de corte, etc., eram seu trabalho manual [a natureza dessa indústria de pedra será discutida depois].'
Um rápido olhar de relance na página 21 do artigo de Boule não mostra nada parecido com essa citação em qualquer lugar na página. Nada sobre macacos é encontrado. Além disso, a citação completa não é encontrada em lugar nenhum no artigo inteiro, levantando a possibilidade que Gish é meramente culpado de descuido escolar e duas vezes citou o número errado da página.

Na página precedente, p. 20, nós encontramos uma boa parte do texto em questão:

"Para essa hipótese, tão fantástica quanto é engenhosa, eu posso ser permitido de preferir uma que pareça à mim apenas tanto quanto satisfatória, sendo mais simples e mais em conformidade com a totalidade do que nós sabemos: o caçador foi um homem de verdade, cuja indústria de pedra foi achada e que fez do Sinanthropus sua vítima!"
Assumindo que o material em colchetes é material inserido por Gish - em conformidade com a escolaridade praticada - nós ainda precisamos perguntar de onde veio a frase crucial, "que os possuidores de crânios parecidos com de macacos foram os autores da indústria de larga escala"?

Que Gish (ou um amigo que podia ler Francês) de fato viu a página 20 é evidente em seu próximo parágrafo, que dá uma tradução razoável para a frase que eu traduzi acima: "'mais em conformidade com todo nosso corpo de conhecimento.'" Mas onde - página 20 ou em qualquer lugar no artigo - Gish encontra uma justificação para a conclusão de seu parágrafo: "... Sinanthropus ...deve ter sido uma grande criatura parecida com macaco ou parecida com símio" [ênfase minha]?

Em lugar nenhum Boule jamais sugeriu que o Homem de Pequim era parecido com macacos. Diferente de Gish, Boule na verdade era um expert em anatomia primata e é inconcebível que ele fosse tão estúpido para sugerir que os restos de Pequim pertencessem a quarenta macacos ao invés de quarenta homens-macacos!

Na página 125, nós encontramos Gish tentando descreditar Davidson Black, o descobridor do Homem de Pequim e o originador do nome científico da criatura, Sinanthropus pekinensis, ao indiretamente acusá-lo de desonestidade:

Na sua discussão da relação do Sinanthropus com o Pithecanthropus (p. 141), Boule e Vallois quase acusam Black de fraude, e no mínimo acusam ele de total falta de objetividade e de distorcer fatos. Especificamente, eles dizem:

'Black, que sentiu-se justificado em forjar o termo Sinanthropus para designar um dente, estava naturalmente preocupado em legitimar essa criação quando ele teve que descrever uma tampa de crânio...'

Em outras palavras, desde que Black atolou seu pescoço na base de um simples dente (lembra-se do "Homem de Nebraska"!) e ergueu a categoria Sinanthropus em volta desse dente, ele se sentiu compelido a colorir os fatos para se encaixar no seu esquema. Que confiança podemos ter, portanto, em qualquer uma das descrições ou modelos de Sinanthropus da mão do Dr. Black?

Nessa passagem, Boule não está acusando Black de fraude ou de incompetência. O que temos aqui é um típico uso de evasivas escolares - um tipo de argumento repetido milhares de vezes por ano na literatura científica lidando com a classificação de plantas e animais. A pergunta simplesmente era essa: "O Homem de Pequim difere o suficiente do Homem de Java para garantir ser classificado no seu próprio gênero? Black pensou que sim, Boule pensou que não. Mas longe de acusar Black de "total falta de objetividade," Boule até aponta que Dubois - o descobridor dos primeiros restos do Homem de Java - também, não sentiu que os dois tipos de homens-macacos deveriam ser classificados no mesmo gênero. Boule deixa claro que o argumento decisivo contra o Homem de Pequim constitui o seu próprio gênero separado do Homem de Java, foi as últimas descobertas de von Koenigswald de crânios de Homens de Java mais preservados.

Gish aparentemente não entendeu a importância do uso da palavra "forjar" na frase, "forjar o termo Sinanthropus." Na edição Francesa, o verbo forger é usado. De acordo com o quarto significado para o termo pelo Dicionário Frânces Cassell, forger pode significar "cunhar" uma palavra ou termo. Que sinistro por parte de Black cunhar uma palavra!

Nós podemos nos perguntar se, nas escolas onde esse livro é recomendado para leitura pelos alunos, alguém pode razoavelmente supor que o estudante médio - de fato o acima da média - é provável de ser capaz de ver através dessa deturpação, ou se o estudante irá pensar que existe ou não um elemento ou fraude atrás do tópico do Homem de Pequim? O estudante comum irá ser capaz de ler Francês e outras línguas para poder checar as afirmações extravagantes feitas na literatura criacionista que lhe é dada para ler como um contrapeso para a ciência genuína?

