Proliferam-se pelos classificados dos jornais os anúncios de diversos grupos e mestres esotéricos, munidos das mais diversas formas de adivinhação. Todos os leitores seguramente conhecem seu signo do zodíaco, e igualmente já ouviram comerciais a respeito de determinado astrólogo capaz não só de informá-lo de quem você realmente é, mas também como o resto de sua vida deverá se desenrolar. Igualmente populares são a quiromancia, a "arte" de usar as linhas das mãos para responder às dúvidas do cliente, e o tarô, cujas cartas seriam capazes de esgotar as possibilidades de destinos de quaisquer seres humanos.
Uma modalidade relativamente recente, no Brasil, de prática divinatória são as misteriosas runas. Cada vez mais populares, as runas se propõem, igualmente, a responder questões dos consulentes a respeito de sua vida, incluindo, é claro, seu futuro.
Mas, afinal, o que são as runas?
As runas são as 24 letras (para alguns, 29) que compunham o antigo alfabeto de determinadas tribos germânicas. Apresentam formas relativamente simples - em geral, linhas verticais e transversais, provavelmente pela dificuldade de se trabalhar linhas curvas em madeira, a superfície de escrita disponível por tais povos -, correspondendo individualmente a fonemas específicos e também possuindo um valor simbólico completo (gado, espinho, sol, gelo etc.).
E o que tem isso a ver com adivinhação?
Diversas fontes arqueológicas dão evidência do uso dos caracteres alfabéticos rúnicos por parte dos povos germânicos com fins místicos e oraculares. Inclusive algumas lendas da mitologia nórdica - envolvendo nomes de deuses que nos soam familiares, como Odin e Thor - mencionam explicitamente seu uso. Odin, pai de Thor e senhor de todos os deuses, teria se pendurado deliberadamente numa árvore - a Árvore da Vida - com uma lança atravessada no peito. Tudo isso, com o intuito de obter o poder da previsão. A sua tortura de nove noites encerrou-se quando, gritando de dor, encontrou as runas, e com elas o almejado poder. Os "sacerdotes" das tribos germânicas tinham a mesma pretensão de poder ao utilizar os caracteres rúnicos como oráculo.
O tempo passou, a América foi invadida pelos povos europeus, o Brasil surge como nação, e a prática divinatória rúnica - que sobrevive miseravelmente à era cristã na Europa - acaba chegando por aqui. Centenas de pessoas se lançam ao seu estudo, com a mesma pretensão de Odin, mas tendo aparentemente menos disposição para se pendurar numa árvore, compram os livros de "renomados e talentosos" runemais ou fazem cursos interessantíssimos em centros especializados em ciências esotéricas.
A maior parte da população, porém, investe sua curiosidade e seu dinheiro de outra forma: pagam aos renomados e talentosos runemais (de quem dificilmente tinham ouvido falar, embora isso não faça necessariamente diferença) para que estes predigam seu futuro. Da mesma forma que o fazem quando procuram os serviços de videntes, quiromantes e tarólogos. (Como dizia um programa de TV noturno, de um esotérico rico e famoso: "Deixe seu destino nas mãos de um profissional competente!").
Mas você deve estar curioso para saber o que exatamente faz um runemal para prever o futuro de alguém, não é?
Existem diversas modalidades de placas rúnicas, e consequentemente de formas de realizar o jogo (vou me basear tanto na minha experiência [sic] como no que extraí de diversos livros ao longo dos anos). Talvez por influência do tarô, muitos runemais utilizam cartas, com as inscrições rúnicas em uma das faces. As cartas são embaralhadas sobre um pano, de forma que possam assumir qualquer posição, com as faces voltadas, evidentemente, para baixo (não que isso faça muita diferença: o consulente não vai entender nada daqueles símbolos, mesmo). Então, se o consulente tem uma pergunta específica, deve fazê-la para o runemal ou formulá-la de maneira clara na mente, e escolher um número de cartas especificado pelo runemal; se quiser saber de forma geral como está e estará sua vida em relação a determinado aspecto - ou todos os possíveis - simplesmente escolhe as runas. É bom frisar que o consulente deve manter sua mente o mais vazia possível - ou melhor, deve pensar apenas na pergunta que fez - para que sua "mente consciente" não atrapalhe a escolha das runas, que é conduzida pela "mente subconsciente"; esta última nunca falha, diga-se de passagem.
Uma forma mais charmosa de jogar, na minha opinião, é usando seixos ou pequenos pedaços ovalados de madeira. Neste caso, cabe ao runemal chacoalhá-las nas mãos e jogá-las, mais ou menos como fazem os jogadores de búzios.
Tendo você (ou melhor, seu "subconsciente") escolhido as runas que irão revelar seu destino ou responder sua pergunta, o runemal irá dispor as runas da maneira apropriada para a ocasião. Em questões do tipo sim/não, existe a modalidade de três runas, dispostas da esquerda para a direita na ordem em que foram retiradas pelo consulente. Dependendo do número de runas que está de cabeça para baixo (vejam que complexidade!), a resposta será sim ou não.
