Richard Dawkins
 
 
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Atualizado: 04/05/2003
   
                     
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de Richard Dawkins


Apresento meu primo...A maioria das pessoas tem certeza que os humanos são mais importantes que os macacos. Mas essa pressuposição tem mais a ver com a ética de dois pesos, duas medidas, que com a biologia.

O senhor está pedindo dinheiro para salvar os gorilas. Muito louvável sem dúvida. Mas não parece ter ocorrido ao senhor que há milhares de crianças humanas sofrendo no mesmo continente, o africano. Haverá tempo o suficiente para nos preocuparmos com os gorilas quando tivermos cuidado de cada uma dessas crianças. Vamos escolher as prioridades corretas, por favor!

Esta carta hipotética poderia ter sido escrita por praticamente qualquer pessoa bem intencionada hoje em dia. Ao satirizá-la, não quero dizer que não seria uma boa idéia dar às crianças humanas a prioridade que espero que se possa, e que também seria uma boa idéia fazê-lo da outra forma. Só estou tentando indicar a natureza impensada e automática da ética especiesista de dois pesos, duas medidas. Para muitas pessoas é simplesmente auto-evidente, sem qualquer discussão, que os humanos são merecedores de tratamento especial.

Para tornar isto evidente, considere a seguinte variação da mesma carta:
O senhor está pedindo dinheiro para salvar os gorilas. Muito louvável sem dúvida. Mas não parece ter ocorrido ao senhor que há milhares de porcos-formigueiros [porco comedor de formigas, parecido com o tamanduá] sofrendo no mesmo continente, o africano. Haverá tempo o suficiente para nos preocuparmos com os gorilas quando tivermos cuidado de cada um desses porcos-formigueiros. Vamos escolher as prioridades corretas, por favor!

Esta segunda carta não deixaria de levantar a questão: “O que há de tão especial nos porcos-formigueiros?” Uma boa pergunta, que exigiria uma resposta satisfatória antes que levássemos a carta a sério. Ainda assim a primeira carta, eu sugiro, não faria a maioria das pessoas fazer a pergunta equivalente: “o que há de tão especial com os humanos?” Como disse, não nego que essa questão, ao contrário da questão sobre os porcos-formigueiros, muito provavelmente tem uma resposta poderosa. Estou apenas criticando a pressuposição impensada de que no caso dos humanos a questão não é levantada.

“'Humano', para a mente descontínua, é um conceito absoluto. Não pode haver meio-termo. E a partir disso, muito mal é feito.”

A pressuposição especiesista que se espreita aqui é muito simples. Humanos são humanos e gorilas são animais. Há um indiscutível golfo tão grande se abrindo entre eles que a vida de uma única criança humana vale mais do que a vida de todos os gorilas do mundo. O valor da vida de um animal é apenas o custo de substituição para seu proprietário – ou, no caso de uma espécie rara, para a humanidade. Mas coloque o rótulo de Homo sapiens mesmo a um minúscula pedaço insensível de tecido embrionário, e sua vida subitamente salta para um valor infinitamente incalculável.

Essa maneira de pensar caracteriza o que quero chamar de mente descontínua. Todos concordaríamos que uma mulher de 1,83m de altura é alta e que uma mulher de 1,52m não é. Palavras como “alta” e “baixa” nos tentam a forçar o mundo em classes qualitativas, mas isso não significa que o mundo realmente esteja distribuído descontinuamente. Se você me dissesse que uma mulher tem 1,75m de altura e me pedisse para decidir se ela deveria ser chamada de alta ou não, eu daria de ombros e diria “se ela tem 1,75m isso já não te diz o que você precisa saber?” Mas a mente descontínua, para caricaturizar um pouco, iria ao tribunal (provavelmente a um custo bem alto) para decidir se a mulher é alta ou baixa. De fato, quase não preciso dizer caricatura. Por muitos anos, os tribunais da África do Sul têm tido um trabalho duro julgando se indivíduos em particular, de ascendência mista, devem contar como brancos, negros ou de cor.

