Publicado: 02/01/2001|
Oi, gente. Meu nome é João S., e eu penso demais. Começou de um jeito bem inocente. Eu comecei a pensar socialmente em festas de vez em quando, só pra me soltar. Mas uma coisa levava a outra, e logo eu pensava não só socialmente. Aí eu comecei a pensar sozinho — pra relaxar, eu me dizia. Mas eu sabia que não era verdade. Pensar era cada vez mais importante para mim. Depois de um tempo, não consegui me controlar mais e passei a pensar o tempo inteiro. Comecei a pensar até no trabalho. Eu sei que não se pode misturar pensamento e trabalho, mas eu não conseguia evitar. Alguns colegas começaram a notar meu olhar de concentração profunda, e que eu sempre estava com um livro de filosofia. Eu sumia no almoço e ia para um parque para ler alguns capítulos de Ayn Rand1, ou só sentava ali olhando para o infinito, perdido nos meus pensamentos. Logo todo mundo percebeu que eu estava pensando fora de controle, e que estava pensando a maior parte do dia, todos os dias. Eu comecei evitar amigos no almoço para ler Thoreau e Kafka. Eu voltava para o escritório meio tonto e confuso, perguntando "afinal de contas, o que estamos fazendo aqui?" Em casa as coisas também não iam às mil maravilhas. Uma noite, depois de pensar quase o dia inteiro no trabalho, eu desliguei a tevê e perguntei a minha esposa o significado da vida. Ela dormiu aquela noite na casa da mãe. Eu logo ganhei a reputação de estar pensando demais. Um dia, quando sabia que não podia mais esconder isso, meu chefe me chamou até o seu escritório. Ele disse: — João, eu gosto de você, e me dói dizer isso, mas o seu costume de pensar se tornou um problema. Se você não parar de pensar no trabalho, vou ter que despedi-lo. Não tem como tocar um negócio se todos os funcionários começarem a pensar. Mais cedo ou mais tarde, alguém vai se machucar. Procure um profissional. Isso me deu o que pensar. Naquele dia, cheguei mais cedo em casa depois da conversa com o chefe. Querida, falei, eu tenho pensado... — Eu sei que você tem pensado, disse ela, e eu quero me separar! — Mas querida, não é tão sério. — É sério sim, disse ela, com o lábio inferior tremendo. Você pensa tanto quanto aqueles professores universitários, e professores universitários não ganham dinheiro! Se você não parar de pensar, não vamos conseguir mais pagar as contas! Esse é um falso silogismo, afirmei impacientemente, e ela começou a chorar. Tinha sido a gota d'água para ela, e para mim também. Vou para a biblioteca, grunhi, e saí violentamente porta afora. Fui na direção da biblioteca, a fim de um pouco de Nietzsche e escutando a Rádio Cultura no caminho. Entrei voando no estacionamento e corri até aquelas grandes portas de vidro... mas elas não abriam. A biblioteca estava fechada. Até hoje, acredito que uma Força Superior olhava por mim naquela noite — ou pelo menos foi isso que pensei na época. Enquanto escorregava para o chão, agarrado na porta, soluçando por um pouco de Platão ou Sócrates, um cartaz me chamou a atenção. Dizia: Amigo, o pensamento está cabando com a sua vida? Você provavelmente conhece essa frase. É o cartaz padrão dos Pensadores Anônimos. É por isso que estou aqui hoje: eu pensava demais e estou me recuperando. Eu nunca perco um encontro dos PA. Em cada encontro nós assistimos um vídeo não-educacional; semana passada foi "Porky contra-ataca". Depois falamos de nossas experiências sobre como evitar o pensamento desde o último encontro. Eu consegui meu emprego de volta, e as coisas estão bem mais fáceis agora. Minha esposa e eu nunca falamos sobre aquela época horrível quando eu pensava o tempo inteiro. A vida ficou... mais fácil, de certa maneira, agora que eu parei de pensar. Notas 1 - Ayn Rand (1905-1982), pensadora americana nascida na Rússia, que defendia o racionalismo, o individualismo, a liberdade e o capitalismo, mais informações em http://www.aynrand.com.br. Não é a esposa de Carl Sagan, como erroneamente foi dito antes nesta mesma nota. Voltar Comentários elaine - elmesquita@zipmail.com.br, enviou em 30/07/2001 não acredito que fiquei até a ultima linha lenda este texto.
Illuminer (Aline R. W.) - lualine@yahoo.com - Penso, logo existo.
Francisco Mendes - franciscofmendes@hotmail.com - Gostei muito do texto po que ele mostra que as pessoas à nossa volta deveriam pensar mais no que acreditam.
Reinaldo N. Luciano - reinaldoluciano@hotmail.com - Se não houvesse um pensador antes, talvez este idiota do João não tivesse tantos problemas... e ao invés de pensar talvez ficasse desenhando nas cavernas... ou ainda melhor... pendurado na árvore e retirando os piolhos de sua mulher...
Leandro Duque - lduque@infolink.com.br - O texto é fantástico! Pensar se torna difícil quando estamos envoltos por pessoas que não o fazem.
Yvo Marcelo Chiaradia - ymcm@uol.com.br - Não gostei do texto acima! |