É público e notório que o periódico da Abril é tendencioso e tem um compromisso muito maior com os lucros e com os interesses de seus dirigentes do que com a verdade, mas neste caso, a quantidade de besteiras publicadas contra a ciência foi imensa. Neste ensaio irei expor e comentar os diversos erros que foram professados na matéria da Veja.
A Porcentagem Enganadora
Na matéria lia-se "Pesquisa mostra que 99% dos brasileiros acreditam em Deus." A besteira já começa por aí, pois tal chamada dá a errônea impressão que todos os teístas do Brasil acreditam no mesmo deus. Induzir esta conclusão é um erro crasso. Temos no Brasil diversos adeptos do judaísmo, do islamismo, do hinduísmo, do budismo, do umbandismo, do espiritismo, etc. Cada religião possui divindades diferentes. Portanto, uma chamada de capa menos ardilosa seria dizer que X porcento dos brasileiros acreditam em Alá, Y porcento acreditam em Jeová, Z porcento acreditam em Jesus, A porcento são ateus, e assim por diante. Existem cerca de 4.000 religiões diferentes, muitas politeístas, o que cria uma miríade de divindades diferentes. Com base em dados mais confiáveis que a pesquisa encomendada pela Veja e realizada pela Vox Populi, sabemos que, por exemplo, existem mais ateus que judeus, no Brasil e no mundo. Visto desta forma, não somos uma minoria tão pequena como a Veja tentou pintar.
Uma fonte mais confiável para sabermos com mais precisão a quantidade de teístas (e suas respectivas religiões) e ateus, são enciclopédias. Existem páginas na Internet que compilam dados estatísticos que dão resultados gritantemente diferentes que os da Veja. Em http://www.adherents.com/Religions_By_Adherents.html temos uma lista de religiões e crenças por número de adeptos. Vemos que os ateístas e os que não possuem qualquer religião estão em quarto lugar, perdendo em número apenas para os cristãos, muçulmanos e hindus. Existem mais ateus que budistas, espíritas e judeus, por exemplo.
Em http://www.infoplease.com/ipa/A0001484.html vemos que os ateístas e os sem religião são 15,3% da população mundial. No banco de dados do IBGE, que é responsável pelo censo no Brasil, vemos que existem cerca de 7 milhões de brasileiros que não professaram qualquer tipo de religião (http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/listabl.asp?e=l&c=139, dados de 1991). Um dado interessante, segundo o IBGE, é que os brasileiros sem religião só perdem em número para os católicos romanos e os evangélicos pentecostais. Existem menos espíritas, umbandistas e judeus que aqueles sem religião no Brasil. A opção ateísmo não aparece no censo, o que é uma falha.
Qualquer que seja o resultado mais próximo do verdadeiro, ele ainda não será preciso. Isso ocorre porque muitos ateus e pessoas sem qualquer religião ainda estão "no armário". Quando pergunta-se a elas nas pesquisas se são teístas, respondem que sim, por diversos motivos. Estas pessoas figuram como crédulas nas estatísticas, quando na verdade não o são. Isso gera sempre um número menor de descrentes nas estatísticas do que existe na verdade.
Portanto, a suposta afirmação de que 99% dos brasileiros são teístas não é verdadeira.
A matéria também afirma que:
"No início do século XX, acreditava-se que quanto mais o mundo absorvesse ciência e erudição menor seria o papel da religião. De lá para cá, a tecnologia moderna se tornou parte essencial do cotidiano da maioria dos habitantes do planeta e permitiu que até os mais pobres tenham um grau de informação inimaginável 100 anos atrás. Apesar de todas essas mudanças, no início do século XXI o mundo continua inesperadamente místico."
Sabe-se, também com base em diversas estatísticas independentes, que a parcela de teístas e místicos vem decrescendo década após década, principalmente entre os cientistas. Veja mais detalhes na matéria da revista Nature (um periódico sobre ciência, e não uma revista publicada por um pequeno grupo de pessoas com interesses próprios e escusos), publicada originalmente em
http://www.nature.com/nature/journal/v394/n6691/full/394313a0_fs.html, com cópia pública em
http://www.freethought-web.org/ctrl/news/file002.html. Vemos que, com o passar dos anos, o número de cientistas que acreditam em um deus e na imortalidade da alma decresce.
Einstein e Outros Cientistas Como Bodes Expiatórios
Um dos erros mais comuns cometidos por teístas quando tentam fazer a ciência parecer irmã caçula da religião é dizer que o renomado cientista Fulano acredita em deus. A Veja não poderia deixar de cometer essa falácia, conhecida como Argumentum ad Verecundiam (Argumento da Autoridade). Ressalto os trechos [ênfase minha]:
"Cientistas renomados aceitaram trabalhar com religiosos do Vaticano para tentar provar a autenticidade do Santo Sudário, o manto de linho que teria sido usado para cobrir o corpo de Jesus depois da crucificação."