A mente descontínua está em toda parte. Ela é especialmente influente quando aflige os advogados e os religiosos (todos os juízes não somente são advogados, mas uma grande proporção dos políticos também é – e todos os políticos têm que conquistar o voto dos religiosos). Recentemente, após dar uma palestra pública, fui questionado por um advogado na platéia. Ele trouxe todo o peso de sua argúcia legal confrontar um ponto interessante da evolução. Se a espécie A evolui para a espécie posterior B, ele argumentou, deve haver um ponto em que a mãe pertence à espécie A e o filhote pertence à nova espécie B. Membros de espécies diferentes não podem se cruzar. Então te proponho, ele prosseguiu, que um filhote dificilmente seria tão diferente de seus pais a ponto de não poder se cruzar com sua espécie. Assim, ele concluiu triunfantemente, isso não é uma falha fatal na teoria da evolução?

Um Anel ao Redor do Mundo

Mas somos nós que escolhemos dividir os animais em espécies descontínuas. De acordo com o ponto de vista evolucionário da vida, tem de ter havido intermediários, embora, de forma conveniente para os nossos rituais de nomenclatura, eles estejam geralmente extintos: geralmente, mas não sempre. O advogado ficaria surpreso e, espero, intrigado pelas assim chamadas espécies-anel.

O caso mais conhecido é a gaivota argêntea (ou gaivota prateada – Larus argentatus) contra a gaivota de asa escura (Larus fuscus). Na Grã-Bretanha elas são espécies claramente distintas, bastante diferentes na cor. Qualquer um pode diferenciá-las. Mas se você seguir a população de gaivotas argênteas para o oeste ao redor do hemisfério norte até a América do Norte, e então pelo Alasca através da Sibéria e de volta para a Europa, você notará um fato curioso. A “gaivota argêntea” gradualmente se torna menos e menos semelhante às gaivotas argênteas e mais e mais semelhante às gaivotas de asa escura.

Descobre-se que as nossas gaivotas de asa escura européias são a outra extremidade de um anel que começou como gaivotas argênteas. Em cada estágio ao longo do anel, os pássaros são suficientemente semelhantes aos seus vizinhos para cruzar com eles. Até que se chega ao final do contínuo, na Europa. Nesse ponto a gaivota argêntea e a gaivota de asa escura nunca se cruzam. A única coisa especial a respeito das espécies-anel é que os intermediários ainda estão vivos. Todos os pares de espécies aparentadas são potencialmente espécies-anel. Os intermediários devem ter vivido algum dia. Acontece que na maioria dos casos eles estão mortos agora.

A mente descontínua treinada do advogado insiste em colocar indivíduos firmemente nessa ou naquela espécie. Ele não admite a possibilidade de que um individuo possa estar a meio caminho entre as duas espécies, ou a um décimo do caminho da espécie A até a espécie B. Partidários auto-intitulados pró-vida, e outros que se dedicam a debates absurdos sobre onde exatamente em seu desenvolvimento o feto “se torna humano”, exibem a mesma mentalidade descontínua. É inútil dizer a essas pessoas que, dependendo de quais características humanas te interessam, um feto pode ser “meio humano” ou “um centésimo humano”. “Humano”, para a mente descontínua, é um conceito absoluto. Não pode haver meio-termo. E a partir disso, muito mal é feito.

O termo “macacos” geralmente significa chimpanzés, gorilas, orangotangos, gibões e siamangos (Symphalangus syndactylus). Admitimos que somos semelhantes aos macacos, mas raramente percebemos que somos macacos. Nosso ancestral comum com os chimpanzés e os gorilas é muito mais recente que seu ancestral comum com os macacos asiáticos – os gibões e orangotangos. Não há uma categoria natural que inclua os chimpanzés, gorilas e orangotangos, mas exclua os humanos. A artificialidade da categoria “macacos”, como entendida convencionalmente para excluir os humanos, é demonstrada pela Figura 1. Essa árvore genealógica mostra os humanos no meio do aglomerado dos macacos.

Evolução dos macacos
Figura 1 É mais natural agrupar os humanos com certos primatas, como na categoria “Macacos Africanos” (abaixo), do que excluí-los como a categoria convencional de “Macacos” faz (acima)

Todos os grandes macacos que já viveram, incluindo a nós mesmos, estão ligados uns aos outros por uma corrente ininterrupta de laços pai-filho. O mesmo é verdadeiro para todos os animais e plantas que já viveram, mas as distâncias envolvidas são muito maiores. Provas moleculares sugerem que nosso ancestral comum com os chimpanzés viveu, na África, entre cinco e sete milhões de anos atrás, digamos há meio milhão de gerações. Isso não é muito pelos padrões evolucionários.