É chegada a hora, então, da análise. O runemal tem diante de si um conjunto aleatório de símbolos, cada um representando um ente especial na vida dos germânicos de alguns milhares de anos atrás. Seu papel, agora, é juntar as peças do quebra-cabeça. Isso significa "esticar" o significados crus de cada runa (por exemplo, boca, granizo e dia) a conceitos um pouquinho mais abstratos e amplos, tal que possam ser misturados entre si (seguindo o exemplo, comunicação, novidade e segurança, ou então autoridade, perda e curto prazo, respectivamente). Após fazer a digestão das inúmeras possibilidades de resposta com estes símbolos, o runemal irá declarar, sabiamente, a resposta de sua pergunta. Seguindo nosso exemplo, se o consulente quer saber sobre os próximos passos de sua carreira, duas respostas possíveis - e diametralmente opostas - que se referem às runas boca, granizo e dia, são "você irá encontrar um novo emprego, no qual irá trabalhar sua capacidade de comunicação, e lá encontrará segurança", ou "seus superiores irão demiti-lo dentro de pouco tempo, sinto muito". Os leitores têm dúvida de qual dentre estas respostas seria escolhida pelo runemal, independentemente de suas boas intenções e de sua autoconfiança? Por pura coincidência, é a resposta que os consulentes gostariam de ouvir. Bem menos poético do que este trecho, retirado do livro "O jogo de runas", de Marijane Osborn e Stella Longland (editora Siciliano, 1991): "[...] os oráculos rúnicos podem ser usados para ajudá-lo [o indivíduo] a decidir seu próprio futuro esclarecendo a natureza e as causas dos complexos no mundo interno e os eventos no mundo externo, delineando o âmbito de escolhas disponíveis para ele".
Os exemplos que dei são notavelmente específicos. Ocorre com freqüência bastante alta que as respostas sejam tão amplas que praticamente qualquer destino possa ser encaixado na análise. Vou citar um exemplo de interpretação retirado do livro "Runas" de Antony Clark e Tony Willis (editora Pensamento, São Paulo, 1992): "Por exemplo, se WYRD cair com uma runa relacionada com o Amor, por exemplo GEOFU, sugerirá que o consulente está destinado a realizar uma união feliz que é o resgate de um ato verdadeiro ou altruísta de amor em seu passado cármico; com freqüência essa ação tem constituído a sublimação dos próprios sentimentos do consulente, de modo que o ser amado deve estar livre para compreender sua própria versão de felicidade." Que tal? Você acha que alguém que se presta a pagar a um runemal para saber seu futuro diria que seu relacionamento amoroso não corresponde a essa previsão?
A escolha de nosso futuro é algo sublime. As escolhas que fazemos ao longo da vida podem nos conduzir a uma existência plena e frutífera. Para procedermos às nossas escolhas, é preciso cautela e muito raciocínio, e temos à nossa disposição a capacidade de raciocinar, que não custa nenhum tostão, e é a nossa arma mais eficaz na busca de um futuro melhor. Por que motivo devemos deixar de usá-la, e buscarmos a direção a seguir nas palavras de um runemal, que interpreta de maneira ampla e flexível um conjunto limitadíssimo de símbolos outrora utilizados por tribos supersticiosas para "ler seu destino"? É impressionante que, numa época de conhecimento científico avançado como a que vivemos, alguém ainda possa dedicar um minuto sequer de sua vida a acreditar em coisas que povos antiquíssimos, pouco esclarecidos a respeito dos fenômenos naturais e cheios de superstições, acreditavam. Para os vikings, seu destino estava traçado desde sempre: o negócio era se atirar às guerras de uma vez, pois se tivermos de morrer, morreremos de qualquer maneira. Tática compreensível para um povo pacífico como eles. Para eles, as auroras boreais (clarões noturnos que ocorrem próximo ao pólo norte, devido à entrada de partículas carregadas na atmosfera) eram deusas (as Valquírias) em busca das almas dos guerreiros mortos em combate; elas os levariam até o Valhallah, o palácio dos mortos, onde estes beberiam cerveja ao longo dos séculos à espera da batalha final entre os deuses (o Ragnarok, mais ou menos o juízo final dos cristãos, mas com mais carnificina: sobrariam somente um homem e uma mulher). Para eles, os terremotos eram resultado de mais uma tentativa de um deus - que fora morto por Odin e com o qual o mundo foi construído - de se libertar deste formato achatado que lhe fora imposto; os deuses, sabiamente, plantaram uma árvore gigantesca (a mesma na qual Odin mais tarde se penduraria), e suas raízes é que mantinham a terra coesa.
Esta "sabedoria milenar" é tudo o que a prática rúnica tem a oferecer. Um excelente atalho para o fracasso.
Sandro Rembold
Referências: