Scientia Publicado: 04/05/2002
Atualizado: 04/05/2002
TERAPIA GÊNICA: PRINCÍPIOS

de Nance Beyer Nardi


A terapia gênica só se tornou possível devido ao grande avanço no conhecimento do genoma humano obtido nos últimos anos. O Projeto Genoma Humano, que teve início em 1990 com a participação de vários países (inclusive o Brasil), já permitiu o seqüenciamento dos três bilhões de bases químicas que compõem o DNA humano e a identificação de parte dos 30.000 a 40.000 genes da espécie humana. Após a identificação dos genes, ainda é necessário que se conheça a proteína que ele codifica - qual sua função no organismo, como ela interage com outros componentes etc - para que a informação possa ser utilizada em finalidades práticas. O conhecimento dos genes responsáveis por características normais ou por doenças permitirá a plena aplicação dos princípios da medicina genômica, que deverá modificar os procedimentos médicos no diagnóstico e tratamento de várias doenças e onde se inclui a terapia gênica.

Para compreender o que é a terapia gênica, devemos conhecer um pouco mais do genoma humano. O termo genoma refere-se ao total do material genético presente em um indivíduo sob a forma de DNA (ácido desoxirribonucléico). O organismo é composto por diferentes órgãos (coração, pulmão, cérebro etc) e tecidos (muscular, epitelial, nervoso etc), sendo a célula sua unidade fundamental. Na célula, encontra-se o núcleo com o material genético. O DNA determina as características do organismo - seu fenótipo - através do controle dos tipos e quantidades de proteínas que cada célula produz. Este controle, por sua vez, é feito através de uma "mensagem" contida no DNA, que é "traduzida" dentro da célula resultando na produção das proteínas. Assim, o gene pode ser definido, de forma simplificada, como o segmento de DNA responsável pela síntese de uma determinada proteína. Todos os indivíduos de uma espécie têm os mesmos genes, mas com algumas variações que podem provocar diferenças na proteína produzida e na característica correspondente. Estas variações podem incluir-se dentro de uma faixa normal - como, por exemplo, tipos de grupo sanguíneo, cor da pele, estatura - ou determinar o aparecimento ou a maior suscetibilidade a doenças - como, por exemplo, a hemofilia ou a diabete.

Os princípios da terapia gênica envolvem a introdução, no paciente portador de doenças genéticas ou outras, de genes responsáveis por proteínas que poderão ser benéficas. Em doenças causadas por mutações gênicas, a introdução de células portadoras de um gene normal poderá reverter o quadro clínico. Em uma ampla gama de outros tipos de doenças, células geneticamente modificadas poderão ativar mecanismos de defesa naturais do organismo (como o sistema imune) ou produzir moléculas de interesse terapêutico.

A terapia gênica idealmente visaria a substituir um gene defeituoso por um gene normal. A remoção de um gene do organismo é, entretanto algo muito difícil de ser realizado, e desnecessário na maioria das vezes. Assim, os procedimentos envolvem em geral a introdução do gene de interesse, que deve ser completamente conhecido. O gene é "transportado" por um vetor, uma molécula de DNA ou RNA (outra forma de material genético) que contém outros elementos genéticos importantes para a manutenção e expressão do gene de interesse. As formas de transferência deste vetor contendo o gene são muito variadas. Em primeiro lugar, é importante definir se é mais apropriado introduzir o gene diretamente no organismo (in vivo) ou se, alternativamente, células serão retiradas do indivíduo, modificadas e depois reintroduzidas (ex vivo). Algumas das formas de transferência utilizam vírus, dos quais os principais são os retrovírus, os adenovírus e os adenovírus-associados. Outras formas de transferência incluem a injeção direta do gene no organismo bem como métodos utilizando princípios físicos (biobalística, eletroporação) ou químicos (lipofecção). O acompanhamento e avaliação do sucesso do procedimento envolvem a análise da manutenção de expressão do gene nas células transformadas e correção da doença.

