Publicado: 15/10/2002
de José Nêumanne
Impressiona a desfaçatez com que a cúpula da hierarquia católica se imiscui, sem a menor cerimônia, no joguinho rasteiro da política, desconsiderando a natureza laica do Estado brasileiro, adotada desde os estertores do Segundo Império, após a polêmica questão religiosa. Durante a ditadura militar, a intromissão dos bispos católicos em querelas políticas era considerada politicamente correta, porque a autoridade moral do báculo serviu para deter, algumas vezes, o exercício intolerável do arbítrio pela autoridade militar, constituída de forma ilegítima, ao arrepio da vontade popular, que não era, então, consultada. Com a volta à democracia, os militantes dos partidos de esquerda que estavam na clandestinidade e mesmo os que contestavam a democracia burguesa com armas na mão passaram a militar em legendas legais: PT, PPS (ex-PCB), PCdoB, PSTU e mais uma miríade de siglas, quase tão numerosas quanto o são os grãos da areia do deserto de idéias que elas representam. Nessas condições, a interferência eclesiástica na política partidária deixou de ter a natureza revolucionária original, inspirada nos princípios da tal Teologia da Libertação, na qual os textos de Marx e Engels passaram a ser quase tão canônicos quanto os Evangelhos. E se misturou com a politicagem rasteira e vulgar, natural num país de instituições por construir, como o é o nosso. Quem achar que há exagero nessas palavras que puxe pela memória e recorde a condenação dura e invejosa da CNBB à aliança de seu presidenciável preferencial, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, com o PL da turma do "Evangelho de resultados" da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo (portanto, competidor) Edir Macedo. Há, ainda assim, uma enorme distância entre participar da futrica de comadres da prática eleiçoeira e se manifestar com desrespeitoso desprezo em relação à capacidade do povo brasileiro de decidir seu próprio destino, sem ser "enganado", como o fez - e sem dar nome aos bois - o presidente da CNBB. Por ter dito há muito tempo que "o povo brasileiro não sabe votar", um brasileiro a quem o País deve muito mais do que a esse bispo, o atleta do século, Pelé, tem sido obrigado a chutar desculpas esfarrapadas, que a estas alturas já são mais numerosas até do que os mil e tantos gols que marcou. De senhor bispo, porém, quem cobrará? Quem ousará enfrentar a excomunhão, a Santa Inquisição disfarçada em patrulha ideológica, para denunciar a natureza excludente, elitista e desrespeitosa do pronunciamento de Sua Reverendíssima? A quem caberá cobrar dele o mínimo de respeito que o "povo de Deus" merece de alguém cuja noção de respeito parece limitar-se ao anel episcopal ostentado no dedo em riste? Seria bom que surgisse na cena política brasileira uma voz com autoridade suficiente para execrar o farisaísmo do episcopado que, de tanto viver tentando atear fogo nos rabos de palha que fica a pespegar nos demônios que inventa, se esquece de olhar os que ele mesmo ostenta. Mas a coragem não tem sido uma virtude muito rotineira na política brasileira. E nem mesmo os políticos acusados de enganar o povo nos sermões moralistas desses pregadores de dogmas da fé revolucionária alçam suas cabeças para cobrar da hierarquia católica rigor com seus sacerdotes acusados de corromper a juventude, e protegidos pela sotaina e pelo espírito de corpo, no mínimo semelhante ao usado nos autos de fé a que os príncipes da Igreja submetem leigos. A suposição de que o povo é idiota e se deixa enganar com facilidade pelos políticos é gêmea univitelina da escandalosa proteção que os bispos católicos tentam dar a seus padres pedófilos com essa conversa mole de ampla defesa e "tratem de puni-los e nós os apoiaremos". Que depois não venham se queixar por continuarem perdendo fiéis para os súditos do dízimo.
José Nêumanne é jornalista, escritor e editorialista do "Jornal da Tarde".
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