Às vezes organizam-se eventos nos quais milhares de pessoas dão as mãos e formam uma corrente humana, digamos de costa a costa dos EUA, em apoio a alguma causa ou instituição de caridade. Vamos imaginar colocar uma corrente dessas ao longo do equador, através da largura do nosso continente natal, a África. É um tipo especial de corrente, envolvendo pais e filhos, e teremos que fazer alguns truques com o tempo a fim de imaginá-la. Você fica numa margem do Oceano Índico no sul da Somália, olhando para o norte, e dá sua mão esquerda à sua mãe. Por sua vez, ela dá sua mão esquerda para a mãe dela, a sua avó. Sua avó segura a mão da mãe dela, e assim por diante. A corrente segue seu caminho pela praia, através da savana, em direção ao oeste, na direção da fronteira do Quênia.

Quão longe temos que ir para atingir o nosso ancestral comum com os chimpanzés? É um caminho surpreendentemente curto. Permitindo cerca de um metro [no original 1 jarda = 0,91 metros] por pessoa, chegamos à ancestral que compartilhamos com os chimpanzés em menos de 483Km [no original 300 milhas = 483Km]. Mal começamos a cruzar o continente; ainda não percorremos nem meio-caminho até o Vale da Grande Fenda. A ancestral está bem a leste do Monte Quênia, e segurando em sua mão uma corrente inteira de seus descendentes lineares, culminando em você, de pé na praia Somali.

"Todos os grandes macacos que já viveram, incluindo a nós mesmos, estão ligados uns aos outros por uma corrente ininterrupta de laços pai-filho”

A filha cuja mão ela está segurando em sua mão direita é aquela de quem somos descendentes. Agora, a arqui-ancestral volta seu rosto para o leste, olhando para a costa e com sua mão esquerda ela agarra sua outra filha, aquela de quem os chimpanzés são descendentes (ou filho, é claro). As duas irmãs estão se entreolhando e cada uma segurando sua mãe pela mão. Agora a segunda filha, a ancestral dos chimpanzés, segura a mão de sua filha e uma nova corrente é formada, seguindo em direção à costa. A primeira prima olha para a primeira prima, a segunda prima olha para a segunda prima, e assim por diante. Quando a corrente dupla atingiu a costa novamente, ela consiste os chimpanzés modernos. Você está face a face com sua prima chimpanzé, e você está unido a ela por uma corrente ininterrupta de mães de mãos dadas com suas filhas.

Se você percorresse a linha para cima como um general inspecionando – passando pelo Homo erectus, Homo habilis, talvez o Australopithecus afarensis – e para baixo pelo outro lado (os intermediários do lado chimpanzé não são nomeados porque, até agora, nenhum fóssil foi encontrado), você não encontraria em parte alguma uma descontinuidade abrupta. As filhas se pareceriam com suas mães tanto (ou tão pouco) quanto elas sempre se pareceram. As mães amariam as filhas e sentiriam afinidade com elas, da forma como elas sempre fazem. E esse continuum de mãos dadas, unindo-nos indelevelmente aos chimpanzés, é tão curto que mal cruza o interior da África, o continente mãe.

Procriando com Elos Perdidos

A nossa corrente de macacos africanos, dubplicando-se sobre si mesma, é em miniatura como o anel de gaivotas ao redor do hemisfério norte, exceto que os intermediários já estão mortos. O ponto que quero enfatizar é que, no que tange à moralidade, deveria ser incidental que os intermediários estejam mortos. E se eles não estivessem? E se um grupo de espécimes intermediários tivesse sobrevivido, o bastante para nos ligar aos chimpanzés modernos por uma corrente, não apenas de mãos dadas, mas de intercruzamentos? Lembra da canção “dancei com um homem, que dançou com uma garota, que dançou com o Príncipe de Gales”? Não podemos (quase) nos procriar com os chimpanzés modernos, mas precisaríamos apenas de um punhado de espécimes intermediários para sermos capazes de cantar: “procriei com um homem, que procriou com uma garota, que procriou com um chimpanzé”.

