Humor Publicado: 04/05/2003
Atualizado: 25/11/2003
O LIVRO SAGRADO II

de Renato Carreira


Cap. I

No início era o caos. Deus movia-se através do vazio. Um dia, porém, Deus achou que aquilo estava vazio demais e resolveu fazer umas obras. Contratou um decorador muito afamado que concluiu o seu trabalho em pouco tempo. Deus contemplou e percebeu, do alto da Sua sabedoria, que não gostava. Desfez a obra do decorador e fulminou-o com um relâmpago. O decorador logo se desfez em bocados que se espalharam pelo caos, formando os corpos celestes. Das lantejoulas que se tinham desprendido do casaco do decorador, Deus fez as estrelas que pendurou sobre o caos para o iluminar. Deus chamou aos corpos celestes planetas, luas, asteróides e cometas, conforme o seu tamanho. Depois de um repouso, Deus separou as águas da terra e reuniu-as em oceanos em redor da terra seca. E Deus viu que isto era bom. A seguir, Deus fez com que a terra produzisse toda a sorte de plantas e animais. No entanto, nem todas as Suas criações foram inteiramente bem sucedidas como, por exemplo, o aipo voador com carapaça, o aipo voador sem carapaça, o esquilo insuflável, o peixe vibrador, a lesma gigante carnívora, o morcego de muletas, o autoclismo de bolso, o funcionário público inteligente e muitos outros. Para reinar sobre todas as criaturas da Terra, Deus criou o homem, mas não na primeira tentativa, nem na segunda. Primeiro, Deus criou o poste de alta tensão. A seguir, a gaita de beiços e, só à terceira tentativa, o homem. Para fazer companhia ao homem, Deus criou outro homem, mas como já tinha gasto muita matéria-prima na criação do poste de alta tensão e da gaita de beiços, o novo homem ficou com uma peça a menos e o revestimento piloso não chegou para o corpo todo. Deus logo encontrou uma solução. Revestiu o novo homem de uma série de protuberâncias curvilíneas e esperou que ninguém reparasse. A esta nova criatura, chamou deus pauliteiro de miranda mas, por achar que este nome não era adequado, rebatizou-a como mulher. Deus colocou a mulher junto do homem. Pouco tempo depois, Deus afastou a mulher do homem pois estes não paravam de testar o equipamento. Deus decidiu então que a mulher não poderia pensar do mesmo modo que o homem porque passariam o resto das suas vidas naquilo. Depois de umas alterações, Deus voltou a colocar a mulher junto do homem. A maneira de pensar do homem não foi alterada e este logo começou a perseguir a sua companheira por toda a Terra. Deus refletiu e viu que aquilo não estava bem. Retirou algumas folhas de uma árvore e cobriu os corpos do homem e da mulher com elas. Isto acalmou um pouco as coisas. Deus contemplou a sua criação e alegrou-se.

Cap. II

Depois de tudo isto, Deus deu nomes ao homem e à mulher que havia criado. Ao homem chamou João e à mulher, Elsa. No tempo que se seguiu, Deus não interferiu mais com a vida das suas criações, deixando que estas governassem, livremente, os seus destinos. João conheceu Elsa por duas vezes, tendo-lhe nascido dois filhos. Neste momento, Deus percebeu a existência de grandes falhas no vocabulário do homem e da mulher. Como o termo conheceu não Lhe pareceu suficientemente descritivo, Deus criou logo uma série de termos novos e ricos a que chamou palavrões e que seriam daí em diante usados com grande frequência. Assim, criou Deus a brejeirice. Segundo esta nova terminologia, João f*deu Elsa por duas vezes, tendo-lhe nascido dois filhos a que chamaram Joaquim e Manuel. João f*deu Elsa uma outra vez, tendo nascido um terceiro filho a que chamaram Oit. Após isto, Deus achou por bem que as restantes vezes que João f*desse com Elsa não ficassem registadas, pois tal ocuparia muito espaço e violaria a intimidade do casal. Os filhos de João e Elsa casariam, por sua vez, e teriam filhos das suas mulheres. Percebendo que, no mundo, só existiam João, Elsa e os seus três filhos e que a origem das esposas de Joaquim, Manuel e Oit não não eram suficientemente claras, Deus criou a incoerência para lidar com este problema. Joaquim era lavrador e Manuel era pastor e ambos deviam prestar tributo ao Criador de seus pais com a oferta do melhor das suas produções. Oit era cantor lírico e foi dispensado de prestar tal tributo. Deus olhava primeiro para as ofertas de Manuel e prestava menos atenção às de Joaquim pois Manuel, por ser pastor, ofertava a Deus a melhor carne dos seus rebanhos enquanto que Joaquim apenas trazia perante Deus os molhos de ervas daninhas que colhia nos campos. Mais tarde, Deus lembrar- se-ia de criar os cereais e as colheitas úteis para tornar mais fácil a vida aos lavradores. Joaquim não gostava desta situação e, um dia, convidou Manuel para ir ao monte dizendo-lhe Vem comigo ao monte para ver se este machado é tão afiado como parece. Manuel foi e assim nasceu a ingenuidade. Ao chegarem ao monte, Joaquim lançou-se sobre Manuel e matou-o. Deus estava a ver e disse-lhe Mataste o teu irmão, Joaquim? ao que Joaquim respondeu Não, Senhor. Então Deus questionou Joaquim Então o que é que o cadáver dele está a fazer a teu lado com o teu machado cravado em sua testa? ao que Joaquim replicou Aquilo não é o cadáver de meu irmão, Senhor, mas um arbusto que a ele se assemelha. Ao ouvir isto Deus achou por bem melhorar a capacidade do Homem para mentir pois, daquele modo, não iria muito longe. Então Deus resolveu castigar Joaquim expulsando-o a ele, à sua mulher e aos seus filhos, a seu irmão Oit, sua mulher e seus filhos e aos pais de ambos do Jardim do Éden em que todos viviam. Ao mesmo tempo, Deus aproveitou a oportunidade para castigar a serpente, para destruir as cidades de Sodoma e Gomorra, transformando a mulher de Lot numa estátua de sal, para destruir a torre de Babel e para tratar de todos os outros pormenores que tinham ficado pelo caminho.

Cap. III

Depois da expulsão, Joaquim viveu até aos 876 anos e Oit até aos 889. A razão de tão longa vida deveu -se à necessidade de povoar a Terra e, por isso, tanto Joaquim como Oit não fizeram outra coisa até à sua morte por exaustão. Joaquim gerou Pedro, Paulo e Lurdes. Pedro gerou John, Paul, George e Ringo. Paulo gerou Ediberto, Erivonaldo e Edmilson. Lurdes não gerou ninguém porque não estava para isso. Oit gerou Tibúrcio, Acúrcio e Camúrcio. Tibúrcio gerou Athos, Porthos, Aramis e o cardeal Richelieu. Acúrcio gerou Geri, Vitoria, Mel B, Mel C, Emma, Quim Barreiros, Paulo Gonzo, Olavo Bilaque e Beethoven. Camúrcio gerou Jonas Savimbi, Walt Disney, Eusébio, o Homem- Aranha, Estaline, Mussolini, Otelo Saraiva de Carvalho, Baltazar, Gaspar e Melchior, os Xutos e Pontapés, Aladino e o génio da lâmpada, David Hasselhoff, Pamela Anderson, Júlio Isidro, a cadela Lassie, o padre Frederico, Fritz o rei dos sado-masoquistas de Frankfurt e um pequeno ardina da Lisboa oitocentista chamado Tomé Peixotto. Camúrcio gerou mais filhos do que qualquer um dos seus irmãos e primos, o que muito agradou a Deus.

Cap. IV

Como Deus via que a descendência de João e Elsa se entregava à prática de pecados como o sexo com preservativo, o aborto e o futebol aos Domingos, resolveu inundar a Terra inteira e assim destruir pela força das águas todas as criaturas vivas. Para infortúnio de Deus, nem todas as criaturas pereceram com este dilúvio. Um velho tresloucado de nome Mané, que tinha o estranho hábito de morar numa enorme arca de madeira com a sua família mais próxima e com centenas de animais sobreviveu e com ele, todos os que se encontravam dentro da arca. Irritado com esta situação, Deus fez baixar o nível das águas e lançou a arca contra o monte Ararat, tendo esta ficado aí encalhada. Nem com isso as criaturas morreram. Deus ficou ainda mais irritado e lançou contra Mané um bando de aves carregando objetos aguçados nos seus bicos para que o castigassem. Infelizmente, as aves perderam-se e apenas uma pomba branca com um ramo de oliveira no bico chegou ao destino. Para cúmulo, a dita pomba foi recebida com grande alegria por Mané e pelos seus, que a viram como um sinal de graça divina. Então Deus desistiu e deixou que os tripulantes da arca sobrevivesssem.

Cap. V - O Êxodo

Naquele tempo, os descendentes de João e Elsa que tinham escolhido para si o nome de Erveus, habitavam nas terras do Egito. O rei do Egito era um homem mau e nada agradável para com os seus súbditos Erveus. Pouco depois da sua chegada ao Egito, já os Erveus eram perseguidos e atormentados pelas sevícias do rei. O rei tinha dois filhos. A um, o mais velho, chamou Ruben Eduardo Michel, pois o bom gosto só seria inventado no século seguinte. Ao mais novo, que tinha sido encontrado pela mulher do faraó a boiar no Nilo num cesto de vime e que era, na realidade um dos Erveus, chamou Mousés. Quando o velho rei morreu, o seu primogénito subiu ao trono e passou a governar o Egito como o seu pai havia feito. Mousés, ao ver como o seu povo era tratado, revoltou-se contra o irmão e contra a autoridade estabelecida, assim criou Deus o adolescente rebelde, e juntou- se aos seus irmãos Erveus, fundando o PSR (Partido Semita Revolucionário). Um dia, quando Mousés apascentava o gado de seu sogro, viu um arbusto que parecia arder sem se consumir. Era Deus que se revelava e comandava a Mousés que fosse junto do faraó pedir-lhe que libertasse o seu povo. Mousés assim fez. Infelizmente, o espírito de Deus abandonou o arbusto sem apagar o fogo e este consumiu na totalidade as vastas florestas do Egito, transformando-o num deserto. Assim, criou Deus o incêndio florestal. Mousés foi ter com o faraó e transmitiu-lhe a mensagem de Deus. Como prova da verdade das suas palavras, lançou a sua vara ao chão e esta trasformou-se numa serpente. Pouco impressionado, o faraó mandou chamar o mago da corte que fez desaparecer a serpente, levitou por cima do Grand Canyon, atravessou a grande muralha da China, fez desaparecer um avião e casou com uma top model alemã. Mousés retirou-se envergonhado. Como o faraó não tinha cumprido a vontade divina, Mousés voltou para o avisar de que o Senhor lançaria pragas sobre o Egito para que o faraó acedesse a libertar os Erveus. A primeira praga foi a transformação das águas do Nilo em sangue. Isto só veio melhorar a culinária egípcia pois a canja que faziam com a água do seu rio adquiriu um melhor paladar. Assim, foi criado o frango de cabidela. A segunda, terceira, quarta e quinta pragas consistiram, respetivamente, em grandes n úmeros de rãs, mosquitos, moscas venenosas e gafanhotos. Estas pragas não tiveram grande resultado porque as rãs devoraram os insetos e foram depois vendidas com grande lucro a uma tribo de cozinheiros franceses de passagem pelo Egito. Como sexta praga, Deus eliminou os furos de todos os cintos que existiam no Egito, esquecendo-se, no entanto, de um pequeno pormenor. No Egito ninguém usava calças e os cintos pouco faziam pelas túnicas. Como sétima praga, Deus lançou sobre O egito, dezenas de gigantescas pirâmides de pedra que esmagariam os incautos. Para gáudio do faraó, ninguém foi atingido pelas pirâmides e os egípcios cedo aprenderam a usar as pirâmides em seu proveito para atrair turistas. Por esta altura, Deus começava a ficar desesperado pois nada do que fazia parecia convencer o faraó a deixar partir os Erveus. Mas os egípcios, incluíndo o faraó, estavam mergulhados numa epidemia de riso histérico incontrolável ao verem o resultado das pragas que o Deus dos Erveus lançava sobre si e pouco podiam fazer para os impedir. Assim, os Erveus partiram para o deserto em busca da terra prometida liderados por Mous és. Uma noite, enquanto estavam acampados, Mousés subiu a um monte e recebeu de Deus duas tábuas contendo os dez mandamentos da sua lei que eram os seguintes:

  • Não perseguirás o carteiro como um cão raivoso.
  • Não encomendarás pizzas para casa de desconhecidos que as não pretendam.
  • Não embalsamarás o joelho do próximo.
  • Não cobiçarás a colher do próximo.
  • Não engordarás um frade capuchinho só pelo gozo de o ver rebentar como um balão enquanto canta a Marselhesa.
  • Não usarás preservativos com sabores como sobremesa em lares de terceira idade, convencendo os velhinhos incautos de que são gomas de fruta.
  • Não andarás nu em casa se no prédio da frente viver alguém com problemas cardíacos.
  • Não semearás salsichas na praia só para ver a reação dos banhistas.
  • Não usarás catecismos como base para copos em orgias romanas.
  • Não usarás os mesmos catecismos para qualquer outro propósito em orgias romanas.

Ao descer do monte, Mousés escorregou e deixou cair as tábuas que se estilhaçaram. Mousés voltou a subir e explicou a situação a Deus que providenciou outras mas não com o mesmo conteúdo pois a Sua memória não andava muito boa. Quando os egípcios pararam, finalmente, de rir, lançaram-se em perseguição dos Erveus. Para lhes barrar a passagem e pensando em futuras adatações cinematográficas, Deus criou uma gigantesca coluna de fogo, dividiu o mar vermelho em dois e lançou contra os egípcios uma esquadrilha de naves espaciais tripuladas por extraterrestres verdes e com muitos braços. Assim criou Deus os efeitos especiais.

Cap. VI

Assim, os Erveus se instalaram na terra que Deus lhes havia prometido e a batizaram com o nome de Israel. Os habitantes originais desta terra não viram com muito bons olhos as visitas indesejáveis e logo começaram a fazer-lhes guerra. Os Erveus responderam e com a grande força dos seus exércitos depressa derrotaram os seus inimigos. Findos os combates, Deus dotou os Erveus de um poder fantástico que lhes permitia convencer os outros povos do mundo do seu direito legítimo de habitar em terra alheia. Um dos primeiros soberanos dos Erveus chamou-se Davi e ascendeu ao trono por ter realizado um feito admirável enquanto jovem que salvou a terra de Israel de uma invasão estrangeira. Quando era apenas um pobre pastor, Davi enfrentou e derrotou o campeão do povo invasor a que chamavam Coliseus. Este chamava-se Tobias e era o melhor soldade de todo o exército Coliseu. Uma tarde, Davi aproximou-se de Tobias quando este praticava o costume a que os Coliseus chamavam sesta e deixou-lhe cair um enorme pedregulho na cabeça que imediatamente lhe ceifou a vida. Receoso de que a História não registasse condignamente o seu feito como algo glorioso, Davi deu-lhe algum retoques. Assim convenceu davi os Erveus de que tinha derrotado Tobias, que descrevia como um gigante grande como uma montanha, utilizando apenas a sua funda e uma pequena pedra. Os Erveus ficaram imensamente agradecidos a Davi e logo o aclamaram como seu rei. A Davi, sucedeu o grande rei Barrosão. Barrosão era um homem dotado de um grande sentido de justiça que se tornou lendário. Um dia, levaram até diante do rei duas mulheres que reclamavam serem mães da mesma criança. Após questionar as duas mulheres, o sábio rei ordenou que cortassem a criança em duas partes iguais que seriam entregues às duas mulheres. Uma das mulheres não se mostrou muito preocupada enquanto que a outra começou a implorar que não maltratassem a criança, preferindo entregá-la à custódia da primeira. Com isto, se descobriu quem era afinal a verdadeira mãe. Satisfeito, o rei mandou que castigassem a falsa mãe e que entregassem à verdadeira o seu filho. Infelizmente, os servos de Barrosão eram muito zelosos e já tinham executado a ordem anterior, cortando a criança de alto a baixo com uma grande espada. Apesar disso, não se pouparam a esforços para voltar a unir as duas metades. Barrosão era também famoso pela sua grande voracidade sexual. No início, Barrosão tomou como amante a rainha de Sabá que se encontrava de visita a Israel. Quando a rainha partiu, o rei foi buscar a paragens longínquas as suas futuras companheiras. Uma veio da Rússia, três da Hungria, uma da Polónia, cinco do Brasil, quatro da Tailândia e uma do nordeste trasmontano. Para além destas concubinas, o rei também tomou sob sua guarda dois transformistas holandeses e um sueco e um massagista cabo-verdiano a quem chamavam Nilton. Os apetites do rei acabaram por ser a sua desgraça quando foi encontrado a praticar sexo oral com uma estagiária na sala do trono. De entre as muitas obras que o rei Barrosão deixou, a de maior importância foi o grande templo de Jerusalém de que apenas foi construída uma das paredes pois o rei gastara a maior parte dos fundos com as suas concubinas. No entanto, usando de sua infinita sabedoria, Barrosão conseguiu convencer o mundo de que o templo havia sido destruído pelo exército de um país vizinho.

Cap. VII

Naquele tempo, os Coliseus tinham ocupado a terra de Israel e faziam muito mal aos olhos de Deus. O que mais irritava Deus nos Coliseus eram os seus penteados que revelavam um mau gosto escandaloso. Coisas como o risco ao meio, a franja e o corte meia-tigela não podiam ser toleradas, por isso, Deus resolveu, do alto da Sua grandeza, intervir. Vivia naquela terra, um casal que não tinha filhos. Certo dia, quando a mulher estava sozinha no campo, Deus revelou-Se-lhe e disse: Vais conceber uma criança. Quando nascer, não permitirás que nenhuma lâmina se aproxime do seu cabelo, pois tal é a Minha vontade. A partir de agora, não mais beberás vinho e terás cuidado com a alimentação. Virás ter comigo frequentemente para que Me possa assegurar de que tudo está a correr bem. Assim, criou Deus a medicina obstetrícia. Ao ouvir tais palavras, a mulher tentou explicar a Deus que não tinha filhos porque não os desejava e porque queria fazer carreira no mundo dos negócios, sugerindo-Lhe que fosse impregnar do Espírito Santo a vizinha do lado. Deus não atendeu ao seu pedido. A mulher foi para casa e relatou o sucedido ao marido que ficou muito contente, não só por a sua mulher estar grávida de alguém que não era ele, mas porque sempre desejara ter filhos. Deus ficou maravilhado com a credulidade do marido perante a gravidez repentina da mulher e pensou repetir a brincadeira mais tarde para ver se o resultado seria o mesmo. Quando a criança nasceu, puseram-lhe o nome de Damião, como era da vontade de Deus. Damião cresceu forte e saudável e, como nenhuma lâmina se tinha aproximado do seu cabelo, tinha as madeixas rebeldes mais longas, belas e brilhantes de Israel e tudo sem recurso a shampoos vitaminados. Um dia, passeava Damião pelas ruas da sua cidade, quando viu um leão feroz que tinha escapado de um jardim zoológico próximo e que aterrorizava a população. Damião aproximou-se do leão e, após um breve confronto, matou-o, fazendo uso do maxilar que tinha arrancado de um pobre burro que pastava por perto. A população ficou-lhe imensamente agradecida mas os Coliseus da Associação de Defesa dos Animais não acharam muita piada e logo se lançaram em perseguição de Damião para o castigarem. Como eram muitos, Damião viu-se obrigado a fugir. Após muito correr, e porque estava cansado, Damião refugiou-se numa porta que encontrou aberta. Era o salão de Camila, a cabeleireira coliseia mais famosa da cidade e uma das responsáveis pela moda capilar que tanto tinha desagradado aos olhos de Deus. Damião logo se apaixonou por ela, pois era muito bonita. Com os seus encantos, Camila convenceu Damião a sentar -se na sua cadeira para que descansasse um pouco. Damião assim fez e, pouco tempo depois, tinha adormecido. Ao ver aquela cabeleira esteticamente tão desagradável, Camila pegou numa tesoura e num secador e remodelou o penteado de Damião, fazendo-lhe uma exuberante melena que lhe caía sobre a testa e um risco ao lado. Este, ao acordar e ao contemplar o seu cabelo no espelho, perdeu todas as forças e toda a vontade de viver. Arrancou o secador da mão de Camila e apontou-o aos olhos, cegando-os para não mais ter de olhar para o que tinha restado da sua pujante cabeleira. Os perseguidores de Damião encontraram-no e entraram pelo salão de Camila adentro. Damião tentou escapar mas como estava cego, não conseguiu e depressa se viu rodeado pelos Coliseus que eram tantos que já se amontoavam contra as paredes do salão de Camila. Enquanto bombardeavam Damião com os direitos dos animais, os coliseus, por serem muitos num espaço tão reduzido, levaram as paredes a ruir, tirando a vida a Damião, a Camila e a si próprios. Para evitar que tal se repetisse no futuro, Deus entendeu por bem criar a engenharia civil e a lotação máxima.

O EVANGELHO

Cap. VII - A Anunciação

Muitos séculos depois da morte do rei Barrosão, a terra de Israel foi invadida por um povo que dava a si mesmo o nome de romanos. Esta invasão foi profundamente injusta pois os Erveus, habituados a subjugar os seus vizinhos, não estavam preparados para lutar contra um exército com armamento mais refinado do que paus, pedras e caras feias. Assim, os romanos ocuparam toda a terra dos Erveus e aí passaram muitos anos, fazendo muito mal a todo o povo. Foi por isto que os Erveus começaram a implorar a Deus por ajuda. Este, do alto de Sua magnificência, tentou não ligar às súplicas que vinham da Terra mas os Erveus foram tão persistentes que o Senhor resolveu enviar-lhes um subalterno. Só assim, poderia dedicar-se à sua última criação: um planeta inteiro povoado exclusivamente com mulheres de seios volumosos. Assim, o subalterno de Deus, um anjo, desceu até à cidade de Belão onde vivia uma jovem mulher de nome Faria que desposara um carpinteiro de nome Tomé mas que ainda não o conhecera. Por esta altura, já Deus havia criado o pudor literário que impedia referências explícitas ao ato sexual. O anjo apareceu a Faria e disse-lhe: Avé Faria, cheia de graça. Faria desviou-se dele pois receou que fosse mais um indigente tresloucado com asas e auréola radiante dos que enchiam as ruas chiques das cidades de Israel, pedindo esmola. Não, espera disse-lhe o anjo pois eu fui enviado pelo Senhor teu Deus. Pois, pois respondeu Faria que conhecia os perigos que podiam advir da contradição dos loucos. O anjo tornou a falar. Venho anunciar-te que irás conceber um filho.... Ao ouvir estas palavras, Faria assustou-se e apressou o passo. ... por intermédio do Espírito Santo, prosseguiu o anjo. Mete lá o teu Espírito Santo para dentro das calças, meu porcalhão com asas disse Faria, já a correr em direção de casa.

Cap. VIII - O Nascimento

Certa noite, Faria deu à luz uma criança, um rapaz a quem chamaram Jesé. A criança foi recebida com grande alegria quer pela mãe, quer por Tomé, o pai, que já havia ultrapassado a desconfiança inicial relativamente à inesperada gravidez da sua mulher que nunca o tinha conhecido nem a outro homem. Vendo isto, Deus resolveu criar a biologia e a medicina ginecológica para evitar futuras incoerências deste tipo. Pouco tempo depois de a criança nascer num modesto estábulo de Belão, recebeu a visita de três magos astrólogos, vindos do oriente que diziam ter sido guiados até ali por uma estrela. Faria e Tomé não ligaram grande importância à conversa da estrela pois já estavam mais que fartos de gente maluca. Dos presentes que os magos traziam, guardaram o ouro e livraram-se do incenso e da mirra porque ninguém gosta de receber presentes inúteis. Naquele tempo, reinava em Israel um lacaio dos romanos chamado Bigodes. O rei Bigodes era um homem amável e gentil, muito estimado pelo povo. Certo dia, trouxeram perante si um profeta que lhe revelou que naquela noite iria nascer o Messias que o substituiria como soberano dos Erveus. O rei ficou radiante com esta notícia e logo mandou que os seus guardas percorressem as ruas da cidade de Belão à procura de tão afortunada criança. Os soldados assim fizeram, levando alegria a todas as crianças que encontraram. Infelizmente, Tomé e Faria haviam decidido mudar-se para a cidade vizinha de Nazarus e, por isso, o jovem Messias não foi encontrado. Em verdade, foi apenas isto que aconteceu, apesar de a história ter sido um pouco exagerada.

Cap. IX

Jesé de Nazarus cresceu até à idade de 33 anos e decidiu dedicar-se à sua vocação messiânica, começando a vaguear pelos desertos que rodeavam a terra de Nazarus. Certo dia, quando se preparava para atravessar a ponte sobre o rio Jordão, Jesé deparou-se com um homem enorme que lhe disse: Desvia-te, pois esta ponte não é suficientemente grande para os dois. Jesé muito se admirou com a falta de delicadeza do homem que dizia chamar-se João Pequeno. Jesé tentou explicar-lhe que se se encolhessem, poderiam passar os dois ao mesmo tempo mas o homem insistia que alguém teria que recuar e que, de certeza, não seria ele. Com isto, o gigante pegou num cajado que trazia e tentou atingir a cabeça de Jesé com ele. Ao ver aquilo, Jesé recorreu aos seus poderes divinos e logo fez aparecer uma centena de pães. Como aquilo não servia para grande coisa, lançou- os a uma multidão de famintos que por ali passava. Em seguida, Jesé materializou uma centena de peixes que seguiram o mesmo caminho. A multidão delirava com a súbita abundância mas Jesé começava a entrar em pânico pois o seu opositor cada vez estava mais perto. Numa terceira tentativa, Jesé fez aparecer a seus pés uma centena de ânforas de água que quase o levavam ao desespero. Olhando para as ânforas, Jesé lembrou-se de transformar a água em ácido sulfúrico que poderia lançar à cara de João Pequeno, mas, mais uma vez, as coisas não correram bem e a água transformou-se em vinho. A multidão, ao ver o vinho, começou a gritar: Passa a pinga, ó Salvador!, por não saberem o nome do seu benfeitor inesperado e julgarem que este era apropriado. Por alguma razão, o nome pegou. Desesperado, Jesé fez uma última tentativa e fez aparecer um bando de leprosos. A princípio, ainda tentou esconder-se atrás dos leprosos mas estes fugiram na direção da multidão ao verem o banquete. Os convivas não apreciaram esta última proeza e começaram a reclamar, dizendo: D3 Sana, ó Sana. Sana era o nome do delegado de saúde pública da região que se encarregava de afastar os leprosos para lugar seguro. Perante a ineficácia dos milagres de Jesé, João Pequeno chegou até junto dele e empurrou-o para dentro do rio com o cajado. Jesé caíu à água mas conseguiu agarrar a túnica do seu opositor, arrastando-o consigo. Completamente encharcados, os dois começaram a rir e logo esqueceram as suas divergências. Deus via tudo do alto, pois já havia perdido o interesse nas mulheres de seios volumosos, que perdem a piada passado algum tempo, e achou muito divertido aquele folguedo aquático. Gostou tanto de ver Jesé e João Pequeno a chapinhar na água que decidiu que, daí em diante, todos os seus filhos deveriam levar com água na cabeça antes de poderem chegar até junto de Si. Aproveitando a embalada, mudou o nome de João Pequeno para João Batista para evitar confusões com personagens de outras histórias.

Cap. X

Depois do seu batismo, Jesé partiu em peregrinação pelas terras de Israel e chegou à região a que chamavam Galileia. Nesta terra, os homens viviam da pesca no grande lago que ali existia e a que chamavam Mar da Galileia. Por esta altura, Jesé decidiu que precisava de ajudantes para o auxiliarem na sua missão divina e começou a recrutar apóstolos ali mesmo. Aproximou-se da margem do lago e gritou para a tripulação de um barco de pesca ocupada com a sua faina: Vinde até mim, pois eu sou o Messias. Ao que os pescadores replicaram: Se és o Messias, então manda-nos ir ter contigo, andando sobre as águas. Então, vinde sobre as águas, pois eu sou o filho de Deus. Os pescadores, num repente de fé, lançaram-se à água e logo morreram afogados. Atrapalhado, Jesé disse o mesmo a um outro grupo de pescadores que tinha estado a ouvir a conversa: Vinde sobre as águas, pois eu sou o filho de Deus, acrescentando, porém: Mas vede primeiro se tendes pé. Os pescadores aproximaram o seu barco das margem e rodearam Jesé, reconhecendo-o como o único e verdadeiro Messias. Assim, recrutou Jesé os seus discípulos. Toni a quem chamou Calhau; Valdnei, o brasileiro; Jorge, António, Júlio, filho de Maracuc; Pepe; Júlio, o contabilista; Alceu, o incrédulo; Cajó, o pastor; Meireles; Mohammed, o marroquino; e Carlos Alberto que o trairia.

Cap. XI - O Sermão do Planalto

Naquele tempo, já a fama de Jesé de Nazarus como prestidigitador se tinha espalhado por toda a terra de Israel. Certo dia, Jesé subiu a um planalto e sentou-se. Os seus discípulos imitaram-no. Passado pouco tempo, já uma multidão rodeava o Messias, esperando, ansiosamente as suas palavras. Jesé começou então a ensiná-los, dizendo: Bem aventurados os pequenos, pois nunca poderão jogar basquetebol. Bem aventurados aqueles que cheiram cola, pois deles será o reino das doenças do nariz e esófago. Bem aventurados os copos de vinho branco, pois serão bebidos. Bem aventurados os sinais de trânsito, pois terão cores lindas. Bem aventurados os que gostam de ver luta livre praticada por alfaces, pois o desporto com hortaliça vai estar muito em alta, daqui a uns anos. Bem aventurados os bifinhos de cebolada, pois... Ao dizer isto, Jesé lembrou-se de que já estava na hora do jantar e convidou os apóstolos para comer num restaurante afamado da zona a que chamavam A Última Ceia, não se conhecendo a origem de tão original designação.

Cap. XII

Enquanto comiam, Jesé levantou-se tomou o pão em suas mãos e disse para os discípulos: Tomai e comei todos, este é... Os discípulos não o deixaram acabar e arrancaram-lhe o pão das mãos, pois estavam esfomeados e eram um bocado alarves. De seguida, Jesé tomou o cálice e disse: Tomai e bebei todos, este é o meu... Mais uma vez, os discípulos tiraram-lhe o cálice e beberam tudo com grande voracidade. Jesé ficou profundamente agastado com este comportamento dos apóstolos e não disse mais nada. Começava a pensar se teria acertado na escolha dos seus seguidores. Quando os criados já traziam para a mesa as febras com batatas fritas e as cervejas, pois o pão e o vinho eram só para abrir o apetite (também havia manteiga e queijo fresco, mas Jesé achou melhor não fazer o mesmo outra vez porque já sabia qual iria ser a reação), as portas do restaurante abriram- se e entrou um destacamento de legionários comandados por um centurião que perguntou: Qual de vós é Jesé de Nazarus?. Os apóstolos logo se puseram de pé e apontaram para o Mestre sem pensar duas vezes. Os romanos tinham sido ali mandados pelos Erveus que se tinham sentido ludibriados por um número efetuado por Jesé em que ressuscitara um homem de nome Ladislau que já se encontrava no túmulo. Os Erveus tinham-se irritado, gritando que o homem estava só a dormir e que aquilo não era um túmulo, mas uma oficina de sapateiro em que Ladislau trabalhava. Os legionários prenderam Jesé e arrastaram-no para fora naquela que foi a primeira manifestação de violência policial. Antes de saírem, Carlos Alberto aproximou-se de Jesé e disse-lhe que lhe tinham pago trinta dinheiros para o entregar às autoridades que serviriam para pagar as últimas prestações da quadriga. A seguir, deu-lhe um beijo porque era um homenzinho muito estranho.

Cap. XIII

Jesé foi então levado perante Pôncio Pilau, o governador da Judeia e também juíz daquela terra, pois a incompatibilidade de cargos ainda não havia sido inventada. Disse-lhe Pilau: És tu o rei dos Erveus?, pois era essa a acusação que os erveus tinham lançado sobre ele. Jesé disse que não, que aquilo era uma mentira inventada por aqueles que dele tinham inveja. Pilau era um homem sensato e viu que Jesé falava a verdade. Voltando-se para os Erveus, disse-lhes: Este homem não tem culpa alguma e, por isso, vou libertá-lo. Os Erveus responderam-lhe que não, que Jesé era um perigoso revolucionário anti-romano. Então que quereis que lhe faça?, perguntou Pilau. Crucifica-o, gritaram os Erveus. O quê?, tornou Pilau. Prega-o numa cruz até morrer por asfixia, explicaram os Erveus. A sério?, quis saber Pilau. Sim!, gritaram os Erveus. Mas isso não é um bocado sádico?, perguntou o romano. Não. E até podemos enriquecer com a venda de miniaturas de Jesé de Nazarus crucificado, disseram os Erveus. Pilau concordou e foi assim que os romanos passaram à história como um povo sanguinário. Pilau resolveu tentar mais uma vez e perguntou à multidão se não queriam que libertasse Jesé porque era costume, por altura da Páscoa, libertar um criminoso. Solta antes Aguarrás, gritaram os Erveus. Ora, Aguarrás era um perigoso assassino em série. Muito bem, disse finalmente Pilau. Façam como entenderem e mandou vir uma bacia de água para lavar as mãos, pois estavam sujas.

Cap. XIV - O Martírio

Jesé foi entregue aos legionários que o despiram e açoitaram, pondo-lhe uma coroa de espinhos na cabeça. Em seguida, foi conduzido a um monte perto da cidade a que chamavam: o lugar do tornozelo que em aramaico se diz: Shashkab-Maknuh-El-Bartrah-Kibab-Sadin-Valan-Kam, pois esta era um língua complicada. Aí, os romanos preparavam-se para pregar Jesé a uma cruz de madeira mas um deles, que tinha a mania da originalidade lembrou-se de que seria muito mais engraçado pregá-lo a uma pirâmide de madeira, em vez de a uma cruz. Assim fizeram, mas logo perceberam que aquilo não era muito estético. O mesmo soldado sugeriu, então, um malmequer de madeira. Despregaram Jesé da pirâmide e construíram um malmequer, voltando a pregá-lo, de seguida, ao malmequer. Aquilo continuava a não ter grande piada. Pregaram Jesé ainda a um cilindro, a uma estrela de cinco de pontas, a uma tábua de engomar e a uma réplica em tamanho real do Monte Vesúvio. Nada parecia funcionar. Finalmente, lá decidiram cumprir a sua ordem inicial e pregar Jesé a uma cruz, até porque já não tinham forças para construir estruturas de madeira mais complicadas. Quando o fizeram, já Jesé havia morrido há muito tempo, pois nem o filho de Deus aguenta tamanhos maus tratos. Os soldados ergueram a cruz e lamentaram a sua falta de originalidade pois uma cruz nem sequer daria um símbolo decente para uma seita religiosa.

Cap. XV

Depois de morto, Jesé foi retirado da cruz e colocado num túmulo de pedra, como era uso entre os Erveus. Três dias depois, voltaram a abrir o túmulo porque um dos apóstolos tinha deixado lá uma sandália. Quando retiraram a enorme pedra redonda que tapava a entrada, espreitaram lá para dentro com um candeia e viram que o corpo do seu mestre lá não estava. Surpresos, começaram a gritar e a erguer os braços na direção do céu, dizendo: Ele ressuscitou. Ele ressuscitou. Enquanto faziam isto, o apóstolo Alceu, a que justamente chamavam o incrédulo chamou-lhes a atenção para o fato de se terem enganado e de o túmulo de Jesé de Nazarus ser o que estava ali ao lado. Os apóstolos pararam de gritar, abriram o túmulo seguinte e viram que o corpo do Messias ainda lá se encontrava como seria de esperar. Da sandália, no entanto, não havia o mínimo sinal.

O APOCALIPSE

Cap. XVI

No fim dos tempos, Deus passará a sua mão sobre a Terra para castigar os pecadores e premiar os justos com a vida eterna a Seu lado. Os mortos sairão das suas sepulturas e voltarão a andar sobre a terra. Como a imaginação de Deus já não andará em muito bom estado por esta altura, ver-Se-á forçado a copiar um videoclip de Michael Jackson. Então, a Terra inteira será tragada por um mar de fogo e as bestas do Inferno correrão livres entre os homens ímpios, saciando-se com as suas entranhas. Assim, será o dia do Juízo, tal como Deus o revelou em sonhos a este Seu humilde seguidor. Arrependei-vos enquanto é tempo e lembrai-vos de que o Senhor pune aqueles que conspurcam a Palavra Divina com a morte mais cruel e dolorosa. Ámen. A paz e a glória de Deus seja convo... AAAAAARRRRRGGGGGHHHHHHHH!!!!!!!

  • Enviado por: André Coimbra
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.