Luis Fernando Verissimo Publicado: 01/11/2001
Atualizado: 01/01/2002
ERROS DA EVOLUÇÃO

de Luis Fernando Verissimo


Do desenvolvimento do dedão opositor - que possibilitou ao macaco o seu primeiro gesto civilizado, que foi segurar firmemente um porrete para bater em outro macaco - até o nascimento da Patrícia Pillar, para pegar um exemplo bem acabado da espécie humana, passaram-se alguns milhões de anos. E mesmo com todo este tempo para trabalhar, a evolução se enganou.

Algumas coisas até hoje biologicamente inexplicáveis, como o apêndice, as amídalas e o hímen, talvez ainda nos revelem uma função insuspeitada. Há quem diga que Deus criou o apêndice e as amídalas para dar de comer aos cirurgiões. Mas coisas como os mamilos masculinos e as unhas do pé não têm explicação, existem por puro esquecimento do responsável. Os mamilos do homem são remanescentes de uma época em que, supostamente, todos os seres humanos eram hermafroditas e os bailes eram bem mais divertidos. Hoje, não têm mais razão de ser. As unhas do pé serviam bem ao macaco, mas nada justifica que nos dias de hoje elas permaneçam, cresçam e, principalmente, sejam pintadas de "rubi flamejante".

Outro exemplo de um mau trabalho da evolução é a coluna vertebral. A evolução determinou que o homem andasse ereto sobre os dois pés, mas não adaptou sua coluna para as novas funções. O resultado é que somos bípedes com uma estrutura de quadrúpedes, e como dói. Nossa coluna nos manda andar de quatro enquanto o resto do corpo - sem falar nas regras de boa educação e no código de postura do município - nos diz para andar de pé. E não há sinal de que a coluna vertebral esteja se adaptando com o tempo à nossa condição vertical. Pelo contrário, é cada vez maior o número de pessoas que sofrem da coluna. Aumenta, em todo o mundo, a pressão da coluna para que todos voltem a andar sobre quatro sólidas patas, senão ela não se responsabiliza. Mas a evolução nem quer saber. Os antievolucionistas usam este argumento para defender o papel de Deus nos destinos da humanidade. A evolução nos trouxe a este impasse, mas Deus interveio e, para nos salvar, criou o massagista japonês.

- Você tem que procurar o Tsetsuo. A primeira coisa que ele faz quando se entra no consultório é jogar a gente contra uma parede. Aí dá um grito, "karanama!", que quer dizer "com licença", pula nas costas da pessoa e passa dez minutos massageando sua coluna com os pés. Só então pergunta se a pessoa está lá para uma consulta.

- Não é um pouco violento?

- A tese do Tsetsuo é que coluna vertebral não se conserta. Tem que desmanchar a antiga e fazer outra.

Comentários

Johny Tedezqui Rodrigues - Indiannaj@aol.com - Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul, enviou em 18/12/2001

Sempre acreditei que ainda éramos incompletos (para não dizer imperfeitos) biológicamente. Quando soube, através do Banco de Olhos, Hospital Sírio-Libanês - Campanha de Combate Contra a Cegueira pela Diabetes, SP, que o olho humano, este vitalíssimo órgão da sobrevivência, não estava "preparado" para viver além dos 40 (quarenta) anos de idade, não me surpreendi. Com a melhoria da qualidade de vida, conheci diversos anciãos e anciãs com 100 ou mais anos e, quase todos, completamente cegos! Fiquei entristecido porque, ao imaginar-me nesta fantástica fase da vida, a cegueira me acompanharia, inevitavelmente. Há excessões, é claro, deste evento nos idosos. Espero que a pesquisa genética e a engenharia eletro-eletrônica resolvam este impasse da longevidade rapidamente, pois, senão, seremos longevos e, naturalmente, incapazes de vislumbrarmos o futuro.
  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2001/09/15/pol010.html
  • Traduções para inglês, espanhol e sugestões para correções na gramática são bem-vindas.