Publicado: 20/02/2000
de Richard Dawkins
A Ciência Vista Como Uma Vela No Escuro, de Carl Sagan Enquanto eu fecho este livro eloqüente e fascinante, eu recordo o título do capítulo final de um dos primeiros trabalhos de Carl Sagan, Cosmos. "Quem Fala Pela Terra?" é a pergunta retórica, mas eu presumo respondê-la. Meu candidato para embaixador planetário não pode ser ninguém mais que o próprio Carl Sagan. Ele é sábio, humano, polimático, engenhoso, versado, e incapaz de compor uma frase enfadonha. Eu confesso o hábito, quando lendo livros, de sublinhar sentenças ocasionais que eu gosto particularmente: esse trabalho me forçou a desistir, simplesmente pra economizar tinta. Mas como posso eu não citar a resposta de Sagan para a pergunta por que ele se preocupa em trabalhar explicando a ciência? "Não explicar a ciência me parece perverso. Quando você está apaixonado, você quer contar isso para o mundo. Este livro é uma afirmação pessoal, refletindo meu perpétuo romance com a ciência." Alegre e exaltante através de muito do livro, ele contudo termina em um presságio. Ciência - não os fatos da ciência mas o método científico de pensamento crítico - "pode ser tudo o que se interpõe entre nós e a escuridão circundante". Essa é a escuridão das caçadas às bruxas medievais e modernas, do temor de demônios e OVNIs não existentes, da credulidade da humanidade na face dos gurus obscurantistas de meta-bobagens pós-modernas. A verdade têm seus inimigos, como Sagan documenta. Mas, talvez porque ele não vive na Inglaterra, ele deixa passar um problema separado encarado pela ciência em nossa cultura: um duplo padrão filistino. Quando o Daily Telegraph reportou uma pesquisa descobrindo que uma alta porcentagem de adultos pensam que o Sol gira em torno da Terra, o então Editor publicou "e não o faz? Ed." Se uma pesquisa decobre que 50 por cento dos adultos acreditam que Shakespeare escreveu O Iliade, que Editor iria achar divertido publicar um patético "E ele não o fez? Ed."? Esse é o duplo padrão. Quando os agressivos hábitos dos rottweilers estavam sendo excitadamente promovidos pela mídia de notícias um tempo atrás, a ministra responsável do governo foi no rádio para revelar a perturbadora extensão do problema. Cães, ela explicou pacientemente, não possuem DNA. Ignorância em tal escala não seria reprovável em uma ministra da Coroa, fosse o assunto qualquer coisa senão ciência. Entre os presentes que a ciência têm para oferecer está, nas palavras de Sagan, um kit de detecção de falácias. Assim é como se testa as credenciais dos superhumanos extraterrestres que vêm em multidões à Terra abduzir humanos para experimentos sexuais (para um considerável lucro das vítimas quando elas vendem suas estórias para a imprensa): "Ocasionalmente, eu recebo uma carta de alguém que está em "contato" com extraterrestres. Eu sou convidado a "perguntar" a eles "qualquer coisa". E então durante os anos eu preparei uma pequena lista de perguntas. Os extraterrestres são muito avançados, lembre-se. Então eu pergunto coisas como, "Por favor forneça uma pequena prova do Último Teorema de Fermat1"... Eu nunca recebo uma resposta. Por outro lado, se eu pergunto algo como "Nós devemos ser bons?" eu quase sempre recebo uma resposta. Qualquer coisa vaga, especialmente envolvendo julgamentos morais convencionais, esses aliens são extremamente felizes em responder. Mas sobre qualquer coisa específica, onde há a chance de descobrir se eles realmente sabem alguma coisa além do que a maioria dos humanos sabe, há apenas silêncio." Os cientistas são algumas vezes suspeitos de arrogância. Sagan elogia em contraste a humildade da Igreja Católica Romana que, no começo