Publicado: 19/09/2001
de Richard Dawkins
Pense assim. Muitas das matérias que estudamos são controversas. Na história da guerra civil, são os Roundheads contra os Cavaliers. Em cosmologia existe a escola de pensamento do "universo estático" contra a hoje dominante teoria do "big bang". Em economia, os monetaristas buscam a vitória com os Keynesianos.1 Na história literária, há os "Baconianos" e os mestres da editora do Earl de Oxford, que competem em suas alegações sobre a autoria das peças normalmente atribuídas a Shakespeare. No meu próprio campo, de biologia evolutiva, os neutralistas discutem com os selecionistas. Todos esperam que, em uma boa escola, as crianças sejam expostas a diferentes pontos de vista nas questões controversas, e em escolas muito boas elas podem até ser incentivadas a ter suas próprias opiniões baseadas nas evidências e na força dos argumentos. Agora, imagine que as escolas sectárias fossem adaptadas para a promulgação de pontos de vistas rivais em cada um desses tópicos controversos. Imagine escolas Keynesianas jogando futebol contra as escolas monetaristas. Escolas Keynesianas matriculam preferencialmente os filhos de pais Keynesianos, ao mesmo tempo em que asseguram aos pais das minorias (crianças monetaristas ou Adam Smiths) que não procurariam converter seus filhos ao Keynesianismo. É algo para os pais supervisionarem, o balanço dos assuntos que seus filhos devem aprender. Alguns podem pensar que o idioma é mais importante que a matemática, e escolher uma escola que é forte especialmente em idiomas. Ou vice-versa. Num assunto como a língua inglesa, talvez os pais prefiram bases mais sólidas em princípios gramáticos do que em criatividade litérária, que pode ser preferida por outros pais. Se as escolas se dividem em linhas assim, ninguém pode protestar com base em princípios razoáveis. Ter alguma variedade de escolha parece ser positivamente saudável. Mas as escolas religiosas estão divididas sobre o que as crianças devem aprender a crer como fatos sobre o universo, a vida e a existência. Essa situação é um paralelo exato da minha analogia monetarista/Keynesiana, que foi criada para ser evidentemente absurda. Quem negará que a existência de escolas religiosas, analisada desapaixonadamente, também é igualmente absurda? Mas é pior do que isso. Ela pode causar danos profundos, e até mesmo ser letalmente desagregadora. Por que as pessoas na Irlanda do Norte se matam? Está na moda dizer que as rixas sectárias não são motivadas por religião. As profundas divisões naquela área não são religiosas, são culturais, históricas, econômicas. Bem, sem dúvida que isso é verdade, no sentido que os pistoleiros protestantes ou os católicos que bombardeiam pubs não estão debatendo diretamente a transubstanciação, a assunção ou a trindade. Existe uma mentalidade de "eles-contra-nós" marcada bem fundo em ambos os lados da psique da Irlanda do Norte, e todos concordamos que isso não está relacionado a desacordos teológicos. Mas como cada indivíduo sabe de que lado está? Como ele decide se a vítima de sua violência é um "deles" ou um "de nós"? Ele sabe devido a séculos de divisão histórica. E a base dessa divisão, geração após geração, são em grande parte as escolas sectárias. Se as crianças católicas e protestantes parassem de ser segregadas na escola, os problemas na Irlanda do Norte em grande desapareceriam quase todos -- não da noite para o dia, mas precisamente ao longo de uma geração. Mas eu retorno ao meu ponto principal. A idéia que as crianças das escolas primárias podem ser rotuladas como "crianças protestantes" ou "crianças católicas" é tão absurda quanto seria a de "crianças conservadoras", "crianças trabalhistas" ou "crianças liberais". Ninguém em sã consciência defenderia a criação de escolas sectárias de educação segregada para os filhos de pais pró-Euro de um lado e os filhos de pais anti-Euro de outro. Então como pode-se defender em sã consciência a existência de escolas religiosas sectárias? E quem pode justificar o gasto do dinheiro dos contribuintes nelas?
Richard Dawkins é Professor Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência, em Oxford. Notas 1 - De ou relacionado a John Maynard Keynes ou às suas teorias econômicas. Voltar
Comentários
Renato Correa Arrieche - killer-suf@bol.com.br - Posso não concordar com as idéias ateístas, mas acho que o estudo de religião nas escolas deveria ser mais voltado para a análise histórica e cultural, sob um ponto de vista pluralista e completamente neutro. Quanto ao sectarismo, vejo religiosos hipócritas que simplismente negam o que acreditam e preferem criar uma aparência de religiosidade e não conhecer a fundo as suas próprias doutrinas, as quais condenam suas práticas repugnantes de regras sem valor prático. É só olhar quantas igrejas Universal existem e comparar com a própria bíblia! |