Publicado: 26/08/2000
de Jorge Ricardo Ducati
A formação completa do ser humano inclui a exploração dos mundos interior e exterior, sendo este último o mundo físico que nos abastece de impressões sobre as quais o mundo interior, nosso intelecto, se constrói. O conhecimento, a investigação, a descoberta das leis de funcionamento do mundo físico transformaram a maneira como o percebemos e compreendemos. Este processo de descobertas fez-se sobre base sólida, qual seja, a interação com o mundo através da experimentação, a partir da qual, por tentativa e erro, os fenômenos naturais foram e têm sido descritos e compreendidos. O trabalho de desvendar os mistérios da Natureza, que tantos frutos produziu e colocou a serviço da Humanidade, para bom ou mau uso, esteve e só podia estar, disciplinado por uma prática, que é o método científico. Neste sentido, a Ciência pode ser vista não como um conjunto de informações, conceitos e leis, mas como um método de abordagem do desconhecido. Desconhecido interno e externo: há todo o universo do espírito humano, além do universo físico. Será que há um método diferente para o estudo de cada universo? O senso comum, levado às raias da intuição, que move o trabalho dos cientistas do mundo físico, diz que o objeto de seu trabalho só pode ser estudado através da experimentação. No caso do estudo do espírito humano não é bem assim. É certo que as últimas pesquisas sobre o funcionamento do cérebro têm introduzido elementos de ciência experimental sobre o que é o pensamento; mas, em larga escala, o que sabemos sobre nós mesmos deriva de técnicas de estudo fortemente baseadas numa estrutura conceitual que se auto-sustenta. Mesmo admitindo-se que boa parte das regras morais provenham da otimização da adaptação do homem ao mundo físico e biológico (idéia a partir da qual vicejam a sociobiologia e outras propostas novas de explicar o comportamento humano), o estudo do espírito humano tem uma forte componente que não é enquadrável no método científico, tal como é visto por cientistas físicos. A filosofia e a religião não são ciências físicas! No entanto, não é difícil, mesmo para um cientista físico, concordar com uma importante declaração da Encíclica: "Conhecer-se a si mesmo é o que diferencia os seres humanos do resto da criação." (p. 2)De fato, a observação de outros seres vivos mostra que, mesmo em uma pequena escala, muitos animais interagem inteligentemente com o mundo físico, aprendem sobre ele, e modificam seu comportamento em função deste aprendizado. Muito mais difícil seria dizer o que os seres ditos "irracionais" pensam sobre eles mesmos. O máximo que percebemos são fases de depressão em certos animais domésticos. Mas voltemos àquela pergunta feita anteriormente. Há métodos diferentes para o estudo de cada universo? Se não há, pelo menos os resultados são diferentes. Cientistas físicos tendem a ser pouco sutis. A busca da Verdade é crua. Observação, teoria, teste, lei; resultado: mais um passo em direção à compreensão ampla do Universo. Neste andar, já se prevê o Fim da Ciência, pois tudo terá sido descoberto, algum dia no futuro. De que sentir algum desconcerto, frente ao que, chama a atenção a Encíclica, faz a filosofia moderna: "A atitude da filosofia recente em aceitar ou assumir a suposição de que todas posições são igualmente válidas é um sintoma de perda de confiança na verdade. (...) Nesta compreensão, tudo se reduz a opinião." (p. 5)Estas são construções intelectuais do mais alto nível... mas poder-se-ia ver uma conexão legitimante com algo que assola o debate dos cientistas com as pseudociências: agora é comum, na imprensa, afinal tornada a grande arena de discussão e divulgação de idéias, que nos debates sejam chamados, para indignação dos cientistas, "os dois lados": os cientistas "oficiais", e algum esotérico ou místico que representará o outro lado, em nome da liberdade de pensamento. "Tudo se reduz a opinião". Haveria, mesmo no lado dos cientistas, razão para alguma perplexidade. Esta é uma questão delicada. Afinal, há muitos cientistas que compartimentam seu intelecto, por ter uma crença religiosa. A Fé. O pensamento religioso separa claramente a Fé da Razão. Tanto, que é o nome de uma encíclica. Cientistas usam o método científico, baseado na Razão, para estudar o mundo; pode-se usar a Fé como guia no estudo do mundo? Alguns cientistas religiosos dizem que sim; a Encíclica também diz que sim. Os que não têm a Fé, estudam o mundo, mesmo sem ela. Há alguma diferença no resultado? Temos na primeira linha de "Fides et Ratio": "Fé e Razão são como duas asas sobre as quais o espírito humano sobe para a contemplação da verdade."Não vemos na literatura científica citações como "estes resultados foram obtidos com o auxílio de fé religiosa"; o fato é que o trabalho científico de cientistas religiosos em geral tem um caráter pouco separado da produção geral da sua comunidade científica. A diferença, quando ocorre, advém de uma atuação individual mais ampla, além dos limites da carreira estritamente científica, já no campo do debate sobre o significado dos conhecimentos produzidos. Mas cientistas ateus também têm sido capazes de animar debates profundos sobre o mundo e sobre o espírito humano. Citando a Encíclica: "Não há motivo para competição de nenhum tipo entre razão e fé: uma contém a outra, e cada uma tem seu campo de ação." (p. 12)Temos repetidamente chamado a atenção para esta separação, que deve sempre ser clara. Mesmo se não concordarmos com a afirmativa de que "uma contém a outra", certamente concordamos com a separação das duas. A Encíclica reprova o corrente surto de superstições. Qual a base destes misticismos de fim de século? É a mistura dos campos de ação. Quando a astrologia, para citar uma destas pseudociências, se traveste de ciência, está ocorrendo uma mistura indevida. Pois a astrologia, ou a crença em gnomos, para citar outra superstição, só pode-se sustentar se baseada exclusivamente em crença, ou na fé, em sua acepção mais vastamente pobre. No momento em que tais crenças se aventuram no campo da Razão, ficam de imediato sujeitas aos rigores do método científico, do teste e da prova, ocorrendo então o desastre. O problema, para voltarmos ao início deste texto, é a perda da capacidade das pessoas de distinguir: aliando a ignorância à idéia de que "tudo se reduz a opinião", temos os ingredientes completos para descrer da busca da Verdade. Como fazer, dada esta situação, para que em 2001 se inicie um século de luzes?
Jorge Ricardo Ducati é professor do Instituto de Fisica da UFRGS.
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