Libertas Publicado: 06/03/2002
Atualizado: 06/03/2002
RELIGIÃO E POLÍTICA

de Sérgio da Costa Franco


Religião e política nunca deram mistura homogênea. As duas entidades, quando associadas, não favorecem o bom comportamento coletivo e o correto exercício do poder. Pois a religião alimenta-se do fervor, da apaixonada fé no sobrenatural, da crença em dogmas imutáveis e da obediência a hierarquias que não decorrem da soberania popular. Fervor irracional sempre foi combustível do fanatismo, e disso a História está recheada de exemplos trágicos, que vêm desde as guerras religiosas que dilaceraram a Europa, até os atualíssimos conflitos da Irlanda do Norte, os desvarios do Talibã afegão e dos aiatolás iranianos. E ao revés dos procedimentos irracionais do fervor místico, a política democrática deve alicerçar-se, o quanto possível, no exercício da razão, no respeito à divergência, no culto à tolerância entre as facções, e numa fraternidade geralmente inconciliável com as paixões religiosas.

Discute-se agora a possibilidade de o Partido dos Trabalhadores fazer aliança com a Igreja Universal do Reino de Deus, por via do braço político do Partido Liberal. A questão já agita e divide o alto comando daquela agremiação, havendo a explícita opção de Lula pela concretização da aliança, indispensável, segundo ele, para evitar uma quarta derrota eleitoral no pleito de outubro. E, de outra parte, há rejeição frontal de vastos setores do partido, que não pretendem atrelar-se a uma confissão religiosa de idoneidade controvertida, nem favorecer a expansão do “ópio do povo”, segundo o vocabulário dos comunistas clássicos.

Associações entre partidos e grupos religiosos não são novidade. Quem se lembra da antiga LEC (Liga Eleitoral Católica), há de recordar o quanto partidos e candidatos se queixavam de suas discriminações e do favorecimento que dispensava a estes e àqueles, em nome de conveniências, falsas ou verdadeiras, do catolicismo. As bênçãos do arcebispo dom João Becker beneficiavam claramente o partido do general Flores da Cunha, e disso se lamentavam amargamente os católicos ligados à Frente Única Rio-Grandense. Mais adiante, sob a suspeita de possuir inclinações socialistas, Alberto Pasqualini foi combatido à socapa pelo clero católico, que assegurou a vitória eleitoral de Ildo Meneghetti.

Já agora, são os partidos de tendência socializante, especialmente o PT, que gozam dos favores da chamada “Igreja progressista”. Há um sacerdote católico na bancada petista na Assembléia, e outros muitos se espalham pelo Interior, engajados nas campanhas do partido. Mas a verdade é que a influência política do catolicismo está hoje reduzida a proporções paroquiais, por ser manifesta a fratura interna decorrente do advento dos “progressistas”, que dividiram a hierarquia da Igreja. A “opção preferencial pelos pobres” deixou entre os católicos abastados uma inevitável sensação de abandono, quando não de hostilidade por parcelas do clero. Donde o enfraquecimento eleitoral da Igreja Católica, que também não consegue maior sucesso entre os desvalidos, mesmo depois de seus novos slogans e palavras de ordem.

Quem está alcançando cada vez maiores fatias de apoio entre a população pobre são os “evangélicos” de variadas tendências, cultores de uma comunicação direta e contundente com o misticismo e a desinformação. Basta uma sumária olhada pelos subúrbios para verificar-se a extraordinária proliferação das mais variadas igrejas, algumas eficientíssimas na caça ao dízimo, e por isso ostentando força e prosperidade em grandes casas de oração sempre lotadas de fiéis.

Do patrocínio de tais confissões têm nascido inesperadas vocações políticas, – pastores que se transformam em vereadores e deputados, amparados em fartas votações. Não consta que o fenômeno já tenha sido estudado em profundidade, mas a verdade é que a eficiência eleitoral dessas igrejas é algo surpreendente, embora elas não proponham nenhum objetivo político definido. Certo é que o tempo presente se caracteriza por misticismo desenfreado. Acredita-se em tudo que cheire a mistério e irracionalidade. Prosperam as ciências ocultas, a astrologia, o esoterismo. Ressuscitaram até o demônio e os exorcismos.

Em contraste, os partidos políticos estão em baixa e em crise. Perderam a sedução que alguma vez tiveram, confundiram suas bandeiras, não possuem líderes carismáticos nem ideológicos capazes de traçar caminhos e atrair seguidores. De um modo geral, todos perderam a virgindade, comprometidos pela demagogia, pelas promessas descumpridas, pelo clientelismo vulgar, pelo mau uso dos recursos públicos, pelo eventual recurso à contravenção e aos contraventores. O desencanto popular tornou-se maiúsculo, e se o voto não fosse obrigatório, abstenções maciças poderiam desprestigiar inteiramente o processo eleitoral.

Não é de admirar, portanto, que se inicie agora um intenso apelo às muletas do misticismo e da religião, por parte de todos os partidos. Assim como o PT pode ir ao aprisco da Igreja Universal, não faltará quem bata os tambores do batuque, e os marqueteiros do PFL talvez nos exibam Roseana Sarney manuseando baralhos de tarô...

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Sérgio da Costa Franco é procurador de justiça aposentado e historiador. Texto publicado originalmente no Jornal Zero Hora.

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://zh.clicrbs.com.br/editoria/opiniao/pagina3.htm
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