Publicado: 30/12/2001
de Alan D. Sokal
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O deslocamento da idéia de que os fatos e a evidência importam pela idéia de que tudo se reduz a interesses e perspectivas subjetivos é - segundo somente campanhas políticas Americanas - a mais proeminente e perniciosa manifestação de anti-intelectualismo de nosso tempo.Por alguns anos fui atormentado por um aparente declínio nos padrões de rigor intelectual em certos setores das humanidades acadêmicas Americanas. Mas sou apenas um físico: se me encontro incapaz de compreender jouissance e différance, talvez isso reflita somente minha própria inadequação. Então, para testar os padrões intelectuais prevalescentes, decidi tentar um modesto (embora admitidamente não-controlado) experimento: Iria um jornal norte-americano de estudos culturais - cujo editorial inclui ícones tais como Fredric Jameson e Andrew Ross - publicar um artigo deliberadamente temperado com disparates se (a) tal artigo soasse bem e (b) ele lisonjeasse as preconcepções ideológicas dos editores? A resposta, infelizmente, é sim. Leitores interessados podem encontrar meu artigo, "Transgredindo as Fronteiras: Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica," na edição primavera/verão 1996 da Social Text. Aparece em um número especial da revista devotado às "Guerras da Ciência". O que está acontecendo aqui? Poderiam realmente os editores não terem se dado conta de que meu artigo foi escrito como uma paródia? No primeiro parágrafo, derivo "o dogma imposto pela longa hegemonia pós-Esclarecimento sobre o ponto de vista intelectual Ocidental": de que existe um mundo externo, cujas propriedades são independentes de qualquer ser humano e de fato da humanidade como um todo; que tais propriedades são codificadas em leis físicas "eternas"; e de que os seres humanos podem obter conhecimento, apesar de imperfeito e provisório, destas leis usando os procedimentos "objetivos" e escrituras epistemológicas prescritas pelo (assim chamado) método científico.É agora um dogma nos Estudos Culturais que não exista um mundo externo? Ou de que existe um mundo externo mas a ciência não obtém qualquer conhecimento dele? No segundo parágrafo eu declaro, sem a menor evidência de argumento, que "a ?realidade? física [note as aspas] ... é no fundo uma construção social e lingüística." Não nossas teorias da realidade física, veja bem, mas a própria realidade. Bastante razoável: qualquer um que acredite que as leis da física são meras convenções sociais está convidado a transgredir tais convenções da janela do meu apartamento. (Eu moro no vigésimo primeiro andar.) Ao longo do artigo, emprego conceitos científicos e matemáticos de maneira tal que poucos cientistas ou matemáticos poderiam possivelmente levar a sério. Por exemplo, sugiro que o "campo morfogenético" - uma bizarra idéia Nova Era de Rupert Sheldrake - constitui uma teoria de fronteira da gravidade quântica. Esta conexão é pura invenção; mesmo Sheldrake não faz tal alegação. Afirmo que as especulações psicanalíticas de Lacan foram confirmadas por trabalhos recentes na teoria da gravidade quântica. Até mesmo leitores não cientistas poderiam indagar o que raios a teoria quântica de campos tem a ver com psicanálise; certamente, meu artigo não dá nenhum argumento razoável para suportar tal conexão. Posteriormente no artigo, proponho que o axioma da igualdade na teoria matemática dos conjuntos é, de alguma forma, análogo ao conceito homônimo na política feminista. Na realidade, tudo que o axioma da igualdade declara é que dois conjuntos são idênticos se e somente se eles têm os mesmos elementos. Mesmo leitores sem treinamento matemático poderiam muito bem acharem suspeita a alegação de que o axioma da igualdade reflete as "origens liberais do século dezenove" da teoria dos conjuntos. Em suma, escrevi intencionalmente o artigo de forma que qualquer físico ou matemático competente (ou físico graduando ou math major) iria se dar conta de que ele é uma fraude. Evidentemente, os editores da Social Text acharam confortável publicar um artigo sobre física quântica sem se preocupar em consultar qualquer pessoa que entendesse do assunto. A insanidade fundamental de meu artigo, entretanto, não está em seus numerosos solecismos, mas no caráter dúbio de sua tese central e na "razão" utilizada para dar suporte a esta. Basicamente, alego que a gravidade quântica - a ainda especulativa teoria de espaço e tempo em escalas de um milionésimo de um bilionésimo de um bilionésimo de um bilionésimo de um centímetro - tem profundas implicações políticas (que são, é claro, "progressivas"). Para dar suporte a esta proposição improvável, procedo da seguinte forma: primeiro, eu cito alguns pronunciamentos filosóficos controversos de Heisenberg e de Bohr, e afirmo (sem argumentar) que a física quântica é profundamente consoante com a "epistemologia pós-modernista". A seguir, eu reúno um pastiche - Derrida e a relatividade geral, Lacan e a topologia, Irigaray e a gravidade quântica - mantidos juntos por retórica vaga sobre "não-linearidade", "fluxo" e "interconexão". Finalmente, salto (novamente sem argumentação) para a afirmação de que a "ciência pós-modernista" aboliu o conceito de realidade objetiva. Em parte alguma se encontra qualquer coisa que lembre uma seqüência lógica de pensamento; encontram-se apenas citações de autoridade, jogos de palavras, analogias forçadas e afirmações vazias. Em suas passagens de conclusão, meu artigo se torna especialmente egrégio. Tendo abolido a realidade como restrição na ciência, eu sigo adiante para sugerir (mais uma vez sem argumentos) que a ciência, para ser "liberatória", deve ser subordinada a estratégias políticas. Termino o artigo observando que "uma ciência liberatória não pode ser completa sem uma profunda revisão do cânone da matemática." Podemos ver pistas de uma "matemática emancipatória," eu sugiro, "na lógica multidimensional e não-linear da teoria de sistemas nebulosos [fuzzy]; mas esta abordagem ainda está fortemente marcada por suas origens na crise das relações de produção do capitalismo tardio." Adiciono ainda que "a teoria das catástrofes, com suas ênfases dialéticas na suavidade/descontinuidade e na metamorfose/não-desdobramento, terá um papel especial na matemática futura; mas muito trabalho teórico ainda precisa ser feito antes que esta abordagem possa se tornar uma ferramenta concreta da praxe política progressiva." É compreensível que os editores da Social Text fossem incapazes de analisar criticamente os aspectos técnicos de meu artigo (que é exatamente o motivo pelo qual eles deveriam ter consultado um cientista). O que é mais surpreendente é o quão prontamente eles aceitaram minha assertiva de que a procura pela verdade na ciência deve ser subordinada à agenda política, e o quão inconscientes estavam da falta global de lógica do artigo. Por que fiz isso? Enquanto meu método foi satírico, minha motivação é bastante séria. O que me diz respeito é a proliferação, não apenas da falta de sentido e do pensamento descuidado per se, mas de um tipo particular de falta de sentido e pensamento descuidado: aquele que nega a existência de realidades objetivas, ou (quando desafiado) admite sua existência mas despreza sua relevância prática. No máximo, um jornal como Social Text levanta importantes questões que nenhum cientista deve ignorar - questões, por exemplo, sobre como financiamentos corporativos e governamentais influenciam o trabalho científico. Infelizmente, o relativismo epistêmico faz pouco para levar adiante a discussão sobre tais assuntos. Em poucas palavras, meu interesse a respeito da proliferação do pensamento subjetivo é tanto intelectual como político. Intelectualmente, o problema com tais doutrinas é que elas são falsas (quando não simplesmente sem sentido). Existe um mundo real; suas propriedades não são meras construções sociais; fatos e evidência importam de fato. Que pessoa sã poderia afirmar o contrário? Ainda assim, muito da teoria acadêmica contemporânea consiste precisamente de tentativas para embaçar estas verdades óbvias - a total absurdidade de tudo isso sendo ocultada através de linguagem obscura e pretenciosa. A aceitação de meu artigo pela Social Text exemplifica a arrogância intelectual da Teoria - significando teoria pós-modernista literária - levada ao seu extremo lógico. Não é de admirar que eles não tenham se preocupado em consultar um físico. Se tudo é discurso e "texto," então o conhecimento do mundo real é supérfluo; até mesmo a física se torna apenas mais um ramo dos Estudos Culturais. Se, além disso, tudo é retórica e "jogos de linguagem," a consistência lógica interna é igualmente supérflua: uma pátina de sofisticação teórica serve igualmente bem. A incompreensibilidade se torna uma virtude; alusões, metáforas e jogos de palavras se tornam substitutos para evidência e lógica. Meu própria artigo é, quando muito, um exemplo extremamente modesto deste gênero bem estabelecido. Politicamente, estou irado porque a maior parte de (apesar de não toda) sua insanidade emana da auto-proclamada Esquerda. Estamos testemunhando aqui uma profunda volte-face histórica. Pela maior parte dos dois últimos séculos, a Esquerda tem sido identificada com a ciência e contra o obscurantismo; acreditamos que o pensamento racional e a análise sem medo da realidade objetiva (tanto natural quanto social) são ferramentas incisivas para combater as mistificações promovidas pelos poderosos - para não mencionar o desejo da manutenção dos fins humanos sob sua própria posse. O recente movimento de muitos humanistas acadêmicos e cientistas sociais "progressistas" ou "esquerdistas" em direção a uma ou outra forma de relativismo epistêmico trai esta respeitável herança e ameaça os já frágeis prospectos da crítica social progressista. Teorizar sobre "a construção social da realidade" não irá nos ajudar a encontrar um tratamento efetivo para a AIDS ou criar estratégias para evitar o aquecimento global. Tampouco podemos combater idéias falsas em história, sociologia, economia e política se rejeitarmos as noções de verdade e falsidade. Os resultados de meu