Lembre-se que o método científico utilizado por cientistas também renomados já provou que o sudário é apenas um pano sujo do século XIV, não um manto sagrado usado para cobrir o corpo morto de Jesus há dois mil anos atrás.
"'Fizemos assombrosos avanços, mas temos de reconhecer que a ciência não respondeu a alguns dos enigmas básicos, como a origem da vida e do universo', diz Stephen Jay Gould, o formidável pesquisador e ensaísta americano, que seria o último ser vivo da Terra a ser acusado de misticismo."
A citação de Gould nada fala em favor de deus algum, ele apenas confessa modestamente os limites da ciência na atualidade. Não ter-se ainda a resposta para algo não significa que este mesmo algo foi feito por algum deus.
"[O] biólogo Ernst Mayr, da Universidade Harvard, também concorda que apenas o desenrolar das leis naturais talvez explique o surgimento da vida na Terra - mas isso certamente não pode ser invocado para explicar o aparecimento de seres inteligentes. ... [S]eu cálculo sobre a possibilidade de a natureza produzir seres inteligentes pelos processos evolutivos conhecidos é quase uma sugestão de que os seres humanos são mesmo produtos sobrenaturais.
...
Diante de uma explicação como essa, portanto, não é difícil entender por que teólogos e outros religiosos consideram o surgimento da razão um milagre. De certa forma, como se viu pela equação proposta por Mayr, a boa ciência também considera."
O que Mayr quer dizer apenas é que as probabilidades são muito pequenas (tanto que só aconteceu uma vez no planeta), e usa o termo sobrenatural apenas para ilustrar o seu pensamento. Ele não quer dizer que algum deus participou durante a evolução da inteligência e da razão. Dizer que algo é fruto de um milagre não é boa ciência.
"Diante da perspectiva de ser queimado na fogueira por heresia, Galileu recuou publicamente de sua demonstração da teoria de Copérnico."
Este é um exemplo clássico de como a religião tentou (e tenta) calar a ciência para tentar continuar prosperando.
"Outro grande gênio da humanidade, Charles Darwin, atrasou por delicadeza em duas décadas a publicação de sua descoberta da evolução dos seres vivos. Darwin não queria ferir os sentimentos religiosos do pai, da mulher, Emma, e de Robert Fitzroy[...]. Quando apareceu uma teoria parecida com a sua, ameaçando-lhe o pioneirismo na matéria, Darwin finalmente publicou A Origem das Espécies, em 1859. Seu pai já havia morrido. Emma Darwin se fechou em casa e nunca mais foi vista em ocasiões sociais. Fitzroy se suicidou anos mais tarde, deixando um bilhete com as razões. Não podia suportar o fato de ter sido colaborador involuntário de uma teoria que destruía a versão religiosa sobre a criação das espécies."
Aqui gritantemente a Veja pinta a sólida e confirmadíssima teoria da evolução por seleção natural como perigosa e causadora de um suicídio.
"[O] inglês Stephen Hawking, acha fascinante a chamada "hipótese teológica", a idéia de que entender Deus seria o alvo supremo da física, mas alerta para o fato de que o caminho para chegar lá é a ciência, e não a metafísica ou o misticismo. Quando lhe perguntam se Deus teve um papel no universo antes do Big Bang, a explosão primordial que teria criado o cosmo, Hawking admite que sim. "Acho que só Ele pode responder por que o universo existe", diz o famoso astrofísico. É lendária também a confissão de Albert Einstein sobre sua motivação básica, feita a um assistente em 1929: "Ah, se eu pudesse saber se no instante da criação Deus teve escolha de fazer um universo diferente e, caso tenha tido opção, por que é que decidiu criar este universo singular que conhecemos, e não um outro qualquer"."
Não importa se o grande cientista Fulano acreditava em lobisomens, isso não torna a ciência um método onde lobisomens são considerados reais e influentes. A matéria da Veja tentou pintar cientistas famosos (Stephen J. Gould, Stephen Hawking, Charles Darwin e o pobre do Einstein) como carolas religiosos. Tentou dar a impressão que estes cientistas só conseguem achar respostas evocando a existência de um Fantasmão. Tentou fazer parecer que a ciência atualmente está pedindo socorro pra religião na hora de resolver as perguntas difíceis. Isso é uma grande mentira.