Para que os leitores não pensem que essa queixa sobre crânios de macacos não é apenas mais outro exemplo de um uso escolar de evasivas que não é de grande importância no esquema total de educação científica, eu devo informá-los que esse tipo de distorção, má representação, e mal entendimento é o enrola-enrola da chamada "ciência da criação." Se tudo fosse citado no contexto, com total compreensão da importância do material fonte, não haveriam tais coisas como livros sobre criacionismo.

Na citação de Gish acima, nós somos pedidos para lembrar do "Homem de Nebraska." A não ser que se tenha lido os livros de Gish ou a revista em quadrinhos Chique PAIZÃO, isso não é muito fácil de ser feito, já que quase nenhum cientista da minha geração jamais ouviu sobre essa criatura.

O Homem de Nebraska é um espantalho, já que nenhum livro o menciona, nenhuma teoria evolucionária é baseada nele, e nenhum evolucionista em lugar algum considerou-o como um primata desde o Aniversário de Beethoven em 1927!

Contudo, o deleite de Gish ao citar a saga do Homem de Nebraska como um exemplo do que um punhado de evolucionistas bobocas é:

Em 1922, um dente foi descoberto na Nebraska ocidental e foi declarado por Henry Fairfield Osborn, um dos mais eminentes paleontologistas da época, e muitas outras autoridades, que combinava as características de um chimpanzé, um Pithecanthropus, e um Homem!...

Osborn e seus colegas não podiam decidir se o dono original desse dente deveria ser designado como um homem tipo macaco ou um macaco tipo homem. Ele recebeu a designação de Hesperopithecus haroldcookii e se tornou popularmente conhecido como Homem de Nebraska. Uma ilustração de como essa criatura e seus contemporâneos supostamente se pareciam foi publicada no Illustrated London News... Em 1927, depois que coleta e estudos posteriores foram feitos, foi decidido que o Hesperopithecus não era nem um macaco tipo homem, nem um homem tipo macaco, mas era um peccary extinto, ou porco! Eu creio que esse é um caso no qual um cientista fez um homem surgir de um porco e o porco fez surgir um macaco de um cientista! [pp. 119-120, Evolution? The Fossils Say No!, pub. schl. ed.]

O espaço não permite uma examinação das razões fascinantes pela qual um grande cientista - que em 1907 notou a similaridade enganosa entre o dente molar de um certo fóssil de porco e os dos primatas - deveria ter cometido tal erro. Nós podemos apenas mencionar que o dente em questão estava extremamente gasto, e que em 1922 um fóssil de dente primata e um dente de porco com o qual pudesse ser comparado eram apenas um pouco mais comuns do que um dente de galinha!

É suficiente notar que o Illustrated London News não era um jornal de ciência, mas sim uma versão classe-alta de um tablóide de supermercado devotado aos afazeres do Príncipe de Gales, Lord Mountbatten, e o resto da ala dos equivalentes de Chuck e Ladi Di. Mesmo assim, o Professor Elliot Smith, o autor do popular artigo teve o cuidado de avisar seus leitores sobre a ilustração que o acompanha:

Sr. Forestier [o artista] fez um desenho notável para exprimir alguma idéia das possibilidades sugeridas por sua descoberta. Como não sabemos nada da forma da criatura, sua reconstrução é meramente a expressão da genialidade imaginativa de um artista brilhante. Mas se, conforme as peculiaridades do dente sugerem, o Hesperopithecus foi um precursor do Pithecanthropus, ele pode ter sido uma criatura tal como o Sr. Forestier pintou. [Illustrated London News, 24 de Junho, 1922, pp. 942-3]
Claro que Gish sabe disso tudo, e ele sabe também que o Homem de Nebraska viveu na literatura científica por apenas cinco anos, que os mesmos cientistas que o criaram foram os que descobriram seus erros, e que eles confessaram seu erro na Science, um dos mais prestigiados periódicos científicos do mundo. Gish sabe que o erro não foi descoberto por criacionistas - já que criacionistas não fazem descobertas científicas - e que esse é na verdade um exemplo monumental da natureza auto-corretiva da ciência real e da integridade e veracidade de vários de seus praticantes. Mas se Gish tivesse sido preciso (sem falar em ser justo!) nos seus relatos, ele não teria tido oportunidade de fazer seu escárnio porco-macaco-cientista, e seus desejados leitores jovens poderiam não ter a impressão que os cientistas são um bando de bobocas.