pequeno experimento demonstram, no mínimo dos mínimos, que alguns elegantes setores da Esquerda acadêmica Americana têm se tornado preguiçosos. Os editores da Social Text gostaram de meu artigo porque gostaram de sua conclusão: que "o conteúdo e a metodologia da ciência moderna provê um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista." Eles aparentemente não sentiram necessidade de analisar a qualidade da evidência, a plausibilidade dos argumentos, ou mesmo a relevância dos argumentos para a conclusão apresentada. Claro, não esqueço as questões éticas envolvidas em meu bastante heterodoxo experimento. Comunidades profissionais operam em alto grau com base na confiança; fraudes abalam esta confiança. Mas é importante entender exatamente o que eu fiz. Meu artigo é um ensaio teórico baseado inteiramente em fontes disponíveis publicamente, sendo que apresentei notas de rodapé a todas elas. Todos os trabalhos citados são reais, e todas as citações são rigorosamente acuradas; nenhuma foi inventada. Agora, é verdade que o autor não acredita em seu próprio argumento. Mas por que isso deveria importar? O dever dos editores como eruditos é julgar a validade e interesse das idéias, sem se preocupar com sua origem. (Eis por que muitos jornais eruditos praticam arbitragem cega.) Se os editores da Social Text acham meus argumentos convincentes, então por que deveriam ficar desconcertados simplesmente por que eu não os acho? Ou eles são mais deferentes à assim chamada "autoridade cultural da tecnociência" do que eles se importariam em admitir? No fim, recorri à paródia por uma simples e pragmática razão. Os alvos de minha crítica já se tornaram uma subcultura acadêmica auto-perpetuante, que tipicamente ignora (ou desdenha) a crítica racional a partir do lado de fora. Em tal situação, uma demonstração mais direta dos padrões intelectuais da subcultura foi necessária. Mas como mostrar que o imperador está nu? A sátira é, de longe, a melhor arma; e o golpe que não pode ser apagado é aquele golpe auto- infligido. Ofereci aos editores da Social Text uma oportunidade de demonstrar seu rigor intelectual. Eles passaram no teste? Acho que não. Não digo isso com alegria, mas com tristeza. Afinal, também sou esquerdista (sob o governo sandinista eu lecionei matemática na Universidade Nacional da Nicarágua). Em praticamente todas as questões políticas - incluindo muita ciência e tecnologia relacionadas - estou no mesmo lado que os editores da Social Text. Mas sou um esquerdista (e feminista) por causa da evidência e da lógica, e não apesar destas. Por que deveria-se permitir que a facção de direita detenha o monopólio do alto nível intelectual? E por que deveria o absurdo auto-indulgente - qualquer que seja sua orientação política professada - ser laureada como o topo das conquistas eruditas?
Alan Sokal é Professor de Física na Universidade de Nova Iorque. É co-autor, com Roberto Fernández e Jürg Fröhlich, de Random Walks, Critical Phenomena, and Triviality in Quantum Field Theory (Springer, 1992), e co-autor, com Jean Bricmont, de Les impostures scientifiques des philosophes (post-)modernes. SIDEBAR: EXCERPT FROM ARTICLE Thus, general relativity forces upon us radically new and counterintuitive notions of space, time and causality; so it is not surprising that it has had a profound impact not only on the natural sciences but also on philosophy, literary criticism, and the human sciences. For example, in a celebrated symposium three decades ago on Les Langages Critiques et les Sciences de l'Homme, Jean Hyppolite raised an incisive question about Jacques Derrida's theory of structure and sign in scientific discourse ... Derrida's perceptive reply went to the heart of classical general relativity: The Einsteinian constant is not a constant, is not a center. It is the very concept of variability--it is, finally, the concept of the game. In other words, it is not the concept of something--of a center starting from which an observer could master the field--but the very concept of the game ...In mathematical terms, Derrida's observation relates to the invariance of the Einstein field equation Gμν = 8πTμν Comentários
Leonardo Freitas - drplanck@yahoo.com.br - Interessante q ainda existam pessoas que se importem com o que é produzido pelo homem na atualidade. Pensei q estivesse sozinho... Acreditava q tudo q é produzido no momento, atende rigorosamente aos interesses dos que detêm a tecnologia e o poder - onde a verdade é distorcida e novas teorias são criadas apenas para atender novos ditames políticos - e q nessa minha visão eu estava sozinho.
Milton Bins - profbins@terra.com.br - Li o livro do Prof. Sokal e, mais uma vez, meus piores temores se confirmaram. Tudo se passa como se a maioria das pessoas tivesse a mente dividida em compartimentos estanques, e usasse de critérios "conforme o caso". Pois, nunca encontrei um "pós-modernista" que se prestasse, por exemplo, a disparar um "ilusório" tiro em sua cabeça, etc! É mesmo difícil dizer se isso tudo é panaquice nova-erista, pose, ou simples falta de seriedade! |