Luis Fernando Verissimo Publicado: 01/11/2001
Atualizado: 31/03/2002
O PADRE E O MOTORISTA

de Luis Fernando Verissimo


Tem aquela anedota do padre e do motorista de ônibus bêbado que chegam no céu ao mesmo tempo. O porteiro recebe o motorista bêbado efusivamente e manda-o entrar no céu sem qualquer formalidade, mas detém o padre, que fica indignado. Mas como? Ele, um religioso, precisa preencher ficha e marcar hora para entrevista enquanto o outro, um pecador, entra direto? Uma questão de reconhecimento por serviços prestados, explica o porteiro. Afinal, durante os sermões do padre todos na igreja dormiam, enquanto que quando o motorista bêbado dirigia todos no ônibus rezavam.

Este governo ainda vai agradecer mais aos que lhe dão sustos do que aos que o bajulam. Como disse, ou tentou dizer, o Suplicy na subcomissão de pseudo-inquérito sobre o Eduardo Jorge, o Efe Agá teria feito melhor procurando o PT para aconselhá-lo do que um juiz notoriamente ligado à repressão militar, mesmo que na época não soubesse que além disso era corrupto. O acontecido na porta do céu com o padre e o motorista também mostra que a virtude está no fato, não na intenção. Todo o mundo, até a Fiesp, fala no "social" e diz que a prioridade agora tem de ser o desenvolvimento com justiça, em mais um surto de boas intenções retóricas no País, certamente a maior democracia social da boca para fora do mundo. Entre o dito e o feito, fica o Brasil no mesmo lugar. Quem pode fazer a radical reordenação de prioridades de que o País precisa são os que acreditam na própria retórica, e não parece ser muito difícil identificá-los. Se bem que a única maneira de saber ao certo em que alguém acredita é vê-lo quando o ônibus está fazendo a curva sobre as rodas de um lado só e o São Cristóvão já largou a criança e se mandou.

Comentários

Marcelo - marcelo20sjc@hotmail.com - São Paulo São Paulo, enviou em 05/02/2002

Muito boa mesmo! Morri de rir!!
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.estado.com.br/editorias/2000/08/09/pol727.html
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