A aplicação de novas formas de tratamento sempre depende do seguimento de regras bem estabelecidas. Uma fase de estudos pré-clínicos, onde células são estudadas in vitro e a experimentação é feita em animais, é seguida por um longo período de estudos clínicos, divididos em fases (I, II e III). Atualmente, a grande maioria dos estudos clínicos está sendo realizada nos E.U.A. e em países da Europa, e cerca de 70% encontram-se ainda em fase I. As doenças mais visadas são várias formas de câncer e doenças genéticas, e os vetores mais utilizados são os retrovírus. Apesar da grande promessa representada pela terapia gênica, dificuldades técnicas não previstas no início destes estudos têm dificultado seu pleno aproveitamento. Estas dificuldades referem-se principalmente aos baixos níveis de expressão do gene terapêutico nas células transformadas e ao seu desaparecimento precoce do organismo.

Um dos tipos celulares mais visados pela terapia gênica são as células chamadas tronco do organismo. Estas células são mantidas durante toda a vida do indivíduo, e apresentam a propriedade de poder originar múltiplas linhagens de células maduras. As células tronco hematopoiéticas, por exemplo, originam todas as células do sangue, de modo que a introdução nelas de um gene terapêutico garantiria que muitos tipos celulares diferentes expressassem este gene e produzissem a proteína de interesse. Outra abordagem da terapia gênica, bem como de outras formas de manipulação genética, pode, entretanto envolver não as células somáticas (isto é, do corpo) de um indivíduo adulto mas sim células tronco embrionárias. Estas células apresentam maior potencial que as células tronco do adulto, já que delas se originam não apenas alguns, mas sim TODOS os tipos de células que compõem o organismo. Além disto, as células tronco do adulto são muitas vezes difíceis de localizar e de manipular in vitro, o que não acontece com as embrionárias.

A utilização de células tronco embrionárias, entretanto, depende da destruição de um embrião, em uma fase extremamente precoce de desenvolvimento (poucos dias). As questões éticas, que se impõem imperativamente frente às inúmeras possibilidade de utilização destas informações, são especialmente pertinentes ao se tratar das células tronco embrionárias. Questões sobre como determinar em que momento o embrião ou feto pode ser considerado como um ser humano, ou de que fonte obter o embrião que será destruído têm sido debatidas em vários foros. O conhecimento científico deve ser acompanhado pela sabedoria, o que não tem sido habitual na história da humanidade. Grandes empresas têm desenvolvido e tomado posse destas descobertas, e seu emprego em atividades economicamente importantes pode não acompanhar o interesse da sociedade como um todo.

Estes assuntos devem assim ser discutidos amplamente, de modo a permitir um maior nível de consciência da população em geral. Nos países mais desenvolvidos, onde a comunidade acompanha melhor o progresso científico, tem sido observada uma divisão muito grande com relação às opiniões sobre a terapia gênica. Os opositores temem, por um lado, as conseqüências de um processo novo e pouco previsível, e por outro sua utilização em uma nova onda de eugenia, colocando freqüentemente a questão "estamos brincando de ser Deus?". A corrente a favor da experimentação genética argumenta que esta questão deveria ser igualmente ser aplicada à utilização de medicamentos e outros procedimentos clínicos que alteram o curso normal de qualquer doença, e que o já extenso desenvolvimento destas pesquisas e seu grande potencial para a cura de doenças que afetam grande parte da humanidade continuam justificando o investimento. A grande questão seria: existem limites para a experimentação científica? Finalmente, deve ser lembrado que qualquer mal que possa resultar da pesquisa para a espécie humana não será causado por qualquer descoberta, mas sim da utilização que o homem fizer dela.

***

Texto apresentado no IIº Colóquio Internacional Ética e Genética, realizado em Porto Alegre, 2001, promoção UFRGS e Instituto Goethe.

Nance Beyer Nardi trabalho no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.