Richard Dawkins
 
 
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QUANDO A RELIGIÃO PISA NO GRAMADO DA CIÊNCIA: A SUPOSTA SEPARAÇÃO ENTRE AS DUAS NÃO É TÃO NÍTIDA
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de Richard Dawkins


Um afrouxamento covarde do intelecto aflige pessoas que seriam racionais em outros aspectos quando se deparam com as tradições religiosas de longa data (se bem que, como era de se esperar, não perante tradições mais recentes como a Cientologia ou os Moonies). S. J. Gould, ao criticar em sua coluna História Natural a postura do papa com relação à evolução, representa uma corrente predominante de idéias conciliatórias, tanto entre crentes quanto descrentes: "A ciência e a religião não estão em conflito, pois seus ensinamentos ocupam domínios completamente distintos ... Eu acredito, de todo coração, em um pacto respeitoso, até mesmo amoroso (ênfase minha) ..."

Bem, o que são esses dois domínios completamente distintos, esses "Magistérios Não-sobrepostos" que deveriam se abraçar em um pacto respeitoso e amoroso? Gould novamente: "A rede da ciência cobre o universo empírico: de que é feito (fato) e porque ele funciona dessa maneira (teoria). A rede da religião se estende sobre questões de significado e valor moral."

Quem Possui A Moral?

Seria assim se fosse tão nítido. Daqui a pouco vou tratar do que o papa realmente diz sobre evolução, e então das outras afirmações de sua igreja, para ver se elas realmente são tão nitidamente distintas do domínio da ciência. Primeiro, entretanto, um breve aparte sobre a afirmação de que a religião tem conhecimentos especiais a nos oferecer em questões morais. Até os não-religiosos aceitam essa afirmação sem questionar, provavelmente fazendo das tripas coração para admitir o melhor argumento que o oponente tem a oferecer – por mais fraco que seja esse argumento.

A pergunta "O que é certo e o que é errado?" é uma pergunta genuinamente difícil que a ciência certamente não pode responder. Dada a premissa moral ou a crença moral a priori, a disciplina importante e rigorosa da filosofia moral secular pode perseguir modos de raciocínio científicos e lógicos para apontar implicações escondidas de tais crenças, e inconsistências escondidas entre elas. Mas as premissas de moral absoluta devem vir de outro lugar, presumivelmente de convicção não discutida. Ou, pode ser esperado, da religião - significando alguma combinação de autoridade, revelação, tradição e escritura.

Infelizmente, a esperança que a religião pode prover um alicerce, de onde nossa moral outrora baseada em areia pode ser derivada, é uma coisa vã. Na prática, nenhuma pessoa civilizada usa uma escritura como autoridade suprema e alegremente ignora os pedaços maldosos (como a obrigação de apedrejar adúlteras, executar apóstolos, e punir os netos dos infratores). O próprio deus do velho testamento, com sua inveja impiedosa vingativa, seu racismo, sexismo, e aterrorizante sede de sangue, não irá ser adotado como uma modelo de função literal por ninguém que você ou eu iríamos desejar conhecer. Sim, claro que é injusto julgar os costumes de uma era antiga pelos padrões cultos de nós mesmos. Mas esse é precisamente o meu ponto! Evidentemente, nós temos alguma fonte alternativa de convicção moral máxima que ignora escrituras quando isso nos convém.

Essa fonte alternativa parecer ser algum tipo de consenso liberal de decência e justiça natural que muda sobre tempos históricos, freqüentemente sob a influência de reformistas seculares. Evidentemente, isso não soa como um alicerce. Mas na prática nós, incluindo os religiosos entre nós, damos a isso uma prioridade muito maior do que à escritura. Na prática nós mais ou menos ignoramos a escritura, citando-a quando ela suporta nosso consenso liberal, quietamente esquecendo-a quando ela não o faz. E de onde quer que esse consenso liberal venha, ele está disponível para todos nós, sejamos nós religiosos ou não.

Similarmente, grandes professores religiosos como Jesus ou Gautama Buddha podem nos inspirar, por seus exemplos, a adotar suas convicções morais pessoais. Mas novamente nós escolhemos entre líderes religiosos, evitando os maus exemplos de Jim Jones ou Charles Manson, e nós podemos escolher boas figuras modelo seculares tais como Jawaharlal Nehru ou Nelson Mandela. Tradições também, por mais antigas que elas sejam seguidas, podem ser boas ou más, e nós usamos nosso julgamento secular de decência e justiça natural para decidir quais seguir, quais não.

Religião no Gramado da Ciência

Mas essa discussão de valores morais foi uma digressão. Eu agora viro para meu tópico principal de evolução e onde o papa dá vida ao ideal de manter afastada a grama científica. Sua "Mensagem sobre Evolução para a Academia Pontifica de Ciências" começa com algumas falas de duplo sentido casuísticas projetadas para reconciliar o que João Paulo II está prestes a dizer com os prévios, mais equivocados pronunciamentos de Pio XII, cuja aceitação da evolução foi comparativamente rancorosa e relutante. Então o papa vem para a mais difícil tarefa de reconciliar as evidências científicas com a "revelação."

A revelação nos ensina que o [homem] foi criado na imagem e aparência de deus. ... se o corpo humano têm sua origem de uma matéria viva preexistente, a alma espiritual é imediatamente criada por deus ... Conseqüentemente, teorias de evolução que, de acordo com as filosofias que as inspiram, considera a mente como algo emergente das forças da matéria viva, ou como um mero epifenômeno dessa matéria, são incompatíveis com a verdade sobre o homem. ... Com o homem, então, nós nos achamos na presença de uma diferença antológica, um salto antológico, alguém poderia dizer.
Para dar crédito ao papa, nesse ponto ele reconhece a essencial contradição entre as duas posições que ele está tentando reconciliar: "Entretanto, o ato de pôr tais descontinuidades antológicas não vêm contrariar a continuidade física que parece ser a principal linha de pesquisa em evolução no campo da física e química?"

