Carl Sagan
 
 
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Atualizado: 12/11/2002
   
                     
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de Carl Sagan


Nas ultimas décadas a espécie humana começou seriamente e sistematicamente a procurar por evidências de vida em outros mundos. Enquanto ninguém ainda encontrou organismos vivos além da Terra, há razões para termos esperança. Naves espaciais robóticas identificaram mundos onde a vida pode ter florescido, mesmo se hoje não floresce mais lá. A nave espacial Galileo encontrou sinais claros de vida durante seu recente vôo pela Terra - uma confirmação de que nós realmente sabemos como descobrir pelo menos certos tipos de vida. E a acumulação rápida de fortes evidências sugerem que o universo esta repleto de sistemas planetários como o nosso.

Na prática, a comunidade científica, preocupada em encontrar vida em outros lugares do sistema solar, se contenta com uma aproximação química. Os seres humanos, bem como todos os outros organismos na Terra, se baseiam em água e moléculas orgânicas (moléculas orgânicas são compostos contendo carbono exceto na forma de dióxido de carbono e monóxido de carbono). Uma estratégia de pesquisa modesta - procurando por critérios necessários se não suficientes - poderia começar procurando por água na forma líquida e moléculas orgânicas. Claro que, tal protocolo poderia deixar escapar formas de vida das quais desconhecemos, mas isso não significa que não poderíamos detectá-las por outros métodos. Se uma girafa composta por silício tivesse passado pela Viking Mars Lander, seu retrato teria sido tirado.

Na verdade, concentrar-se em matéria orgânica e água líquida não é tão paroquial e chauvinista quanto parece. Nenhum outro elemento químico se aproxima do carbono na variedade e complexidade dos compostos que ele pode formar; a água propícia uma meio estável e super no qual moléculas orgânicas podem dissolver e interagir. E mais, moléculas orgânicas são surpreendentemente comuns no universo. Astrônomos encontram evidências para elas em todos os lugares, desde gases interestrelares a grãos de poeira, a meteoritos e em muitos mundos fora do sistema solar.

Algumas outras moléculas - como o fluoreto de hidrogênio por exemplo - poderiam se aproximar da água em sua característica de dissolverem outras moléculas, mas a abundância cósmica de flúor é extremamente baixa. Certos átomos, tal como o silício, poderiam ser capazes de adquirirem algumas funções do carbono em uma química de vida alternativa, mas a variedade de moléculas que carregam informações que estes fornecem parecem comparativamente espaças. E mais, o equivalente em silício do dióxido de carbono (dióxido de silício, o principal componente de vidros comuns) é, em todas as superfícies planetárias, um sólido e não um gás. Esta distinção certamente iria complicar o desenvolvimento dos metabolismos baseados em silício.

Em mundos extremamente frios, onde a água é um sólido congelado, um outro solvente - amônia líquida - poderia ser a chave para uma forma diferente de bioquímica. Em baixas temperaturas, algumas classes de moléculas requerem muito pouca energia para realizarem reações químicas, mas pelo fato de nossos laboratórios estarem a temperatura ambiente e não, digamos, a temperatura da lua Triton de Netuno, nosso conhecimento destas moléculas podem ser bem inadequadas. Apesar de no momento, formas de vida baseadas em carbono e água são os únicos tipos que conhecemos ou até mesmo imaginar.

Na Terra as moléculas chaves da vida são os ácidos nucleicos (DNA e RNA), que formam as instruções hereditárias e as proteínas que, como as enzimas, controlam catalíticamente a química celular e orgânica. O livro código para traduzir as informações dos ácidos nucleicos em estruturas protéicas é essencialmente idêntica para toda a vida na Terra. Esta profunda uniformidade na hierarquia química sugere que todo organismo em nosso planeta evoluiu de um evento comum da origem da vida. Se for assim, nós não temos nenhuma maneira de saber quais aspectos da vida terrestre são necessários (para todos os seres vivos) e quais são meramente contingentes (os resultados de uma dada seqüência de acontecimentos que, se tivessem sido contrários, poderiam ter levado a organismos com propriedades muito diferentes). Nós podemos especular, mas somente examinando a vida em outros lugares é que biólogos podem verdadeiramente determinar o que mais é possível.

O lugar óbvio para se começar a busca por vida é em nosso próprio sistema solar. Naves espaciais roborizadas tem explorado mais de 70 planetas, satélites, cometas e asteróides à distâncias variando de uns 100 a 100.000 quilômetros. Essas naves foram equipadas com magnetômetros, detectores de íons, sistemas de imagem, instrumentos fotômetros e espectrômetros que detectam radiação variando de ultravioleta a ondas de rádio de um quilômetro de comprimento. Para a lua, Vênus e Marte, observações de naves orbitais e sondas tem confirmado e expandido seus achados transmitindo-os de volta por naves mais próximas.

Nenhum destes experimentos encontrou indicações convincentes, ou até mesmo sugestivas, de vida extraterrestre. E ainda assim, tal vida, se ela existir, poderia ser bem diferente das formas com as quais estamos familiarizados, ou poderiam ser insignificantes. Ou as técnicas de detecção remota usadas para examinar outros mundos poderiam não ser tão sensíveis aos mínimos sinais de vida em outros mundos. O teste mais elementar destas técnicas - a detecção de vida na Terra por instrumentos em naves espaciais - nunca tinha sido tentado até recentemente. A nave Galileo da NASA ratifica esta omissão.

A Galileo é uma nave espacial de duplo propósito que incorpora uma nave orbital para Júpiter e uma sonda de reentrada; ela está atualmente no espaço interplanetário e está programada para chegar em Júpiter em dezembro de 1995. Por razões técnicas, a NASA não conseguiu enviar a Galileo em curso direto para Júpiter; ao invés, a missão incorporou três empurrões gravitacionais - dois da Terra e um de Vênus - para observações de nosso planeta. Os instrumentos da Galileo não foram projetados para uma missão de encontro a Terra, então esta circunstância fortuita propiciou um experimento controle: uma busca por vida na Terra usando uma típica sonda planetária moderna. O resultado do encontro com a Galileo em dezembro de 1990 provou-se bem instrutivo.

Um observador observando as informações da Galileo notaria imediatamente alguns fatos incomuns para a Terra. Quando meus colegas de trabalho e eu examinamos o espectro tirado da Galileo dos comprimentos de ondas próximo do infravermelho (só um pouco maior que a luz vermelha), nós notamos um forte aumento na luminosidade de 0,76 mícron, um comprimento de onda no qual moléculas de oxigênio absorvem radiação. A proeminência desta característica de absorção implica em uma enorme quantidade de moléculas de oxigênio na atmosfera terrestre, muitas ordens de magnitude maior que a encontrada em qualquer outro planeta no sistema solar.

Devagar o oxigênio combina-se com as rochas na superfície da Terra, então a atmosfera rica em oxigênio requer um mecanismo repositor. Um pouco de é liberado quando a luz ultravioleta do sol divide a molécula de água (H2O), e os átomos de hidrogênio de baixa massa preferencialmente escapam para o espaço. Mas a grande concentração de oxigênio (20%) na densa atmosfera terrestre é bem difícil de explicar por este processo.

Se a luz visível, ao invés da ultravioleta, pudesse dividir as moléculas de água, abundância de oxigênio poderia ser explicada, porque o sol emite muito mais fótons de luz visível do que de ultravioleta. Mas os fótons da luz visível são fracos demais para partir a ligação H-OH na água. Se houvesse uma maneira de combinar dois fótons de luz visível para quebrar a molécula de água, então tudo teria uma solução rápida. No entanto até o que sabemos, não há meios de se alcançar este feito - exceto através da vida, especialmente pela fotossíntese nas plantas. A prevalência de moléculas de oxigênio na atmosfera terrestre é a nossa primeira pista de que o planeta contém vida.

Quando a Galileo fotografou a Terra. Ela encontrou evidências inconfundíveis de uma faixa de absorção aguda pintando os continentes: uma substância estava absorvendo radiações de comprimento de onda de algo em torno de 0,7 mícron (a parte mais avermelhada do espectro visível). Nenhum mineral conhecido mostra tal característica, e não é encontrado em nenhum outro lugar no sistema solar. A substância misteriosa é na verdade um tipo de pigmento absorvente de luz que esperaríamos encontrar se fótons visíveis forem unidos para quebrar a água e gerar oxigênio molecular. A Galileo detectou detectou este pigmento - que nós conhecemos como clorofila - cobrindo a maior parte do solo terrestre. (Plantas são verdes precisamente porque a clorofila reflete a luz verde e absorve a vermelha e azul). A prevalecência da faixa vermelha de clorofila oferece uma Segunda razão para pensar que a Terra é um planeta habitado.

O espectrômetro infravermelho da Galileu também detectou um traço de metano, quantidade de mais ou menos uma parte por milhão. Apesar disso parecer insignificante, ele está em surpreendente desequilíbrio com todo aquele oxigênio. Na atmosfera terrestre, metano se oxida rapidamente em água e dióxido de carbono. Em equilíbrio termodinâmico, os cálculos indicam que nenhuma molécula de metano deveria sobrar. Algum processo incomum ( sabemos que incluem o metabolismo bacterial em pântanos, rumina e térmites) deve continuamente renovar o suprimento de metano. O profundo desequilíbrio do metano é o terceiro sinal de vida na Terra.

Finalmente, o instrumento de onda-plasma da Galileo pegou uma faixa estreita de emissões de rádio de amplitudes moduladas vindas da Terra. Estes sinais começam na freqüência de transmissões de rádio da superfície da Terra e são capazes de escapar da ionosfera; elas não parecem com nenhuma fonte de ondas de rádio conhecida, tal com os relâmpagos e a magnetosfera terrestre. Tais sinais ordenados de rádio incomum sugerem fortemente a presença de uma civilização tecnológica. Este é o quarto sinal de vida o único que não teria sido aparente à uma nave espacial semelhante sobrevoando a Terra em qualquer época há uns 2 bilhões de anos.

A missão da Galileo serviu como um experimento controle significante da habilidade das naves espaciais de sensoriamento remoto de detectar vida em vários estágios do desenvolvimento evolucionário em outros mundos no sistema solar. Estes resultados positivos nos encoraja no propósito de sermos capazes de detectar sinais de vida em outros planetas. Dado que nós não encontramos nenhuma evidência, nós concluímos sem muita certeza que atividade biológica difundida somente existe, entre todos os corpos do sistema solar, na Terra.

Marte é o planeta mais próximo cuja superfície podemos ver. Ela tem uma atmosfera, calotas polares, mudanças de estações e um dia de 24 horas. Para gerações de cientistas, escritores e o publico em geral, Marte parecia ser o mundo mais provável de sustentar vida extraterrestre. Mas sondas e naves orbitais em volta de Marte não encontraram nenhum excesso de oxigênio molecular, nenhuma substância - de qualquer natureza - enigmaticamente e profundamente fora do equilíbrio termodinâmico, nenhum inesperado pigmento superficial e nenhuma emissão modulada de rádio. Em 1976 a NASA aterrizou duas naves Viking em Marte. Eu fui um dos pesquisadores naquela missão. As naves estavam equipadas com instrumentos suficientemente sensíveis para detectar vida mesmo em desertos menos promissores e lugares estéreis na Terra.

Um experimento mediu as trocas gasosas entre amostras da superfície de Marte e a atmosfera local na presença de números orgânicos levados da Terra. Um segundo experimento levou uma variedade de alimentos orgânicos marcados por um marcador radioativo, para ver se haviam formas de vida no solo de Marte que comiam e oxigenavam-na, liberando dióxido de carbono radioativo. Um terceiro experimento expôs o solo marciano a dióxido de carbono radioativo e monóxido de carbono para determinar se algum deles foi consumido por micróbios.

Para a surpresa inicial de, eu acho, todos os cientistas envolvidos, cada um dos três experimentos Viking deu o que de início pareciam ser resultados positivos. Gases foram trocados; matéria orgânica foi oxidada; dióxido de carbono foi incorporado ao solo.

Mas há razões para que estes resultados provocativos geralmente estarem fornecendo um argumento convincente para a vida em Marte. Os processos metabólicos amplamente conhecidos de micróbios marcianos ocorreram sob uma vasta gama de condições: úmido e seco, no claro e escuro, frio (só um pouco acima do congelamento) e quente (quase o ponto de ebulição normal da água). Muitos microbiologistas consideram improvável que microorganismos marcianos seriam tão capazes sob tais condições variadas. Uma outra forte razão para ceticismo é que um experimento adicional para procurar por moléculas orgânicas no solo marciano deu resultados uniformemente negativos, apesar dos instrumentos detectarem tais moléculas à uma sensibilidade de algo em torno de uma parte em um bilhão. Nós esperávamos que qualquer vida em Marte - como a vida na Terra - seria uma expressão da química de moléculas a base de carbono. Não encontrarmos nenhuma de tais moléculas foi desconsertante para os otimistas entre os exobiologistas.

Os resultados positivos aparentes dos experimentos de detecção de vida pelas duas naves Viking são agora geralmente atribuídos a produtos químicos que oxidam o solo. Estes produtos químicos se formam quando a luz solar ultravioleta irradia a atmosfera marciana. Um monte de cientistas do projeto Viking ainda se perguntam se organismos extremamente fortes e resistentes poderiam existir, tão finamente sobre o solo marciano que suas químicas orgânicas não poderiam ser detectadas mas seus processos metabólicos pudessem. Esses cientistas não negam a presença de oxidantes gerados por ultravioleta, mas eles enfatizam que ninguém ainda foi capaz de explicar completamente os resultados de detecção de vida em dos Vikings com base somente nos oxidantes. Uns poucos pesquisadores fizeram alegações tentadoras de terem encontrado matéria orgânica em uma classe de meteoritos (os meteoritos SNC) que acreditam serem pedaços da superfície marciana lançados ao espaço durante impactos antigos. Mais provavelmente, os materiais orgânicos consistem de contaminantes que entram no meteorito depois de sua chegada no nosso mundo. Até agora não há nenhuma alegação da descoberta de microorganismos marcianos nesses pedregulhos celestes.

No momento, é seguro dizer a Viking não encontrou nenhum caso evidente de vida em Marte. Nenhum traço não ambíguo de vida emergiu de quatro experimentos diferentes e extremamente sensíveis conduzidos em dois locais 5.000 quilômetros distantes entre si num planeta onde ventos fortes transportam partículas ao redor do globo. Os achados da Viking sugerem que Marte é, hoje pelo menos, um planeta sem vida.

Poderia Marte ter sustentado vida em um passado distante? A resposta depende muito de quão rápido a vida poderia surgir, um tópico sobre o qual nós nos mantemos tristemente ignorantes. Os astrônomos estão bem certos que, inicialmente, a Terra era inóspita à vida por causa de colisões de planetesimais, os tijolos planetários que se agregaram para formar a Terra. No princípio, a Terra era coberta por uma profunda camada de rocha derretida. Depois que esse magma se esfriou, a chegada ocasional de grandes planetesimáis teriam fervido os oceanos e esterilizados a Terra, se a vida tivesse surgido.

As coisas por aqui não se acalmaram até mais ou menos 4,0 bilhões de anos atrás. No entanto, fosseis revelam que por volta de 3,6 bilhões de anos atrás a Terra estava repleta de vida microbial (incluindo grandes estromatolites do tamanho de uma bola de basquete, colônias de microorganismos. Estas primitivas formas de vida parecem ter sido bioquímicamente bem adaptadas. Muitas eram foto sintéticas, contribuindo aos poucos para a bizarra atmosfera rica em oxigênio da Terra. Manfred Schidlowski do Instituto de Química do Max Planck em Mainz estudou as taxas de isótopos de carbono preservados em rochas antigas. Este trabalho produziu evidências (contestadas) de que a vida já estava florescendo 3,8 bilhões de anos atrás.

O tempo disponível mencionado para a origem da vida na Terra está sendo então espremido em duas direções. De acordo com o conhecimento recente, essa quantidade de tempo pode ser tão curta quanto 100 milhões de anos. Quando pela primeira vez eu prestei atenção a esse "encurtamento"- em 1973, depois que amostras lunares trazidas pela Apolo confirmaram a cronologia dos impactos na lua - eu argumentava que a rapidez com que a vida surgiu na Terra poderia implicar que este é um processo provável. É perigoso extrapolar a partir de um exemplo simples, mas seria uma circunstância verdadeiramente incrível se a via aparecesse rapidamente aqui enquanto que em muitos outros mundos similares, dado um tempo comparável, não.

Entre 4,0 e 3,8 bilhões de anos atrás, as condições em marte também podem Ter favorecido o surgimento de vida. A superfície marciana esta coberta de evidências de rios primitivos, lagos e talvez até mesmo oceanos com mais de 100 metros de profundidade. Marte de 4,0 bilhões de anos atrás era muito mais morno e úmido do que é hoje. Colocadas juntas, essas informações sugerem, apesar delas dificilmente provarem, que a vida pode ter surgido em Marte antigamente como ocorreu na Terra antigamente. Se for então, como Marte evoluiu de congênita a desolada, a vida teria sobrevivido no único refúgio remanescente,- talvez lagos salinos ou lugares onde o calor interior teria derretido o gelo permanente. A maioria dos cientistas planetários concordam que procurar por fósseis químicos ou morfológicos de vida primitiva deveria ter alta prioridade em uma futura exploração marciana, apesar de ser um chute, procurar por vida em oásis marcianos atualmente poderia ser uma aventura produtiva.

Hoje está claro que a química orgânica correu solta pelo sistema solar e mais além. Marte tem dois pequenos satélites, Phobos e Deimos, que por causa de suas cores escuras parecem ser feitos (ou pelo menos cobertos) por matéria orgânica. Eles são bem conhecidos por serem asteróides capturados de muito longe no sistema solar. De fato, parece haver uma vasta quantidade de pequenos mundos cobertos por matéria orgânica: os chamados asteróides tipos C e D no principal cinturão de asteróides entre Júpiter e Marte; os núcleos dos cometas tais como o cometa Halley; e a recém descoberta classe de asteróides próximos dos últimos planetas. Em 1986 a nave espacial Giotto da agência espacial Européia voou direto para dentro da nuvem de poeira em torno do cometa Halley, revelando que seu núcleo poderia ser feito de no máximo 25% de matéria orgânica.

Um tipo bem abundante de meteorito na Terra, conhecido como condríto carbonáceo, dizem ser feitos de fragmentos dos asteróides tipo C do cinturão principal. Meteoritos carbonáceos contém um resíduo orgânico rico em aromáticos e outros hidrocarbonos. Cientistas identificaram também um grande número de ácidos aminoácidos (os tijolos principais das proteínas) e nucleotídeos bases (os degraus da dupla hélice do DNA, que decodifica o código genético).

Fragmentos de asteróides e cometas que atravessaram a atmosfera da Terra em seus primórdios, carregavam com eles vastos depósitos de moléculas orgânicas. Algumas delas sobreviveram ao intenso calor da reentrada e portanto deve ter feito uma contribuição material significante para a origem da vida. Estes impactos teriam levado suprimentos similares de matéria orgânica, junto com água, para outros mundos. Estes mundos não precisam ser tão ricos em água líquida como é a Terra para as etapas críticas em química pré-biológica ocorrerem. A água poderia ser encontrada em lagos, reservatórios subterrâneos, como faixas finas de grãos minerais ou como gelo derretido formado por impactos.

Um dos mais fascinantes e instrutivos mundos ilustrando a química orgânica pré-biológica é a lua gigante de Saturno, Titã (que é tão grande quanto Mercúrio). Aqui nós podemos ver a síntese de moléculas orgânicas complexas acontecendo diante de nossos olhos. Titã tem uma atmosfera 10 vezes tão maciça quanto a Terra, composta principalmente de nitrogênio molecular, junto com um pouco metano (10%). Quando a Voyager 2 se aproximou de Titã em1981, ela não pôde ver a superfície porque este mundo estava totalmente encharcada por uma névoa de cor laranja avermelhada. A temperatura da superfície é muito baixa, em torno de 94 Kelvin, ou -179 graus Celsius. Se pudéssemos julgar pela sua densidade (muito mais baixa daquela de rochas sólidas) e da composição de mundos próximos, Titã deve ter uma grande quantidade de gelo sob e perto da sua superfície. Poucas moléculas orgânicas - hidrocarbonos e nitrítos - são encontrados como reles constituintes da atmosfera de Titã.

A luz ultravioleta do sol, partículas carregadas presas na atmosfera de Saturno e raios cósmicos juntos bombardeiam a atmosfera e iniciam reações químicas por lá. Quando W. Reid Thompson da Universidade de Cornell e eu consideramos a irradiação ultravioleta e a simulamos pelos bombardeiros elétricos da aurora boreal, e descobrimos que os resultados concordam bem com a abundância de constituintes orgânicos gasosos observados.

Meu colega Bishun N. Khare e eu em Cornell simulamos a pressão e composição dos níveis aproximados da atmosfera de Titã e irradiamos os gases com partículas carregadas. O experimento produziu um sólido orgânico escuro que nós chamamos de tholin de Titã, nós descobrimos que ela combina perfeitamente com as constantes ópticas derivadas das observações da névoa de Titã. Nenhum material proposto chegou perto.

Moléculas orgânicas se formam continuamente na atmosfera superior de Titã e lentamente caem enquanto novos tholins são gerados no alto. Se esse processo continuou durante os últimos 4 bilhões de anos, a superfície de Titã deve estar coberta por dezenas, talvez até centenas, de metros de tholin e outros produtos orgânicos. E mais, Thompson e eu calculamos que durante a história do sistema solar, uma típica localidade em Titã tem algo como 50% de chance de ter experimentado séculos de água líquida formada pelo calor liberado pelos impactos. Quando misturamos o tholin de Titã com água em laboratório, encontramos aminoácidos. Também há traços de bases de nucleotídeos, hidrocarbonos policíclicos aromáticos e uma maravilhosa coleção de outros compostos. Se 100 milhões de anos são suficientes para a origem da vida na Terra, poderiam 1000 anos serem suficientes em Titã? Poderia a vida ter começado em Titã durante séculos seguidos de impactos, quando lagos de água e poças de água - gelo se formaram temporariamente? Um exame mais próximo de Titã - por uma nave orbital de Saturno e uma sonda de reentrada em Titã - está marcado para ocorrer quando a missão Cassini da ESA-NASA alcançar o sistema de Saturno por volta de 2004.

Quando olhamos além do nosso sistema solar, dentro dos gases e poeira que lota o espaço interestrelar, novamente encontramos sinais interessantes da prevalência da química orgânica. Os astrônomos examinado microondas emitidas e absorvidas por moléculas à freqüência distintas identificaram mais de 4 dúzias de compostos orgânicos simples no espaço interestrelar - hidrocarbonos, aminos, álcool e nitratos, alguns deles possuindo longas cadeias de carbono, tal como HC11N. quando um nuvem de poeira interestrelar se encontra entre a Terra e uma fonte de infravermelho distante, é possível determinar qual comprimento da onda infravermelha é absorvido por grãos e então aprender sobre sua composição.

Presumem-se que algumas das luzes infravermelhas perdidas foram absorvidas por policíclicos aromáticos, hidrocarbonos similares aos compostos encontrados em carvão mineral. Na parte do espectro infravermelho perto de 3.4 microns, 3 absorções distintas são observados. O mesmo padrão aparece nos espectros dos cometas, em tholins feitos pela irradiação de gelos hidrocarbônicos e em matéria orgânica de meteoritos. Essa impressão digital infravermelha é provavelmente causada por um grupo de carbonos de ligação (alipáticas) e hidrogênio: -CH3 e -CH2. Yvonne Pendleton e suas colegas do centro de pesquisa Ames da NASA acham que o melhor encaixe do espectro parece ser com matéria orgânica de meteoritos.

O encaixe infravermelho entre cometas, asteróides e nuvens intergaláticas pode representar a primeira evidência direta de que asteróides e cometas contenham matéria orgânica que originam da poeira interestrelar antes de se juntarem quando o sistema solar era jovem. Mas as informações são também amenas a uma interpretação oposta - de que algumas das matérias orgânicas que se formaram no início da nebulosa lunar acumulada dentro de asteróides e cometas, enquanto um pouco foi ejetada pelo sol dentro do espaço interestrelar. Se 100 bilhões de outras estrelas fizeram o mesmo, elas poderiam ser responsável por uma fração significante de matéria orgânica em toda a poeira interestrelar na galáxia. A prevalência de matéria orgânica nos extremos do sistema solar, em cometas que vem dos mais distantes lugares e em gases interestrelares e poeira sugerem fortemente que matéria orgânica complexa - relevantes a origem da vida - está bem espalhada por toda a Via Láctea.

Moléculas orgânicas em grãos interestrelares secos e fritos por luz ultravioleta e raios cósmicos parecem ser um habitat improvável para a origem da vida. A vida parece precisar de água líquida, o que em troca parece pedir planetas. Observações astronômicas indicam cada vez mais que sistemas solares são comuns. Um número surpreendente de jovens estrelas próximas de quase uma massa solar são circundadas pelos mesmos tipos de discos gasosos e poeira que cientistas desde Immanuel Kant e Pierre Simon, O Marques de Laplace, dizem ser necessário para explicar a origem dos planetas em nosso sistema. Esses discos dão uma indicação contundente apesar de ainda indireta que há uma grande quantidade de planetas, talvez incluindo mundos como a Terra, em torno de outras estrelas.

George W. Wetheril do instituto Carnagie de Washington desenvolveu modelos detalhados para prever a distribuição de planetas que deveriam ser formados em tais discos circumestelares. Enquanto isso James F. Kasting da universidade do estado da Pensilvania calculou a variação da distância de seus sóis nos quais os planetas podem conter água líquida em sua superfícies. Levadas em consideração juntas, estas duas linhas de raciocínio sugerem que um sistema planetário típico deveria conter um ou talvez até dois planetas como a Terra orbitando a uma distância onde água líquida seja possível.

Recentemente Alexander Wolszczan, também do estado da Pensilvania, detectou sem margem de dúvida planetas como a Terra em um lugar onde a maioria dos astrônomos menos esperavam encontra-los: em torno de um pulsar, uma estrela de neutrons giratória remanescente da explosão de uma supernova. Baseado em variações do tempo das emissões de rádio do pulsar PSR-B1257+12, Wolszczan deduziu a presença de três planetas (até agora chamados somente de A, B e C) orbitando o pulsar.

Esses mundos estão mais próximos de suas estrelas do que a Terra está do nosso sol, e a PSR-B1257+12 emite várias vezes mais energia em partículas carregadas quanto o sol em radiação eletromagnética. Se todas as partículas interceptadas por A, B e C forem transformadas em calor, esses mundos devem ser quase que certamente quentes demais para a vida. Mas Wolszczan achou pistas de pelo menos um planeta adicional situado mais distante do pulsar. Pelo que sabemos, esse sistema superficialmente não promissor, 1400 anos luz da Terra, pode conter um planeta escuro mas habitável. Não está claro se esses planetas sobreviveram à explosão da supernova ou, mais provável, se formaram depois a partir dos detritos em sua volta. De qualquer maneira, a presença deles sugere que a formação de planetas é um processo inesperado em larga escala e comum.

Numerosas pesquisas por planetas jovens e sistemas solares maduros estão a caminho. O ritmo de exploração está se tornando tão rápido, e muitas técnicas novas estão sendo usadas, que parece provável que nas próximas décadas astrônomos começaram a acumular um inventário de planetas em volta de estrelas próximas.

Nós temos toda a razão para acreditar que há mundos ricos em água tal como o nosso, cada um com um complemento generoso de moléculas orgânicas. Esses planetas que orbitam estrelas do tipo do sol poderiam oferecer ambientes no qual a vida teria bilhões de anos para surgir e evoluir. Não deveria haver um número imenso de planetas habitados na Via Láctea? Cientistas diferem sobre a força deste argumento, mas mesmo na melhor das hipóteses é na verdade muito diferente de detectar vida em outros lugares. Essa monumental descoberta espera ser realizada.

Para Saber Mais

MARS. Edited by H. H. Kieffer, B. M. Jakosky, C. Snyder and M. S. Matthews. University of Arizona Press, 1992.

TITAN: A LABORATORY FOR PREBIOLOGICAL ORGANIC CHEMISTRY. Carl Sagan, W. Reid Thompson and Bishun N. Khare in Accounts of Chemical Research, Vol. 25, No. 7, pages 286-292; July 1992.

FIVE YEARS OF PROJECT META: AN ALL-SKY NARROW-BAND RADIO SEARCH FOR EXTRATERRESTRIAL SIGNALS. Paul Horowitz and Carl Sagan in Astrophysical Journal, Vol. 415, No. 1, pages 218-233; September 20, 1993.

A SEARCH FOR LIFE ON EARTH FROM THE GALILEO SPACECRAFT. Carl Sagan et al. in Nature, Vol. 365, No. 6448, pages 715-721; October 21, 1993.

***

CARL SAGAN é conhecido como pesquisador, palestrante e escritor. Ele recebeu seu Ph.D. em astronomia e astrofísica pela Universidade de Chicago em 1960. Em 1968 ele se ingressou na Universidade de Cornell, onde ele é professor titular de astronomia e ciências espaciais e diretor do laboratório de Estudos Planetários. Ele participou de inúmeras missões planetárias pela NASA, entre elas a Viking, Voyager e Galileo. Seus interesses de pesquisa englobam a origem da vida, a física e química de superfícies e atmosferas planetárias e a busca por vida extraterrestre inteligente. Entre seus livros incluem Cosmos; Contato, uma ficção científica sobre um encontro entre humanos e uma civilização inteligente, e o recém publicado Pálido Ponto Azul: Uma visão do futuro da humanidade no espaço.

Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.sciam.com
  • Traduzido por: Willy de Carvalho
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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