Voltando à carta me criticando no jornal, meu crítico também afirmou, "A ligação do homem de Java foi rejeitada por autoridades em crânios tais como Marcellin Boule, que disse que ele era uma tampa de crânio de gibão."

Agora claro, Boule nunca disse isso realmente. O que o livro de Boule disse na verdade [p. 118] foi:

"Tomadas como um todo, essas estruturas [de crânios] são muito similares àquelas dos chimpanzés e dos gibões. Dubois disse que o crânio do Pithecanthropus pode ser comparado ao de um gibão aumentado no dobro do tamanho. As figuras 75 e 76 mostram isso, nas suas principais características, a tampa craniana do Trinil é realmente intermediária entre essa de um Macaco, como o Chimpanzé, e essa de um Homem de status realmente baixo, como um Homem de Neanderthal. [ênfase minha]
Então de onde é que meu crítico tirou a idéia do gibão?

Gish [p. 115] usa uma citação fora do contexto da primeira parte dessa passagem ("Tomadas como um todo, essas estruturas [de crânios] são muito similares àquelas dos chimpanzés e dos gibões."), mas convenientemente deixa de fora a última parte ("é realmente intermediária entre essa de um Macaco...e essa de um Homem..."). Portanto meu crítico desenhou a conclusão lógica - mas falsa - que Boule diagnosticou o Homem de Java como apenas outro macaco. Meu crítico, como tantos outros populares criacionistas honestos-mas-ignorantes, foi apenas mais uma pessoa inocente chifrada pelo "boi" de Gish!

O tratamento de Gish a Eugene Dubois, o descobridor do primeiro crânio de Homem de Java, é bastante ultrajante. Na página 114, Gish alega:

Dubois ocultou o fato que ele também descobriu próximo a Wadjak e aproximadamente no mesmo nível, dois crânios humanos (conhecidos como os crânios Wadjak) com uma capacidade craniana em torno de 1550-1650 c.c., um tanto acima da média humana presente. Revelar este fato nesta época teria tornado difícil, se não impossível, seu Homem de Java ser aceito como um "elo perdido." Era até 1922 [de fato 1921, FRZ], quando uma descoberta similar estava prestes a ser anunciada, que Dubois revelou o fato que ele tinha possuído os crânios Wadjak por mais de 30 anos. Seu erro em revelar esse achado para o mundo científico ao mesmo tempo que ele exibiu os ossos de Pithecanthropus só pode ser rotulado como um ato de desonestidade e calculado para obter aceitação do Pithecanthropus como um macaco-homem.
O leitor não tem meios de saber - a menos que ele dê duro em uma biblioteca - que os crânios não estavam "aproximadamente no mesmo nível." O crânio de Homem de Java foi encontrado em Trinil na Java Central, e os crânios Wadjak foram encontrados milhas de distância em Wadjak, perto de Tulung Agung na costa sul de Java. Os níveis geológicos eram diferentes. Os crânios Wadjak (embora altamente fossilizados) foram associados com os restos da fauna moderna Javiana, e o Homem de Java foi associado com muitas formas extintas. Dubois estava procurando pelo "elo perdido," e os crânios Wadjak (que eram considerados serem os intermediários em forma entre os Neandertais e aborígenes Australianos) eram de pequeno interesse na época.

Além disso, William Howells [Mankind in the Making, 1967, p. 154], em um livro citado (e presumivelmente lido!) por Gish, nos diz:

...um Sr. Van Rietschoten encontrou um crânio fossilizado em Wadjak na vizinhança de Java. Ele foi passado adiante até a Royal Society na Batavia para Dubois... Ele [Dubois] foi até Wadjak e encontrou ele mesmo outro do mesmo tipo! Eles eram interessantes e como os dos nativos vivos da Austrália na aparência. Mas eles não eram elos perdidos - não o que ele estava procurando.
Então se Dubois foi culpado de "um ato de desonestidade," van Rietschoten também foi, junto com a Royal Society! Mas o problema de fato é que não havia nenhuma conspiração para suprimir os crânios Wadjak. A verdadeira história - e ela certamente é conhecida por Gish tal como por estudantes competentes - é de fato uma história trágica: a controvérsia ao redor de sua descoberta deixou Dubois, se não meio louco, pelo menos num estado paranóico de reclusão. Howells (a quem Gish supostamente leu) descreveu a situação na página 155 de seu livro:
Dubois começou a sentir uma identidade com o fóssil. Seus detratores foram seus próprios inimigos; todos os seus colegas antropológicos se tornaram suspeitos, e Dubois não estava mais em casa para eles. E pelo menos ele retirou os ossos do contato científico. Ele os levou para casa, em Zijlweg 77, Haarlem; enfiou numa caixa; cavou o chão da sala de jantar e enterrou a caixa embaixo dela; pôs quadros na parede, tacos e um tapete; e comeu as refeições em cima do homem de Java durante muitos anos. Adversários invejosos, ele chegou a pensar, poderiam até roubar os preciosos fósseis. Mas por todos esses anos ele manteve os crânios Wadjak em um pote de vidro, mas com jornal colado no interior do vidro, assim os crânios não poderiam ver lá fora, e ninguém mais poderia ver dentro. Apenas nos anos 20 ele cedeu e expôs os crânios Wadjak para a ciência. Ainda mais tarde, ele foi persuadido a por os restos do Pithecanthropus no museu em Leiden, em um cofre pequeno dentro de um cofre maior.
O mau trato de Gish com esse homem infeliz é vergonhoso. Nada o fará parar, parece, com a causa de converter as crianças ao criacionismo.

