Richard Dawkins Publicado: 19/09/2001
Atualizado: 31/03/2002
SEM FÉ NO ABSURDO

de Richard Dawkins


Existe alguma coisa terrivelmente estranha na idéia de escolas religiosas sectárias. Se não tivéssemos nos acostumado a ela ao longo dos séculos, a acharíamos inequivocamente bizarra. A Igreja da Inglaterra orgulhosamente renega qualquer intenção de desviar seus alunos da fé de seus pais. Mas já não existe algo profundamente absurdo em se presumir que as crianças devem herdar crenças dos seus pais?

Pense assim. Muitas das matérias que estudamos são controversas. Na história da guerra civil, são os Roundheads contra os Cavaliers. Em cosmologia existe a escola de pensamento do "universo estático" contra a hoje dominante teoria do "big bang".

Em economia, os monetaristas buscam a vitória com os Keynesianos.1 Na história literária, há os "Baconianos" e os mestres da editora do Earl de Oxford, que competem em suas alegações sobre a autoria das peças normalmente atribuídas a Shakespeare.

No meu próprio campo, de biologia evolutiva, os neutralistas discutem com os selecionistas. Todos esperam que, em uma boa escola, as crianças sejam expostas a diferentes pontos de vista nas questões controversas, e em escolas muito boas elas podem até ser incentivadas a ter suas próprias opiniões baseadas nas evidências e na força dos argumentos.

Agora, imagine que as escolas sectárias fossem adaptadas para a promulgação de pontos de vistas rivais em cada um desses tópicos controversos. Imagine escolas Keynesianas jogando futebol contra as escolas monetaristas. Escolas Keynesianas matriculam preferencialmente os filhos de pais Keynesianos, ao mesmo tempo em que asseguram aos pais das minorias (crianças monetaristas ou Adam Smiths) que não procurariam converter seus filhos ao Keynesianismo.

É algo para os pais supervisionarem, o balanço dos assuntos que seus filhos devem aprender. Alguns podem pensar que o idioma é mais importante que a matemática, e escolher uma escola que é forte especialmente em idiomas. Ou vice-versa.

Num assunto como a língua inglesa, talvez os pais prefiram bases mais sólidas em princípios gramáticos do que em criatividade litérária, que pode ser preferida por outros pais. Se as escolas se dividem em linhas assim, ninguém pode protestar com base em princípios razoáveis.

Ter alguma variedade de escolha parece ser positivamente saudável. Mas as escolas religiosas estão divididas sobre o que as crianças devem aprender a crer como fatos sobre o universo, a vida e a existência.

Essa situação é um paralelo exato da minha analogia monetarista/Keynesiana, que foi criada para ser evidentemente absurda. Quem negará que a existência de escolas religiosas, analisada desapaixonadamente, também é igualmente absurda? Mas é pior do que isso.

Ela pode causar danos profundos, e até mesmo ser letalmente desagregadora. Por que as pessoas na Irlanda do Norte se matam? Está na moda dizer que as rixas sectárias não são motivadas por religião. As profundas divisões naquela área não são religiosas, são culturais, históricas, econômicas.

Bem, sem dúvida que isso é verdade, no sentido que os pistoleiros protestantes ou os católicos que bombardeiam pubs não estão debatendo diretamente a transubstanciação, a assunção ou a trindade. Existe uma mentalidade de "eles-contra-nós" marcada bem fundo em ambos os lados da psique da Irlanda do Norte, e todos concordamos que isso não está relacionado a desacordos teológicos.

Mas como cada indivíduo sabe de que lado está? Como ele decide se a vítima de sua violência é um "deles" ou um "de nós"?

Ele sabe devido a séculos de divisão histórica. E a base dessa divisão, geração após geração, são em grande parte as escolas sectárias.

Se as crianças católicas e protestantes parassem de ser segregadas na escola, os problemas na Irlanda do Norte em grande desapareceriam quase todos -- não da noite para o dia, mas precisamente ao longo de uma geração.

Mas eu retorno ao meu ponto principal. A idéia que as crianças das escolas primárias podem ser rotuladas como "crianças protestantes" ou "crianças católicas" é tão absurda quanto seria a de "crianças conservadoras", "crianças trabalhistas" ou "crianças liberais".