de 1992, estava pronta para garantir o perdão a Galileu e admitir publicamente que a Terra realmente gira em torno do Sol. Nós devemos torcer que essa declaração magnânima não cause nenhuma ofensa ou "machuque" a "suprema autoridade religiosa da Arábia Saudita, Sheik Abdel-Aziz Ibn Baaz" que, de acordo com Sagan, em 1993 "emitiu um édito, ou fatwa, declarando que a terra é achatada. Qualquer um da persuasão redonda não acredita em Deus e deve ser punido." Arrogância? Os cientistas são amadores em arrogância. Além disso, eles possuem um mínimo para serem arrogantes: Os cientistas "podem rotineiramente predizer um eclipse solar, desde um minuto, até um milênio adiante. Você pode ir ao curandeiro para fazer um feitiço que causa a sua anemia perniciosa, ou você pode tomar Vitamina B12. Se você quiser salvar o seu filho da pólio, você pode rezar ou você pode vacinar. Se você está interessado em saber o sexo do seu filho que ainda não nasceu, você pode fazer a simpatia com um anel girando suspenso por um fio1 o quanto quiser ... mas eles estarão certos, na média, apenas uma vez em duas. Se você quer precisão real ... tente amniocenteses e sonogramas. Tente a ciência." Eu queria que eu tivesse escrito O Mundo Assombrado pelos Demônios. Tendo falhado em fazê-lo, o mínimo que eu posso fazer é empurrar ele para os meus amigos. Por favor, leia esse livro. Notas: 1 - O último teorema de Fermat já foi resolvido. E foi por humanos. Voltar 2 - "Plumb bob" é o peso de um fio de prumo. O tal "plumb-bob danglers" é a técnica de adivinhação do sexo do bebê pelo sentido de giro de um fio com um peso na ponta (um anel, uma agulha ou outro pequeno objeto): se for horário será de um dos sexos se for anti-horário de outro (não me pergunte qual é qual nem o que acontece quando o bebê é hermafrodita). [Enviado por Roberto M. Takata] Voltar Comentários
Pedro Bertolino - pebert@intergate.com.br - O problema mais sério que está na base da apologia à Ciência reside no maniqueísmo cartesiano ou na absolutização da Verdade. Não aprendemos ainda a conviver com a multiplicidade e diversidade de racionaliadades ou conhecimentos. Assim, um abriga das "arábias" ou da Idade Média Ocidental transforma tanto Deus quanto a ciência em porretes. Cada coisa posta em seu lugar: tanta polêmica inútil seria dispensada e nos beneficiaríamos muito mais por essa criação humana insuperável que é a Ciência. Carl Sagan sempre deixou isso nas entrelinha de seus textos adimiráveis. Mas, Dawkins esteve empolgado demais. Com quem afinal ele está brigando?
Jorge Tardan - jtardan@bol.com.br - Infelizmente da mesma maneira que a grande maioria da raça humana não domina temas como o último teorema de Fermat, a grande maioria dos cientistas não se preocupa em divulgar, de uma maneira não enfadonha, a ciência como um antídoto para os males advindos da ignorância e da credulidade, como o fazem Dawkins e outros, daí o vácuo que se forma, quando pessoas como o grande mestre e mentor Carl Sagan morrem.
Fernanda Sais - lifer@iconet.com.br - Eu acho que fazer tais perguntas aos (supostos) extra-terrestres é um pouco demais... Numa sociedade avançada (tome o exemplo da própria Terra — supostamente avançada) tecnologicamente é possível que nem todos os habitantes (na verdade a maior parte deles) dominem temas como, por exemplo, o último teorema de Fermat (ou, me atreveria a dizer, teoremas de qualquer espécie). Façamos um teste: as perguntas de Carl Sagan seriam respondidas como pelos nossos viajantes espaciais em potencial? Luiz Fernando Fabris - felipefabri@sol.com.br, enviou em 24/07/2000 O último parágrafo dá uma justa medida do caráter e da isenção de Richard Dawkins. |