É uma sorte rara que esse punhado de intermediários não exista mais. (“Sorte” de alguns pontos de vista; pessoalmente, eu adoraria conhecê-los). Mas nesse caso as nossas leis e regras morais teriam sido muito diferentes. Precisamos apenas descobrir um único sobrevivente; digamos um Australopithecus remanescente na Floresta Budongo, e o nosso precioso sistema de normas e de ética seria despedaçado. As fronteiras com as quais segregamos o nosso mundo seriam despedaçadas. O racismo se esvaneceria junto com o especiesismo numa confusão inflexível e brutal. O Apartheid, para aqueles que acreditam nele, assumiria uma importância NOVA E TALVEZ MAIS URGENTE.

Quimera
A descoberta de um único sobrevivente chimpanzé/humano demoliria o nosso sistema de ética.

Mas por que, um filosofo poderia perguntar, isso deveria ser importante para nós? Afinal, não é apenas a mente descontínua que deseja erguer barreiras? E daí se, no continuum de todos os macacos que já viveram na África, aconteceu de os sobreviventes deixarem uma lacuna conveniente entre o Homo e o Pan?

Certamente não deveríamos, em qualquer caso, basear o nosso tratamento aos animais no fato de pordermos ou não procriar com eles. Se queremos justificar nossa ética dos dois pesos, duas medidas – se a sociedade concorda que as pessoas devem ser tratadas melhor do que, digamos, as vacas (as vacas podem ser cozidas e comidas, as pessoas não) – deve haver razoes melhores do que o parentesco de primos. Os humanos podem ser taxonomicamente distantes das vacas, mas não é mais importante o fato que somos mais inteligentes? Ou melhor, de acordo com Jeremy Bentham, que os humanos podem sofrer mais que as vacas, mesmo se elas detestarem a dor tanto quanto os humanos (e por que raios deveríamos supor que não é assim?), por não saberem o que está por vir?

Suponha que a linhagem do polvo tenha desenvolvido cérebros e sentimentos comparáveis aos nossos; eles podem bem ter feito isso. A mera possibilidade mostra a natureza acidental do parentesco de primos. Então, o filósofo moral pergunta, por que enfatizar a continuidade humano/chimpanzé? Sim, num mundo ideal nós provavelmente apresentaríamos uma razão melhor do que o parentesco de primos, para, digamos, preferirmos apenas comer carne a sermos canibais. Mas o fato melancólico é que, no momento, as atitudes morais da sociedade repousam quase inteiramente no imperativo especiesista e descontínuo.

E se alguém conseguisse criar um híbrido humano/chimpanzé? Posso assegurar, sem medo de contradição, que as noticias sacudiriam o mundo. Os bispos iriam relinchar, os advogados exultariam em antecipação, os políticos conservadores iriam trovejar, os socialistas não saberiam onde pôr suas barricadas. O cientista que tivesse obtido tal feito seria banido dos âmbitos politicamente corretos, denunciado no púlpito e na imprensa marrom, condenado, talvez, pela fatwa de um aiatolá. A política nunca mais seria a mesma, nem a teologia, a sociologia, a psicologia ou a maioria dos ramos da filosofia. O mundo que seria sacudido, por tal evento incidental como uma hibridização, é de fato um mundo especiesista, dominado pela mente descontínua.

Argumentei que a lacuna descontínua entre os humanos e os “macacos“ que erguemos em nossas mentes é lamentável. Também argumentei que, em qualquer caso, a presente posição de lacuna sacrossanta é arbitrária – o resultado de um acidente evolucionário. Se as contingências da sobrevivência e da extinção tivessem sido diferentes a lacuna estaria num lugar diferente. Os princípios éticos que são baseados num capricho acidental não deveriam ser levados à sério embora estejam gravados em pedra.

***

Da New Scientist, 5 de junho de 1993.

Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.fortunecity.com/emachines/e11/86/chimp.html
  • Traduzido por: Arnaldo Elias
  • Revisado por: Leo Vines
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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