Publicado: 11/05/2001
de Newton Brito
Na realidade, há duas semelhanças entre a visão religiosa que predomina e oprime as sociedades islâmicas e a visão religiosa dos setores conservadores na sociedade brasileira: a primeira é a de que a leitura religiosa desses grupos é de caráter fundamentalista; a segunda é a de que ambas tem como prerrogativa à mescla entre Estado e religião. E estes grupos têm conseguido burlar nossa tradição republicana da separação Igreja-Estado: no preâmbulo da Constituição de 1988 afirma-se que ela foi promulgada sob “inspiração de Deus”; em nossas notas está contida a frase “Deus seja louvado”; e agora a idéia do ensino religioso nas escolas públicas. Se estes senhores religiosos estivessem realmente preocupados com a perda de valores por parte da sociedade, e pela gritante violência, seria sábio estimular a obrigatoriedade da disciplina Ética. Essa sim seria uma boa solução. Disciplina esta que seria lecionada não por religiosos, com sabe-se lá qual formação, mas por profissionais da área de Ciências Humanas, aprovados por concurso, no caso os professores de Sociologia ou Filosofia. Estes sim teriam a competência necessária para ilustrar a mente de nossa juventude com valores de caráter humanista, tradição dos maiores pensadores de nossa humanidade. Mas, ao invés disso, parece que nossa juventude vai ter a obrigação de sofrer uma profunda lavagem cerebral por parte de, me desculpe à sinceridade, fanáticos religiosos. Imagine um professor de religião ligado a Igreja Universal do Reino de Deus ensinando um jovem e transmitindo para ele a carga de preconceitos e de intolerância de que estes religiosos carregam; imagine, numa sala de aula, um aluno espírita ser bombardeado com a idéia de que suas crenças seriam fruto de espíritos demoníacos e tantas outras sandices. Imagine um professor de religião católico afirmando que o uso de anticoncepcionais é pecaminoso, de que o Papa é infalível, de que o homossexualismo seria uma aberração e tantos outros argumentos deste nível. E, finalmente, não poderia deixar de mencionar o fato de que estes professores estariam sendo pagos com o dinheiro dos contribuintes através da cobrança dos impostos. Na realidade, a idéia destes senhores religiosos, que estão cada vez mais ricos devido à miséria humana, tanto material como espiritual, é a de obter a hegemonia ideológica sobre a sociedade brasileira, ocultando através de uma cortina de fumaça suas verdadeiras contradições. Afinal de contas é muito melhor que as pessoas fiquem bitoladas pela mentalidade religiosa que espera que as soluções caiam milagrosamente dos céus, do que se conscientizarem da necessidade de transformações sociais. Neste ponto gostaria de dar como exemplo dois fatos que aconteceram comigo quando era estudante: o primeiro foi o de ter recebido das mãos de um evangélico um panfleto onde afirmava textualmente que ser contra o governo era coisa do demônio; o segundo aconteceu quando atuava no movimento estudantil, quando numa assembléia de estudantes em um colégio estadual uma professora tentava desmobilizar o ato, argumentando de que a solução seria fazermos uma corrente de oração para sensibilizar o governo de nossas reivindicações. Neste sentido, voltando ao tema, estou plenamente convencido de que a obrigatoriedade do ensino religioso não tem como preocupação o bem estar moral de nossa juventude. O que realmente está por trás disso tudo é a necessidade de nossos talibãns tupiniquins chegarem ao poder e implementarem sua versão fundamentalista religiosa estatal. E o ensino religioso funcionaria como uma espécie de preparação mental, um sedativo para facilitar este projeto. Sei que para muitas pessoas que lerem este artigo, minhas palavras soarão como um exagero de ateu. Mas, convém lembrar que poucos foram aqueles que se importaram com o surgimento do nazismo na Alemanha; alguns encaravam Adolf Hitler como um indivíduo exótico cercado por rufiões violentos que viviam a se embebedar nas tabernas de Berlim... Até um belo dia quando, no poder, entraram em suas casas para recolher livros considerados subversivos e para aprisionar judeus. E, só para finalizar, não nos esqueçamos jamais de que Adolf Hitler era católico.
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