Humor Publicado: 05/01/2001
Atualizado: 01/01/2002
Leis Sobre Comidas e Bebidas; Princípios Para o Lar; Lamentações do Pai

de Ian Frazier


Das bestas do cmpo, e dos peixes do mar, e de todas as comidas aceitáveis aos meus olhos podereis comer, mas não na sala de estar. Dos animais com cascos, cozidos ou moídos em hambúrgueres, podereis comer, mas não na sala. Dos animais de cascos fendidos, sozinhos ou com queijo, podereis comer, mas não na sala. Dos grãos cereais, e do milho e do trigo e da aveia, e de todos os cereais de cor clara e proveniência obscura podereis comer, mas não na sala. Das sobremesas pacientemente congeladas e de todos os petiscos congelados podereis comer, mas de jeito nenhum na sala de estar. Dos sucos e outras bebidas, sim, mesmo aquelas em copos que não derramam, podereis beber, mas não na sala, nem podereis levá-los para lá. Pois quando alcançares o lugar em que começa o carpete, de nenhuma comida ou bebida lá podereis comer ou beber.

Mas se estiverdes doente, e deitado e assistindo algum programa, então podereis comer na sala.

Leis Para a Mesa

E se estiveres sentado em teu cadeirão, ou em uma cadeira como a que os adultos usam, mantém as pernas e pés para baixo, como deve ser. Nem levanteis os joelhos nem coloqueis os pés sobre a mesa, pois isso é uma abominação. Sim, mesmo quando tiveres um curativo interessante para mostrar, teus pés sobre a mesa serão uma abominação, e passível de bronca. Toma teu leite como ele lhe vier, e não usa nenhum talher, nem garfo, nem faca, nem colher, pois não é para isso que servem; se molhares teus dedos no leite e os lamberes, serás posto de castigo. Quando tiveres bebido, deixes a caneca vazia sobre a mesa, e não a mordas pela borda e levantes para fazer sons que se parecem com um pato, pois serás posto de castigo.

Quando mastigares tua comida, mantém a boca fechada até teres engolido, e não a abris para mostrar ao teu irmão ou irmã o que está dentro; eu lhe digo, não o fazeis, mesmo se teu irmão ou irmã fizer o mesmo a ti. Só comei sua comida; não comei aquilo que não for comida; nem mordei a mesa com teus dentes, nem usai a toalha para limpar teus lábios. Eu digo novamente, não a tocai, mas a deixai como está. E embora sua cenoura de fato se pareça com uma caneta marcador laranja, não desenhai com ele à mesa, nem de mentirinha, pois não fzemos isso, eis o porquê. E embora os pedaços de brócoli sejam muito parecidos com arvorezinhas, não os ponha de pé para fazer uma floresta, pois não fazemos isso, eis o porquê. Senta como mandei, e não te inclina para um lado ou para outro, nem escorrega até estares quase no chão. Presta atenção; pois se sentares assim, teu cabelo irá no molho. E agora olhai, assim como eu disse, veio o tempo de ir-se.

Leis Sobre a Sobremesa

Pois nós julgamos se o prato está limpo ou se ainda está sujo, dizendo primeiro, se o prato estiver limpo, então terás sobremesa. Mas para o prato não limpo, as leis são estas: se tiveres comido a maior parte da carne, e duas garfadas de ervilhas com cada garfada consistindo de não menos de três ervilhas cada uma, ou no total seis ervilhas, comidas à minha vista, e se tiveres comido também da batata o suficiente para encher duas garfadas, ambas comidas à minha vista, então terás sobremesa. Mas se comeres um número menor de ervilhas, e comeres a batata, ainda asim não terás a sobremesa; e se comeres as ervilhas, mas deixares as batatas por comer, não terás sobremesa — não, nem sequer uma pequena porção. E se tentares lograr-me mexendo as batatas ou ervilhas de lá pra cá com o garfo, para que pareça que tenhas comido o que não comestes, isso será uma iniquidade. E eu saberei, e não terás sobremesa.

Dos Gritos

Não grita, pois é como se estivesse gritando o tempo inteiro. Se lhe derem um prato de comida com dois alimentos que não desejas que toquem um ao outro, tua voz se ergue até o teto, enquanto apontas para o desagravo com o dedo de tua mão direita; mas eu vos digo, não gritai, apenas reclamai gentilmente com quem lhe serve, para que ele posa corrigir o erro. Da mesma maneira quando receberes uma porção de peixe da qual cada pedacinho de molho de ervas não tenha sido meticulosamente removido, e o molho de ervas te for detestável, e repleto de vileza, abstém-te de gritar. Embora a vileza vos domine, e vos faça cair à morte, não fazei aquele som lá de dentro de vossa garganta, nem cobris vosso rosto, nem tampai o nariz com os dedos. Pois eu fiz o peixe como ele deveria ser; olhai, como-o eu mesmo, e no entanto não morro.

Do Rosto e Das Mãos

Traz teu rosto à luz, e levanta os olhos às montanhas, para que eu possa lavar-te mais facilmente. Pois estás manchado; até atrás de tua cabeça, ali há arroz. E no bolso da camisa de tua vestimenta, e no laço do teu sapato, arroz e outros fragmentos estão espalhados de maneira linda de se ver. Mas fica quieto; fica quieto, vos digo. Dai cada dedo de cada vez para que eu o examine, e também cada polegar. Pois vende quanta iniquidade há neles. O que faço é como deve ser; e não te irás daqui antes de eu terminar.

Várias Outras Leis, Estatutos e Ordenanças

Não moredei, ou sereis mandado pensar sobre isto. Nem bebei a água do vosso próprio banho, nem água de banho de nenhum tipo; nem esfregai os pés no pão, ainda que ele esteja embrulhado; nem vos esfregai em carros, ou contra qualquier edifício; nem comas areia.

Deixai o gato em paz, pois o que o gato vos fez, para que o aflijas com fita adesiva? E não fazei aquele som com o nariz enquanto eu leio, nem ficai entre a luz e o livro. Pois assim me levarás à loucura. Nem esquecei o que eu disse sobre a fita adesiva.

Reclamações e Lamentações

Ó meus filhos, sois desobedientes. Pois quando vos digo o que fazer, discutis e discordais com fervor mesmo o menor dos detalhes; e quando eu não cedo, gritais, e bateis e chutais. Sim, e às vezes até cuspis, e gritais "bobo" e outras blasfêmias, e bateis e chutais as paredes e o rodapé quando sois mandado para o canto. E embora a lei diga que ninguém ficará no canto por mais minutos que a sua idade, eu vos deixaria lá o dia todo, tanto é o poder da minha ira. Mas após seres mandado ao canto, perguntas logo a seguir: posso sair? E eu respondo: não, não podes sair. E novamente perguntas, e novamente eu respondo da mesma maneira. Mas quando perguntares de novo pela terceira vez, então poderás sair.

Ó meus filhos, escutai, pois as contas me matam. Eu pago e pago e pago, até mesmo pela duodécima vez no ano, mas novamente elas ficam maiores que antes. Pois a nossa saúde, para que estejamos cobertos, eu dou seiscentos e vinte talentos doze vezes ao ano; mas mesmo isto não cobre os mil e quinhentos dedutíveis por membro da família em cada ano fiscal. E ainda assim para consultas comuns não estamos cobertos, nem para muitos medicamentos, nem para os dentes em nossas bocas. Não adivinhai a fúria que isso me traz à mente, pois não podereis saber.

Pois eu virei a ti no primeiro dia de cada mês e ao décimo-quinto de cada mês com as contas e muito choro e lamentação. E quando o mês dos impostos chegar, eu exporei seu erro e sua injustiça, e lamentarei com vinho e cinzeiros, e mandarei meus recibos. E lembrarás que eu sou o que é: antes, depois e até teres vinte e um anos de idade. Escutai-me então, e evitai-me em minha ira, ó meus filhos.

Comentários

Sofia Antunes - filosofia.religioes@globo.com, enviou em 24/12/2001

... Estou rindo até agora!
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.theatlantic.com/issues/97feb/frazier/frazier.htm
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.