Ninguém em sã consciência defenderia a criação de escolas sectárias de educação segregada para os filhos de pais pró-Euro de um lado e os filhos de pais anti-Euro de outro. Então como pode-se defender em sã consciência a existência de escolas religiosas sectárias? E quem pode justificar o gasto do dinheiro dos contribuintes nelas?

***

Richard Dawkins é Professor Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência, em Oxford.
Publicado originalmente no Times Education Supplement (Londres) 23/02/2001, página 17

Notas

1 - De ou relacionado a John Maynard Keynes ou às suas teorias econômicas. Voltar

Backlash against church schools drive

Clare Dean
23/02/2001

The eminent scientist Richard Dawkins is leading a growing chorus of criticism of the Government's plan for more religious schools.

Serious doubts about the proposals among academics and even clergymen have been fuelled by the Church of England's huge financial crisis. Critics have also pointed to dwindling congregations and the difficulties church schools are having recruiting headteachers.

Writing in today's TES, Professor Dawkins, author of The Selfish Gene, who holds the chair for the public understanding of science at Oxford University, said no sane person would advocate setting up "sectarian" schools.

"Who can justify spending taxpayers' money on them?" he asks, warning that religious schools "can be deeply damaging and even lethally divisive".

His concerns were echoed by Anthony Grayling, reader in philosophy at Birkbeck College, London, who said: "Given the great harm that religions do ... in the way of conflict, war, persecution and oppression and preventing the growth of science and freedom of thought. I object profoundly to my taxes being used to this end."

Both Tony Blair and Education Secretary David Blunkett are keen supporters of church schools. Mr Blunkett has said that he wants to bottle the secret of their success.

Nearly a quarter of England's most successful secondaries are run by the Church, although inspectors say selection even purely on religious grounds, helps as it means they are likely to attract well-behaved children from stable backgrounds.

Last week's education Green Paper Building on Success confirmed ministers support for the Church. It came just two months after Anglicans announced plans for 100 new secondaries.

The paper paves the way for more schools provided by the churches and other major faith groups. It announced it would give them £42 million towards capital costs and give faith groups the opportunity to manage and run schools in difficulty.

Lord Dearing, who chaired the review by the Church of England of its schools, had been talking to ministers about their plans. "The Green paper shows that the Government is listening and responding to what we have said," he said.

The paper's proposals have been widely welcomed by church leaders but criticised by the National Secular Society and the British Humanist Association (see page 6).

Lord Dearing said: "It is because it is an increasingly secular society that people are saying they want these anchors in their lives.

"If the children aren't coming to us, we must go to them and that means not only through church schools but in community schools."

The move towards more religious schools comes at a time when three-quarters of Anglican dioceses are in the red, according to an investigation by the Church Times.

Earlier this year, a survey for the National Association of Head Teachers found that church schools experience the most problems recruiting heads.

More than a third of Anglican secondaries have to readvertise a head vacancy. More than half of the top posts in Catholic secondaries were readvertised.

Some clergymen have joined Professor Dawkins in attacking the plans. The Rev David Jennings, rector of Burbage and a member of the Leicester diocesan synod said: "I am not sure we need church schools in the society we live in at the moment.

"Churches run the risk in a multicultural and predominately secular society of establishing something that is not entirely real and, at worst, quite divisive."

Comentários

Renato Correa Arrieche - killer-suf@bol.com.br - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 18/02/2002

Posso não concordar com as idéias ateístas, mas acho que o estudo de religião nas escolas deveria ser mais voltado para a análise histórica e cultural, sob um ponto de vista pluralista e completamente neutro. Quanto ao sectarismo, vejo religiosos hipócritas que simplismente negam o que acreditam e preferem criar uma aparência de religiosidade e não conhecer a fundo as suas próprias doutrinas, as quais condenam suas práticas repugnantes de regras sem valor prático. É só olhar quantas igrejas Universal existem e comparar com a própria bíblia!
  • A publicação foi autorizada pelo editor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.world-of-dawkins.com/temp/church-schools.htm
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Revisado por: Leo Vines
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.