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Atualizado: 08/07/2003
   
                     
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de Susan Greenfield


No passado, as pessoas antes ignoravam do que temiam a ciência. Sábios como C.P. Snow podem já ter sinalizado a importância de romper a distância entre a cultura do jaleco branco e a da caneta ou do cavalete, mas naquela época a ciência era feita de torres de marfim -- um passatempo vocacional e ecêntrico com que aqueles estereótipos bow-tied, com pouco cabelo, meias e sandálias se entretinham. No máximo, o consumidor elogiaria sem convicção a ciência em termos do homem da tevê monocromático e, é claro, sempre era um homem que dava sua aprovação ao sabão em pó ou à comida para cachorros, para provar a qualidade do produto 'cientificamente', embora eu sempre tenha me perguntado como é que se prov alguma coisa acientificamente.

A ciência oferece uma maneira de descobrir e mudar o mundo à sua volta. Como tal, ela é cda vez mais central em nosas vidas. Ela toca tudo que consideramos importante, como a comunicação, nutrição e reprodução, e agora promete nos levar a um estranho mundo de ciberespaço, biotecnologia e nanociência.

O orgulho e o desprezo pela ciência, que acompanharam a maior parte das pessoas no século vinte, agora estao dando lugar ao medo. Por que a mudança? Jargão e metodologia, mas do que nunca, estão erguendo o muro entre os cognoscenti e Todo o Resto. PAfinal, é um truísmo dizer que tememos aquilo que não compreendemos, e nada obscurece tanto quanto um cientista vomitando palavras desonhecidas uma após a outra. Quando confrontado com sequências de palavras polissilábicas incompreensíveis entrelaçadas com termos enganadoramente simples mas sem sentido como 'controles', 'desvio padrao' e 'valores p', é de se admirar que o mais endurecido media hack, quanto mais o público, vá buscar abrigo no romantismo de eras passadas?

O que nos leva ao segundo motivo para medo. Não é tanto a ciência em si, mas aqueles que a fazem: os próprios nerds desajustados. O cientista geralmente é uma figura remota, até onde o público sabe, mais estranha do que um jornalista ou político. Portanto, ele (novamente) é difícil de entender, e se não entendermos a ele, e mesmo a uma ocasional ela, então claramente eles devem estar planejando algum tipo de dominação mundial. O anorak científico das caricaturas nao tem sentimentos, não tem emoções, trabalha muito e é obcecado com seus objetivos ecêntricos ao ponto de excluir todo tipo de considerações sociais e éticas.

Uma terceira e mais substantiva razão para medo é a implicação do trabalho que está sendo feito. Despencamos da feliz confiança que se via nos anúncios da tevê durante os anos 50 e 60 aos telefones celulares que confundem nossas mentes, doenças com príons que mastigam nossos cérebros, alimentos contaminados, para não mencionar o perigo subjacente e camuflado de terrorismo cibernético e químico, quanto mais filhos sob medida, úteros artificiais e clones humanos. Não é de se admirar que haja uma rejeição reflexa a toda essa confusão e essa tecnologia assustadora num pacote só. Como pode um João Silva, depoois de um dia difícil no trabalho, chegar em casa e ainda descobrir os prós e contras, pesar os riscos, considerar as implicações e diferenciar a besteira da realidade? Não seria muito mais fácil relaxar em um passado em que todo mundo era 100% humano, com valores e compreensão humana? O correio vem três vezes ao dia, não existem celulares, emails, vídeos, talvez nem aviões -- e, é claro, nem estamos livres de dor de dente, infecções e morte prematura.

Uma arcádia em tons sépia onde os seres humanos viviam uma existência 'natural' Rouselliana evidentemente nunca existiu, e essa perspectiva, ou retrospectiva, nunca deveria ser usada como antídoto à ciência. A ciência, ou o espírito da investigação científica, sempre esteve conosco. De fato, as tecnologias que hoje vislumbramos foram na verdade geradas pelos brilhantes conceitos propostos na primeira metade do século vinte como a teoria quântica.

É certo que a única maneira de suprimir o medo da ciência não é parar de fazê-la. Afinal, a ciência se faz d curiosidade e a curiosidade é própria do ser humano. Ao invés disso, precisamos nos munir de conhecimento para avaliar os alarmes e a excitação em igual medida. A metodologia e o jagão podem ser contornados desde que a mídia, o público e os cientistas, todos lutem intensamente para se comunicar uns com os outros. Quanto às pessoas dos cientistas, já seria um avanço se nós não evocássemos olhares de desprezo e retiradas apressadas numa festa. Quanto mais os cientistas forem vistos como pessoas comuns fazendo o seu trabalho, melhor. E isso só acontecerá se mais pessoas entrarem nessa profissão, especialmente mulheres.

É claro que a única maneira de avaliar as implicações da ciência é ser cientificamente alfabetizado, e isso só é possível quando se está disposto a ter uma mente aberta e a parar de esperar que nossos cientistas sejam a única consciência da nação. Imagine uma sociedade onde falar de ciência seja tão natural como falar de futebol; onde, mesmo não sendo um David Bechham da ciência, se possa ser um amador em sua poltrona atualizado com os últimos avanços e até fazendo experimentos virtuais na net.

Quando tivermos uma sociedade em que a ciência seja tão interessante quanto o futebol, e em que participar de uma palestra ou debate sobre ciência seja tão relevante e divertido quanto ir ao cinema, então e só então estaremos verdadeirmante aparelhados como sociedade para guiar a ciência para aquilo que queremos da vida, ao invés do contrário acontecer.

***

Baronesa Susan Greenfield, diretora da Royal Institution, é professora de farmacologia na universidade de Oxford.

Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.guardian.co.uk/life/opinion/story/0,12981,933082,00.html
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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