Nunca tema. Como tantas vezes no passado, o obscurantismo vêm ao resgate:

A consideração do método usado nos vários ramos de conhecimento torna possível reconciliar dois pontos de vista que iriam parecer irreconciliáveis. As ciências de observação descrevem e medem as múltiplas manifestações da vida com precisão crescente e correlacionam elas com a linha de tempo. O momento de transição para o espiritual não pode ser o objeto deste tipo de observação, que pode contudo descobrir ao nível experimental uma série de sinais muito valiosos indicando o que é específico ao ser humano.
Em linguagem clara, chegou um momento na evolução dos hominídeos quando deus interveio e injetou uma alma humana em uma linhagem previamente animal. (Quando? Um milhão de anos atrás? Dois milhões de anos atrás? Entre o Homo erectus e o Homo sapiens? Entre o Homo sapiens "arcaico" e o H. sapiens sapiens?) A repentina injeção é necessária, claro, senão não haveria distinção sobre no que basear a moralidade Católica, que é especieísta até o caroço. Você pode matar animais adultos pela carne, mas aborto e eutanásia são assassinatos porque a vida humana está envolvida.

A "rede" do Catolicismo não está limitada às considerações morais, tão somente porque a moral Católica têm implicações científicas. A moralidade Católica demanda a presença de um grande abismo entre o Homo sapiens e o resto do reino animal. Tal abismo é fundamentalmente anti-evolucionário. A repentina injeção de uma alma imortal na linha de tempo é uma intrusão anti-evolucionária no domínio da ciência.

Mais geralmente isso é completamente irreal de se afirmar, como Gould e muitos outros fazem, que a religião mantém-se longe do gramado da ciência, restringindo-se à moral e aos valores. Um universo com uma presença sobrenatural seria um tipo fundamentalmente e qualitativamente diferente de um universo sem tal presença. A diferença é, inevitavelmente, uma diferença científica. Religiões fazem afirmações de existência, e isso significa afirmações científicas.

O mesmo é verdade de muitas das maiores doutrinas da Igreja Católica Romana. O nascimento virginal, a assunção corpórea da abençoada virgem Maria, a ressurreição de Jesus, a sobrevivência de nossas próprias almas depois da morte: essas são afirmações de uma natureza claramente científica. Ou Jesus teve um pai corpóreo ou ele não teve. Essa não é uma questão de "valores" ou "moral"; essa é uma questão de fato sensato. Nós podemos não ter a evidência para responder isso, mas é uma questão científica, contudo. Você pode ter certeza que, se alguma evidência suportando a afirmação fosse descoberta, o Vaticano não iria ser reticente em promover isso.

Ou o corpo da Maria decompôs-se quando ela morreu, ou ele foi fisicamente removido desse planeta para o Céu. A assunção oficial da doutrina católica romana, promulgada recentemente em 1950, implica que o Céu têm uma localização física e existe no domínio da realidade física - como de outra forma poderia o corpo físico de uma mulher ir para lá? Eu não estou, aqui, dizendo que a doutrina de assunção da virgem é necessariamente falsa (embora, é claro eu acho que ela é). Eu estou simplesmente rebatendo a afirmação que isso está fora dos domínios da ciência. Ao contrário, a Assunção da virgem é transparentemente uma teoria científica. Também o é a teoria que nossas almas sobrevivem à morte corporal, e também todas as histórias de visitações angelicais, manifestações Marianas, e milagres de todos os tipos.

Há algo desonestamente auto-servil na tática de afirmar que todas as crenças religiosas estão fora dos domínios da ciência. Por outro lado, histórias de milagres e a promessa de vida após a morte são usadas para impressionar pessoas simples, ganhar convertidos, e inflar congregações. É precisamente o seu poder científico que dá a essas histórias o seu apelo popular. Mas ao mesmo tempo que isso é considerado um golpe baixo as mesmas histórias ao rigor ordinário da crítica científica: esses são problemas religiosos e portanto fora do domínio da ciência. Mas você não pode ter isso em ambos os jeitos. Pelo menos, apologistas e teoristas religiosos não deveriam ter permissão de escapar tendo isso em ambos os jeitos. Infelizmente, muitos de nós, incluindo pessoas não religiosas, estamos inexplicavelmente prontos para permiti-los.

Eu suponho que é gratificante ter o papa como um aliado na briga contra o criacionismo fundamentalista. Com certeza é divertido ver o tapete puxado de debaixo do pé dos criacionistas Católicos tal como Michael Beve. Mesmo assim, dada a oportunidade entre o fundamentalismo honesto para com a bondade de um lado, e o obscurantismo, pensamento duplo dúbio e enganoso da Igreja Católica Romana no outro, eu sei qual eu prefiro.

***

O artigo acima foi retirado da revista Free Inquiry, Volume 18, Número 2.

Richard Dawkins, um líder mundial dos biólogos evolucionários, é Professor Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência na Universidade Oxford e Editor Senior da Free Inquiry.

Comentários

Rálamo - jatava@porncity.net - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 02/01/2002

A religião mora nas (supostas) lacunas da ciência; a cada avanço da ciência, um retrocesso da religião: ao contrário do que a revista Veja e muitas publicações e autores tentam pintar, o misticismo está se extinguindo, lentamente, mas está.
Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.SecularHumanism.org/library/fi/dawkins_18_2.html
  • Traduzido por: Leo Vines
  • As partes em itálico não devem estar corretamente traduzidas.
  • Traduções para espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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