Crânios Livros como esse devem ser comprados e recomendados para alunos estudarem? Se as escolas estão querendo adquirir todas as matérias primas citadas na literatura criacionista e fazer os estudantes aprenderem a identificar os erros dos criacionistas, eu estaria tentado a dizer "Ótimo! Faça isso!" Mas o fato sóbrio é que não há tempo suficiente para tais exercícios, apesar deles poderem ser bastante excitantes e estimulantes. Muito pouco tempo já é gasto com o aprendizado dos fundamentos da ciência, e perder mais tempo na exposição de pseudociência não pode ser justificado.

As decepções de Gish e seus companheiros criacionistas não são restritas, entretanto, às suas produções impressas. Seus procedimentos são ainda mais ultrajantes no pódio de palestras e no circuito de debates. Normalmente sua prática de criacionismo genuíno - criando "fatos" ex nihilo para suportar as exigências do momento - fica desapercebida e sem revanche. Mas de vez em quando eles recebem o que merecem.

Robert Schadewald, um talentoso escritor de ciência e debatedor, e John Patterson, um professor irreprimível de engenharia na Universidade do Estado de Iowa, publicaram uma carta em conjunto na edição da Primavera/Verão de 1984 do Origins Research (uma publicação criacionista) na qual eles acusaram Gish de mentir no programa de TV da PBS em 1982. Nesse programa, Gish foi apresentado a evidências bioquímicas que proteínas de humanos e chimpanzés são extremamente similares e, em alguns casos, idênticas - a implicação sendo que macacos e o homem são parentes muito próximos. Gish rebateu esses dados com a afirmação que existiam outras proteínas que mostravam que galinhas e sapos-boi eram parentes mais próximos do homem do que correspondentes proteínas de chimpanzé!

Desde este programa na PBS, cientistas pressionaram Gish incessantemente a revelar suas fontes e identificar essas proteínas maravilhosas. Em uma "Conferência Bíblia-Ciência" realizada em Cleveland [veja meu artigo RELATÓRIO DO CENTRO DO UNIVERSO, em novembro, edição de 1984 da American Atheist], Patterson e Schadewald pressionaram Gish mais uma vez por suas proteínas, apenas para ouvirem que ele não tinha nenhuma responsabilidade em produzi-las!

Nós esperamos que de agora em diante cada cientista que debata com Gish inicie cada discurso com um pedido das seqüências de proteínas: "Vamos lá, Duane! Nós estamos interessados em sapos-boi! Não apenas no seu velho boi!"

***

Ensaio escrito em Março de 1985

Notas do Tradutor

1 - O Velikovskyismo refere-se ao trabalho de Immanuel Velikovsky, especialmente seu primeiro livro, Mundos em Colisão, publicado em 1950. A principal tese de Velikovsky é que os maiores eventos na história, de ambos a Terra e os planetas no sistema solar, foram dominados pelo catastrofismo ao invés do uniformitarismo. Ambos os nomes e as práticas dessas suas seitas evocam antecedentes teológicos familiares. Mais informações sobre Velikovsky podem ser encontradas em O Romance da Ciência [Broca's Brain], Carl Sagan, Capítulo 7; e em Scientists Confront Velikovsky, Donald Goldsmith, ed., Cornell University Press, 1977. Voltar

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.atheists.org/bone.pit/maculateDeception.html
  • Traduzido por: Leo Vines
  • As partes em itálico não devem estar corretamente traduzidas.
  • Tradução gentilmente revisada por Jussara Simões.
  • Traduções para espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.