A ciência, por definição, é um método ateísta. Não há variáveis sobrenaturais em suas equações. Não aperfeiçoamos nossos instrumentos para que anjos não interfiram em nossos experimentos. Não procuramos respostas num deus invisível. A ciência é a antítese da religião. Algumas frases de pessoas citadas na matéria demonstram que suas visões pessoais não são tão teístas assim:
"Foi, é claro, uma mentira o que você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal e eu nunca neguei isso mas expressei claramente. Se existe algo em mim que pode ser chamado de religioso, esse algo é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo tão longínqua quanto a nossa ciência pode revelar." Albert Einstein, físico Americano nascido Alemão
"É certamente prejudicial para as almas tornar uma heresia acreditar no que é provado." Galileu Galilei
"O argumento que a estória literal do Genesis pode ser classificada como ciência entra em colapso em três solos principais: a necessidade dos criacionistas de invocar milagres para comprimir os eventos da história da Terra dentro do espaço de tempo bíblico de apenas alguns milhares de anos; a falta de vontade deles de abandonar afirmações claramente desprovadas, incluindo a afirmação de que todos os fósseis são produtos do dilúvio de Noé; e a confiança deles na distorção, má citação, meia citação, e citação fora do contexto para caracterizar as idéias de seus oponentes." Stephen Jay Gould, "O Veredito Sobre O Criacionismo", The Skeptical Inquirer, Inverno 87/88, Pág. 186
"Desde que o universo tenha um começo, podemos supor que ele teve um criador. Mas se o universo é completamente auto-contido, não tendo fronteiras ou bordas, ele não seria nem criado nem destruído... Ele simplesmente seria. Que lugar há, então, para um criador?" Stephen W. Hawking, cientista Inglês
"Me parece (seja correto ou errôneo) que o argumento direto contra o cristianismo e o teísmo dificilmente produz qualquer efeito no público; e a liberdade de pensamento é promovida melhor pela iliminação gradual das mentes dos homens que se segue do avanço da ciência." Charles Darwin
"Francamente eu nunca pude compreender [o pensamento religioso] porque você precisa de dois comportamentos completamente diferentes no seu cérebro, um que lida com a religião e outro que lida com todo o resto." Ernst Mayr, entrevista, Skeptic Vol. 8 No. 1, 2000
A Disputa Pela Sua Mente
Vivemos num país onde há uma guerra religiosa está sendo travada por debaixo dos panos. Evangélicos e católicos lutam acirradamente por fiéis. Em alguns lugares do mundo, como na Irlanda do Norte, guerras deste tipo derramam sangue. Felizmente aqui não chegamos neste ponto. Ainda.
Edir Macedo, o fundador da Igreja Univer$al, uma das maiores organizações evangélicas do Brasil, que começou com um pequeno templo em 1977, hoje é dono de um império da mídia que inclui uma rede nacional de televisão, diversas emissoras de rádio e editoras. Cada vez mais o pensamento teísta é empurrado goela abaixo das pessoas. Cada vez mais as religiões organizadas são usadas para colocarem seus líderes no poder governamental. Os católicos estão aprendendo com eles e estão cada vez mais "carismáticos", aparecendo em programas globais cantarolando suas alegres músicas sobre deus e outras baboseiras.
Cada vez menos vemos programas de ciência na televisão, revistas infantis sobre ciência, livros sobre ceticismo. Lembro-me que, quando criança, podia ver nas tardes, programas de televisão sobre ciência, experimentos que se podia fazer na cozinha, etc. Hoje eu ligo a televisão e todas as tardes pelo menos dois canais irradiam pastores evangélicos ensinando como é legal acreditar em fantasmas. Eles cantam músicas infantis acompanhados de bichinhos de pelúcia. Visite qualquer livraria e compare a seção de ciência com a seção de religião e esoterismo. O que está em jogo é a integridade intelectual (e o bolso) do brasileiro. É triste.
Infelizmente, apesar de termos uma constituição que claramente separa o governo da religião, não é isso que vemos em prática. Subsídios e incentivos fiscais para grupos religiosos são comuns. Em São Paulo, o ensino religioso confessional está prestes a se tornar obrigatório nas escolas públicas. No Rio de Janeiro, o governador (evangélico) descaradamente usa a máquina estadual para propagar a religião, como no escândalo do Cheque-Cidadão, onde o controle da entrega deste benefício público foi entregue ao controle de pastores evangélicos, como foi publicado em várias matérias do jornal carioca O Dia.
Não há ainda um número triste e assombroso de religiosos como foi pintado pela Veja, mas se o governo e a mídia cada vez mais financiarem as religiões e deixarem a ciência fora de nossas escolas e dos periódicos, em breve voltaremos à idade média. Uma época onde 99% das pessoas tinham medo do inferno, achavam que a Terra era achatada e que o Sol girava ao nosso redor. Precisamos de mais revistas que divulguem a boa ciência, e menos revistas que tentem colocar o rebanho calado de cabeça baixa dentro do curral da ignorância.
Leo Vines
Referências: