Hélio Schwartsman Publicado: 08/07/2003
Atualizado: 08/07/2003
BACTÉRIAS E HOMENS

de Hélio Schwartsman


Depois de experimentar um longo e difícil dilema moral, Charles Darwin finalmente publicou em 1859 seu "Origem das Espécies", no qual apresenta a teoria da evolução, hoje considerada uma das mais importantes realizações científicas de todos os tempos. As implicações e o alcance dessa teoria, mesmo passados 144 anos, não cessam de nos surpreender.

A revista científica britânica "Nature" trouxe, em sua edição de 8 de maio, mais uma bonita prova da validade de Darwin. Utilizando-se de organismos digitais, isto é, de programinhas de computador capazes de reproduzir-se, de sofrer mutações e que competem por energia, cientistas da Universidade Estadual de Michigan e do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia) demonstraram que estruturas complexas _talvez equiparáveis ao olho ou ao cérebro_ podem ter evoluído a partir do acúmulo de pequenas mutações aleatórias. A dificuldade para provar essa passagem era considerada um dos "pontos fracos" da teoria da evolução. (O "paper" da "Nature" só está disponível para assinantes da revista, mas o meu amigo Claudio Angelo, da editoria de Ciência da Folha, fez uma bela reportagem a respeito do assunto, que, infelizmente, também só está disponível para assinantes da Folha ou do UOL. Coisas da economia de mercado).

Os organismos digitais desenvolvidos pelo grupo do biólogo Richard Lenski eram, originalmente, programinhas compostos por um "genoma" de cerca de 50 instruções. Eles eram capazes de reproduzir-se assexuadamente, por bipartição, e podiam expressar-se em diferentes fenótipos que competiam por "comida", ou melhor, por quanta de energia. Como no mundo orgânico, as bipartições estavam sujeitas a erros (mutações), que, na maioria das ocorrências, eram prejudiciais ou neutros para os indivíduos.

Um detalhe importante é que o "ambiente", isto é, o software do Caltech chamado Avida, capaz de simular condições da evolução, estava programado para fornecer quantidades extras de energia para os indivíduos que desenvolvessem a habilidade de realizar operações lógicas.

Os resultados colhidos pela equipe de Lenski são bastante interessantes. Depois de 350 gerações, a maioria dos organismos, que que evoluíram todos a partir do ancestral "simples", era capaz de desempenhar até a mais complexa das nove operações lógicas bonificáveis pelo programa. O "genoma" também havia crescido para 83 instruções em média.

As vantagens de pesquisar evolução com organismos digitais incluem não ser necessário esperar muito tempo para conferir os resultados, não existirem elos perdidos nem o desaparecimento de registros fósseis. Lenski e seus colaboradores puderam constatar que, para exercer a função lógica mais complicada, todos os organismos passaram antes por operações mais simples. Às vezes, apenas uma mutação bastava para tornar os indivíduos capazes de operações simples aptos também a executar a função complexa. Mas, se se retirasse a mutação que possibilitava a operação mais simples, a mais complicada também desaparecia. Se os organismos fossem colocados em ambientes que não recompensassem a função complexa, ela também deixava de existir.

A idéia geral é a de que a evolução sempre parte do que já existe e que mesmo pequenas alterações, ao interagir de modo complexo com mutações anteriores, podem proporcionar o detalhe que falta para permitir o desempenho de funções complexas. O olho não teria surgido do nada _e muito menos por obra de um criador_, mas a partir de funções mais simples que já estavam presentes. Um forte candidato a ancestral do olho, por exemplo, é a capacidade da epiderme de registrar variações de temperatura. Com uma pequena mutação, é concebível que se passe da temperatura para a luminosidade. E, convenhamos, perceber mudanças de luz é já meio caminho para a visão.

Eu poderia agora voltar minhas baterias contra os defensores da teoria do "design inteligente", que nada mais é do que o velho e surrado criacionismo do Gênesis metido em roupas novas. Mas isso eu já fiz em várias colunas anteriores, ainda que sem as novas provas oferecidas por Lenski. Para não tornar-me repetitivo, deixo o link para um desses textos e passo a analisar uma outra questão que me parece interessante. Trata-se do extraordinário sucesso da teoria de Darwin. Embora ela tenha originalmente surgido para explicar fenômenos da biologia _a filosofia natural, como era chamada à época_, acabou ficando bem maior do que a disciplina que a concebeu. A teoria da evolução hoje goza de um estatuto mais alto, sendo por vezes equiparada a uma lei universal.

Com efeito, a própria pesquisa de Lenski, que se deu sobre "organismos digitais" e não naturais, já indica que o fenômeno da seleção não está restrito ao mundo do carbono, aplicando-se também ao reino do silício. Aqui, a lei primeiro enunciada por Darwin assume a condição de modelo matemático. Sempre que houver replicação (reprodução), variação (mutação) e competição, estará em jogo a seleção natural, pouco importando se os "participantes" são bactérias, vermes ou homens. A rigor, nem é preciso estar vivo ou provir do planeta Terra para ser submetido à seleção. Para efeitos de dicionário pelo menos, vírus reais como o da Aids ou o da varíola não são considerados seres vivos, pois não têm a capacidade de reproduzir-se sozinhos, precisando sempre recorrer a um hospedeiro.

É claro que todo esse êxito tem um lado negativo, principalmente quando nos arriscamos a abandonar o mundo da biologia. O poder explanatório da teoria de Darwin é tamanho que ela frequentemente é usada para justificar o injustificável, e sem nenhuma base científica. Refiro-me aqui a movimentos como o darwinismo social, para o qual todo tipo de política social compensatória é condenável. Para os defensores dessas idéias, os pobres deveriam ser deixados à própria sorte; se perecerem, será apenas a natureza fazendo o seu jogo, selecionando os mais "aptos" em detrimento dos mais "fracos". Interferir contra a ordem natural seria moralmente errado. A verdadeira fonte dessas idéias não é Darwin, mas o também inglês Herbert Spencer (1820-1903) que levou ao paroxismo o individualismo romântico tão da tradição anglo-saxã e o juntou às teses apocalípticas de Malthus. Embora fosse originalmente um biólogo que rivalizava com Darwin, logo derivou seu trabalho para a sociologia e a filosofia.

O erro por trás do darwinismo social é dos mais clássicos. Ele comete a falácia naturalista, isto é, tenta estabelecer uma noção de certo que seria dada pela natureza. E a natureza, como todos sabemos, é inteiramente amoral. No mais, como mostra Stephen Jay Gould, a natureza é tão pródiga em estratégias de sobrevivência que podemos nela "ler" praticamente o que quisermos. Foi o que fez, por exemplo, o anarquista russo Piotr Kropotkin, que escreveu um livro chamado "Ajuda Mútua", no qual conclui que é a cooperação e não a competição que está na base da evolução. Em algum grau, Kropotkin está certo. Para certas populações em determinados ambientes, o mutualismo é uma estratégia de sobrevivência mais interessante do que a competição entre os membros da espécie.

De modo bem menos temerário do que o darwinismo social, a psicologia evolucionista ou sociobiologia procura explicar todos e cada um dos traços e características humanos em termos evolucionistas. O risco da empreitada é grande. Embora uma ou outra boa idéia tenham surgido dessa abordagem, ela tende ou a reduzir demais as coisas ou a extrair conclusões que pouco ou nada acrescentam. Afirmar, por exemplo, que o estupro pode ter sido uma estratégia eficiente para o homem espalhar seus genes é dizer uma tautologia e com o grande risco de ser muito mal interpretado.

Se há uma lição a tirar do darwinismo e de toda a boa pesquisa que o sucedeu, é a de que a natureza é complexa o suficiente para esconder, por trás de aparentes simplicidades, os mais improváveis e sutis encadeamentos.

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O original foi publicado em 22/05/2003. Hélio Schwartsman é editorialista da Folha de São Paulo. Escreve para a Folha Online às quintas em http://www.uol.com.br/folha/pensata/schwartsman.shtml.

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult510u105.shtml
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.